Felipe Fernandes — Religião e poder em “A primeira profecia”

 

 

Felipe Fernandes, cineasta publicitário e crítico de cinema

Religião e poder

Por Felipe Fernandes

 

O terror é um gênero popular, que conta com alguns clássicos absolutos do cinema. São obras que abordam a natureza humana e seus medos de forma profunda e reveladora. O gênero também sempre sofreu com os excessos. Seja na quantidade de produções de qualidade duvidosa ou, principalmente, com intermináveis continuações, que se tornaram uma marca do gênero.

Atualmente, Hollywood tem buscado revisitar seus clássicos, seja através de continuações diretas, que simplesmente desconsideram continuações antigas (esquecíveis), remakes ou através de prelúdios. Que prometem explicar o que muitas vezes nem precisa ser explicado.

A nova aposta está na franquia “A profecia”, que surgiu com o clássico filme de 1976, dirigido por Richard Donner, antes de ganhar continuações e um remake completamente esquecíveis. Com “A primeira profecia”, acompanhamos a história por trás do nascimento de Damian, personagem central da franquia.

A trama se passa na década de 70 e acompanha uma jovem freira que encontrou na fé a solução para as diversas visões que sempre teve ao longo da vida. Sendo convocada para servir em um convento em Roma, ela começa a trabalhar com as crianças e se mostra interessada pela jovem e misteriosa Carlita. Ao tentar conhecer a história da menina, ela acaba se envolvendo em uma conspiração dentro da igreja, que busca trazer o anticristo ao mundo.

Acompanhamos a jovem em sua chegada a Roma, onde logo de cara somos introduzidos a uma série de protestos políticos que estão dividindo a cidade. Protestos esses, que tem a igreja e suas tradições como um de seus alvos. Esse é um tema que ganha uma certa relevância dentro da história. Nesse sentido, a trama se passar em Roma é um diferencial e ser um filme de época traz um certo ar de profanidade que contribui para o clima da produção.

Acho muito interessante a forma como a diretora Arkasha Stevenson (em sua estreia em longas) consegue transformar as freiras em personagens ameaçadoras e muito desse efeito vem do próprio figurino. Os hábitos negros, esvoaçantes, provocam uma sensação de mistério que incomoda. Esse incômodo, é ressaltado em outros momentos, sendo o sentimento mais forte provocado pelo longa.

Trabalhando temas como violência sexual, obstétrica e a violação e apropriação do corpo feminino, o filme encontra um equilíbrio interessante entre imagens explícitas e bem violentas, com cenas que provocam o expectador a trabalhar sua imaginação, mostrando apenas detalhes. É uma estratégia que, quando bem construída, sempre rende bons momentos.

Destaque para a atriz Nell Tiger Free, que convence como freira inocente e em sua transformação ao longo da história. Tem uma cena no início do terceiro ato que é uma clara referência/homenagem à inesquecível cena de Isabelle Adjani em Possessão. São temáticas que dialogam, ainda que a cena aqui seja muito mais estilizada e curta.

O roteiro trabalha com algumas conveniências, toda a sequência da balada em Roma é extremamente forçada e até desconexa com o restante da narrativa. O roteiro trabalha com as já esperadas reviravoltas e traz uma motivação para a ação do culto que reforça o patriarcado dentro da igreja, mas acaba perdendo a força pelo excesso de explicação. O desfecho ainda busca deixar uma ponta para continuações, ao mesmo tempo que precisa se conectar com o longa de 1976, culminando em uma última cena que retira o impacto do clímax da história.

“A primeira profecia” é um filme que funciona e deve agradar os fãs do gênero. O melhor longa da franquia (depois do original), consegue prender o espectador mais pela força das imagens, do que por sua narrativa previsível. Consegue respeitar o material original, sem se mostrar refém dele. Só por fugir da mesmice, já merece um destaque nessa onda de prelúdios e remakes desnecessários.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Confira abaixo o trailer do filme:

 

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