Ricardo André Vasconcelos — Cem dias entre a ruptura e a velha política

 

Eleito no primeiro turno, Diniz comemora a vitória, mas ainda não derrotou o garotismo na medida em que, por omissão, anistia os malfeitos do governo Rosinha (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Cem dias é um período curto para avaliar uma administração, mas é tempo suficiente para constatar que, como na vida, os governos também trilham um caminho tênue entre a virtude e o pecado, entre a ruptura e o continuísmo. Enquanto não escolhe sobrevive a esperança, mesmo que outros sinais indiquem que a velha política anda rondando as novas cabeças coroadas.

Ao prefeito Rafael Diniz (PPS) é justo que se empenhe um crédito de confiança ou até mesmo certa condescendência. Afinal, assumiu uma prefeitura falida, desorganizada, cheia de arapucas e sem nenhuma informação oficial, porque, como sabemos, a ex-prefeita Rosinha Garotinho negou-se a qualquer ato de transição. Talvez por isso, durante esses primeiros três meses a impressão é que o governo inteiro trabalha apenas para dentro. Estão conhecendo a máquina, contornando as armadilhas, enxugando gastos para garantir a folha de pagamentos, que já bateu no limite de 54% da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Sei que isso não é pouco, principalmente num cenário de crise nacional aliada a uma queda de receita em torno de R$ 1 bilhão, algo cerca de 1/3 a menos que a antecessora teve ano passado.

O quadro é gravíssimo, mas alguém tem que dialogar com a sociedade que comprou a ideia de um “governo diferente”. Enquanto os jovens e aparentemente competentes, auxiliares do governo acertam as engrenagens da máquina, o prefeito deveria, se me permitir a sugestão, manter atualizado o discurso da diferença, enquanto sua equipe elabora o que será diferente na prática. O papel do líder político é manter acesa a chama que desbordou na mudança e a sintonia com as aspirações da população. Se a demanda reprimida não pode ser atendida, é preciso que se leve ao conhecimento da população os motivos, as dificuldades e as soluções viáveis. É preciso reconectar o cidadão que cobra soluções ao eleitor que apostou na mudança.

Até aqui, talvez pelo imenso desafio que ocupa toda a equipe, parece mais um governo de continuísmo que de ruptura. “Mais do mesmo”. Pode ser falha de comunicação, poder ser. Mas há sinais que começaram antes mesmo da posse, como o acordo com a então bancada governista que deu ao prefeito 50% de suplementação automática no orçamento em troca da aprovação das contas da prefeita referentes a 2015 e, de quebra, garantiu a eleição da Mesa Diretora fiel ao novo governo. É ela, a volta política rondando e tentando se (re) estabelecer com seus cantos e encantos.

Na primeira semana de governo, dois novos — e maus — sinais: um do Executivo e outro do Legislativo: o engenheiro que seria uma das principais peças da área de obras do governo anterior e o maior foco de críticas da então oposição à administração finda foi nomeado secretário de Infraestrutura e Mobilidade Urbana (portaria 038/2017). Não conheço o engenheiro, mas simbolicamente sua nomeação é uma espécie de anistia aos desmandos da gastadeira Rosinha. E, antes de completar uma semana na cadeira de presidente da Câmara, o vereador Marcão Gomes (Rede), em 06/01/2017, prorrogou, por R$ 1,2 milhão, um contrato de publicidade que já tinha sido prorrogado quatro vezes na gestão Edson Batista. Em plena crise, por que e para que gastar R$ 1,2 milhão em publicidade? Fiz as críticas de forma pública: a primeira em entrevista à Folha e a segunda em meu blog, ambas ignoradas.

Ignorar críticas, mesmo as mais construtivas é outro sinal da velha política. A mesma que opta pela maioria confortável no Legislativo em troca do apoio fisiológico venha de onde vier. Mas nada é mais representativo da velha política do que o carreirismo usar o poder como trampolim para guindar os amigos a postos mais altos. E as eleições para Assembleia Legislativa e Câmara Federal, no ano quem vem, podem descortinar se o governo municipal vai usar sua máquina em favor dos seus aliados, como os antecessores fizeram, ou vai ser diferente.

Em cem dias leem-se sinais de uma nau entre a ruptura e o “mais do mesmo”. Entender que o eleitor, ao derrotar o garotismo queria algo de novo pode ser fundamental para o sucesso ou fracasso do novo governo. O eleitor, ao dar a vitória a Rafael Diniz no primeiro turno e nas sete Zonas Eleitorais, verbalizou, de forma cristalina, que queria ruptura e isso exige mais do pôr a burocracia em ordem e recuperar as finanças. É preciso que se conheça o que foi apurado nas auditorias e trazer à luz os malfeitos de um governo que foi escorraçado nas urnas justamente porque sobre ele pairavam todas as suspeitas. E se nada vem à tona, anistiam-se todos os dias um governo que acabou em caso de polícia.

Há tempo pois de escolher um rumo que esteja em sintonia com as urnas.

 

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