Polêmica da charge de Bolsonaro e Trump no Liceu sob análise

 

O caso do professor de Português do Liceu Marco Antônio Tavares da Silva, suspenso pela secretaria estadual de Educação (Seeduc) após propor uma redação sobre uma charge dos presidentes do Brasil, Jair Bolsonaro, e dos EUA, Donald Trumpo, já gerou muita polêmica e repercussão. Inclusive na mídia carioca, onde o assunto foi noticiado após ser revelado em primeira mão pela Folha da Manhã.

Na edição de hoje da Folha, seis professores universitários de Campos se posicionarem (aqui) sobre o caso. Visando equilíbrio, alguns dos docentes ouvidos foram de orientação política de esquerda, outros de direita. Houve manifestações de apoio ao professor do Liceu, assim como ponderações e críticas. Mas o questionamento à suspensão do colega do ensino médio estadual, por conta da utilização da charge, foi comum aos seis. Entre eles, o professor de Ciência Política da UFF-Campos George Gomes Coutinho foi o que mais se estendeu na análise, indo além da demanda de depoimento para uma enquete de jornal.

Não por outro motivo, o blog publica abaixo a íntegra do que pensa o George sobre o caso:

 

Charge de Vitor Teixeira publicada em 19 de outubro de 2017 no site “Humor Político” e utilizada como tema de redação aos alunos de Português do 3º ano do ensino médio do Liceu

 

Sociólogo e cientista político George Gomes Coutinho

Uma das primeiras questões que devemos discutir acerca da saúde da democracia em uma sociedade contemporânea é se a livre expressão de ideias e posicionamentos encontra respaldo para além do arcabouço jurídico formal. Obviamente não estou secundarizando a importância das garantias constitucionais, dado que nelas estão as bases normativas formais que devem guiar os cidadãos e as instituições. O que estou destacando é se os cidadãos vivem em suas rotinas a livre circulação de ideias, simbolismos, posicionamentos, etc. SEM CONSTRANGIMENTOS. Esta produção imaterial, desde que não se engaje em prol da eliminação “do outro” como diria Karl Popper, deve ser encarada como é: diversa e heterogênea espelhando as contradições de nossa própria sociedade. Prosseguindo com Popper, se não há o discurso de eliminação de grupos sociais excetuando os próprios intolerantes, sendo a intolerância em si o único limite crítico para a liberdade de expressão legal e legítima, uma democracia vibrante necessita da circulação de posicionamentos tal como a vida precisa de oxigênio e deve haver o respeito pela opção A, B ou C. Todo o restante é tentativa autoritária de eliminação artificial do dissenso e da diversidade ou imposição forçosa e unilateral de discursos aos quais indivíduos não são obrigados a reproduzir, vide por exemplo a imposição a fórceps de narrativas e posicionamentos de esquerda a indivíduos ou fóruns de direta, ou vice-versa, sem o devido convite para o diálogo. Inclusive aqui temos um dos pontos que mais importam a esse debate. A despeito das opções no espectro ideológico, a crítica publica é fundamental. Porém, não é qualquer crítica. A crítica fundamentada, o uso da razão e da argumentação, a objetividade, todos esses ingredientes são fundamentais para termos um espaço onde a opinião pública seja robusta.

Fiz este preâmbulo por reconhecer que vivemos um estado de coisas onde a opinião pública encontra-se gravemente adoecida no Brasil. A questão do professor Marcos Antônio Tavares da Silva, e este recebe desde já minha solidariedade, é sintoma. Porém, não é a doença. Este modus operandi, o de incitar estudantes a gravarem ou reproduzirem material permitindo em segundo momento o achincalhe público, o linchamento virtual e ameaças por uma horda, tem se tornado uma praxe motivada por grupos que abraçaram a “pauta dos costumes” e acreditam que estão fazendo “boa política” ao simplesmente ignorar solenemente as condições concretas das escolas, o plano de carreira (quando há) defasado, salários achatados, os baixos patamares alcançados no processo de ensino e aprendizagem, etc. Se criou um falso problema, uma cortina de fumaça que em nada, rigorosamente em nada contribui ante o enfrentamento dos problemas crônicos da educação brasileira, que são urgentes em uma sociedade de conhecimento onde veremos cada vez mais o trabalho humano de baixa complexidade sendo substituído pela inteligência artificial, automação e robotização. Há uma tragédia humanitária em curso que pode ser evitada com investimentos pesados em educação. Portanto, as energias deveriam estar em outro tipo de ação coletiva e não este, o do Macartismo reeditado em escolas e universidades no século XXI.

