
Na última quarta-feira (5), quando passou a faltar menos de dois meses à urna de 4 de outubro, as novas pesquisas Ideia (confira aqui) e Quaest (confira aqui) de agosto trouxeram projeções de primeiro e segundo turno parecidas, com Lula liderando todos os cenários. Mas com tendências diferentes: favoráveis a Lula na Ideia e favoráveis a Flávio Bolsonaro (PL) na Quaest.

“Agosto mostra o melhor retrato de Lula em oito edições (das pesquisas mensais Ideia desde janeiro). A aprovação (do governo) está em 48,5%, a maior da série, contra 49% de desaprovação. E 48% dizem que ele (Lula) merece continuar, também o maior número que já medimos”, resumiu o jornalista Pedro Doria, diretor do Canal Meio.
Na aprovação do governo Lula, a Ideia de agosto trouxe algumas oscilações nos números em relação a julho, mas todas dentro da margem de erro de 2,5 pontos da pesquisa. A desaprovação ao Lula 3 oscilou 0,5 ponto para cima: de 48,5% aos 49% atuais. E a sua aprovação oscilou 2 pontos para cima: dos 46,5% aos atuais 48,5%.
Se a tendência da aprovação do governo Lula foi de estabilidade na série Ideia, ela permaneceu numericamente estática na Quaest. Entre julho e agosto, os que aprovam o Lula 3 eram e permaneceram 48%, como os que desaprovam eram e permaneceram 47%.

A importância da métrica é óbvia em qualquer pleito com a possibilidade de reeleição: governo aprovado popularmente tende a renovar mandato, governo desaprovado arruma as malas. Com 0,5 ponto a mais de desaprovação na Ideia e 1 ponto a mais de aprovação na Quaest, um eventual Lula 4 hoje se equilibra com um pé em cada barco.
Diretor do Canal Meio, quem tem feito as pesquisas em parceria com o instituto Ideia, Doria também destacou os 48%, número mais alto desde janeiro, dos brasileiros que acham que Lula merece outro mandato. Mas que ainda estão 2,4 pontos atrás, em empate técnico na margem de erro, dos 50,4% que acham que ele não merece.
Esse equilíbrio quanto a Lula merecer ou não outro mandato na série Ideia, porém, não existe na Quaest. Nela, fora do limite da margem de erro de 2 pontos para mais ou menos da pesquisa, a maioria de 55% dos brasileiros acha que Lula não merece. São relevantes 14 pontos a mais que a minoria de 41% que acha que ele merece.
Mesmo que as novas pesquisas Ideia e Quaest tenham sido feitas no mesmo período de tempo, entre 31 de julho e 3 de agosto, são resultados bem diferentes. E, talvez, resultados de metodologias diferentes: a Ideia ouviu 1.500 eleitores por telefone, enquanto a Quaest entrevistou 2.004 eleitores de maneira presencial e domiciliar.
Comparadas com as pesquisas do mês anterior de cada instituto, as tendências também são diferentes sobre Lula merecer ou não outro mandato. Na Ideia, os que acham que não merece oscilaram 0,6 para baixo: de 51% em julho a 50,4% em agosto. E os que acham que merece oscilaram 2,3 pontos para cima: de 45,7% aos atuais 48%.
Já na série Quaest, a tendência é francamente desfavorável a Lula. Os que acham que ele não merece outro mandato de presidente tiveram crescimento real (acima da margem de erro) de 4 pontos: de 51% dos brasileiros em julho aos 55% de agosto. E os que acham que ele merece quedaram os mesmos 4 pontos: de 45% aos atuais 41%.

Da estabilidade na aprovação de governo, em equilíbrio com a desaprovação, e dos resultados conflitantes sobre Lula merecer ou não outro mandato, o fato é que ele liderou todos os cenários ao primeiro e segundo turnos testados pela Ideia e a Quaest de agosto. E sempre com vantagem acima da margem de erro das duas pesquisas.
Na Ideia de agosto, Lula liderou com 34,4% a consulta espontânea (em que o eleitor fala da própria cabeça em quem votará, na intenção consolidada) contra 23% de Flávio, 11,4 pontos atrás. Na série Ideia, Lula oscilou 1,6 ponto para cima sobre os 32,8% de julho. E Flávio teve crescimento real de 2,7 pontos sobre os 20,3% do mês anterior.
Na Quaest de agosto, Lula liderou com 25% a consulta espontânea a presidente, contra 18% de Flávio, 7 pontos atrás. Mas essa diferença era de 12 pontos na Quaest de julho, quando Lula tinha 26% e oscilou 1 ponto para baixo em agosto, enquanto Flávio tinha 14 pontos e teve crescimento real de 4 pontos no mesmo período.

