Globos de Ouro de “O agente secreto” e Wagner Moura por Campos

 

Kleber Mendonça Filho, sua produtora e esposa, Emilie Lesclaux, e Wagner Moura com seus Globos de Ouro, entre outros integrantes do elenco e produção de “O agente secreto”

 

Em ano de Copa, o Brasil passa a ser conhecido no mundo não pelas conquistas no futebol, mas do seu cinema. Na noite de domingo, na entrega do Globo de Ouro, em Los Angeles, “O agente secreto”, do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, ganhou como melhor filme em língua não inglesa. Pouco depois, seu protagonista, o baiano Wagner Moura, também venceu como melhor ator de drama. Os dois prêmios reforçam indicações ao Oscar, que saem no dia 22.

Os dois prêmios foram comemorados como gols e vitórias do futebol do Brasil em Copa do Mundo, em residências e locais públicos de todo o país em que brasileiros se reuniram para torcer durante a premiação, transmitida ao vivo em canais abertos e fechados de TV. Coube à atriz britânica Minnie Driver abrir o caminho da noite. Ao abrir o envelope do Globo de Ouro de filme em língua não inglesa, ela saudou o vencedor em português: “Parabéns!”

Ao subir ao palco para receber o Globo de Ouro com parte do seu elenco e produção presente, Kleber disse, em inglês, que queria dizer olá a todos que estão assistindo no Brasil. E os saudou em português, sendo muito aplaudido por isso pelos gringos: “Alô Brasil!” E encerrou: “Dedico este prêmio aos jovens cineastas. Este é um momento muito importante no tempo e na história para estar fazendo filmes nos EUA e no Brasil. Jovens cineastas americanos, façam filmes!”

No Globo de Ouro de melhor ator de drama, bisando o que Fernanda Torres conquistou em 2025 por sua atuação em “Ainda estou aqui”, Wagner Moura foi beijado por Julia Roberts e subiu ao palco dando uma sambadinha com o ator estadunidense Colman Domingo, que apresentava o prêmio. No discurso, ressaltou que “‘O agente secreto’ é um filme sobre memória, ou a falta de memória e o trauma geracional” (retrata a ditadura militar do Brasil no Recife de 1977).

Wagner também terminou seu discurso de agradecimento falando em Los Angeles ao seu público principal. Ao qual também se dirigiu em português: “Para todo mundo no Brasil que está assistindo isso agora, viva o Brasil, viva a cultura brasileira”. Depois da cerimônia, o ator voltou à dança. E comemorou, com seu Globo de Ouro enquanto as indicações ao Oscar não vêm, caindo no samba de “Não deixa o samba morrer”.

Para tentar entender o significado desses prêmios internacionais ao cinema e à cultura do Brasil, e o que mais pode vir pela frente, a Folha ouviu, em ordem alfabética, a atriz Adriana Medeiros, o crítico de cinema Arthur Soffiati, os cineastas Carlos Alberto Bisogno, Felipe Fernandes e Fernando Souza, a atriz Katiana Rodrigues e o cinéfilo Lucas Barbosa:

 

 

Adriana Medeiros, atriz e professora

Adriana Medeiros — “Domingo foi uma noite cheia de holofotes para o Brasil. Momento de celebrar a arte e cultura nacional. Wagner Moura fez e faz história. Sua atuação precisa em ‘O agente secreto’ lhe rendeu o prêmio de melhor ator. Isso não consagra apenas seu talento, mas também a força do cinema brasileiro no cenário internacional. O filme foi reconhecido também como o melhor em língua estrangeira, fazendo os nossos corações vibrarem pelo reconhecimento a nossa arte. Essas são conquistas que honram nossa cultura e reafirmam a potência de nossas narrativas no audiovisual. Axé ao cinema brasileiro!”

Arthur Soffiati, historiador, professor, escritor e crítico de cinema

Arthur Soffiati — “Nos quatro filmes de Kleber Mendonça Filho, é possível avaliar a evolução do roteirista e diretor recifense. Até o premiado ‘O agente secreto’ com dois Globo de Ouro, seus roteiros pareciam escritos com mão pesada. É o que notei em ‘O som ao redor’ (2012), ‘Aquarius’ (2016) e ‘Bacurau’ (2019). No ‘O Agente Secreto’ (2025), contudo, a realidade se cola mais ao que conhecemos. A reconstituição de época de Recife dos anos 1970 é primorosa e um dos pontos altos do filme. A interpretação de Wagner Moura está estupenda. Todo elenco segue a batuta agora segura de Kleber. Tânia Maria é a grande revelação do filme. Os Globos de Ouro de filme em língua não inglesa e ator de drama confirmam os troféus recebidos no Festival de Cannes.”

