Elda Moura — A jornada dos guerreiros do Fluminense

 

 

Elda Moura, professora e torcedora do Fluminense

A jornada dos guerreiros

Por Elda Moura

 

Nas rodadas finais do Brasileirão de 2009, o Fluminense carregava um número que mais parecia sentença: 99% de chance de rebaixamento. Lutava contra a tabela, contra a matemática, contra a descrença geral. Ninguém acreditava. Ou quase ninguém …

Seu Alair, o morador mais rabugento do bairro, definitivamente não acreditava. Amaldiçoava o time todos os dias, em voz alta, como se quisesse que o mundo ouvisse: Turma de perna de pau! Ninguém escapava de críticas, nem jogador, nem o futebol.

Para ele, o futebol havia morrido fazia tempo — lá atrás, junto com a geração de Didi, Garrincha, Pelé, Rivelino e outros craques que ele evocava como quem rezava. O que restava agora, dizia, era um esporte em agonia, respirando por aparelhos.

Os números pareciam concordar com Seu Alair. O Fluminense somava apenas 18 pontos em 24 jogos, afundado na lanterna do campeonato, quando Cuca assumiu o time tricolor. A missão era clara e absurda: nos últimos sete jogos, seriam necessários seis vitórias e um empate. Nada menos que isso. Uma tarefa hercúlea.  Daquelas que só entram para a história quando alguém resolve desafiar o impossível.

Pois bem, o impossível foi desafiado, um time de guerreiros nasceu. O Fluminense saiu do “mundo comum” para “provação máxima” em poucos meses, normalmente, os heróis vivem suas epopeias ao longo de anos, mas ali o tempo foi comprimido, cruel, implacável.

Cada rodada era uma batalha, cada acréscimo no tempo da partida era um desafio, cada penalidade marcada era um inimigo. Sem armadura ou espada, os guerreiros se feriam, sangravam e seu Alair se desesperava, mesmo com o Fluminense precisando só de um empate para não cair na última rodada, ele não conseguia crer, era um pessimista contumaz.Parte superior do formulário

A última batalha seria dificílima: jogar contra o Coritiba no

território inimigo, arquibancadas hostis, nervos à flor da pele. Não era apenas mais um jogo — era o limiar entre a queda e a permanência. Em campo, o Fluminense não jogava bonito, jogava o necessário. Cada dividida era um juramento, cada passe, um ato de fé.

O empate bastava, mas ninguém ousava confiar nisso. Empates são frágeis demais. O medo rondava como sombra, e o silêncio antes do apito inicial pesava mais que a própria bola. Seu Alair assistia ao jogo de braços cruzados, o cenho franzido, pronto para a blasfêmia. Não gritava mais — observava. Talvez porque, no fundo, também estivesse atravessando sua própria provação: admitir que ainda era possível acreditar. Quando o gol saiu, houve espanto. Ele ficou sem palavras, como se o impossível tivesse tropeçado.

 

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