Causa espécie que estudantes estejam sendo estimulados a atuarem como dedos-duros, X-9 de professores, fazendo registros sem a autorização dos mesmos! É este o ambiente que irá promover de fato as melhorias necessárias nas metas educacionais gerando aspirantes a censores? E ainda tendo o objetivo tão inatingível quanto risível: o espaço de sala de aula ambicionado como imagem e semelhança dos próprios pais e suas crenças, narcisismo de um lado, e o infantil desejo do desaparecimento de todos os comportamentos diversos, opções culturais, tudo o que não esteja na pauta dos preceitos de família A ou B. Este último desejo perverso, nunca é demais dizer, é nada menos que a base de todo e qualquer fundamentalismo por flertar perigosamente com o obscuntarismo, com a ocultação do mundo real e sua diversidade imanente.

Prosseguindo, flertamos em todo esse debate burlesco com uma concepção absolutamente imbecil: a da neutralidade, a da imparcialidade de agentes humanos ou instituições. O Conto da Carochinha do “professor imparcial”, onde este seria em termos ideais um agente simplesmente esvaziado do contexto onde vive e desprovido de suas opções valorativas ao entrar em seu ambiente profissional, é apresentado alhures como solução. O problema é seu caráter irrealizável. Essa assepsia cognitiva e cultural é humanamente impossível. Se todos devemos sim combater a demagogia, abusos e o proselitismo em todas as esferas, inclusive a sala de aula, por outro lado tem se colocado soluções que geram apenas estresse aos profissionais da educação. Ainda, a questão seria se os professores estimulam a pensar e a criar, eis as demandas de nosso tempo, e não colocar na berlinda suas opções valorativas políticas, simbólicas, culturais, etc. Portanto, sim, professores são cidadãos e tem o direito de seguirem suas próprias trilhas políticas e, até onde eu sei, não são dotados da capacidade de operarem qualquer lavagem cerebral que os paranoicos vislumbram.

Retomando o caso concreto do professor do importante Liceu campista, onde uma charge foi utilizada como recurso didático e reflexivo para a elaboração de uma redação onde o texto seria produção e responsabilidade do próprio estudante, inclusive sendo franqueada a possibilidade de apresentar qualquer posicionamento argumentativo amparado pelo uso da razão (o que exclui o achismo e a burrice inerente e mimada de homens brancos adultos da classe média ou alta que estou cansado de ver por aí fazendo beicinho), vemos mais um caso trágico e a vitória momentânea da ignorância e do moralismo. Há algo de ridículo. Carolas esperneando ante um desenho de dois homens em uma cama, isso após o presidente eleito deste país ter postado vídeo de sexo amador em seu perfil das redes sociais. Outros que apostam serem os estudantes tapados, castrados cognitivamente, verdadeiros idiotas que apenas reproduzem o que um professor ou qualquer outra autoridade diga (esses já devem ter nascido velhos ou são desmesuradamente obedientes aos seus senhores). Ou, ainda o pior. Temos um grupo que chegou ao poder que em nada está preparado para a vivência democrática.

Todos esses chiliques soam como tentativa de eliminar de forma autoritária a crítica ao governo eleito em todos os espaços públicos. Um outro nome para isso é simplesmente censura. Olhando novamente a charge caberia discutirmos qual seria a reação deste grupo se os personagens fossem Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama. Afinal, desde a Ação Penal 470, o famoso “Mensalão”, o Partido dos Trabalhadores foi criticado quase diariamente de forma ácida, por vezes respeitosa e por vezes de maneira odienta, e ainda assim não deixou de ser poder até o golpe parlamentar de 2016 e tampouco o tecido democrático esteve sob risco. Finalizando, talvez esse lamentável episódio do professor do Liceu seja mais um dos alertas que acendem insistentemente desde primeiro de janeiro do ano corrente e nos questione para onde nossa sociedade está caminhando.