Carlos Alberto Bisogno, cineasta e tutor IA em química e física

Carlos Alberto Bisogno — “O histórico bicampeonato do cinema brasileiro no Globo de Ouro, primeiro com Fernanda Torres em 2025 e agora com Wagner Moura em 2026, revela uma indústria que amadureceu ao aprender a contar suas histórias para além da barreira das línguas. Seja em ‘Ainda estou aqui’ ou em ‘O agente secreto’, vemos a aposta corajosa em atuações que se expressam mais no silêncio dos gestos do que no texto falado. É assim que tornam universal a percepção de tramas brasileiras, conectando o público global aos nossos traumas e afetos. A palavra torna-se acessório nestas narrativas que se contam no olhar, escolha que me agrada esteticamente. É a prova definitiva de que nossa cultura, quando fiel à sua essência, não precisa de tradução.”

Felipe Fernandes, cineasta publicitário e crítico de cinema

Felipe Fernandes — “O sucesso de ‘O agente secreto’, filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho, que conquistou os prêmios de melhor diretor e melhor ator em Cannes e, agora, venceu o Globo de Ouro de filme de língua não inglesa e melhor ator, com possíveis indicações ao Oscar, consolida o cinema brasileiro entre os mais relevantes do cenário mundial. Fortalece uma indústria sólida que gerou, no Brasil, em 2024, mais de 608 mil empregos, segundo dados da Oxford Economics. Empregou mais do que a indústria automotiva. Tão importante quanto esse reconhecimento internacional é a consolidação junto ao próprio público brasileiro. Ainda que a polarização política inviabilize grande parte do debate, de ambos os lados.”

Fernando Souza, cineasta, diretor da produtora Quiprocó Filmes e do Festival Internacional Goitacá de Cinema

Fernando Souza — “A conquista do Globo de Ouro pelo filme ‘O agente secreto’ e pelo ator Wagner Moura representa um marco histórico para a cultura brasileira. Esse reconhecimento internacional reafirma a capacidade do Brasil de produzir obras audiovisuais de alto nível artístico e técnico, capazes de dialogar com públicos e mercados globais. Chamou atenção o fato do diretor Kleber Mendonça Filho ter deixado um recado para que os jovens façam cinema. Essa é uma fala que dialoga e fortalece a pauta da retomada do projeto da Escola de Cinema da Uenf. Para que tenhamos mais jovens fazendo cinema precisamos de mais investimentos em formação de mão de obra qualificada em todas as partes do Brasil, incluindo o interior.

Katiana Rodrigues, atriz e jornalista

Katiana Rodrigues — “É a arte do Brasil no topo. No discurso, Wagner Moura falou de memória. As memórias do horror de um tempo sombrio e nem tão distante de agora. A premiação de Moura é um reforço da importância da arte da interpretação, da arte de cantar, da arte que só pode ser produzida por nós, humanos, ora desumanos, ora imensos de criatividade, afetividade e poder de mudanças. Foi emocionante, foi incrível. Entender que a arte é transformação, é saber que a vida é incrível, que ‘a vida presta’ e vale a pena ser vivida. Entre Mouras e Fernandas, vamos impressionando. De cadinho em cadinho, dijahojinha foi o Globo de Ouro, e quem sabe, neste ano teremos duas copas do mundo? Da arte e da bola. Que venha o Oscar!”

Lucas Barbosa, cinéfilo e graduando em letras

Lucas Barbosa — “Considerado o maior número de indicações para ‘Foi apenas um acidente’ (filme iraniano de Jafar Panahi, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes) e ‘Valor Sentimental’ (filme dinamarquês/norueguês de Joachim Trier), o longa brasileiro não era o favorito ao Globo de Ouro. Que produziu uma nova narrativa. E os discursos de Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura contribuem para isso: ‘Um filme sobre memória, ou sobre a falta dela’ atrai atenção. Não acho que o prêmio faça o longa brasileiro favorito ao Oscar de filme em língua não inglesa, mas o põe em nível de igualdade. Quanto a Wagner, o Globo de Ouro o cacifa a uma indicação ao Oscar. Mas o favorito ainda é outro vencedor do Globo de Ouro, Timothée Chalamet.”

