Felipe Fernandes — Mamonas em cinebiografia lamentável

 

(Foto: Imagem Filmes)

 

 

Felipe Fernandes, filmmaker publicitário e crítico de cinema

Cinebiografia lamentável

Por Felipe Fernandes

 

Uma característica de toda cinebiografia é a necessidade de estabelecer um recorte da vida do protagonista, priorizando assim a parte que o filme vai focar. A história dos Mamonas foi tão rápida e avassaladora, que durou apenas 8 meses. Logo, os realizadores têm um período delimitado, curto, mas nem por isso com pouco material, já que foram meses muito intensos para a banda.

O longa abre com imagens de arquivo e uma narração de Dinho, buscando ressaltar para as novas gerações que a época dos Mamonas era um período muito diferente. Além de desnecessária e totalmente deslocada dentro da narrativa, essa introdução traz um tom apelativo, forçando uma nostalgia, que felizmente não volta a se repetir desta forma durante o filme.

Criado por realizadores ligados às telenovelas, o projeto foi pensado originalmente como uma série, posteriormente se tornando um longa-metragem. É notório o baixo orçamento da produção, principalmente nas cenas que demandam público ou uma maior produção, nunca conseguindo reproduzir a mudança de público e a real dimensão do sucesso da banda, fica tudo por conta de diálogos.

O roteiro é muito problemático. Além de diálogos muito ruins, o filme não consegue desenvolver nem mesmo todos os membros da banda. Trabalhando uma dinâmica de rixa entre Dinho e o baterista Sérgio, com o baixista Samuel (irmão de Sérgio) atuando como apaziguador, o longa desperdiça muito tempo com os integrantes em relacionamentos sem nenhuma função narrativa. O filme ainda trata as mulheres ora como objetos, ora como interesseiras.

Chama a atenção um elenco formado por atores em sua maioria estreantes, que apesar do esforço, não conseguem segurar o longa. Fica a sensação que o casting buscou atores parecidos fisicamente com os integrantes da banda, nesse sentido o filme é até bem sucedido. Mas com um roteiro fraco e uma direção ordinária, fica difícil para qualquer ator se sobressair — sem experiência então, se torna impossível.

Dentre todos os elementos do longa, certamente a montagem é a mais caótica. O filme não consegue criar um senso de construção narrativa, parece uma série de cenas jogadas uma após a outra, seguindo a ordem do roteiro. Não existe respiro, ritmo, uma transição entre as cenas, nada. Existem erros básicos de montagem e continuidade, personagens entram e saem da narrativa sem justificativa, a questão temporal nunca é sentida, é tudo muito mal acabado.

Até mesmo as cenas da banda tocando, que ainda conseguem resgatar um pouco da energia dos Mamonas, com as versões regravadas para o filme dando um tom de banda cover e quando os atores vão dublar a si mesmos, é nítido que em vários momentos a montagem dos músicos tocando simplesmente não bate com o que está sendo tocado. Um tipo de desleixo imperdoável.

“Mamonas Assassinas: O Filme” é uma cinebiografia que consegue aguçar alguma nostalgia, mais fruto de nossas lembranças da banda do que propriamente por mérito do longa. Como cinema, o filme é um desastre, uma das piores cinebiografias que eu já vi, não conseguindo nem de longe fazer jus ao legado da banda. Como fã, devo dizer que foi uma experiência decepcionante, triste, características antes impensáveis quando falamos do grupo que fez o Brasil sorrir com sua alegria, criatividade e irreverência que o longa não tem.

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Este post tem um comentário

  1. Manoel Ribeiro

    e o governo ainda quer obrigar os cinemas a exibir filme nacional… se não fizerem filmes bons, de que adianta?

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