

Irã, Israel, Estados Unidos e Portugal
Por Arthur Soffiati
Não tenho dúvidas sobre o interesse de Israel em destruir seu arqui-inimigo Irã, tanto quanto este alimenta o mesmo desejo contra Israel. Analistas têm mostrado que os Estados Unidos entraram numa guerra que não era propriamente deles.
Ao ver as armas de combate usadas pelo Tio Sam contra bases militares, prédios históricos e uma escola de meninas, comecei a pensar se os Estados Unidos não estariam mandando um recado para a China. Assim como as duas bombas atômicas lançadas sobre cidades japonesas foram um recado para a União Soviética.
São drones de última geração que vão na frente despistando as defesas do país, lançando bombas e abrindo caminho para jatos e mísseis superpotentes. A China está produzindo drones parecidos e quer fabricar um milhão deles. O recado seria mais ou menos o seguinte: “olha o que temos para bombardear vocês caso insistam em incorporar Taiwan”.
Hoje, sou plenamente cônscio do meu pacifismo, ao mesmo tempo em que analiso as estruturas e as conjunturas mundiais, nacionais e regionais. Vejo que o sistema do multilateralismo e do Direito Internacional está esfacelado. A ONU nunca teve força material para impedir conflitos entre países, mas tinha força moral para condená-los. No momento, ela soçobrou. Sua voz ficou débil.
Voltamos a um quadro internacional semelhante ao do século XIX. Talvez mais parecido com o do século XVIII, pois, em 1815, estabilizou-se a Ordem de Viena, formada por Inglaterra, Prússia, Áustria e Rússia, países vencedores da França Napoleônica. Essa Ordem garantiu estabilidade relativa até a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914.
No momento, temos falas fortes dos Estados Unidos, Israel, Reino Unido, França, Espanha, Rússia e China. Outras vozes menores não são ouvidas ou apenas são pronunciadas para assumir posição. A voz da ONU se mostra inaudível na atual conjuntura, em que a voz caótica dos Estados Unidos parece ecoar mais alto até mesmo contra aliados históricos, como a Otan.
Vejo como desastrosa as guerras da atualidade, embora não tenhamos vivido um ano sequer sem guerra desde 1945. Há 600 anos, declaramos guerra à natureza e ela, de maneira inconsciente, responde com ataques na forma de tempestades de vento e chuva e secas. Esta é, no meu entendimento, a maior guerra do nosso tempo. Apesar dos ataques da natureza.
Apesar de conhecermos as raízes da guerra, não estamos trabalhando para assegurar a viabilidade da economia de mercado, já que ela solapa qualquer acordo de paz. E continuamos atentos aos nossos mesquinhos interesses num mundo que sofre com eles.
Deixando clara minha posição de pacifista em todos os sentidos, permito-me retornar aos séculos XVI e XVII para mostrar o interesse do Ocidente pelo estreito de Ormuz. Antes mesmo da expansão da Europa, no século XV, o estreito e o Golfo Pérsico eram uma região de importância crucial para o comércio Leste-Oeste. Por ali, passavam as mercadorias produzidas na Ásia e consumidas na Europa.

Quando Vasco da Gama alcançou o oeste da Índia, a conquista do estreito de Ormuz se mostrou imprescindível para Portugal. O ponto estratégico para o domínio do estreito era a ilha de Ormuz, que o historiador inglês Charles Boxer descreveu não parecer importante em si por produzir apenas sal e enxofre. Seu solo é também ferruginoso. Mas sua importância estratégica era enorme. Por ali, passavam as famosas especiarias vindas da Indonésia, os cavalos árabes, sedas, marfim, porcelanas e pedras preciosas.