 

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Favorito em janeiro, onde Lula pode perder a reeleição em outubro?

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Onde Lula pode perder a reeleição?

Hoje, a oito meses e 22 dias da urna de 4 de outubro, Lula parece favorito (confira aqui) à reeleição. Sobretudo se Flávio Bolsonaro for o nome da direita ungido da cadeia pelo pai. Mas a pesquisa Ideia também revelou caminhos abertos à derrota de Lula: 50% dos brasileiros não acham que ele merece continuar presidente, contra 46,9% que acham que sim. Outros 3,1% não sabem.

Merece ou não ser reeleito?

“A real disputa de 2026 ocorre entre os que acreditam que o presidente Lula merece continuar e os que são contra a continuidade. Essa corrida está tecnicamente empatada”, constatou Cila Schulman, CEO do instituto Ideia e coordenadora de comunicação e estratégia de campanhas eleitorais desde 1988.

Lula 3 desaprovado por 50%

Os brasileiros que acham que Lula merece ou não continuar presidente têm números quase idênticos aos que aprovam ou não o seu governo. Na pesquisa Ideia, o Lula 3 apareceu desaprovado por 50% do eleitorado, com 47% que aprovam e 3% que não souberam opinar.

Eleição será definida por 3 pontos?

“A pesquisa mostra a estreita margem de manobra das campanhas presidenciais em 2026. Acreditamos que essa eleição será decidida por 3 pontos percentuais do eleitorado”, apostou Mauricio Moura, economista, pesquisador da George Washington University e fundador do instituto Ideia.

Lula lidera rejeição: 40,8%

Outro levantamento da pesquisa Ideia que revela o terreno movediço sob a liderança de Lula nas intenções de voto. Ele também lidera o índice negativo da rejeição, considerado decisivo em um eventual 2º turno: 40,8% dos brasileiros não votariam no atual presidente de maneira nenhuma.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Ranking da rejeição

Atrás de Lula na rejeição, vêm Flávio (30%), Michelle (26,1%), Tarcísio (16,2%). Governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) tem 12,8%, seguido de Ratinho (12,5%) e do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), com 12,1%. Entre os nomes de oposição mais cotados a presidente, Caiado tem a menor rejeição: 10,5%.

 

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Na 1ª pesquisa de 2026, Lula lidera em empate técnico só com Tarcísio

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Na 1ª pesquisa do ano eleitoral de 2026, realizada pelo instituto Ideia, o presidente Lula (PT) apareceu liderando cinco cenários de consulta estimulada ao 1º turno e nove de 2º turno. Neste, o único que ficaria em empate técnico com o petista, na margem de erro de 2,2 pontos para mais ou menos, seria o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (REP).

“Direita só tem um candidato competitivo” —  Feita de 8 a 12 de janeiro e divulgada hoje (13), com 2 mil eleitores e registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-06731/2026, a pesquisa Ideia foi feita em parceria com o Canal Meio. Diretor de jornalismo deste, Pedro Doria traduziu os números: “A direita só tem um candidato competitivo: Tarcísio de Freitas. Aquele que o bolsonarismo escanteou.”

No 1º turno — Nos cenários estimulados de 1º turno, Lula ficou à frente de Tarcísio por 7,5 pontos (40,2% de intenção de voto a 32,7%) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) em dois cenários, com demais adversários diferentes. Nos dois, o petista lidera sobre o filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por 13,2 pontos (39,7% a 26,5%) e por 12 pontos (39,6% a 27,6%).

Tarcísio e Michelle à frente de Flávio — Ainda no 1º turno, Lula também bateria a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) em dois cenários de consulta estimulada: por 11 pontos (40% a 29%) e 10,4 pontos (40,1% a 29,7%). Se pior que o desempenho de Tarcísio contra Lula, ela pontuou melhor que Flávio, escolhido por Bolsonaro como pré-candidato a presidente do seu grupo em 5 de dezembro.

No 2º turno — Nas 9 simulações de 2º turno, só Tarcísio teve empate técnico com Lula: 44,4% do petista contra 42,1% do governador paulista, 2,3 pontos de vantagem. Que chega a 10,2 pontos de Lula sobre Flávio, a quem bateria no 2º turno por 46,2% a 36%. De novo, Michelle pontuaria melhor que o enteado no 2º turno contra Lula: 39% a 46% do petista, 7 pontos de vantagem.

