Pego de surpresa por panelaços contra Dilma, PT os atribui à oposição e teme 2013

 

 

 Por Andréia Sadi

 

Pegos de surpresa com o panelaço em razão do pronunciamento de Dilma Rousseff na TV neste domingo (8), dirigentes petistas temem que o ato contra o governo marcado para o dia 15 repita as manifestações de junho de 2013.

A principal preocupação é com São Paulo, onde se concentraram os protestos e reações ao PT e à presidente. Nas palavras de um aliado de Dilma, desta vez, em vez de “20 centavos”, o sentimento de mudança está agora centrado no poder central.

Durante o pronunciamento, houve buzinaço, panelaço e vaias em ao menos 12 capitais: São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Vitória, Curitiba, Porto Alegre, Goiânia, Belém, Recife, Maceió e Fortaleza. Nas janelas dos prédios, moradores batiam panelas, xingavam a presidente, enquanto piscavam as luzes dos apartamentos.

Petistas ouvidos pela Folha atribuem o desgaste de Dilma ao abandono da agenda política pelo governo. Na avaliação destes interlocutores, o Planalto apresentou uma agenda em junho e prosseguiu com as políticas públicas, mas perdeu a comunicação com a população.

No governo, um ministro diz que a tensão nas ruas se deve ao fato de que “ainda não saímos de outubro”, referindo-se ao período eleitoral. Dilma ganhou a eleição presidencial por uma margem apertada contra o tucano Aécio Neves (MG).

Alguns petistas tentaram minimizar o panelaço e defendem nas redes que os protestos se concentraram em áreas nobres, onde estão localizados eleitores da oposição. No entanto, integrantes do governo e membros da cúpula petista avaliam a estratégia como “fraca e defensiva”, ignorando o significado político da reação.

 

Oposição 

Em nota divulgada em seu site nesta segunda-feira (9), o PT afirmou que a mobilização pode ter apoio de partidos de oposição.

“Tem circulado clipes eletrônicos sofisticados nas redes, o que indica a presença e o financiamento de partidos de oposição a essa mobilização”, disse o secretário nacional de Comunicação do PT, José Américo Dias.

Para Alberto Cantalice, vice-presidente e coordenador das redes sociais da legenda, a manifestação tem ligações com outras reações oriundas de setores que pretendem um golpe contra o governo Dilma. “Existe uma orquestração com viés golpista que parte principalmente dos setores da burguesia e da classe média alta”, afirmou.

Para o PT, o movimento foi realizado por moradores de bairros de classe média como Águas Claras, no Distrito Federal, Morumbi e Vila Mariana, em São Paulo, e Ipanema, no Rio, mas que não se repercutiu em áreas populares e perdeu o alcance.

“A comprovação do curto alcance do protesto veio pelas próprias redes. A hashtag #DilmadaMulher, em apoio à presidenta, tornou-se uma das mais usadas pelos internautas e entrou para o trending topics do Twitter, durante a fala da presidenta em cadeia nacional de rádio e tevê”, diz o partido.

 

Ajuste

No pronunciamento, a presidente Dilma Rousseff defendeu o ajuste fiscal, pediu apoio da população e do Congresso na implementação de medidas que afetam a “todos” e disse que as críticas contra o governo são “injustas”.

Segundo a petista, o ajuste é uma medida tomada “corajosamente”. “Mesmo que isso signifique alguns sacrifícios temporários para todos e críticas injustas e desmesuradas ao governo”, afirmou.

Em sua fala, Dilma chamou o ajuste de “travessia”. Negou que irá “trair” a classe média e os trabalhadores, mas anunciou que todos pagarão pelas medidas. “Absorvemos a carga negativa até onde podíamos e agora temos de dividir parte deste esforço com todos os setores da sociedade.”

A defesa, conforme a Folha antecipou, ocorreu na fala sobre o Dia da Mulher -sobre o tema, anunciou que irá sancionar nesta segunda (9) o projeto que considera assassinato de mulher um crime sujeito a penas mais severas.

Dilma retomou a narrativa segundo a qual o país está sob impacto da crise internacional iniciada em 2008.

Ela disse que o Brasil tem “fundamentos sólidos” e que “nem de longe [o país] está vivendo uma crise nas dimensões que dizem alguns. Muito diferente daquelas crises do passado, que quebravam e paralisavam o país“.

A presidente fez ainda uma crítica à mídia pela forma com que descreve a economia — as previsões são bastante pessimistas para 2015, com todos os indicadores apontando o risco de uma recessão, a inflação namorando os 8% anuais e o emprego dando sinais de arrefecimento.

“Noticiários são úteis, mas nem sempre são suficientes. Muitas vezes nos confundem mais do que nos esclarecem.”

Ainda assim, admitiu que a situação é preocupante. “Você tem todo direito de se irritar e de se preocupar”, disse, após elencar que o país vive a “segunda etapa” da crise, agravada pela seca no Sudeste e no Nordeste.

Fez então o tradicional apelo por união de governantes. “Peço a você que nos unamos e que confiem na condução deste processo pelo governo, pelo Congresso.”

A menção ao Parlamento reflete as dificuldades que o governo enfrenta nas Casas dominadas por um PMDB cada vez mais arredio, com seus dois presidentes culpando o Planalto pela sua inclusão na lista de investigados da Operação Lava Jato, que apura corrupção na Petrobras.

Na semana passada, por exemplo, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), devolveu a medida provisória que mudava o regime de desoneração de folha de pagamento de vários setores e obrigou o governo a enviar um projeto de lei, atrasando a iniciativa, parte do ajuste fiscal, em vários meses.

Nesta semana, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), deve decidir se abre a CPI do setor elétrico. Além disso, a Casa tende a derrubar o veto de Dilma à lei que corrige em 6,5% a tabela do Imposto de Renda.

Dilma lembrou que em 2003 o então presidente Lula também teve de promover um ajuste fiscal e que “depois tudo se normalizou”, sem citar, contudo, que o ambiente externo foi excepcionalmente favorável ao Brasil naquela época, ao contrário de agora.

Sobre a Lava Jato, defendeu a “apuração ampla”.

