Hoje é sábado, 24 de outubro. A um dia da urna deste domingo (25), penso ser o momento de declarar meu voto, como fiz em outras eleições nacionais e estaduais.
Acho justo quem me lê, ouve e vê saber como penso enquanto cidadão. Com a ressalva de zelo quase religioso: essa decisão meramente pessoal não interferirá um milímetro na minha atuação profissional como jornalista político, analista eleitoral e/ou diretor de redação do Grupo Folha. Quer seja em blog, site, jornal, rádio e/ou televisão.
Irei à urna votar neste domingo, mesmo que caiam sobre Campos, como sobre todas as regiões Sudeste e Sul, a chuva da previsão climática. Que, se cumprida, tenderia a favorecer a possibilidade de Lula virar a eleição. Mas, sem 2º turno a governador do RJ, anularei meu voto a presidente da República.
O motivo?

Por que não votar em Flávio?
Por partes, tenho restrições de ordem humanista ao bolsonarismo. E creio que Flávio Bolsonaro não tem currículo ou preparo ao cargo que postula.
A única coisa que Flávio geriu na vida foi uma loja de chocolate que vendia mais em dia de pagamento da Alerj do que na Páscoa. Parece-me inegável sua relação de cumplicidade com as milícias cariocas. Ele é, entre o pai e os irmãos, o menos ideológico e mais pragmático, o que não é ruim. Mas é também o mais envolvido em denúncias de corrupção, que o seguem desde que iniciou a vida pública como deputado estadual da Alerj.
Por que não votar em Lula?
E quanto a Lula? Votei nele duas vezes: nos segundos turnos presidenciais de 1989 e de (confira aqui) 2022. E, mesmo hoje com o benefício da visão retrospectiva, não me arrependo. Se pudesse voltar no tempo, votaria de novo as duas vezes.
Também é inegável que Lula tem muito mais currículo do que Flávio ao cargo que ambos postulam. Mas a pergunta que deveria pesar sobre qualquer candidato à reeleição é: Merece ou não renovar o mandato?
Respondo com uma constatação do que entendo como fato, para além da mera opinião. Quem disser que o Lula 1 e o Lula 2 não foram bons governos está mentindo. Quem disser que o Lula 3 é um bom governo está mentindo também. E, com o Congresso ainda mais conservador do que o atual eleito em 4 de outubro, nada indica que o Lula 4 teria condições de ser melhor.
Na história do voto popular no Brasil República, Lula foi imbatível. Mas me parece, como ocorre com muitos campeões, não soube a hora certa de parar. E, no que talvez seja sua maior falha, não deixará uma liderança consolidada na esquerda brasileira para o substituir. Quem tentou improvisar e ajudou a eleger presidente em 2010 e 2014, Dilma Rousseff, fez governos desastrosos.
Pela infertilidade de sombra de mangueira, que não deixa nada crescer ao seu redor, Lula é um anti-Mujica. Em oposição ao falecido ex-presidente do Uruguai que se elegeu uma única vez ao cargo e depois ajudou a eleger outros dois aliados de esquerda presidentes. Inclusive o atual, Yamandú Orsi.
No meu entender, ganhe ou perca a reeleição neste domingo, pela decisão soberana do voto popular, o ciclo de Lula no poder está historicamente esgotado. Tentar prolongá-lo por rejeição a um candidato de oposição muito fraco, com o Senado e a Câmara Federais que já foram eleitos, tenderia a confirmar o dito popular da “emenda pior que o soneto”.
Conclusão do voto
Refleti muito, mas não fui capaz de fazer uma opção entre o que o voto dos meus pares definiu como duas únicas alternativas presentes. E não acredito, sinceramente, que nenhuma das duas resultará em bom governo.
Quem tem opinião diversa, em juízo verdadeiro consigo e com a realidade do todo que o cerca, tem meu respeito. Como respeitarei, sem abrir mão do juízo crítico, a decisão tomada.