Ratinho e Caiado também à frente de Flávio — Além de Tarcísio e Michelle, outros dois nomes da direita teriam desempenho melhor que Flávio num eventual 2º turno contra Lula. No qual o governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), perderia por 9 pontos do petista: por 37% a 46%. Governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União) perderia o 2º turno para Lula por 9,8 pontos: 36,5% a 46,3%.

 

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Globos de Ouro ao Brasil, Maduro e Trump no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Joseli Matias)

 

Historiador, professor e crítico de cinema da Folha, Arthur Soffiati é o convidado do Folha no Ar desta terça, ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.

Ele falará dos dois Globos de Ouro conquistados na noite de domingo (11) pelo cinema brasileiro. De melhor filme de língua não inglesa a “O agente secreto”, do diretor Kleber Mendonça Filho, e de melhor ator de drama ao seu protagonista, Wagner Moura.

Do cinema ao filme da História em tempo presente, Soffiati também analisará a captura do ex-ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, dentro de um complexo militar de Caracas, na madrugada do último dia 3, pelos EUA de Donald Trump. E da nova ordem, com base em áreas de influência impostas pela força, que o mundo parece reinaugurar nestes primeiros dias de 2026.

Quem quiser participar do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

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Crônica de bar — EUA de Trump e o que temos a opor-lhes

 

Renée Nicole Good, poeta e mãe de três filhos, morta na quarta com três tiros na cabeça disparados por agentes do ICE de Trump, na cidade de Minneapolis

 

— E aí? Quer começar por onde? O mundo está de porre? —  mandou Leda na mesa do boteco, copo de cerveja já à mão, assim que notou Aníbal se aproximando.

— Já parou pra pensar que o porre pode ter sido o hiato que vivemos entre a queda do Muro de Berlim em 1989 e da União Soviética em 1991, até este ano da Graça de 2026? E que essa ressaca é o estado “sóbrio” da História? — devolveu as indagações Aníbal, sentando à mesa e acentuando as aspas com os dedos médios e indicador das duas mãos. Para deixar só o indicador da direita aberto, esticar o braço e pedir o copo ao garçom para se servir da cerveja já aberta.

— Trump não tem defesa!

— Maduro também não. E, mesmo após 13 anos condenando seu próprio povo à falta de comida e remédios, a milhares de prisões, tortura e assassinatos políticos, à fraude eleitoral comprovada em 2024, ao êxodo de 1/3 dos venezuelanos vivos na Terra, ainda tem gente da esquerda tupiniquim que tenta relativizar.

— Trump é completamente louco.

— Não há nenhuma loucura. Estamos aqui falando de Maduro, não estamos? E não da inflação dos alimentos nos Estados Unidos, reflexo dos tarifaços. Nem do envolvimento cada vez mais evidenciado de Trump com a rede de pedofilia de Epstein, seu ex-parça de balada.

— Sim, de fato, ele dita a pauta. Nos EUA e no mundo.

— A despeito de qualquer juízo moral ou apego à verdade no que diz, é preciso admitir: Trump é um grande comunicador.

— Como Hitler também foi. Só que na era do rádio. Trump é o produto das redes sociais, do algoritmo do ódio. Cujos donos subiram com ele ao poder no segundo mandato de presidente.

— Há diferenças conceituais. O nazifascismo tinha como uma das suas bases o controle estatal da economia. Que, com Trump, fica entregue ao capitalismo sem nenhuma regulação estatal das Big Techs. Mas, sim, há também muitas semelhanças.

— O Maga e o nazismo têm a mesma busca de um passado idealizado e irreal. É o “America First” e o “Deutschland über alles”, o “Alemanha acima de tudo”. E o mesmo critério racial, da polícia de imigração do ICE funcionando como a polícia política da Gestapo.

— Com uma ressalva: a Stasi, polícia política da antiga Alemanha Oriental comunista foi muito maior e durou muito mais tempo que a Gestapo de Hitler. E, não por acaso, veio no pós-II Guerra. Quando começou a bater o porre do mundo, breve, até a queda do Muro de Berlim.

— Você tem sempre que alfinetar minha formação marxista, né? — acusou Leda.

— É maior que isso. Com apoio do PT, de Lula e do Foro de São Paulo que o petróleo da Venezuela ajudou a bancar, não me importa se a ditadura militar de Chávez e Maduro prendeu, torturou e matou mais ou menos do que as ditaduras militares do Chile, Argentina ou Brasil. Todas patrocinadas pelos EUA na Guerra Fria, no mesmo tempo da Stasi e da soviética KGB. Prender, torturar e matar quem pensa politicamente diferente não tem lado do “bem”.