 

Publicado aqui, na folhadesaopaulo.com

 

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Vaias e panelaços se multiplicam nas cidades brasileiras durante pronunciamento de Dilma

Por Débora Bergamasco

 

 

Brasília — A presidente Dilma Rousseff usou o pronunciamento em rede nacional pelo Dia Internacional da Mulher para fazer uma longa defesa ao ajuste fiscal e dizer que a economia do País só deve começar a melhorar a partir do fim do ano. Afirmando que o governo está usando “armas diferentes e mais duras” das que foram utilizadas na primeira fase da crise, em 2008, ela ressaltou que todos terão de fazer “sacrifícios temporários” e arrematou dizendo que são suportáveis porque tem “o povo mais forte do que nunca”.

Durante o pronunciamento — a transmissão começou às 20h40 no horário de Brasília e se estendeu por 16 minutos — houve protestos em diversas cidades do País. Pessoas foram às janelas gritar “Fora Dilma”.

Em São Paulo, xingamentos se misturavam com panelaços em bairros como Higienópolis, Perdizes, Aclimação, Ipiranga, Lapa, Moema, Vila Marina, Mooca e Santana. Também houve protestos em bairros de Brasília e Belo Horizonte, onde os gritos e xingamentos contra a presidente e panelaços se repetiram. Muitos acendiam e apagavam as luzes durante o discurso.

À tarde, grupos favoráveis ao impeachment de Dilma espalharam mensagens por celular convocando o protesto. Nas redes sociais, o grupo Revoltados Online, por exemplo, também fez convocações para o panelaço.

 

Discurso

No pronunciamento, Dilma deu prazo para o aperto. “Este processo (de ajuste) vai durar o tempo que for necessário para reequilibrar a nossa economia”, afirmou, prevendo os primeiros resultados “já no final do segundo semestre”. Dilma declarou que “a carga negativa”, até agora absorvida pelo governo, agora será dividida “em todos os setores da sociedade”.

O escândalo das suspeitas de corrupção na Petrobrás, que vem monopolizando o noticiário, foi mencionado rapidamente e apenas no fim de sua fala. Ela frisou que a investigação das denúncias de corrupção na estatal é “ampla, livre e rigorosa”. Com isso, buscou responder as acusações que vem sofrendo não só por parte de adversários como de parlamentares da base aliada de que seu governo tenta interferir nas apurações da Operação Lava Jato.

“Com coragem e até sofrimento, o Brasil tem aprendido a praticar a justiça social em favor dos mais pobres, como também aplicar duramente a mão da justiça contra os corruptos. É isso, por exemplo, que vem acontecendo na apuração ampla, livre e rigorosa nos episódios lamentáveis contra a Petrobras”, afirmou em cadeia de rádio e TV.

O pronunciamento foi gravado na manhã de quinta-feira, um dia antes da publicação da lista de pessoas que serão investigadas por suspeita de corrupção relacionada à petroleira.

 

Arrocho

No discurso, Dilma passou a maior parte do tempo explicando e defendendo o ajuste fiscal que está sendo implementado no Brasil – que trata do corte de despesas e de investimentos, redução de parte de programas sociais, mudanças nas regras para acesso a benefícios trabalhistas, correção na tabela do imposto de renda. Para executar parte das medidas, o Poder Executivo precisa de aprovação pelo Congresso Nacional, com o qual está passa por uma crise de relacionamento.

A petista classificou como corajosa a decisão de assumir o ajuste fiscal mesmo que isso lhe renda desaprovação. “Decidimos corajosamente mudar de método e buscar soluções mais adequadas ao atual momento. Mesmo que isso signifique alguns sacrifícios temporários para todos e críticas injustas e desmesuradas ao governo.”

Dilma também culpou a seca nas regiões Nordeste e Sudeste e a piora da conjuntura internacional pelo aumento dos custos para os consumidores e as mudanças de rumo em sua gestão econômica. E sugeriu que a imprensa tenta transformar a crise em algo mais grave do que realmente é. “Os noticiários são úteis, mas nem sempre são suficientes. Muitas vezes até nos confundem mais do que nos esclarecem” . afirmou. Retomando a positividade exibida durante sua campanha eleitoral no ano passado, Dilma também viu pessimismo por parte de integrantes da sociedade. “O Brasil passa por um momento diferente do que vivemos nos últimos anos. Mas nem de longe está vivendo uma crise nas dimensões que dizem alguns.”

 

Publicado aqui, no estadao.com

 

Abaixo a já habitual montagem em sátira de Lula como Hitler, no filme alemão “A queda”, com as supostas reações do ex-presidente (do Brasil) às medidas de arrocho destinadas ao povo brasileiro tomadas por sua sucessora, seguido da reação real deste mesmo povo em várias cidades do país, sem nenhuma brincadeira, ao pronunciamento de Dilma:

 

 

 

Gutierrez, Belo Horizonte (MG)

 

 

 

Av. Sumaré, São Paulo (SP)

 

 

 

Bairro de Águas Claras, Brasília (DF)

 

 

 

Goiânia (GO)

 

 

 

Jardim Marajoara, São Paulo (SP)

 

 

 

Morumbi, São Paulo (SP)

 

 

 

Gutierrez, Belo Horizonte (MG)

 

 

 

Brasília (DF)

 

 

 

Praia do Canto, Vitória (ES)

 

 

 

Bairro Asa Norte, quadra 203 (Brasília)

 

 

 

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Um beijo pelo dia

“La columna rota” (1944), óleo de Frida Kahlo (1907/54) — Museu Dolores Olmedo
“La columna rota” (1944), óleo de Frida Kahlo (1907/54) — Museu Dolores Olmedo (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

No meu primeiro poema feito para uma mulher, lá se vão quase 20 anos, quando para mim elas ainda eram menos carne que imaginação, o desejo do melhor dos dias a todas…

 

beijo

 

beijo beijado na mente mil vezes

em década de desejo resignado

consumado quando menos se espera

sem saber se de alô ou adeus

sem certeza ou finalidade

apenas línguas roçando nervosas

como pipas cruzando no espaço

 

campos, 12/01/96

 

 

 

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Crítica de cinema — Para rir da própria cara

Caixa de luzes

 

 

 

Birdman

 

 

Mateusinho 5Birdman — Com “Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância)”, o mexicano Alejandro González Iñarritu ganhou de uma só vez, no Oscar 2015, os três prêmios mais importantes para um cineasta: filme, direção e roteiro original — que assinou junto com o estadunidense Alexander Dinelaris e os argentinos Nicolás Giacobone e Armando Bó. De quebra, com o craque Emmanuel Lubezki, outro mexicano, o filme ainda levou a estatueta de melhor fotografia. Seu mais forte concorrente nesta categoria, o polonês “Ida” teve que se contentar com o Oscar de melhor filme estrangeiro.