Os objetivos de D. Manuel, rei de Portugal, na transição do século XV para o XVI, tinham, entre outros, ocupar o Mar Vermelho e o Golfo Pérsico. A conquista da ilha de Socotra, na entrada do Golfo de Aden e do Mar Vermelho, e a ilha de Ormuz, na entrada do Golfo Pérsico. Para tanto, o rei venturoso enviou, em 1506, duas frotas armadas com o que havia de mais poderoso na época: caravelas com canhões. Tristão da Cunha comandava a maior e Afonso de Albuquerque a menor. Foi acirrada a luta para conquistar Socotra aos islâmicos.
Tristão da Cunha deixou para Afonso de Albuquerque a conquista de Ormuz. Albuquerque era impiedoso e também habilidoso diplomata. Ele negociou com o vizir local. Como ele hesitasse, Albuquerque abriu fogo contra a frota adversária, obtendo a rendição do vizir. Os portugueses começaram, então, a construir um forte na ilha de Ormuz. As dificuldades na ilha, sobretudo em termos de abastecimento, causaram deserções e amotinações. A água tinha de ser trazida do continente.
Albuquerque abandonou a obra e partiu para Cochim, capital das Índias Orientais lusas. Nomeado vice-rei da Índia Portuguesa, Albuquerque conquistou Goa em 1510 e Malaca em 1511. Retornou a Ormuz em 1515 e, diplomaticamente, retomou a ilha, dando continuidade à construção da fortaleza abandonada. Ela recebeu o nome de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz, a terceira maior das Índias Portuguesas. Em 1550, foi ampliada e em 1591 reforçada.
Portugal reinou soberano no Golfo Pérsico durante o século XVI, mas, a partir de 1580, a união das coroas ibéricas mudou a conjuntura mundial. Filipe II, o novo rei, granjeou a inimizade da Holanda e da Inglaterra. Portugal e Espanha unidos começavam a enfrentar o assédio de novas potências mundiais.
Em 1614, a Inglaterra apoiou os persas na reconquista de fontes de abastecimento português no Golfo. Além da fortaleza na pequena ilha de Ormuz, Portugal ergueu outra em Bandar Abbas, cidade fronteiriça à ilha, onde obtinha água doce. Era o Forte de Comorão.
A presença militar portuguesa e ibérica não se restringiu a duas fortalezas. Havia a Fortaleza de Bahrein, conquistada aos árabes em 1559 por Antão Noronha e adaptada aos interesses lusos. Ela foi ampliada e modernizada em 1561 e perdida em 1602. O Forte de Comorão foi perdido para os persas em 1614.
Na ilha de Queixome (a maior do golfo e comumente confundida com a ilha de Ormuz), Rui Freire de Andrada, General do Mar de Ormuz e Costa da Pérsia e Arábia, ergueu uma fortificação em 1621. Ela foi bombardeada pela artilharia inglesa apoiando os persas e tomada pelos ingleses em 1622. O Forte de Congo situava-se na vila de Kong e servia de posto de comando e porto seguro. Em 1620, forças portuguesas sob o comando de Gaspar Pereira Leite erguem o Forte de Corfação.

Perdendo as bases no interior do golfo, os portugueses se deslocaram para Omã e ali ergueram os Fortes Al-Mirani e Al-Jalali para assegurar a presença portuguesa no golfo. Por uma década ainda, Rui Freire de Andrada tentou reconquistar a fortaleza de Ormuz sem sucesso. Com a perda consumada, os portugueses transferiram-se para Mascate e estabeleceram uma feitoria em Baçorá, em 1623, na foz do rio Eufrates. Freire de Andrada ainda reocupou um forte.
Em 1624, o forte de Quelba foi conquistada por Gaspar Leite. No mesmo ano, Mateus de Seabra conquistou o Forte de Mada. Por acordo com os persas, a Coroa Ibérica conseguiu ficar com uma feitoria e com uma fortificação (Bandar Kong), no litoral do Golfo Pérsico. Em 1631, ainda conseguiram erguer o forte de Julfar.
As fortificações e feitorias de Soar, Julfar, Doba, Libédia, Mada, Corfação, Caçapo, Congo e Baçorá ainda asseguraram um certo poder aos ibéricos no golfo. Em 1650, Mascate, o último domínio português na Arábia, foi perdido para os omanitas, sendo totalmente expulsos da região em 1651.
Algumas palavras portuguesas foram incorporadas ao persa, tais como portoghāl (o nome do país e também da fruta laranja), Anānās (abacaxi), pāpāyā (mamão), mize (mesa). Curiosamente, ananás é palavra de origem tupi e papaia origina-se do karibe, ambas incorporadas ao português e a outras línguas.
Não diremos que a história se repete, mas que tudo muda. Os grandes dinossauros foram extintos. Os impérios luso, espanhol, holandês, francês e inglês também. O mundo de hoje não será o de amanhã. Talvez o Golfo Pérsico continue sendo importante rota comercial e militar, mas em outras mãos. Dos portugueses, restaram ruínas.