
Popularizada no início dos anos 2000, na telenovela global “O Clone”, talvez não haja melhor resumo da análise política do Brasil do que o bordão: “Cada mergulho é um flash”. Que foi imortalizada pela personagem Odete, interpretada pela saudosa atriz Mara Manzan.
Não há pesquisas novas para aferir, com critério estatístico, como os fatos desta semana influenciaram as eleições presidenciais de 4 de outubro de 2026, daqui a pouco mais de 1 ano e 4 meses. Mas dá para arriscar que ela não foi boa à pretensão de reeleição de Lula (PT).
Ontem (23), o Ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) recuou no aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), anunciado no dia anterior (22). Mas o anúncio seguido de recuo, errático como as tarifas de Donald Trump dos EUA ao mundo, foi só a cereja do bolo.
A semana começou com a primeira-dama ignorando a sábia advertência: “quanto mais mexer, mais fede”. Quando, na segunda (19), Janja da Silva aproveitou evento do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania para promover um narcisista desagravo de si mesma.
— Não há protocolo que me faça calar se eu tiver uma oportunidade de falar (…) com qualquer pessoa que seja. Do maior grau ao menor grau. Do mais alto nível a qualquer cidadão comum — disse Janja, diante de um público tão cuidadosamente selecionado como claque quanto o que recebeu Lula na inauguração dos novos prédios da UFF em Campos, em 14 de abril.
— E foi para isso que ela (sua voz) foi usada na semana passada, quando eu me dirigi ao presidente (da China) Xi Jinping após a fala do meu marido sobre uma rede social (…) como mulher, não admito que alguém me dirija (a palavra) dizendo que eu tenho que ficar calada — arrematou a primeira-dama brasileira.
Mas o que Janja falou? Em que contexto? Quem revelou foi outra mulher, a jornalista Andréia Sadi. Que, com “lugar de fala” de mulher, noticiou no dia 13, em postagem intitulada “Janja cria constrangimento em encontro de Lula com Xi Jinping ao falar de TikTok”:
— A primeira-dama brasileira Janja protagonizou um climão no encontro entre o presidente chinês Xi Jinping e a delegação brasileira ao pedir a palavra para falar dos efeitos nocivos da rede social chinesa TikTok — informou a jornalista. Que deu mais detalhes:
— Segundo relatos de integrantes da comitiva brasileira, Janja pediu a palavra para falar sobre como a plataforma representava um desafio em meio ao avanço da extrema direita no Brasil. Para ela, o algoritmo favorece a direita — divulgou Sadi.
O motivo, revelado antes pela jornalista, desmente a versão de Janja. Que, seis dias depois da reportagem, tentou justificar sua fala inapropriada na China para “defender a necessidade de responsabilizar plataformas digitais pela circulação de conteúdos nocivos a crianças e adolescentes”. Não para, de fato, tentar conter o algoritmo e a direita no Brasil.
Na verdade, revelou Sadi, ao ignorar o protocolo diplomático para dizer o que quis, Janja foi obrigada a ouvir o que não quis de Xi Jinping:
— Segundo relatos, ela ouviu do próprio presidente chinês que o Brasil tem legitimidade para regular e até banir, se quiser, a plataforma. Nas palavras de um ministro, ninguém entendeu “nem o tema nem o pedido” para falar em um encontro em que não havia falas previstas.
— Na avaliação de um integrante da comitiva, a situação foi constrangedora e se tornou ponto negativo de uma viagem com resultados positivos para o Brasil — seguiu em seu relato Andréia Sadi. Que arrematou com o incômodo no “lugar de fala” da primeira-dama chinesa:
— Além de Xi Jinping, a primeira-dama da China, Peng Liyuan, teria ficado irritada com o comportamento de Janja durante o encontro — completou a jornalista, seis dias antes do desagravo a si mesma da primeira-dama brasileira.
Embora polêmica, a regulação das redes sociais é, sim, uma necessidade civilizacional. Como acertar na forma. Que sempre estará equivocada quando em desrespeito ao protocolo das relações diplomáticas. Sobretudo com o nosso maior parceiro comercial, a China.
Espécie de Carluxo de Lula, Janja não teria que ficar calada em um evento diplomático porque é mulher. Mas porque, diferente do marido presidente da República, ela não foi eleita a nada. Tampouco para falar pelo Brasil. Quando o faz, torna ainda mais difícil a vida do governo. E insistir no erro, mentindo publicamente sobre o real motivo da fala, só ajuda a oposição.
Janja teve uma inegável virtude. Na tentativa de golpe de Estado no Brasil em 8 de janeiro de 2023, foi ela quem alertou a Lula que, se decretasse a GLO (Garantia da Lei e da Ordem) e passasse o poder às Forças Armadas, não o receberia de volta.
Mas, mesmo se reconhecendo isso, ela tem tanto direito (e lugar) de fala pelo Brasil quanto o médico Thalis Bolzan, marido do governador gaúcho Eduardo Leite (PSD), pelo Rio Grande do Sul. Ou o empresário Denis Thatcher pelo Reino Unido, nos 11 anos em que sua esposa, Margareth Thatcher, foi primeira-ministra da potência europeia.
A questão não é de gênero, na qual a atual primeira-dama do Brasil tentou se escudar em vitimização alheia à verdade, mas de noção do papel institucional. Não é nem que Janja não possa falar. É que, fora da sua diminuta bolha, talvez ninguém tenha interesse no que ela tem a dizer. Muito menos um líder do peso, não do gênero, de Xi Jinping.
Com 5.800 anos de civilização, 3.300 deles com História escrita, a China tem muitas coisas a ensinar ao Brasil. Inclusive, respeito ao protocolo entre nações. Mas não no controle das redes sociais. A não ser a quem pretenda tirar as aspas da “ditadura” pregada pela extrema direita.
Publicado hoje na Folha da Manhã.