— Se a questão for moral, é o mesmo regime bolivariano de Chávez e Maduro que Trump manteve na Venezuela. Para controlar na cara dura o petróleo do país sul-americano, vizinho do Brasil, que tem as maiores reservas do mundo. Enquanto, nos Estados Unidos, os agentes da ICE matam uma mulher com três tiros na cabeça, à luz do dia. Porque tentou sair de carro, dobrando ao contrário do agente, da abordagem truculenta nas ruas de Minneapolis.

— Sim, na mesma cidade em que um policial local matou George Floyd em 2020, com o joelho sobre sua nuca por minutos, mesmo já algemado e imobilizado de bruços no chão. Que gerou a onda dos protestos do Black Lives Matter nos Estados Unidos e no mundo. Rolou até em Campos, lembra? E ajudou a derrotar Trump nas eleições presidenciais daquele ano.

— E você acha que a execução da Renée Nicole Good, poeta, mãe de três filhos e classificada de “terrorista interna” pelo governo Trump, pode ter o mesmo efeito?

— Na pior das hipóteses, serviu para os estadunidenses natos, brancos e de classe média como Nicole, base do eleitorado de Trump, verem que podem também ser alvo da perseguição do ICE aos imigrantes. Mas, sinto informar, Trump só vai completar um ano do segundo mandato no dia 20 deste mês. Ainda teremos mais três anos disso pela frente.

— Com a América do Sul chamada abertamente de quintal pelo secretário de Defesa de Trump. E com alguns vira-latas sul-americanos aplaudindo.

— Como tem caramelo do lado oposto, que se diz humanista e aplaudiu por 13 anos a ditadura de Maduro. O que a reação à execução de Nicole pode influenciar são as midterms, as eleições de meio de mandato presidencial dos Estados Unidos, em 3 de novembro. Quando serão eleitos todos os novos deputados e mais de 1/3 dos senadores, além de dezenas de governadores.

— Será suficiente?

— Na quinta, dia seguinte à execução de Nicole pelos agentes do ICE de arma na mão e rostos cobertos, como os bandidos dos westerns de John Ford, o Senado dos Estados Unidos aprovou resolução para impedir Trump de tomar novas medidas militares contra a Venezuela sem autorização do Congresso. Com os votos de cinco senadores republicanos, partido de Trump.

— Repito, Aníbal: será suficiente?

— Na marra, como Trump provou ao capturar Maduro e a mulher dentro de um complexo militar de Caracas, não há a menor chance.

— Que falta não faz uma bomba atômica, né?

— É fato. E é a ressaca da realidade. Depois do que os Estados Unidos de Trump fizeram na Venezuela, tem a Rússia de Putin na Ucrânia e no Leste Europeu, a China de Xi Jinping em Taiwan e na Ásia, e o Israel de Netanyahu na Palestina e Oriente Médio. São todos potências nucleares. E devem se sentir no mesmo direito de reinaugurar o imperialismo nos seus… quintais.

— Tem também a Índia do tal Narendra Modi, que é o país cujo PIB mais cresce no mundo, superou a China em população, tem bombas atômicas e tecnologia própria de mísseis.

— Pois é. E por que não pode fazer o mesmo com seu rival regional Paquistão? Porque este também tem bomba atômica. A quem não tem, tem a ressaca de Sartre. Ao testemunhar as tropas nazistas entrarem vitoriosas na sua França em 1940, ele constatou: “O que tínhamos a opor-lhes?” — ecoou Aníbal no boteco. E não achou resposta sóbria.

 

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Ceciliano é opção do PT de Lula à sucessão de Castro no RJ

 

André Ceciliano, Lula e Cláudio Castro (Montagem: Joseli Matias)

 

Ceciliano à sucessão de Castro?

A eleição indireta da Alerj a governador passou a interessar diretamente a eleição a presidente da República. Com as pesquisas a governador no Nordeste apontando um quadro menos favorável a 2026 do que lhe foi em 2024, o PT vai precisar mais do RJ para tentar reeleger Lula. Por isso o partido lançaria seu nome a suceder Castro: André Ceciliano, ex-presidente da Alerj.