 

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Este post tem 6 comentários

  1. cesar peixoto

    O chefe de uma nação tem que ser tratado com respeito acima de tudo, isso que o professor fez ele não está educando os seus alunos de forma correta.

    1. Ilza Lacassagne

      Cesar Peixoto, o professor não está educando de forma correta? Propôs uma redação através da leitura espontânea de uma imagem, ou seja, cada aluno se utilizaria dos conhecimentos, informações, da educação, valores… recebidos em casa e no social para argumentar e defender sua opinião. Um rico instrumento para avaliar a forma como o aluno interpreta o mundo, principalmente neste momento delicado em que um presidente, um chefe de estado vive a fazer “considerações” descabidas e sem fundamento sobre questões de: gênero, sexualidade, e principalmente , sobre todo o conhecimento científico historicamente produzido etc. E sabedor disso, poderá intervir e auxiliar seus alunos, com certeza, de forma saudável. Não só um presidente deve ser respeitado, mas todo e qualquer ser humano. Um professor não é professor por acaso, é um profissional preparado para lidar com estas questões e muitas outras problemáticas inimagináveis que só quem está, ou esteve em uma sala de aula (seja do ensino público ou privado) sabe, não tem tempo para “doutrinar” ninguém, o papel do professor é ensinar, educar para a cidadania. Sendo assim, mais respeito sim, com a educação, com o trabalho do professor. Abs

  2. ILacassagne

    Cesar Peixoto, o professor não está educando de forma correta? Propôs uma redação através da leitura espontânea de uma imagem, ou seja, cada aluno se utilizaria dos conhecimentos, informações, da educação, valores… recebidos em casa e no social para argumentar e defender sua opinião. Um rico instrumento para avaliar a forma como o aluno interpreta o mundo, principalmente neste momento delicado em que um presidente, um chefe de estado vive a fazer “considerações” descabidas e sem fundamento sobre questões de: gênero, sexualidade, e principalmente , sobre todo o conhecimento científico historicamente produzido etc. E sabedor disso, poderá intervir e auxiliar seus alunos, com certeza, de forma saudável. Não só um presidente deve ser respeitado, mas todo e qualquer ser humano. Um professor não é professor por acaso, é um profissional preparado para lidar com estas questões e muitas outras problemáticas inimagináveis que só quem está, ou esteve em uma sala de aula (seja do ensino público ou privado) sabe, portanto, mais respeito sim, com a educação, com o trabalho do professor. E no mais, só para lembrar, “o respeito é algo que se conquista pela admiração independente do poder que tens em mãos.” Abs

  3. ILacassagne

    Cesar Peixoto, o professor não está educando de forma correta? Propôs uma redação através da leitura espontânea de uma imagem, ou seja, cada aluno se utilizaria dos conhecimentos, informações, da educação, valores… recebidos em casa e no social para argumentar e defender sua opinião. Um rico instrumento para avaliar a forma como o aluno interpreta o mundo, principalmente neste momento delicado em que um presidente, um chefe de estado vive a fazer “considerações” descabidas e sem fundamento sobre questões de: gênero, sexualidade, e principalmente , sobre todo o conhecimento científico historicamente produzido etc. E sabedor disso, poderá intervir e auxiliar seus alunos, com certeza, de forma saudável. Não só um presidente deve ser respeitado, mas todo e qualquer ser humano. Um professor não é professor por acaso, é um profissional preparado para lidar com estas questões e muitas outras problemáticas inimagináveis que só quem está, ou esteve em uma sala de aula (seja do ensino público ou privado) sabe, não tem tempo para “doutrinar” ninguém, seu papel é educar para a cidadania. Sendo assim, mais respeito sim, com a educação, com o trabalho do professor. Abs

  4. cesar peixoto

    Se fosse o presidente que fizesse uma charge igual a essa com um professor qual seria a reação dos professores, me responda com sinceridade

  5. cesar peixoto

    Se fosse o nosso presidente que fizesse uma charge igual a essa com um professor qual seria a reação dos professores, me responda com sinceridade se não seria falta de respeito com professor

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