Iñarritu impressionou mundialmente já em seu primeiro longa, o explosivo “Amores brutos” (2000), que lançou o ator mexicano Gabriel García Bernal e veio ainda reverberando o impacto profundo que Quentin Tarantino causou no cinema do mundo, sobretudo nos jovens diretores, a partir dos anos 1990. Cartão de visitas apresentado, o mexicano teria abertas para si as portas de Hollywood, onde se afastou da violência gráfica de Tarantino ao dirigir os reflexivos “21 Gramas” (2003) e “Babel” (2006), antes de voltar a filmar novamente em espanhol, com “Biutiful” (2010), outro filme “cabeça”, estrelado por Javier Barden.

Mas se começou na esteira de Tarantino e dela se afastou, é um dos elementos mais caros ao diretor estadunidense que faz a diferença no novo filme do cineasta mexicano: a metalinguagem. Em “Birdman”, Iñarritu usa o cinema para dialogar não só com o cinema, mas com a sua própria condição de pilar da sociedade do entretenimento, na qual é contraposto à arte que o cinema, não sem razão, sempre foi acusado de copiar: o teatro.

Michael Keaton é Riggan Thomson, ator veterano que no passado atingiu a condição de astro de Hollywood ao interpretar o super-herói Birdman, mas desistiu da franquia no auge do sucesso, caiu no ostracismo e agora pretende dar a volta por cima ao adaptar para o teatro da Broadway um conto do escritor Raymond Carver. Ele também dirige e estrela a peça, na qual investiu tudo que restou da fortuna das bilheterias de cinema de um passado que, na pele do próprio Birdman, volta para atormentá-lo como alter ego, tentando seu criador com a possibilidade de um retorno triunfante ao personagem, numa típica sequência blockbuster hollywoodiana, enquanto assiste a tantos outros fazerem sucesso com as franquias de super-heróis.

Qualquer coincidência de Riggan Thomson com o próprio Michael Keaton, em outra metalinguagem escancarada do roteirista-diretor, não é mera semelhança. Na vida real, o ator protagonizou o Homem Morcego para abrir o filão dos filmes de super-heróis em Hollywood, com “Batman” (1989) e “Batman — O retorno” (1992), ambos dirigidos por Tim Burton. E depois de ganhar rios de dinheiro e abrir mão de fazer a sequência (“Batman eternamente”, de 1995, dirigido por Joel Schumacher e estrelado por Val Kilmer), a verdade é que os papéis mais relevantes de Keaton foram como dublador nas animações “Carros” (2006), de John Lasseter; e “Toy Story 3” (2010), de Lee Unkrich.

Além de Keaton, quem também brilha nos palcos e coxias levados à tela são Edward Norton e Emma Stone, indicados com justiça ao Oscar de ator e atriz coadjuvantes. Ela interpreta Sam Thonson, filha de Riggan e sua assistente de direção, dependente química em recuperação, inteligente e ressentida da ausência do pai na infância. Por sua vez, depois de também atuar numa franquia de super-herói, protagonizando “O incrível Hulk” (2008), de Louis Leterrier, e de ter andado meio sumido de lá para cá, Norton aparece na pele do típico ator novaiorquino de teatro Mike Shiner, ególatra, arrogante, irascível, mas inegavelmente talentoso.

Com a câmera quase sempre no ombro de quem filma, Inãrritu usa e abusa do plano sequência, com poucos cortes, imprimindo um caráter documental só quebrado pelo refinamento da fotografia de Lubezki e pelo surrealismo dos delírios entre Riggan e Birdman. Sua crítica à sociedade big brother de si mesma e do próximo, nos EUA, no México, ou no Brasil, é mordaz, e dela não escapam nem os críticos como este que escreve. Sátira social tão contundente quanto “O show de Truman” (1998), do mestre australiano Peter Weir, “Birdman” é mais atual, por englobar todos os recursos presentes de bisbilhotagem e celebrização do universo virtual, sempre confrontados pela realidade como a cara de quem mergulha contra o muro chapiscado.

Cinema dentro do cinema, passando pelo teatro, na tal da metalinguagem, está longe de ser novidade, desde que Shakespeare usou uma peça dentro da peça, em 1589, para revelar o autor do fraticídio do rei, em “Hamlet”, a maior das tragédias. Na máscara oposta da comédia, “Birdman” vale o Oscar e o ingresso. Só não vale sair do cinema considerando virtude ignorar que se riu da própria cara.

 

Mateusinho viu

 

 

Publicado hoje da Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

 

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“Guardem exército e porradas para o videogame. Desbloqueiem o caminho do país real”

tudo bloqueado

 

 

Fernando Gabeira
Jornalista Fernando Gabeira

Tudo bloqueado

Por Fernando Gabeira

 

Um amigo no exterior me perguntou se no Brasil estava tudo dominado. Referia-se ao habeas corpus dado por Teori Zavascki a Renato Duque, indicado do PT na Petrobras. Dominado não sei, respondi. Mas, naquele momento, estava tudo bloqueado: as estradas, pelos caminhoneiros, as contas bancárias, pela Justiça. Tantos bloqueios que a conta do ex-governador petista de Brasília, Agnelo Queiroz, foram bloqueadas duas vezes na mesma semana. Há bloqueio na relação Dilma-Congresso, e bloquearam o juiz que bloqueou os bens de Eike Batista.

O bloqueio se estendeu às cabeças: Washington Quaquá, um dirigente do PT fluminense, afirmou (aqui) que daria porradas nos burgueses. Lula disse que chamaria o exército dos sem-terra para as ruas.

Às vezes temo que minha visão também fique bloqueada. Mas encaro esse movimento como a busca do golpe perfeito. O governo do PT arruinou a Petrobras, quer que os empreiteiros fiquem presos e que os sem-terra levem e deem porrada para defendê-lo. Em ruas indignadas com a corrupção, será difícil evitar os conflitos.

Bloqueados os caminhos para entender o assalto à casa do procurador Janot nas vésperas de apresentar a denúncia. Ele se limitou a dizer que os assaltantes estiveram por oito minutos em sua casa. Nada levaram de valor, apenas o controle remoto do portão. Se um grupo entra na casa de um procurador e não rouba nada, está apenas querendo dizer que entra quando quiser. E se leva o controle remoto do portão é apenas para mostrar como é inútil, pois conseguiram entrar sem ele. Ou será que seriam tolos o suficiente para acreditar que o controle remoto continuaria a abrir o portão depois do assalto?

