Em setembro desastroso ao bolsonarismo, Trump afaga Lula na ONU

 

Donald Trump e Lula falando ontem na ONU, após a av. Paulista receber a manifestação pela anistia a Bolsonaro com a bandeira dos EUA em 7 de setembro, e contra a anistia com a bandeira do Brasil em 21 de setembro (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Setembro desastroso ao bolsonarismo

A um ano da urna de 4 de outubro de 2026, setembro de 2025 tem sido desastroso ao bolsonarismo. Começou com a bandeira dos EUA na manifestação da av. Paulista pela anistia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no 7 de setembro. E, de revés em revés, seguiu até ontem (23) com o afago de Donald Trump (confira aqui) a Lula (PT) na Assembleia Geral da ONU.

 

“Ótima química” de Trump com Lula

“Eu estava entrando (no plenário da ONU) e o líder do Brasil estava saindo. Eu o vi, ele me viu e nos abraçamos. Concordamos que nos encontraríamos na semana que vem (…) Ele parece um cara muito legal, ele gosta de mim e eu gostei dele (…) Por 39 segundos, nós tivemos uma ótima química”, garantiu Trump. Que discursou na ONU em sequência à fala de abertura de Lula.

 

No dia 11, condenação no STF

Da bandeira dos EUA na manifestação bolsonarista pela anistia no dia 7 à fala elogiosa do presidente dos EUA a Lula na ONU do dia 23, foram vários fatos políticos relevantes. Pode parecer mais tempo. Mas foi no dia 11, por exemplo, que Bolsonaro foi condenado (confira aqui) a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, na 1ª Turma do STF, por 4 votos a 1.

 

No dia 17, PEC da Blindagem e PL da Anistia

No dia 17, uma Câmara dos Deputados presidida por Hugo Motta (REP/PB) e dominada pelo Centrão aprovou (confira aqui) a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Blindagem a parlamentares e presidentes de partido. Como o caráter de urgência ao Projeto de Lei (PL) para anistia de Bolsonaro e outros condenados pela tentativa de golpe de Estado no Brasil entre 2022 e 2023.

 

No dia 21, reação contra blindagem e anistia

Já na noite do dia 17, a PEC da Blindagem passou a ser tratada popularmente da Bandidagem. E, com pouco mais de três dias de mobilização, gerou manifestações no último domingo (21) contra ela e a anistia aos condenados no STF por tentativa de golpe de Estado, em todas as 27 capitais brasileiras. Campos, como no 7 de setembro bolsonarista, não foi exceção no dia 21.

 

Números dos atos de 7 e 21 de setembro

Com medição da USP nos dois principais pontos das manifestações nacionais, a do dia 7 levou 42,2 mil pessoas pela anistia a Bolsonaro à av. Paulista, quase igual aos 42,4 mil contra a anistia (confira aqui) e a PEC da Blindagem no dia 21. Já na av. Atlântica, na orla de Copacabana, a anistia reuniu 42,7 mil no dia 7, também quase igual aos 41,8 mil contra a anistia (confira aqui) no dia 21.

 

Direita perde domínio das ruas?

Em público real, as manifestações dos dias 7 e 21 foram parelhas. Mas há três pontos de desvantagem à direita. Que dominava as manifestações de rua no país há 11 anos, desde 2014, contra o governo Dilma Rousseff (PT), até gerar o impeachment desta em 2016. O 2º ponto? Na Paulista, a gigantesca bandeira dos EUA no dia 7 deu lugar a uma do Brasil no dia 21.

 

Direita entrega bandeira do Brasil à esquerda

Com um “SEM ANISTIA” no lugar do “ORDEM E PROGRESSO”, a bandeira do Brasil foi dada de presente à esquerda pelo bolsonarismo em 2025. Como a bandeira vermelha do PT serviu à apropriação da brasileira por Bolsonaro no 1º turno presidencial de 2018. No 2º turno, quando o petista Fernando Haddad tentou retomar as cores nacionais na campanha, era tarde demais.

 

Perda de domínio das redes sociais

Na comparação entre as manifestações, houve ainda o 3º ponto desfavorável à direita. Que, também desde 2018, dominava as redes sociais. Na medição da Palver, até as 18h do dia 21, o engajamento nos grupos públicos de WhatsApp pela manifestação contra a anistia (confira aqui e aqui)  superou o do dia 7. A cada 100 mil mensagens trocadas, 865 foram do ato do dia 21, contra 724 do dia 7.

 

Melhor definição pelo humor

Após tantos reveses, até onde goleava a esquerda há anos, os do bolsonarismo não se resumiram ontem ao afago de Trump a Lula. Que, na direita brasileira, foi melhor definida (confira aqui) pelo humor do Sensacionalista: “Bolsonarista incendeia estátua da liberdade da Havan após Trump dizer que gosta de Lula”.

 

Motta desce do muro e complica o 03

Alvo das manifestações do dia 21 tanto quanto Bolsonaro, Hugo Motta desceu do muro. Ontem, barrou a indicação da oposição para fazer Eduardo Bolsonaro (PL/SP) líder da minoria da Câmara e preservar seu mandato do deputado. E a Comissão de Ética abriu processo (confira aqui) por quebra de decoro contra o 03, por agir nos EUA contra os interesses e instituições do Brasil.

 

Trump ouviu palavras duras de Lula

Líder em todas as pesquisas à reeleição (confira aqui e aqui) em 2026, desde que Trump ameaçou em julho taxar o Brasil por conta do julgamento de Bolsonaro no STF, Lula saiu fortalecido ontem da ONU. Onde fez discurso duro contra as tentativas de ingerência dos EUA nos assuntos internos do Brasil. Que foi assistido atentamente, com tradução em tempo real, pelo presidente dos EUA.

 

Zelensky recomenda cautela

Pelo modo errático de Trump, não se sabe se o encontro com Lula ocorrerá. E, se ocorrer, em que termos. O constrangimento imposto na Casa Branca em fevereiro ao presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, recomenda cautela. Mas foi um avanço na relação entre os dois países aliados. Desde que os EUA reconheceram, em 1824, a independência do Brasil.

 

Senado contra defesa de bandido na Câmara

Para finalizar o péssimo dia de um péssimo mês à direita, na noite de ontem o senador Alessandro Vieira (MDB/SE), relator da PEC da Blindagem na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Alta da República, deu parecer (confira aqui) para sepultar a pretensão da Câmara Baixa. Também delegado de Polícia, Vieira definiu (confira aqui) a PEC: “Foi desenhada para defender bandido”.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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