 

Pragmatismo dos dois lados

Como Garotinho, o PT também tem um pé atrás na possível aliança com Paes. Que, com a maioria bolsonarista entre os fluminenses nas eleições presidenciais de 2018 e 2022, realmente teria mais chances a governador sem abraçar Lula. Pragmatismo de um lado e do outro, Ceciliano no governo pós-Castro garantiria ao presidente o palanque no RJ.

 

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A opção de Castro e as opções da Alerj a governador-tampão

 

Cláudio Castro e Nicola Miccione

 

Apreensão e objetivo de Castro

Aliado de Bacellar, até que este exonerou (confira aqui) o ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis (MDB) da secretaria estadual de Transportes em 3 de julho, o próprio governador Cláudio Castro (PL) receia o que pode estar nos celulares apreendidos. Pré-candidato a senador bem cotado nas pesquisas, para se candidatar, teria que se desligar do governo do RJ até 4 de abril.

 

Miccione como governador-tampão?

Como o blog noticiou na última terça (7), Castro quer (confira aqui) fazer seu secretário da Casa Civil, Nicola Miccione (PL), governador-tampão até 2027. Mas tem algumas pedras no meio do caminho.

 

Vacância na sucessão

Thiago Pampolha (MDB) deixou o cargo de vice-governador para ir (confira aqui) ao Tribunal de Contas do Estado (TCE), em 19 de abril, como o blog detalhou (confira aqui)  10 dias antes. Em dezembro, com o afastamento de Bacellar da presidência da Alerj, quem a assumiu foi o deputado Guilherme Delaroli (PL). Mas, por ser interino, ele está fora da linha de sucessão a governador.

 

Força com e sem a cadeira

Quem assumiria com a renúncia de Castro seria (confira aqui) o presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), desembargador Ribeiro de Castro. Que teria até 30 dias para realizar a eleição indireta a governador na Alerj. Para eleger Miccione, a força de Castro durará enquanto ele estiver na cadeira de governador. Trinta dias depois, essa força é da Alerj.

 

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Bacellar espera definição jurídica para definir rumo em 2026

 

Rodrigo Bacellar e Alexandre de Moraes

 

E Bacellar?

E Bacellar? Como ele e seu grupo irão para as eleições de outubro? Esta semana, foi especulado por sites cariocas que ele poderia concorrer em outubro a deputado federal, para fortalecer a nominata do União. Mas, dele ou de seus aliados, ninguém confirma a intenção.

 

Revés com Moraes

Preso em 3 de dezembro (confira aqui, aqui e aqui) pela Polícia Federal (PF), acusado de vazar informações da prisão do ex-deputado TH Joias em 3 de setembro, por ligação deste com o Comando Vermelho, Bacellar foi solto (confira aqui) em 9 de dezembro. Mas saiu afastado da presidência da Alerj, entre outras medidas cautelares impostas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

 

Licença estratégica

Em 10 de dezembro, Bacellar pediu licença do mandato de deputado estadual. Como a coluna explicou (confira aqui) no dia 13: a licença poderia ser de até 120 dias, mas foi pedida de apenas 10 para emendar com o recesso parlamentar até o carnaval, em fevereiro.

 

Celulares e prisões

Foi (confira aqui) o celular de TH Joias que gerou a prisão de Bacellar. Cujos celulares geraram a prisão, no dia 16, do (confira aqui) desembargador federal Macário Júdice Neto. Que teria passado ao então presidente da Alerj a informação da prisão do deputado faccionado. Celulares de Macário também foram apreendidos pela PF, assim como (confira aqui) do campista Rui Bulhões, ex-chefe de gabinete de Bacellar.

 

Eleitoral espera jurídico

Até que se saiba se todos esses celulares apreendidos gerarão ou não mais operações da PF no RJ, como a Zargun, a Unha e Carne e Unha e Carne 2, Bacellar não tomará nenhuma decisão. Seu futuro político e eleitoral vai esperar sua situação jurídica ficar mais clara.

 

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Garotinho e Sérgio Mendes sob as casuarinas de Chapéu de Sol

 

Anthony Garotinho, Sérgio Mendes, Murillo Dieguez e Thiago Virgílio

 

Reencontro em Chapéu de Sol (I)

Nada como as sombras das casuarinas e o vento nordeste de Chapéu de Sol para curar velhas feridas. Rompidos desde 1995, Garotinho e seu ex-aliado Sérgio Mendes (Cidadania), prefeito de Campos entre 1993 e 1996, se encontram ao acaso na manhã do último sábado (3), caminhando entre Atafona e Chapéu de Sol. E conversaram amistosamente por cerca de 1h30.