O bloqueio mental se estende a Dilma. Ela despachou o embaixador da Indonésia pela porta lateral, como se fosse o entregador de pizza. O homem estava vestido com roupas típicas de seu país e compareceu na data marcada para apresentar credenciais.

Ninguém do Itamaraty percebeu essa grosseria. Ninguém no Congresso foi à embaixada da Indonésia pedir desculpas. Apagão diplomático. A política foi conduzida, nesse caso, por reflexos de uma dona de casa estressada. E ainda temos um brasileiro no pelotão da morte na Indonésia, compras de avião da Embraer que podem ser suspensas.

O bloqueio maior é na convivência política. A filósofa Marilena Chaui disse uma vez que odiava a classe média. Quaquá vai dar porrada em burgueses. Onde vai encontrá-los? Nos restaurantes de luxo nas ilhas do litoral de Angra? Quem é classe média? Vão atacar as lojas de conveniência nas noites de sábado, as academias de pilates?

Tudo muito confuso. CGU e TCU, provavelmente mais alguma coisa terminada em u, preparam um acordo de leniência. Os empreiteiros pagam multa e voltam a realizar obras públicas.

Enquanto isso, o BNDES estuda um empréstimo de R$ 31 bilhões para as empreiteiras. Com essa grana, pagam a multa e ainda podem mandar um pouco para os partidos do governo. E essa grana vai para os marqueteiros, que inventarão outros heróis do povo brasileiro, corações valentes e outras babaquices eleitorais. É assim que a banda vai tocar? Desta vez não só há um grande volume de informações como também a reação externa.

Romper com a opinião pública interna e com financiadores internacionais não é uma boa tática. Sobretudo no momento em que vivemos uma crise em que a falência do modelo aparece a cada novo indicador econômico.

Avançamos, desde o fim da ditadura. Houve confrontos, como o dos petistas com Mário Covas, operações extremas, como a dos aloprados em 2006. Em vez de se abrir para reparar os graves erros na economia e na política, Lula convoca um exército, como se acabassem os argumentos e o confronto fosse a única saída para o impasse que o próprio PT criou.

Transformar adversários políticos em inimigos significa uma regressão. Nosso processo democrático já havia superado esse estágio. O insulto a pessoas em busca de ajuda médica, como foi o caso da mulher de Mantega, é injustificável. Mas partiu de pessoas sem responsabilidades com o processo político. Assumir um tom de guerra à frente de um partido, como fizeram (aqui) Lula e Quaquá, parece-me um ato de desespero. É uma ilusão intimidar para se defender.

Domingo que vem é 15 de março. Manifestações de protesto estão marcadas. O PT marcou a sua para defender o governo e a Petrobras que ele mesmo arruinou. Mas vai fazê-lo dois dias antes. Melhor assim. Vamos deixar que tudo aconteça, sem ameaças, sem porradas. Que o país se expresse em paz e que seja honrado o legado coletivo desses anos de democratização.

Falaram tanto na campanha eleitoral: filmes, lendas, imagens de um Brasil paradisíaco que fabricaram. Agora é hora de ouvir um pouco o que pensam as pessoas. Guardem exército e porradas para o videogame. Desbloqueiem o caminho do país real.

 

Publicado aqui, no Blog do Gabeira

 

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Partido dos Trabalhadores posto contra a parede pelos trabalhadores

bolsa palhaço

 

 

Poeta Ferreira Gullar
Poeta Ferreira Gullar

No reino do faz de conta

Por Ferreira Gullar

 

Espero que o leitor me desculpe por voltar com frequência às questões relacionadas ao governo federal e, inevitavelmente, com a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT.

Isso é, porém, inevitável, uma vez que o país vive um momento crítico, que se agrava a cada dia, enquanto os principais responsáveis pela crise insistem em se fazer de vítimas. Vítimas de uma conspiração inexistente, inventada por eles.

Essa é uma atitude preocupante, já que o que está em jogo é a situação econômica e também social do país, cujo agravamento é indisfarçável e cujas consequências podem se tornar mais graves, se os responsáveis pelo governo do país insistirem em fingir que ela não existe.

Ou, pior, que é mera conspiração de adversários políticos — ou seja, a imprensa e a Justiça.

Na verdade, o que o governo pretende ocultar é que tanto os escândalos envolvendo a Petrobras quanto o desequilíbrio que afeta a economia são consequências dos erros cometidos pelas gestões petistas e, principalmente, pela arrogância da presidente da República.

Muito antes de assumir a chefia do governo, quando era ministra de Minas e Energia, opunha-se à linha econômica adotada por Antonio Palocci, que seguia programa do governo Fernando Henrique Cardoso.

Ela insistia na linha populista, que terminou sendo adotada por Lula e ampliada por ela ao se tornar presidente. A redução dos preços dos combustíveis –que criou um rombo financeiro na Petrobras — obriga-a a aumentá-los agora, quando a situação econômica o exige, mas para descontentamento geral.

Não é por acaso que os caminhoneiros paralisaram o país, levando ao aumento dos preços dos alimentos, sem falar nas outras consequências.

Ninguém diria que o governo do Partido dos Trabalhadores seria posto contra a parede pelos próprios trabalhadores.

Os caminhoneiros exigiam a redução do preço do diesel, coisa que o governo não pode fazer, a menos que decida agravar ainda mais a situação da Petrobras.

O que se vê, portanto, é que a redução demagógica do preço dos combustíveis — aliada a outras medidas igualmente populistas, às custas dos impostos que vinham sendo aumentados progressivamente — teria que dar o resultado que deu.

Como já haviam afirmado os entendidos no assunto, a política econômica fundada no consumismo dá sempre em desastre.

Mas foi graças a isso que Lula e sua turma se mantiveram no poder durante todo este tempo.

Só que a hora do desastre chegou e, junto com ela, os escândalos do Petrolão, que não param de crescer, com novas revelações e novas propostas de delações premiadas. Já imaginou o que os executivos da Camargo Corrêa (aqui) vão revelar?

