
Sebastianismo, o Supremo e os “heróis da democracia”
(A Dionísio Barbosa, meu bisavô português de Paredes de Coura, perto da fronteira do Minho com a Galícia)
Dom Sebastião foi rei de Portugal de 1557 a 1578. Assumiu o trono quando seu país era a potência emergente da Terra, líder da Expansão Marítima e Comercial Europeia.
Antes deste século 21 marcado pelo soerguimento de China e Índia, quem abriu, dos séculos 15 ao 20, o domínio do Ocidente sobre o mundo? A resposta está no poema “A Mensagem”. É o único do luso Fernando Pessoa publicado em livro durante sua vida:
“A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.”
Diante dos novos mundos da Idade Moderna abertos à vanguarda do rosto português, D. Sebastião preferiu olhar por cima do ombro da História: às Cruzadas da Idade Média contra os mouros. E acabou por estes morto ou desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos, Magreb muçulmano do Norte de África.
Sem deixar herdeiro, D. Sebastião lançou Portugal, de maior nação da Europa, à condição de província espanhola na União Ibérica de 1580 a 1640. Mas gerou, em Portugal e sua colonização do Brasil, o sebastianismo: a espera pelo regresso de um herói messiânico que nos resgatará ao tempo de glória.
Sem a mesma origem étnica, é o mesmo ethos do “Make America Great Again” (“Faça a América Grande de Novo”). Do Maga dos EUA de Donald Trump, bola da vez como imperador do mundo a olhar sobre o ombro da História. Provavelmente, com o mesmo fim. Do século 16 ou de quem supõe a ele poder regredir no século 21 de China e Índia.
Palavra que tem tradução em outras línguas por sentimento universal, mas sem o léxico que a caracteriza mais profundamente na língua portuguesa, “saudade” tem o sebastianismo por placenta. Que deseja por quase meio milênio, na mesma “Mensagem” de Pessoa, “O Desejado”:
“Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado!
Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucaristia Nova.
Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Gral!”
No Brasil, o sebastianismo esteve na origem das suas duas maiores guerras civis. A de Canudos, no sertão da Bahia, entre 1896 e 1897. E a do Contestado, entre Paraná e Santa Catarina, de 1912 a 1916. A diferença? A segunda não teve Euclides da Cunha. Ambas foram movimentos messiânicos rurais, com religiosos por salvadores.
O sebastianismo esteve na queda do Império pelo golpe militar que proclamou a República em 1889, na Revolução de 1930, na ditadura do Estado Novo entre 1937 e 1945, na ditadura militar entre 1964 e 1985, na eleição direta do caçador de marajás Fernando Collor de Mello a presidente em 1989, no seu impeachment em 1992.
O sebastianismo esteve nas eleições presidenciais de Lula em 2002 e 2006, na Lava Jato entre 2014 e 2021, no impeachment de Dilma Rousseff em 2016, na prisão de Lula em 2018. E, no mesmo ano, na eleição a presidente de Bolsonaro. Como na sua prisão em 2025. Por quem? Ao sebastianismo? Pelos “heróis da democracia” do STF!
Do que o bilionário escândalo do liquidado Banco Master já revelou sobre os ministros do STF Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, os sebastianistas de turno podem escolher. Entre R$ 3,6 milhões mês ao escritório de advocacia da esposa, uma viagem com tudo pago num jatinho à final da Libertadores em Lima, ou até seguranças no resort Tayayá.
Enxergar o óbvio, e se revoltar contra isso, não é atacar a democracia, estúpido! É defendê-la até dos… “defensores”. Da prosa enquanto língua do mundo real, no qual D. Sebastião nenhum virá nos resgatar, aos versos incompletos de um poeta menor. Sem “o sublime da pessoa” ou pontuação, bisneto de um lusitano e só em minúsculas:
“d’além da taprobana, do lado de lá
dobraram o mundo vasco e fernão
fados ecoados numa noite de bruma
em que regresse el-rey d. sebastião”.
Publicado hoje na Folha da Manhã.