De Garotinho a Édipo: “Quem Rosinha apoiaria a federal?”

 

Anthony Garotinho e Aluysio Abreu Barbosa em entrevista exclusiva na manhã de domingo (1º), em Chapéu de Sol (Foto: Juninho Virgílio)

Histórias de Garotinho sob casuarinas

Há muitas histórias sob as casuarianas de Chapéu de Sol. Algumas foram contadas pelo ex-governador Anthony Garotinho (REP) na manhã do último domingo (1º), sobre a política de Campos, RJ e Brasil, neste início do ano eleitoral de 2026. Que estão na entrevista (confira aqui) publicada segunda (2), no blog Opiniões, e republicada hoje, na página 2 da edição da Folha da Manhã.

 

“Quem Rosinha apoiaria a federal?”

A possibilidade de pai e filho disputarem os mesmos votos pelo mesmo cargo de deputado federal em outubro foi, sem dúvida, a pauta que gerou (confira aqui) maior interesse. Por trazer complexidades públicas que só deveriam pertencer ao particular da família. E foi sintetizada por Garotinho: “Rosinha apoiaria quem: o marido ou o filho?”.

 

Wladimir vice de Paes?

Quatro dias antes da entrevista de Garotinho, a coluna revelou (confira aqui) na quarta (28): “Por mais que (Wladimir, PP) goste de ser prefeito da sua cidade, hoje, o mais provável é que saia para se candidatar a deputado federal. A possibilidade de ser vice na chapa do prefeito carioca Eduardo Paes (PSD) a governador, se não descartada, parece menos provável.”

 

Vice de Paes? “Hoje, não existe”

Quatro dias depois, Garotinho disse sob as casuarianas de Chapéu de Sol no domingo: “Por que Paes (PSD), sem ter mais (o campista Rodrigo) Bacellar (União, presidente afastado da Alerj) na disputa a governador, precisa de Wladimir como vice? Isso, hoje, não existe”.

 

Alternativa a senador

Garotinho deixou aberta a possibilidade de se lançar a senador pelo Republicanos: “Se eu concorresse a senador, poderia ser uma forma de evitar o confronto direto com Wladimir”. Mas, noves fora a questão familiar, a pergunta pragmática talvez devesse ser: se os dois vierem a deputado federal, um não atrapalharia a eleição do outro?

 

George Gomes Coutinho, cientista político e professor da UFF-Campos

Eleitores para Garotinho e Wladimir?

“A questão da concorrência com o filho é realismo. De fato, sabendo do tamanho do eleitorado que pode votar em alguém da grife Garotinho, podemos projetar que não haveria eleitores suficientes para eleger dois deputados federais”, analisou o cientista político George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos.

 

“Édipo Rei”

Indagado sobre o paralelo goitacá com a tragédia clássica “Édipo Rei”, do grego Sófocles, que narra a disputa entre o pai Laio e o filho Édipo pelo trono de Tebas, George ponderou: “Garotinho se apresentou como o dono do clã. Novamente elegível, retoma espaço e capital eleitoral. Aí, na referência literária, Laio, quem diria, resolveu intimidar Édipo.”

 

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Garotinho: “Por que Paes, sem Bacellar no páreo, precisaria de Wladimir?”

Anthony Garotinho e Aluysio Abreu Barbosa em entrevista exclusiva, na manhã de domingo (1º) em Chapéu de Sol (Foto: Juninho Virgílio)

“Por que (o prefeito carioca Eduardo) Paes (PSD), sem ter Bacellar (União, presidente afastado da Alerj) mais na disputa a governador, precisa de Wladimir como vice? Isso, hoje, não existe”. Foi o que o ex-governador Anthony Garotinho (REP) disse na manhã do último domingo (1º), em entrevista exclusiva à Folha (confira aqui) sob as sombras das casuarinas de Chapéu de Sol.

 

Coerência de Wladimir?

Ele também questionou a provável decisão do seu filho, o prefeito de Campos, Wladimir Garotinho (PP), de deixar o governo da cidade para se candidatar a deputado federal:

— Wladimir era deputado federal, saiu no meio do mandato para se eleger prefeito de Campos e depois se reeleger. E agora vai largar o mandato de prefeito para tentar ser deputado federal? Qual é a coerência disso? Não tem! Não tem uma explicação pública coerente para o eleitor. Já falei com ele, mais de uma vez, que o correto seria terminar o mandato de prefeito.

 

Rosinha vai apoiar o marido ou o filho?

Sobre a possibilidade de se candidatar a deputado federal, na disputa pelo mesmo cargo e mesmos votos que Wladimir, Garotinho lembrou da divisão que isso poderia causar dentro da sua própria família:

— Vai ser complicado eu e Wladimir disputarmos juntos pelo mesmo cargo de deputado federal. Rosinha apoiaria quem: o marido ou o filho? Eu e Rosinha fomos, por 7 anos, professores de curso de casal na Igreja Presbiteriana Luz do Mundo, na cidade do Rio. E sempre ensinamos aos casais: “Marido e mulher você escolhe, filhos não”.