Por tudo isso, torna-se impossível prever o que vem por aí. Quando os advogados das empreiteiras buscam o ministro da Justiça para que ele intervenha na Lava Jato, contrariando a lei, é que eles mesmos já não sabem o que fazer.

Pior: a surpreendente atitude de Renan Calheiros (PMDB-AL), devolvendo ao Planalto a medida provisória do ajuste fiscal, deixa evidente a fraqueza política do governo.

Diante de tamanha encrenca, nem o espertalhão do Lula sabe o que fazer. Tanto é verdade, que teve a coragem de, mais uma vez, inventar uma manifestação em defesa da Petrobras. Logo ele que nomeou e manteve nos cargos principais da empresa quem a saqueou?

Isso, de certo modo, me faz lembrar o presidente da Venezuela, o farsante Maduro, que diz se comunicar com o falecido Hugo Chávez com a ajuda de um passarinho.

Como Lula, ele sabe que afirmações como essas não podem ser levadas a sério, a não ser por débeis mentais. Lula não chega a esse nível de surrealismo, mas abusa da inteligência alheia quando promove atos públicos em defesa da empresa que ele e sua gente saquearam.

Talvez seja por isso que, vendo que quase ninguém ainda acredita em tais lorotas, outro dia perdeu a cabeça e, para tentar intimidar os adversários, ameaçou (aqui) pôr nas ruas o “exército de Stédile”.

Creio que ninguém sabia que esse já um tanto esquecido líder dos sem-terra possui um exército. Vai ver que é o famoso exército de Brancaleone.

 

Publicado aqui, na folhadesaopaulo.com

 

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“Estrangulamento financeiro de Campos é fruto do desgoverno de um líder em decadência”

Aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, o economista Ranulfo Vidigal dá sequência à analogia do colega Wilson Diniz, analista do jornal carioca O Dia, na qual compara a Campos dos Garotinho à Venezuela de Hugo Chávez e Nicólas Maduro. Como domingo é dia indicado à reflexão, confira:

 

Chávez Garotinho

 

Modelo venezuelano dos Garotinhos

(Enfoque conjuntural da crise de governabilidade)

layout• Para analisar atual crise de governo da cidade campista, onde os Garotinhos implantaram o modelo venezuelano de políticas públicas com distribuição de rendas compensatórias — Cheque Cidadão —, esgotado em decorrência da atual conjuntura internacional da queda do preço do barril do petróleo, recorro à historiadora americana Barbara W. Tuchman para explicar a falência política dos últimos seis anos do governo que está de plantão.

• No livro, “A Marcha da Insensatez — De Tróia ao Vietnã”, a historiadora faz relato minucioso de líderes mundiais que foram a ruínas por falta de sabedoria, quando agem de forma contrária àquela apontada pela razão em função de seus projetos movidos pela ganância e ambição desmedida.

• Pergunta-se, por que Napoleão, depois Hitler, em sequência invadiram a Rússia sem considerar os desastres sofridos pelos respectivos predecessores? Por que Roboão, rei de Israel, filho de Salomão, não ouviu o clamor do povo e cometeu ato de insensatez dividindo a nação perdendo para sempre as dez tribos do norte, em conjunto chamada de Israel.

• Todos estes líderes entraram em processo de final de ciclo político que o levaram ao desgoverno e queda, pois optaram pela opressão, loucura ou ambição desmedida, incompetência e decadência, e por último, insensatez ou obstinação.

• Os teoremas da historiadora relatam que o homem vem realizando maravilhas em todos os campos da ciência, mas na arte de governar como confessou Johan Adams, o segundo presidente norte-americano, hoje, se avançou um pouco mais do que há três ou quatro milênios.

• Barbara cita estadistas que marcaram a humanidade. Sólon de Atenas, talvez o mais sábio de todos os governantes, escolhido magistrado-chefe, VI a.C, em época de crise de inquietação política, fez reformas, equalizou as dívidas, reduziu o trabalho escravo, enfim, negociou com a sociedade num amplo acordo de classes sociais, pois não tendo participado do sistema opressivo instituído pelos ricos e como não apoiava, tampouco, a causa dos pobres, desfrutando por ser homem de recursos, delegou poderes, comprou um navio e passou dez anos viajando mundo afora.

• As teorias da historiadora podem ser adaptadas a qualquer nação, país, estado ou a um governante de um pequeno município, como Campos que é governado por um grupo político em que todas as variáveis de “DESGORVENOS” estão vindas à baila depois de várias gestões da cidade liderada por um único comando da cidade utilizando métodos opressivos de governo centralizado e de se articular para se manter eternamente no poder com suas políticas populistas replicadas do governo venezuelano.

• A atual prefeita interpreta o papel de atriz coadjuvante dirigida pelo ator principal, seu marido, que tem como único compromisso fazer da sociedade campista trampolim para alimentar seus devaneios de ocupar espaço político no plano nacional, esquecendo o povo da cidade e aniquilando as finanças, e mais, destruindo todos os setores da economia porque centraliza no caixa da prefeitura valores de quase R$ 2.5 bilhões de reais sem gerar uma única vaga no mercado de trabalho do setor industrial da cidade.

• O estrangulamento financeiro da prefeitura, não só é consequência da crise conjuntural decorrente da queda do preço do petróleo, mas principalmente pelo desgoverno implantado pelo líder supremo que em decadência no plano nacional, volta a ocupar o assento da prefeita para colocar em prática suas políticas de cunho pessoal.

• O projeto político do líder maior faliu. Com queda de receitas projetada que chegam a quase R$ 900 milhões, a sustentação de 1714 cargos com gratificações, com 533 salários médios de R$ 6.300 reais tornaram-se insustentável.

• A distribuição de 21 mil cheques de R$ 200 reais consome quase R$ 50 milhões das receitas correntes e R$ 70 milhões na conta transporte inclui o subsídio da tarifa a R$ 1 real. Completando o quadro caótico, estima-se que 3000 terceirizados simpatizantes dos Garotinhos foram demitidos.

• Na conta administração que são gastos mais de R$ 600 milhões em média nos últimos seis anos, 43% são com despesas de pessoal, do restante parte é de manejo e de interesse do líder que centraliza as decisões dos gastos.

• O número de secretárias supera o de cidades com o dobro da população de Campos e de até de alguns estados do Nordeste.

