Erros de Trump no Irã favorecem a Campos de Frederico

 

Donald Trump e Frederico Paes (Montagem: Joseli Matias)

 

Guerra, tática e estratégia

No séc. 18, o general prussiano (alemão) Carl von Clausewitz fundamentou, em seu livro “Da Guerra”, a teoria militar. Na qual definiu a guerra como “a política por outros meios”. Como também conceituou as diferenças entre tática, que tem foco no imediato da batalha atual; e estratégia, cujo foco é o objetivo geral da campanha.

 

Tática de “valente” e nenhuma estratégia

Comandante em chefe do maior poder militar já visto na Terra, Donald Trump repete na guerra o que o fez chegar aonde chegou na política. É a tática do “valente” de pátio de escola do ensino fundamental. Que, errático, revela a ausência de pensamento estratégico das ações militares dos EUA, em parceria com Israel, contra o Irã.

 

A tática do Irã

Sem capacidade bélica para enfrentar verticalmente EUA e Israel, o Irã revelou sua tática: horizontalizar o conflito, levando-o com mísseis e drones a países vizinhos do Oriente Médio. Sobretudo aqueles que têm bases militares dos EUA. E joga parado ao fechar o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo consumido no mundo.

 

A estratégia do Irã

A estratégia do Irã é vencer os gigantes militares EUA e Israel pelo cansaço, com a escalada do preço do barril do petróleo nas bombas de combustível do planeta. Enquanto Trump se deslumbrou com a captura do ex-líder venezuelano Nicolás Maduro em 3 de janeiro, e achou que teria no Irã outra Venezuela.

 

Trump aprende diferença

A colonização espanhola da Venezuela, como a portuguesa no Brasil, começou no séc. 16. Como a independência das duas ex-colônias se deu nas primeiras décadas do séc. 19. A unificação dos povos medos e persas sob Ciro, o Grande, se deu em 550 a.C. Trump, no comando de outra ex-colônia na América, começa a aprender a diferença.

 

Não um país, uma civilização

EUA e Israel não enfrentam no Irã um país, mas uma civilização: a persa, islâmica desde o séc. 7, de língua e etnia não árabes. Moldado desde a Antiguidade no enfrentamento a gregos e romanos, o Irã enfrentou em guerra o vizinho Iraque, apoiado pelos EUA nos tempos em que estes tinham o ditador Saddam Hussein como aliado, de 1980 a 1988.

 

Desde 2,5 mil anos atrás

Se EUA e Israel mataram o ex-líder do Irã Ali Khamenei desde 28 de janeiro, isso não mudou nada, diferentemente da Venezuela, na estrutura de poder iraniano. Mesmo aqueles que antes protestavam contra o regime dos aiatolás parecem reconhecer que, agora, o inimigo comum é o poder estrangeiro invasor. É assim há mais de 2,5 mil anos.

 

Trump abandonado por Europa e China

Com sua tática de “valente” de pátio escolar e nenhuma estratégia, Trump vê agora os EUA abandonados em sua aventura no Irã pelos parceiros europeus da Otan. Assim como pela China, a quem Trump pediu ajuda para tentar abrir o Estreito de Ormuz. Ao que Pequim respondeu com um silêncio muito eloquente geopoliticamente.

 

Estratégia eleitoral de Israel

Neutralizar o Irã, que não reconhece o Estado de Israel, interessa a este. Cujo controverso primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, que estava com o mandato a perigo, pode ser beneficiado pela guerra nas eleições ao Knesset (Parlamento de Israel) em 27 de outubro, quatro dias após o provável segundo turno presidencial do Brasil.

 

Irã racha base Maga de Trump

Só que atacar o Irã pouco ou nada interessa aos EUA e seus eleitores. Aos quais Trump pediu votos a presidente em 2025 prometendo deixar o país fora de guerras evitáveis. No próprio movimento Maga (“Make America Great Again”, “Faça a América Grande de Novo”) descontentes passaram a chamá-lo de Miga (“Make Israel Great Again”).

 

Trump acuado em várias frentes

Se já vinha perdendo popularidade por seu envolvimento na rede de pedofilia do ex-amigo Jeffrey Epstein e pelo assassinato de estadunidenses natos pela sua milícia anti-imigração dos ICE, Trump tende a ser afetado não só por colocar os interesses de Israel sobre os dos EUA. Mas pelo preço subindo nas bombas de diesel e gasolina do país.

 

Bem diferente da Venezuela

Abandonado por aliados externos e internos, Trump vive o dilema: matou rapidamente o líder do Irã. Que, diferentemente da Venezuela, ignorou as ameaças do invasor e elegeu o filho de Ali, Mojtaba Khamenei, novo líder do país. Cuja organização, através da Guarda Revolucionária, é descentralizada e tem a insubmissão como regra.

 

Preço eleitoral para Trump

Diferente de Netanyahu, Trump não tem dividendos eleitorais no Irã. E o preço tende a ser cobrado nas midterms (eleições parlamentares do meio de mandato presidencial) de 3 de novembro. Quando os estadunidenses elegerão todas as 435 cadeiras da Câmara de Representantes (deputados federais) e 35 das 100 cadeiras do Senado.

 

Donald “Lame Duck”?

Se perder a maioria legislativa após já ter sido barrado pela Suprema Corte conservadora dos EUA em seus tarifaços, Trump pode ter a segunda metade do seu último mandato de presidente no que os estadunidenses chamam de “Lame Duck” (“pato manco”). Lá ou aqui, seria uma piada pronta a alguém batizado Donald.

 

Lucro a Campos e petrorrentistas?

A Campos e demais municípios petrorrentistas da região, a falta de estratégia de Trump no Irã tende a se refletir favoravelmente na arrecadação de royalties e participações especiais (PEs) do petróleo. O preço do barril Brent já acumula valorização de 40% nos últimos 18 dias de conflito, ficando ontem (17) entre 100 e 102 dólares.

 

Após Wladimir com Putin, Frederico

A estratégia milenar de resistência do Irã, estrangulando no presente o escoamento de petróleo no Estreito de Ormuz, é favorável aos municípios petrorrentistas do NF. Como Wladimir foi favorecido pelo xará Putin, na invasão da Rússia à Ucrânia em 2022, Frederico Paes deve assumir como prefeito de Campos com royalties em alta.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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