 

Reencontro em Chapéu de Sol (II)

Com Garotinho, estava Thiago Virgílio. Com Sérgio, Murillo Dieguez, empresário e colunista da Folha. Os dois também participaram ativamente da conversa. Que girou da política presente, de Campos e do RJ, às memórias do passado comum. Se desafetos não saíram dali aliados, foi um exemplo de civilidade que poderia inspirar este ano eleitoral de 2026.

 

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Wladimir vice de Paes e Garotinho a deputado federal?

 

Wladimir e Anthony Garotinho, Eduardo Paes e Tassiana Oliveira (Montagem: Joseli Matias)

 

Wladimir vice de Paes e Garotinho a federal?

Hoje, a exatos oito meses e 24 dias à urna de 4 de outubro de 2026, o grupo dos Garotinhos tem um plano traçado. O prefeito carioca Eduardo Paes (PSD) anunciaria o de Campos, Wladimir, como vice em sua chapa a governador após o carnaval. Garotinho (REP) viria a deputado federal. Sem a primeira-dama de Campos, Tassiana (PL), se lançar a nada.

 

Garotinho e o verbo

A deputado estadual, os Garotinhos trabalharão pela reeleição de Bruno Dauaire (União) e o presidente da Codemca, Thiago Virgílio (Podemos). Para Wladimir vir a vice de Paes, sairia do PP para o MDB ou o Republicanos do pai. E este, pelo menos por ora, para de bater no prefeito carioca, com quem trocou acusações pesadas, recentemente, nas redes sociais.

 

Contraponto de Bacellar?

Paes e Wladimir se encontraram pessoalmente no Rio, no dia 6. Nos corredores da política carioca, no entanto, há quem diga que o primeiro estaria só enrolando o segundo. Porque com o ex-presidente campista da Alerj Rodrigo Bacellar (União) fora do jogo a governador em 2026, a demanda estratégica por um vice de Campos não existiria mais. A ver.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Felipe Fernandes — Sonhos de trem: o luto entre a natureza e o progresso

 

 

Felipe Fernandes, cineasta publicitário e crítico de cinema

Sonhos de trem: o luto entre a natureza e o progresso

Por Felipe Fernandes

 

Existe uma sensação de tragédia inerente ao protagonista Robert Grainier, personagem central de uma biografia ficcional que acompanha a jornada de um homem comum em busca de algo que nem ele próprio parece compreender. Através dele, observamos também as transformações de um país em franca expansão, num processo de modernização que consome tudo à sua frente.

Baseado no livro de Denis Johnson e roteirizado pela dupla Clint Bentley e Greg Kwedar (responsáveis pelo musical prisional Sing Sing, porém, aqui é Bentley quem assume a direção), o filme se constrói como uma jornada profundamente intimista e melancólica de um lenhador que vive imerso na natureza, em um trabalho pesado e perigoso, enquanto desenvolve uma visão muito particular do mundo ao seu redor.

Preso entre a distância imposta pelo trabalho e o desejo de estar mais presente junto à família que construiu, Grainier carrega uma tristeza que parece constitutiva de sua própria existência. Mesmo nos momentos de alegria ao lado da filha, há sempre um peso latente, sensação que reforça a importância dos instantes singelos e torna essas breves felicidades ainda mais genuínas. É um homem simples, endurecido pelo trabalho e pela vida difícil, evocando o anti-herói introspectivo dos westerns revisionistas, mais interessado na luta interna do que em conflitos externos.

O filme lança um olhar grandioso sobre a natureza. As imagens de árvores centenárias — ao mesmo tempo imponentes e frágeis diante da ganância humana — constroem uma contradição temática particularmente interessante. Nesse aspecto, o longa remete ao western: ainda que substitua desertos e fazendas por florestas e ferrovias, o cenário dialoga diretamente com a paisagem mito-histórica estadunidense típica do gênero.

A fotografia do brasileiro Adolpho Veloso (um dos favoritos a uma indicação ao Oscar) é primordial para a construção dessa atmosfera de beleza e melancolia. Seu trabalho retrata a grandiosidade da paisagem natural ao mesmo tempo em que privilegia a luz natural, buscando reproduzir com fidelidade a iluminação da época. O resultado é um aspecto quase documental, com planos contemplativos, muitos deles visualmente inspirados, explorando ângulos pouco usuais e construindo uma narrativa sensorial poderosa.