• A Câmara dos Vereadores, com seu prédio em estilo de arquitetura romana, 25 vereadores custam R$ 30 milhões de reais, e mais, a maioria são atores políticos comandados pelo líder maior para aprovar as contas de governo, quando na realidade estão ali para defender os interesses da sociedade de Campos que os elegeu.

• No sistema de transportes urbano, os coletivos são semelhantes à de países como da América Latina, de péssima qualidade.

• Concluído, todas as variáveis que caracteriza o “DESGOVERNO” segundo a historiadora americana fotografam o ‘ modelo venezuelano aplicado pelos Garotinhos em Campos.

• Campos tem jeito, mas depende de uma imprensa alternativa independente sem ser manipulada pelos caprichos do governante que está de plantão.

De Wilson Diniz, economista e analista político

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Petrolão: Quem pagou, quem recebeu, quanto foi

info estadão
Infográfico do Estadão

 

 

Por Daniel Bramatto e Rodrigo Burgarell

 

Pelo menos 20 dos políticos que serão alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal por envolvimento na Operação Lava Jato receberam, em 2014, doações eleitorais registradas de empreiteiras acusadas de formar um cartel para superfaturar obras da Petrobrás. Foram quase R$ 14 milhões, distribuídos a candidatos a governador, senador e deputado federal.

Das 16 empresas que, segundo as investigações da Polícia Federal, teriam participação no cartel, sete fizeram contribuições diretas às campanhas de políticos envolvidos no escândalo.

A lista de contemplados com doações pode aumentar, já que governadores eleitos também serão alvo de pedidos de abertura de inquérito — seus casos serão analisados pelo Superior Tribunal de Justiça. A relação tampouco desvenda todas as apostas eleitorais das empreiteiras. O levantamento do Estadão Dados se limita à disputa de 2014 porque, antes disso, as empresas podiam fazer as chamadas doações ocultas, nas quais era impossível rastrear as conexões entre financiadores e financiados. Alguns dos investigados — entre eles o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) — foram eleitos em 2010 e não concorreram na disputa do ano passado.

 

Beneficiados

O ranking de contribuições em 2014 é encabeçado por três candidatos a governador, cujas campanhas são mais caras — além disso, se eleitos, eles têm poder de decisão sobre a alocação de recursos para obras, tema de interesse direto das empreiteiras. Os primeiros da lista são os senadores Lindbergh Farias (PT-RJ), Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Benedito de Lira (PP-AL), que concorreram aos governos do Rio de Janeiro, do Paraná e de Alagoas, respectivamente. Nenhum deles foi eleito em 2014. Todos voltaram, portanto, aos seus mandatos no Senado.

Os outros postos são ocupados por 17 deputados e senadores investigados e contemplados por doações do cartel. Nesse bloco, o PP se destaca: 12 dos parlamentares (70,6% do total) são filiados ao partido. Os demais nomes são do PT (3), do SD (1) e do PSDB (1).

Quando o que se observa não é o volume das contribuições, mas o número de financiadores, o primeiro colocado é o senador tucano Antonio Anastasia, ex-governador de Minas Gerais. Ele recebeu doações de cinco das empreiteiras acusadas de formar o cartel da Petrobrás.

 

Concentração

Três das empreiteiras da lista são responsáveis por dois terços das doações eleitorais aos políticos agora investigados: UTC Engenharia, Construtora Queiroz Galvão e Galvão Engenharia, nessa ordem. As duas primeiras fizeram, cada uma, doação de valor idêntico à campanha do petista Lindbergh Farias: R$ 1,425 milhão.

As doações da Queiroz Galvão foram as mais abrangentes: chegaram a 10 dos 20 políticos da lista do Supremo. A seguir aparecem OAS e UTC, com oito e sete financiados, respectivamente.

No total, o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, determinou na sexta-feira a abertura de investigação criminal sobre 50 pessoas, entre elas 22 deputados federais, 12 senadores e o vice-governador da Bahia, João Leão (PP). Estão na lista cinco ex-ministros do governo Dilma Rousseff (Aguinaldo Ribeiro, Mário Negromonte, Edison Lobão, Gleisi Hoffmann e Antonio Palocci).

O procurador geral da República, Rodrigo Janot, havia pedido ao STF a abertura de 28 inquéritos, mas foi atendido apenas parcialmente. Zavaski, que é o relator do caso Lava Jato no Supremo, determinou a abertura de 21 investigações formais, a maioria por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

Segundo Janot, integrantes do PP e do PMDB, ambos da base do governo, eram abastecidos por recursos desviados de contratos firmados por empreiteiras com a Diretoria de Abastecimento da Petrobrás. Da Diretoria de Serviços da estatal, ainda de acordo com o procurador-geral, saíam recursos que eram direcionados a políticos do PT.

 

Publicado aqui e aqui, no estadao.com

 

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O mapa do crime está aí. Basta imprimi-lo. Que o Supremo seja supremo

Jornalista Mary Zaidan
Jornalista Mary Zaidan

E se essa lista criar novos delatores?

Por Mary Zaidan

 

Pronto. A tão esperada lista dos políticos envolvidos na roubalheira da Petrobras veio a público (aqui) na noite de sexta-feira. Com algumas estranhezas, como a fartura de 32 integrantes do PP, a relação, de imediato, pouco mexeu na acelerada pulsação do Congresso. Mas a taquicardia por lá, e também no Planalto, continuará fora de controle. Até porque com mais gente na mira abrem-se fartas possibilidades de traições e novas trincheiras para se percorrer a trilha da dinheirama.

Como em qualquer caso de polícia, os caminhos do dinheiro unem os criminosos aos beneficiários do crime – os que mandam executar e nunca sujam as próprias mãos.

Os rastros costumam valer mais do que o número de gente metida na encrenca. Percorrê-los tem sido a obsessão dos investigadores da Operação Lava Jato. E passam a ser agora tarefa primeira das investigações e diligências autorizadas pelo ministro Teori Zavascki, do STF.

A lista fala mais pelo o que não diz. Aponta quem recebeu propina e esquece-se de quem mandou pagá-las.

Petrolão - ratosO PT até ensaiou comemorar a inclusão do tucano Antônio Anastasia (MG), mas não teve fôlego. Afinal, além de dois deputados – José Mentor (SP) e Vander Loubet (MS), e do já enrolado ex-líder Cândido Vacarezza (SP), estão no rol os senadores Humberto Costa (PE), ex-ministro de Lula, o cara-pintada que liderou movimentos Fora Collor, Lindbergh Farias (RJ), e a aguerrida Gleisi Hoffmann (PR), ex-ministra da presidente Dilma Rousseff. Além do ex-ministro e tesoureiro da campanha de Dilma, Antônio Pallocci, hoje sem foro privilegiado.