Na consulta estimulada, com a apresentação dos nomes dos candidatos, ao primeiro turno da Ideia de agosto, Lula liderou com 43% de intenção de voto. Ficou 8 pontos à frente de Flávio, que teve 35%. Por desistência de pré-candidatos presentes na consulta de julho, a Ideia não fez comparação para extrair as tendências do último mês.
Na consulta estimulada Quaest ao primeiro turno, Lula liderou com 39% de intenção. Ficou 9 pontos à frente de Flávio, com 30%. Mas a Quaest revelou tendências na comparação com sua pesquisa de julho. Quando Lula tinha 40% e oscilou 1 ponto para baixo, enquanto Flávio tinha 28% e oscilou 2 pontos para cima em agosto.

Se nenhum outro candidato, além de Lula e Flávio, teve dois dígitos de intenção de voto nas consultas espontânea e estimulada ao primeiro turno, a soma de todos os candidatos de oposição, no entanto, indica matematicamente a necessidade do segundo turno presidencial. Que está marcado para 25 de outubro.
Na Ideia, a soma dos 10 presidenciáveis de oposição ao primeiro turno deu 51%, contra os 43% de Lula, 8 pontos a menos. Na Quaest, a soma dos 11 presidenciáveis de oposição ao primeiro turno deu 43%, 4 pontos a mais que os 39% de Lula. Se um candidato não tem mais votos que todos os demais, há segundo turno.
Tanto a Ideia quanto a Quaest testaram, cada pesquisa, quatro cenários de segundo turno. E Lula também liderou todas as simulações, acima da margem de erro. Mas diferente de Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), Flávio também é, hoje, o nome da oposição mais competitivo ao segundo turno.
Nas simulações de segundo turno da Ideia, Lula bateria Flávio por 48,5% a 43% (5,5 pontos de vantagem, só 0,5 ponto acima do empate técnico no limite da margem de erro da pesquisa), Caiado por 48,5% a 40% (8,5 pontos de vantagem), Zema por 48,5% a 37% (11,5 pontos de vantagem) e Renan por 48% a 34,7% (13,3 pontos de vantagem).

Nas simulações de segundo turno da Quaest, Lula bateria Flávio por 44% a 39% (5 pontos de vantagem, só 1 ponto acima do empate técnico no limite da margem de erro da pesquisa), Caiado por 45% a 37% (8 pontos de vantagem), Zema por 46% a 34% (12 pontos de vantagem) e Renan por 45% do petista a 35% (10 pontos de vantagem).

Também houve discrepâncias nas duas pesquisas de agosto entre as tendências atuais de um eventual segundo turno entre Lula e Flávio em outubro. Na Ideia, Lula teve crescimento real de 3,5 pontos dos 45% de julho aos 48,5% de agosto, enquanto Flávio também teve crescimento real de 3 pontos dos 40% de julho aos 43% de agosto.
Se, na série Ideia, Lula e Flávio estão ambos em tendência de crescimento para um turno extra, essa tendência na Quaest é só do filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Flávio cresceu 2 pontos dos 37% de julho aos atuais 39% em um segundo turno contra Lula, enquanto este perdeu 1 ponto no mesmo período: de 45% aos atuais 44%.

“Desde que Flávio foi indicado pelo pai (em dezembro), ele veio crescendo, até que em maio aconteceu o ‘Dark Horse’ (cinebiografia de Jair em que Flávio pediu dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro) e se viu um processo de degradação dele nas intenções de voto”, relembrou o cientista político Felipe Nunes, CEO do instituto Quaest.
“E agora, de julho para agosto, o que a gente vê é uma oscilação. O Flávio vai de 28% para 30% (de intenção de voto ao primeiro turno), dentro da margem de erro, e o Lula de 40% a 39%. Por que estou chamando esse movimento, que ocorreu numericamente na margem de erro, de recuperação (de Flávio)?”, indagou o cientista político.
“Porque há todo um conjunto de fatores na pesquisa (Quaest de agosto) que mostram como as coisas se movimentaram do mês passado para cá. Quando a gente olha para o segundo turno, a vantagem de Lula para Flávio, que já foi maior, também se reduziu (de 8 pontos em julho para 5 pontos em agosto)”, explicou o CEO da Quaest.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
