

Campos dos Goytacazes — Uma aliança necessária
Por Geraldo Hayen Coutinho
Temos percebido que as discussões a respeito do desenvolvimento, ou da falta deste, vem ganhando contornos diferentes do que se observava no passado. Diferentemente dos modelos anteriores hoje estes debates estão se ampliando de forma significativa, interessando e atraindo pessoas e grupos dos mais diversos que agregam suas diferentes experiencias profissionais e de vida, enriquecendo o debate a partir da base da nossa sociedade. Isto é muito bom e deve ser impulsionado.
São profissionais liberais, produtores rurais, industriais, empresários do comércio e serviços, estudantes, empregados, prestadores de serviço, membros da Academia, integrantes de associações, sindicatos, cooperativas, fundações. Todos trazem uma percepção de que é possível fazer mais. A sensação generalizada é que a população vem deixando de se apropriar de oportunidades que poderiam reverter a curva de empobrecimento para uma trajetória de desenvolvimento socio econômico, com um enfrentamento mais efetivo da miséria, da favelização, do desemprego e, na ponta da linha, da criminalidade. São integrantes da nossa sociedade que percebem o extraordinário potencial econômico de geração sustentável de empregos e renda. E sabem da magnitude do orçamento público municipal que, com todas as vinculações existentes, ainda assim seria possível direcionar parcela mais significativa para a promoção de projetos estruturantes.
Entendemos que o desenvolvimento decorre de ações cooperadas entre poder público, o setor produtivo e sociedade. Entretanto, nos últimos 40 anos isso não aconteceu na nossa região. Continuamos pagando um preço altíssimo em razão dos equívocos cometidos no trato desta questão. Tivemos líderes políticos que hora davam as costas para o setor produtivo, hora elegiam algum segmento como algoz com intuito de transformar em plataforma política fácil e demagógica. Tivemos parcelas da sociedade olhando para outro lado como se não lhes dissesse respeito. Enfim, expoentes da política e da sociedade caminhando sem qualquer articulação nas questões do desenvolvimento. Vivenciou-se, nestes tempos, a falta de diálogo entre as partes, prevalecendo visões econômicas superficiais ou equivocadas e muitas vezes omissões ou inércias.
O nosso quadro econômico-social até o final da década 1970 revela indicadores bem melhores do que hoje observamos, consequente de uma estrutura produtiva de base agrícola e em seu centro a agroindústria da cana de açúcar. São atividades que geram grande efeito multiplicador de empregos e renda, impulsionando indústrias serviços e comércio no seu entorno, fazendo a economia girar internamente. Mas, diferentemente deste período o setor foi o saco de pancada preferencial de quem não tinha mais o que propor. Apenas como um exemplo do que tento dizer, em passado recente chegamos ao ponto de constar no plano diretor de Campos dispositivo de erradicar a lavoura canavieira! Hoje as fragilidades da agropecuária e a baixa expressão do setor industrial retratam bem sobre as perdas resultantes da ausência de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento.
Ora, o progresso é por natureza uma obra delineada e construída no local e para os locais dele usufruírem. Não nasce em Brasília ou na capital do Rio de Janeiro, começa por um desejo local, uma disposição firme e real de levar um projeto adiante. Só assim é possível pensar conseguir o necessário apoio das esferas estaduais e federal. Daí porque a fundamental importância de participação ativa do poder público municipal. Eleger como prioridade de governo bandeiras que permitam alcançar o crescimento econômico que impacte em todas as camadas da população, que seja sustentável, digno, redutor de desigualdade. Isto não é sonho, temos exemplos para concretos para nos referenciar, basta visitar alguns municípios do vizinho ES, do semiárido nordestino, e centenas outros Brasil afora. Ressaltamos: todos esses municípios tem restrições orçamentárias; muitos com adversidades climáticas mais graves que as nossas; e poucos detendo vantagens comparativas de logística para os mercados ou de dispor de centro universitário, de destaque em tecnologia e inovação.
Entendemos que um grande projeto para o desenvolvimento só terá chances de vingar se for abraçado e compreendido como prioridade pelo chefe do executivo municipal. Entidades, empresas e Academia interagem entre si e conduzem algumas ações em conjunto, que, entretanto, necessitam ser ampliadas através de uma nova dinâmica de participação e articulações do prefeito. Estão em áreas impulsionadoras, como por exemplo, na adequação da agropecuária ao clima semiárido, assistência técnica e extensão rural, montagem de projetos em energia limpa, produção de biomassas de diversas fontes para exportação pelo Porto do Açu, estruturação de ambiente para operação de startups. No fundo visam efetivar produção regional em grau de competitividade como nenhuma outra do país face a curta distância de um porto, como estamos em relação ao do Açu.
Por outro lado, além de ações próprias de recuperação das vicinais e infraestrutura nos distritos, é essencial suas articulações para a derrubada do veto do presidente Lula à classificação climática de semiárido, e no âmbito estadual a implantação da Zona Econômica Especial do Açu, bem como alterações de normativos do INEA interferentes na produção da agropecuária, pesca em “tanque-rede” e alocação de verbas de compensação ambiental.
Neste texto falo de omissões do passado, porém é necessário fazer ressalva ao prefeito Wladimir que tem nosso reconhecimento do esforço feito em sua gestão. É natural que diante de problemas herdados do passado, pelas emergências reclamadas no presente, projetos para o futuro não recebam o selo de prioridade máxima. Hora de virar a chave. A hora de cuidar do futuro é agora
Este é o momento de firmarmos uma aliança para o progresso de Campos dos Goytacazes e região. A sociedade reclama, anseia e merece que seja aqui gerado crescimento econômico, social e ambiental, interrompendo o ciclo de aumento da pobreza de parte da população. Não há mágica a ser inventada, a receita passa pela reunião de todos e, obrigatória e necessariamente pelo comando do mandatário maior do município.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