Collor de Mello, hoje senador, foi o único do PTB, partido de Roberto Jefferson, principal delator do mensalão. Os outros seis são do PMDB, o grupo mais parrudo, com os presidentes do Senado, Renan Calheiros (AL) e da Câmara, Eduardo Cunha (RJ), com ex-ministros de José Sarney, Lula e Dilma – Valdir Raupp (RO), Romero Jucá (RR) e Edison Lobão (MA) -, além do deputado Anibal Gomes (CE) e da ex-governadora do Maranhão, Roseana Sarney.

E os demais partidos da coalizão governista? Ficaram de fora das benesses ou só da lista?

Em um governo que faz o diabo para segurar o poder na unha, é difícil crer que desvios da fenomenal quantia de R$ 10 bilhões da Petrobras, segundo as primeiras estimativas da Polícia Federal, tenham ocorrido apenas para rechear bolsos de uns e outros.  Só para se ter uma ideia do poder de fogo e da enormidade disso, a milionária campanha de reeleição de Dilma declarou ter gasto R$ 318 milhões.

Dono da caneta há 12 anos e responsável pela nomeação daqueles que coordenaram as falcatruas, o PT sabe que não tem como esconder que é o maior beneficiário dos desvios na Petrobras. Seja para o partido ou, indiretamente, para aliados.

Com a popularidade de Dilma ladeira abaixo, a economia em frangalhos e pressão intensa interna e de aliados que lhe puxam o tapete, o PT não confia na fidelidade nem dos mais próximos. Todo mundo é um delator em potencial.

E se um dos nossos ou uma magoada Roseana Sarney resolver falar? E se um dos 32 do PP, partido apoiador de primeira hora que lidera a lista, se sentir na berlinda e abrir o bico?

Esta foi só a primeira lista. Inclui apenas a Petrobras e as primeiras delações. Outras virão, com a construção da usina de Belo Monte encabeçando o rol. Nelas, os beneficiários dos crimes são por demais conhecidos. Boa parte dos demais bandidos também.

O mapa do assalto está aí. Basta imprimi-lo.

Mas nada disso terá qualquer valia sem a coragem de se chegar até onde o caminho leva, com punições aos que estimulam e lucram com o crime.  Que o Supremo seja supremo.

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

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PP: De filhote da Ditadura a para-raios de escândalos, “cagando e andando”

O senador Ciro Nogueira, presidente do PP (foto de Moreira Mariz - Ag. Senado)
O senador Ciro Nogueira, presidente do PP (foto de Moreira Mariz – Ag. Senado)

 

Por Alfonso Benites

 

De filho da Ditadura Militar (1964-1985) a para-raios de escândalos, esse é o Partido Progressista, a sigla que teve mais políticos citados na Operação Lava Jato até o momento, 31 dos 49. Oriundo da Arena, a agremiação de direita que deu suporte ao regime militar brasileiro, o PP sempre apoiou os governos, independentemente de quem fosse. Sua principal diferença do PMDB, que também costuma ser um fiel aliado do Palácio do Planalto desde a redemocratização, é o tamanho: os progressistas são menores.

A relação dos membros do PP investigados por desvios de recursos da Petrobras é eclética. Vai de um padre baiano, o ex-deputado José Linhares da Ponte (Padre Zé), a um evangélico paulista que está na cúpula da Igreja Mundial, o missionário José Olímpio. Há aindamensaleiros, como Pedro Henry e Pedro Corrêa, um ruralista gaúcho anti-índios, Luiz Carlos Heinze, e o vice-governador baiano que diz estar “cagando e andando” para a investigação, João Leão.

Ter a maioria dos políticos implicados no escândalo não significa que o PP foi o principal articulador do esquema

Ter a maioria dos políticos implicados no escândalo da Petrobras até agora não significa necessariamente que o PP foi o principal articulador do esquema. Conforme o Ministério Público Federal, os nomes dos progressistas apareceram mais porque os dois delatores-chave das fraudes, o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, eram vinculados a esse partido por indicação do então deputado federal José Janene (morto em 2010). As figuras ligadas ao PT, o ex-diretor da petroleira Renato Duque e o tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, assim como os relacionados ao PMDB, o ex-diretor Nestor Cerveró e o lobista Fernando Soares, não assinaram termos de colaboração com a Justiça. Ou seja, não entregaram quem eram os petistas e peemedebistas envolvidos nos desvios de até 20 bilhões de reais da maior empresa estatal do país.

 

Raio-X

Com 1,4 milhão de filiados o PP é o quarto maior partido brasileiro (está atrás de PMDB, PT e PSDB). Nos Governos de Dilma Rousseff e de Luiz Inácio Lula da Silva ganhou relevância ao comandar ministérios importantes, como o das Cidades, entre 2005 e 2014, e desde janeiro passado o da Integração Nacional. Duas pastas com orçamentos gigantescos e programas considerados chaves para o Planalto, como o Minha Casa, Minha Vida e a obra de transposição do rio São Francisco. Atualmente, além de cargos na gestão Rousseff, os progressistas contam com a governadora de Roraima, Suely Campos, e seis vice-governadores, entre eles o do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles, e o da Bahia, João Leão.

Com 40 deputados federais e cinco senadores, o PP tem uma bancada de baixo clero que já foi pega em vários escândalos. No mensalão petista, em 2006, lá estavam os deputados José Janene, Pedro Henry e Pedro Corrêa. No superfaturamento de obras em São Paulo, em 2004, aparecia o deputado federal Paulo Maluf e o filho dele, o empresário Flávio — ambos estão na lista de procurados pela Interpol e não podem deixar o país. Na máfia dos Fiscais paulistanos, em 1998, surgiu um afilhado de Maluf, o prefeito Celso Pitta (já morto).

