Jornalista e ex-colega do curso de jornalismo na Fafic, a Silvana Venâncio, de Bom Jesus do Itabapoana, me pediu uma análise das eleições parlamentares ontem (23) da Alemanha, locomotiva econômica (patinando sobre os próprios trilhos em dois anos de recessão) da União Europeia. O que só me arrisquei a fazer após trocar algumas impressões com o campista Roberto Dutra, sociólogo e professor da Uenf que cursa pós-doutorado na Alemanha, país onde já tinha residido. E domina seu idioma, política, economia e cultura.
Na expectativa da eleição germânica do último domingo e seus desafios, num mundo em que o equilíbrio ocidental do pós-II Guerra tem sido entortado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, Roberto já havia publicado, em seu blog no Folha1 e na edição de sábado (22) da Folha da Manhã, o artigo “Pra onde vai a Alemanha?”. Cuja leitura, aqui e aqui, recomendo.
Encerrado o pleito e contabilizados seus votos, dentro do sistema parlamentar em que a Alemanha é referência ao mundo, vamos, por partes, a alguns pontos. Com lições didáticas à revisão aos dogmas de fé de “esquerda” ou “direita” nesta nossa zona periférica do “Extremo Ocidente” — como o ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso, outro sociólogo, classificou um dia a América do Sul.

1 – O chanceler da Alemanha egresso das urnas será o conservador Friedrich Merz. Líder da aliança União Democrata Cristã (CDU) e União Social Cristã (CSU), que cresceu 4,4 pontos da eleição anterior de 2021 para fazer em 2025 28,60% dos votos, ou 208 das 630 cadeiras que compõem o Bundestag, Parlamento alemão. No qual Merz terá que compor com outros partidos para formar maioria. Até que o faça, Ofaf Scholz deve se manter interinamente no poder, abreviado com a eleição de ontem após perder a maioria.
2 – Com a má avaliação à gestão Scholz, seu Partido Social Democrata (SPD) perdeu 9,3 pontos entre 2021 e 2025. E conquistou no domingo 16,40% dos votos, ou 120 cadeiras, passando de 1ª à 3ª força do Bundestag. É a maior derrota socialdemocrata da história eleitoral alemã. Ainda assim, o SPD deve ser o fiel da balança para o CDU de Merz conseguir maioria.
3 – Isolado pelo chamado “cordão sanitário” dos partidos convencionais nas alianças parlamentares, o Alternativa para a Alemanha (AfD) cresceu impressionantes 10,4 pontos entre as eleições de 2021 e 2025. Literalmente, dobrou de tamanho e, com 20,8% dos votos populares, fez 152 cadeiras no Bundestag, onde terá a 2ª maior bancada. É o mais perto que a extrema direita chegou do poder na Alemanha em quase 93 anos. Desde que as eleições parlamentares de julho de 1932 deram ao Partido Nacional-Socialista (Nazista, na corruptela) de Adolf Hitler a maior bancada do Reichstag (Bundestag, a partir de 1945), com 230 cadeiras. Em 2025, o Departamento Federal de Proteção da Constituição (BfV), serviço de inteligência doméstica da Alemanha, estima que 20% dos membros da AfD são neonazistas.
4 – É consensual entre historiadores e militares que foi o esforço combinado dos EUA e da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS, cuja grande herdeira atual é a Rússia), em duas frentes, que derrotou por esgotamento a Alemanha Nazista na II Guerra Mundial (1939/1945). Oitenta anos depois, as coisas parecem ter se invertido na eleição de ontem. Na qual a AfD contou com o apoio declarado dos EUA de Donald Trump — do seu vice, J.D. Vance, e do dublê de bilionário sul-africano e seu chefe do Departamento de Eficiência Governamental, Elon Musk — e da Rússia de Vladimir Putin.
5 – As aparentes ironias do destino a erodir estereótipos entre esquerda e direita não param no apoio dos EUA e da Rússia de hoje a quem se uniram para derrotar na II Guerra. Se a eleição de domingo fosse só na antiga Alemanha Oriental, ditadura comunista tutelada pela URSS que durou de 1949 até a reunificação do país em 1990, após a queda do Muro de Berlim em 1989, a AfD sairia vencedora das urnas de 2025. Foram os eleitores da capital Berlim e, sobretudo, da antiga (e capitalista) Alemanha Ocidental que ontem impediram a vitória eleitoral da extrema direita.
6 – A inversão dos estereótipos vai além. No lugar de um artista plástico frustrado por ter sido rejeitado duas vezes na Academia de Belas Artes de Viena, que declarou guerra ao modernismo e considerava as mulheres alemães como úteros de produção à raça ariana, como foi Hitler, a AfD é comandada por uma analista de investimentos com PhD em economia na China: Alice Weidel, neta de um juiz nazista. Apesar de o seu partido celebrar a família tradicional, ser radicalmente contra a imigração e nacionalista, Weidel é lésbica assumida e casada com uma imigrante do Sri Lanka, produtora de cinema. Com quem tem dois filhos e vive a maior parte do tempo na Suíça.
7 – Os desafios do novo governo Merz, assim que for formado, não serão poucos.“Os temas principais serão imigração, decadência econômica do modelo fordista exportador de máquinas e segurança externa, com o realinhamento geopolítico (na aliança entre os EUA de Trump e a Rússia de Putin para isolar a Europa e tentar resolver a Guerra da Ucrânia em termos favoráveis ao país invasor). É muita coisa para um governo fazer. Pior ainda seria o cenário se o governo começasse e não acabasse, como foi o caso agora de Scholz. Eu diria que (o futuro governo Merz) é a última chance que o establishment político alemão, CDU e SPD, tem. Governar de uma maneira surpreendente, assumir riscos que nunca foram necessários desde o pós-II Guerra, para frear o crescimento da extrema direita, da AfD, à condição de 1º partido”, ponderou Roberto Dutra após o resultado das urnas alemãs.
8 – Merz sucederá a Scholz, provavelmente com seu apoio parlamentar e que, por sua vez, sucedeu a Angela Merkel, após esta comandar a Alemanha por 16 anos. Socialdemocrata do SPD, Scholz está à esquerda de Merkel e Merz, que disputaram o poder no conservador CDU e na sucessão da liderança de Helmut Khol, chanceler da Alemanha em sua reunificação. Foi a vitória interna no controle do partido, de Merkel sobre Merz, que afastou este temporariamente da vida política em 2009, até regressar em 2021. Advogado com experiência na iniciativa privada, não na administração pública, é mais conservador que Merkel. Tanto no controle da imigração quanto no abandono da energia nuclear por um país que ficou mais dependente do gás da Rússia.
9 – Ontem, antes mesmo dos resultados finais da eleição, o virtual novo comandante da Alemanha falou grosso ao responder à ameaça dos EUA de Trump deixarem a Europa e a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) entregues à própria sorte com a Rússia de Putin: “Minha prioridade absoluta será fortalecer a Europa o mais rápido possível para que, passo a passo, possamos realmente alcançar a independência dos EUA. Pelo menos desde as declarações de Donald Trump na semana passada, está claro que os americanos, ou pelo menos parte deles, neste governo, são amplamente indiferentes ao destino da Europa”.
10 – Conhecido também em português, há um provérbio alemão que diz: “Leichter gesagt als getan” (“Falar é uma coisa, fazer é outra”). A ver.