A câmera privilegia imagens amplas da natureza, florestas, céu e paisagens vastas, que frequentemente reduzem o personagem à escala do mundo, evidenciando a grandiosidade do ambiente e a fragilidade humana. A escolha por uma razão de aspecto mais vertical (3:2) reforça a imponência das árvores e a sensação de verticalidade constante.

Em determinado diálogo, uma personagem ressalta a importância de tudo o que existe na floresta: cada elemento tem seu valor, seja a árvore em pé ou a árvore morta. Dentro desse processo de modernização, de um progresso que diminui o homem e destrói a natureza em sua expansão, esse olhar atento para o micro em meio ao macro se destaca como um dos aspectos mais instigantes do filme.

Grainier é um homem em compasso de espera, envelhecendo enquanto a vida segue ao seu redor. Lidando com lembranças, luto, medos, solidão e sentimentos densos, ele se vê aprisionado em um tempo de mudanças. As imagens e a trilha sonora potencializam essa melancolia, compondo o retrato de um homem que tenta se conectar com algo que faça sentido ou que lhe ofereça uma nova perspectiva de existência.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Confira o trailer do filme, disponível na Netflix:

 

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Castro quer Nicola Miccione como governador-tampão do RJ

 

Cláudio Castro, Nikola Miccione e Altineu Cortês, na filiação do segundo ao PL para ser o governador-tampão do RJ (Foto: Divulgação)

 

Governador do RJ será Miccione?

Secretário estadual da Casa Civil, Nicola Miccione (PL) é o nome escolhido a assumir como governador do RJ, em mandato tampão, se o titular Cláudio Castro (PL) sair até 4 de abril para se candidatar a senador em outubro. Neste objetivo, Miccione se filiou ao PL em dezembro, com aval de Castro e do presidente estadual da legenda, deputado federal Altineu Cortês.

 

Castro fala grosso

O nome de Miccione terá que ser referendado pela Alerj numa eleição indireta a governador. Mas o atual parece disposto a jogar duro e impor sua escolha. Em ligação com outro pretenso candidato, Castro cobrou seu apoio a este nos últimos anos. E falou grosso: “Faça o que a sua consciência mandar, mas saiba que se continuar nesta posição estará rompido comigo”.

 

À espera de Jair

No PL, Miccione já teria o apoio do senador Flávio Bolsonaro, mas faltaria ainda o endosso do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mesmo preso na Superintendência da Polícia Federal (PF) de Brasília, após ser condenado por tentativa de golpe de Estado, ele ainda se mantém muito popular, sobretudo no RJ. E nada ocorre no PL fluminense sem sua palavra final.

 

O plano A de abril

Castro ficou sem vice quando Thiago Pampolha (MDB) trocou o cargo pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). Foi em 19 de abril (confira aqui), como o blog detalhou (confira aqui) 10 dias antes. O objetivo era que o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União), assumisse como governador na saída de Castro. Para concorrer ao cargo, já na cadeira, contra o prefeito carioca Eduardo Paes (PSD).

 

Plano cai na Unha e Carne

Bacellar saiu do tabuleiro da sucessão após ser preso (confira aqui, aqui e aqui) em 3 de dezembro pela operação Unha e Carne da PF. E não teve como voltar após ser solto no dia 9, mas (confira aqui) afastado da presidência da Alerj. Com tornozeleira eletrônica, entrega de passaporte e recolhimento residencial à noite, entre as medidas cautelares que lhe foram impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

 

Plano B

Como o novo presidente da Alerj, Guilherme Delaroli (PL), por ser interino, não poderia assumir como governador, quem assumiria provisoriamente, na saída de Castro até abril, seria (confira aqui) o presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), desembargador Ricardo Couto de Castro. Que terá até 30 dias para realizar a eleição indireta a governador na Alerj.

 

Os celulares no meio do caminho

Miccione não poderia tentar se reeleger governador em outubro. O que facilitaria a vida de Paes, favorito em todas as pesquisas ao cargo. O plano de Castro parece bem montado. Só que ninguém saber o que ainda sairá dos celulares apreendidos (confira aqui) de Bacellar, do seu ex-assessor Rui Bulhões (confira aqui) e do desembargador federal Macário Neto, preso pela PF (confira aqui) desde o dia 16. A ver.

 

Publicado na Folha da Manhã.

 

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