Mais recentemente, o PP viu seus quadros envolvidos em um escândalo nacional e dois regionais. O primeiro foi em 2011, quando o então ministro das Cidades, Mario Negromonte, do PP da Bahia, foi acusado de oferecer uma mesada de 30.000 reais a seus correligionários para apoiar sua permanência no cargo. A propina não foi comprovada, mas o ministro caiu. O segundo caso foi em Campo Grande (MS), no ano passado, quando o prefeito Alcides Bernal foi cassado acusado de nove crimes, inclusive lavagem de dinheiro. O mais atual é no Governo de Roraima, comandado por Suely Campos. Eleita após a Justiça impedir a candidatura de seu marido, Neudo Campos, Suely terá de suspender a nomeação de 19 funcionários do primeiro e segundo escalão por causa de nepotismo. Eram todos seus familiares.

O PP tem uma bancada de baixo clero que já foi pega em vários escândalos

Na avaliação do cientista político Nascimento, os membros do PP costumam aparecer em escândalos porque geralmente são políticos com a velha prática clientelista, que foi mesclada com técnicas de corrupção do PT. “Há no PP políticos corruptos contumazes e isso se espalha pelo próprio partido. Mas essa prática não é exclusiva dele. O PMDB também vai no mesmo sentido. Só não surgiram tantos nomes ainda”, diz o estudioso da política brasileira.

 

“Cagando e andando”

Ao contrário de outras legendas que viram seus quadros citados no escândalo da Petrobras, o PP ainda não se manifestou oficialmente. Alguns de seus membros citados fizeram declarações de defesas isoladas, sempre negando qualquer irregularidade em suas prestações de contas eleitorais ou em relação à atividade parlamentar. Um deles foi o senador Ciro Nogueira, o presidente nacional da legenda. Em sua conta do Twitter, Nogueira diz que as acusações contra ele são “absurdas e sem fundamento” e criticou a imprensa brasileira.

Outro que falou sobre o assunto foi o vice-governador baiano, João Leão (aqui). Em nota oficial, ele disse que não estava nada preocupado com as acusações. “Estou cagando e andando, no bom português, na cabeça desses cornos todos. Sou um cara sério, bato no meu peito e não tenho culpa”, afirmou.

 

Publicado aqui, no elpais.com

 

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“A novidade da Lava Jato é que pegou os corruptores”

Filósofo e professor Renato Janine Ribeiro
Filósofo e professor Renato Janine Ribeiro

Por Mariana Sanches

 

Para Renato Janine Ribeiro, há descontentamento com o governo porque promessas da eleição foram descumpridas sem grandes explicações

Qual é a origem da prática de se tratar a coisa pública como privada?

A corrupção da Lava-Jato não destoa da linha histórica do país, que, em sua origem, tem o patrimonialismo ibérico, de Portugal. Mas estamos independentes há 200 anos. Portanto, isso não é mais problema deles, é nosso. A separação entre público e privado aqui não é de pedra e cal, como nos EUA. O Brasil tem uma cultura política muito pobre, a única forma que a maior parte das pessoas tem para conceituar sua divergência de um político é dizer que ele é ladrão. Daí achamos que quando um país funciona é porque ele não tem roubo.

O financiamento empresarial de campanha é um fator comum no mensalão e na Lava-Jato. Ele favorece a corrupção?

O problema está vinculado ao financiamento: se a campanha é cara e demanda dinheiro pesado, esse dinheiro é dado em troca de algo. Se você doa como indivíduo, pode estar motivado por ideais, por preferências por políticas. Mas empresas só têm o incentivo de contribuir se conseguem tirar vantagens, e essas vantagens não são republicanas. Empresa não é eleitor. A regra número um de uma empresa é a busca do lucro. Qual é o lucro de uma empresa que financia um candidato? É um lucro sujo.

O fato de empresários ricos e políticos já terem ido parar atrás das grades revela algum prenúncio de mudança num país em que a Justiça sempre foi mais rigorosa com ladrões de galinha?

Podemos ter esperança. A novidade da Lava-Jato é que pela primeira vez aparecem as figuras dos corruptores. Antes a corrupção era sempre algo que acontecia sem autor. Era como a imaculada concepção, não havia quem fizesse o mal, embora o mal estivesse feito. Claro que esses empresários têm que ter defesa, tem que ser tudo apurado e julgado. Não temos que ficar contentes só porque eles foram presos. Temos que ficar contentes porque, caso forem condenados, a Justiça no Brasil finalmente começa a ser aplicada aos ricos e não só aos pobres.

Como o senhor vê a situação da presidente Dilma diante da crise política provocada a partir da Lava-Jato?

Há um descontentamento grande com o governo. Até porque o governo descumpriu promessas da eleição sem dar excelentes explicações. A Dilma e os ministros tinham que ir à TV todo dia. É um erro grande da Dilma não perceber que fazer política democraticamente é explicar o tempo todo. A Dilma parece ter uma ideia de que comunicação é contratar um assessor de imprensa que embale qualquer coisa de maneira bonita. Como se não tivesse a ver com conteúdo, fosse uma questão de forma. Há uma deficiência muito grande do governo nisso.

A insatisfação justificaria a queda do governo?

A única maneira de retirar uma pessoa do poder no presidencialismo de coalizão é acusar a pessoa de crime. Não democracia, não há um instrumento de “cansou”, de “não queremos mais”, como no parlamentarismo. Então como você vai retirar um governo cuja chefe não cometeu ilegalidade e, no entanto, há descontentamento com ele? É a grande questão que ronda o país. Vai se forçar a renúncia dela? A renúncia é uma decisão unilateral. E, além disso, na linha de sucessão há três cabeças do PMDB, duas na mira da Lava-Jato.

O senhor declarou voto na Dilma. Se sente enganado por ela?

Na situação que estava, foi o melhor voto, mas não quer dizer que esteja satisfeito. Me sinto enganado no sentido de que houve um compromisso implícito de que ela mudaria o estilo de governo, ia parar de governar pela braveza e dialogar e delegar mais. Ela o cumpriu limitadamente quando nomeou um ministro que praticamente não pode demitir, o Joaquim Lévy. Dilma tem a imagem de quem não dialoga e isso não é bom para um presidente.

Como interpretar o fato de que só se consiga desnudar um caso como esse por meio de delação premiada?

É um sistema-padrão para quebrar a coesão de uma quadrilha. É preciso jogar um criminoso contra outro e desfazer laços de lealdade. É legítimo fazer isso, é o único meio de se quebrar uma máfia. É ético? Sim, pelo resultado final, mas não pelo meio. Temos que garantir que o delator vá pagar alguma pena, mesmo pequena. Se não, há o risco de o crime se tornar vantajoso.

 

Publicado aqui, na globo.com

 

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