
“Por que (o prefeito carioca Eduardo) Paes (PSD), sem ter Bacellar (União, presidente afastado da Alerj) mais na disputa a governador, precisa de Wladimir como vice? Isso, hoje, não existe”. Foi o que o ex-governador Anthony Garotinho (REP) disse na manhã do último domingo (1º), em entrevista exclusiva à Folha (confira aqui) sob as sombras das casuarinas de Chapéu de Sol.
Coerência de Wladimir?
Ele também questionou a provável decisão do seu filho, o prefeito de Campos, Wladimir Garotinho (PP), de deixar o governo da cidade para se candidatar a deputado federal:
— Wladimir era deputado federal, saiu no meio do mandato para se eleger prefeito de Campos e depois se reeleger. E agora vai largar o mandato de prefeito para tentar ser deputado federal? Qual é a coerência disso? Não tem! Não tem uma explicação pública coerente para o eleitor. Já falei com ele, mais de uma vez, que o correto seria terminar o mandato de prefeito.
Rosinha vai apoiar o marido ou o filho?
Sobre a possibilidade de se candidatar a deputado federal, na disputa pelo mesmo cargo e mesmos votos que Wladimir, Garotinho lembrou da divisão que isso poderia causar dentro da sua própria família:
— Vai ser complicado eu e Wladimir disputarmos juntos pelo mesmo cargo de deputado federal. Rosinha apoiaria quem: o marido ou o filho? Eu e Rosinha fomos, por 7 anos, professores de curso de casal na Igreja Presbiteriana Luz do Mundo, na cidade do Rio. E sempre ensinamos aos casais: “Marido e mulher você escolhe, filhos não”.
Frederico e demanda de grupo político
O ex-governador também especulou sobre como seria o governo do hoje vice-prefeito Frederico Paes (MDB) em Campos, caso Wladimir confirme sua saída até 4 de abril de prefeito para se candidatar em outubro:
— Frederico é excepcional como pessoa. Conversei, recentemente, três horas com ele. Quando ele me disse que não deseja ser prefeito e que nunca combinou isso com Wladimir. Mas sem ter grupo um político próprio, não adianta. Ele é um administrador de sucesso no setor privado, como foi do Hospital Plantadores de Cana e é na usina Coagro. Mas, para gestão pública, tem que ter grupo político.
Vejo o futuro repetir o passado?
Sobre a manutenção da relação boa entre Wladimir e Frederico, caso o primeiro se eleja deputado federal e o segundo assuma como prefeito, Garotinho usou sua experiência do passado para responder:
— É só olharmos um pouco para atrás para ver o que já aconteceu em Campos. Foi assim comigo (após ser prefeito de Campos pela 1ª vez, entre 1989 e 1992) e Sérgio Mendes (prefeito eleito com apoio de Garotinho entre 1993 e 1996), foi assim comigo (após ser prefeito de Campos pela 2ª vez, entre 1997 e 1998, quando saiu para se candidatar e se eleger governador) e Arnaldo Vianna (vice que assumiu como prefeito em 1998 e se reeleger ao cargo em 2000). O problema acontece quando as pessoas colocam os problemas pessoais acima dos públicos, e buscarão semear discórdia junto a Frederico, como ocorreu com Sérgio e Arnaldo.
Garotinho a senador?
O ex-governador falou ainda da possibilidade de se candidatar a senador pelo seu Republicanos. O que evitaria a disputa direta com Wladimir pelo mesmo cargo de deputado federal. Se disputar este cargo, no entanto, projetou a votação que poderia fazer:
— O Republicanos me sondou para ser candidato a senador. Poderia ser Clarissa, que foi muito bem votada a senadora em 2022. Mas ela foi para a iniciativa privada, onde está muito bem. Se eu concorresse a senador, poderia ser uma forma de evitar o confronto direto com Wladimir. O Republicanos virá com uma nominata muito forte a deputado federal. E projeta que, se eu concorrer ao cargo, poderia fazer 250 mil votos.
A questão do vice de Paes
Garotinho voltou a falar sobre Eduardo Paes e a escolha do seu candidato a vice na eleição a governador em outubro:
— Eduardo não tem a necessidade de Wladimir como vice, sem Rodrigo e mesmo se Rodrigo ainda estivesse no páreo a governador. Wladimir está no PP. E lá quem vai definir é o presidente estadual do partido, (o deputado federal) dr. Luizinho. Que não vai escolher Wladimir. O Rogério Lisboa (PL, prefeito de Nova Iguaçu), hoje, poderia ser esse nome para vice de Paes. Mas acho que ele vai enrolar, enrolar e acabar escolhendo alguém próximo a ele.
Sobre Bacellar
O ex-governador também analisou a prisão de Bacellar em 3 de dezembro, pela acusação de ter vazado informações sobre a prisão do ex-deputado estadual TH Joias, ligado à facção Comando Vermelho. E a posterior soltura do político campista em 9 de dezembro, com as medidas cautelares impostas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, como afastamento da presidência da Alerj, uso de tornozeleira eletrônica, entrega do passaporte e recolhimento residencial noturno:
— Bacellar colheu o que plantou. Ficou obcecado por dinheiro, usou tudo ao seu alcance para se tornar um bilionário. E ficou bem próximo disso.
Castro não concorrerá a senador?
Garotinho apostou ainda que Cláudio Castro não se candidatará a senador e que o ainda governador também pode vir a ter problemas pela frente:
— Castro não vai sair para concorrer a senador. Ou será afastado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) presidido pela ministra Carmén Lúcia, mesmo com o pedido de vista, no caso Ceperj. Ou pela Justiça Federal. É provável que nem tenhamos eleição a governador-tampão indireta na Alerj.
Perguntado sobre qual esfera da Justiça Federal poderia trazer problemas a Castro, o ex-governador disse que pode ser tanto no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), quanto no Superior Tribunal de Justiça (STJ) ou no STF. Onde, apostou em desdobramentos da operação Unha e Carne no STF pela ADPF das Favelas, que gerou a prisão de Bacellar. E na operação Oricalco, que ainda não saiu à rua e poderia agora andar no TRF-2, após sair das mãos do desembargador federal Macário Júdice Neto, afastado do caso após ser preso em 16 de dezembro pela acusação de ter vazado a Bacellar as informações sobre a prisão de TJ Joias.
Nem Flávio nem Lula: Tarcísio
Garotinho também falou da política nacional. Onde refirmou que não votará a presidente nem no senador Flávio Bolsonaro (PL), nem em Lula (PT). E apostou no nome do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (REP), como o nome de oposição mais consistente eleitoralmente e melhor para governar o país:
— Já declarei publicamente que não voto em Flávio Bolsonaro. Que será obrigado a explicar muitas coisas durante a campanha. Como também não voto em Lula, porque o PT, que conheço bem, há muito tempo se tornou um partido patrimonialista. Tarcísio é o melhor nome a presidente. Lógico que São Paulo (onde o governador tem bons índices de aprovação e lidera todas as pesquisas à reeleição) é importante, mas o Brasil é mais.