 

Frederico e demanda de grupo político

O ex-governador também especulou sobre como seria o governo do hoje vice-prefeito Frederico Paes (MDB) em Campos, caso Wladimir confirme sua saída até 4 de abril de prefeito para se candidatar em outubro:

— Frederico é excepcional como pessoa. Conversei, recentemente, três horas com ele. Quando ele me disse que não deseja ser prefeito e que nunca combinou isso com Wladimir. Mas sem ter grupo um político próprio, não adianta. Ele é um administrador de sucesso no setor privado, como foi do Hospital Plantadores de Cana e é na usina Coagro. Mas, para gestão pública, tem que ter grupo político.

 

Vejo o futuro repetir o passado?

Sobre a manutenção da relação boa entre Wladimir e Frederico, caso o primeiro se eleja deputado federal e o segundo assuma como prefeito, Garotinho usou sua experiência do passado para responder:

— É só olharmos um pouco para atrás para ver o que já aconteceu em Campos. Foi assim comigo (após ser prefeito de Campos pela 1ª vez, entre 1989 e 1992) e Sérgio Mendes (prefeito eleito com apoio de Garotinho entre 1993 e 1996), foi assim comigo (após ser prefeito de Campos pela 2ª vez, entre 1997 e 1998, quando saiu para se candidatar e se eleger governador) e Arnaldo Vianna (vice que assumiu como prefeito em 1998 e se reeleger ao cargo em 2000). O problema acontece quando as pessoas colocam os problemas pessoais acima dos públicos, e buscarão semear discórdia junto a Frederico, como ocorreu com Sérgio e Arnaldo.

 

Garotinho a senador?

O ex-governador falou ainda da possibilidade de se candidatar a senador pelo seu Republicanos. O que evitaria a disputa direta com Wladimir pelo mesmo cargo de deputado federal. Se disputar este cargo, no entanto, projetou a votação que poderia fazer:

— O Republicanos me sondou para ser candidato a senador. Poderia ser Clarissa, que foi muito bem votada a senadora em 2022. Mas ela foi para a iniciativa privada, onde está muito bem. Se eu concorresse a senador, poderia ser uma forma de evitar o confronto direto com Wladimir. O Republicanos virá com uma nominata muito forte a deputado federal. E projeta que, se eu concorrer ao cargo, poderia fazer 250 mil votos.

 

A questão do vice de Paes

Garotinho voltou a falar sobre Eduardo Paes e a escolha do seu candidato a vice na eleição a governador em outubro:

— Eduardo não tem a necessidade de Wladimir como vice, sem Rodrigo e mesmo se Rodrigo ainda estivesse no páreo a governador. Wladimir está no PP. E lá quem vai definir é o presidente estadual do partido, (o deputado federal) dr. Luizinho. Que não vai escolher Wladimir. O Rogério Lisboa (PL, prefeito de Nova Iguaçu), hoje, poderia ser esse nome para vice de Paes. Mas acho que ele vai enrolar, enrolar e acabar escolhendo alguém próximo a ele.

 

Sobre Bacellar

O ex-governador também analisou a prisão de Bacellar em 3 de dezembro, pela acusação de ter vazado informações sobre a prisão do ex-deputado estadual TH Joias, ligado à facção Comando Vermelho. E a posterior soltura do político campista em 9 de dezembro, com as medidas cautelares impostas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, como afastamento da presidência da Alerj, uso de tornozeleira eletrônica, entrega do passaporte e recolhimento residencial noturno:

— Bacellar colheu o que plantou. Ficou obcecado por dinheiro, usou tudo ao seu alcance para se tornar um bilionário. E ficou bem próximo disso.

 

Castro não concorrerá a senador?

Garotinho apostou ainda que Cláudio Castro não se candidatará a senador e que o ainda governador também pode vir a ter problemas pela frente:

— Castro não vai sair para concorrer a senador. Ou será afastado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) presidido pela ministra Carmén Lúcia, mesmo com o pedido de vista, no caso Ceperj. Ou pela Justiça Federal. É provável que nem tenhamos eleição a governador-tampão indireta na Alerj.

Perguntado sobre qual esfera da Justiça Federal poderia trazer problemas a Castro, o ex-governador disse que pode ser tanto no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), quanto no Superior Tribunal de Justiça (STJ) ou no STF. Onde, apostou em desdobramentos da operação Unha e Carne no STF pela ADPF das Favelas, que gerou a prisão de Bacellar. E na operação Oricalco, que ainda não saiu à rua e poderia agora andar no TRF-2, após sair das mãos do desembargador federal Macário Júdice Neto, afastado do caso após ser preso em 16 de dezembro pela acusação de ter vazado a Bacellar as informações sobre a prisão de TJ Joias.

 

Nem Flávio nem Lula: Tarcísio

Garotinho também falou da política nacional. Onde refirmou que não votará a presidente nem no senador Flávio Bolsonaro (PL), nem em Lula (PT). E apostou no nome do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (REP), como o nome de oposição mais consistente eleitoralmente e melhor para governar o país:

— Já declarei publicamente que não voto em Flávio Bolsonaro. Que será obrigado a explicar muitas coisas durante a campanha. Como também não voto em Lula, porque o PT, que conheço bem, há muito tempo se tornou um partido patrimonialista. Tarcísio é o melhor nome a presidente. Lógico que São Paulo (onde o governador tem bons índices de aprovação e lidera todas as pesquisas à reeleição) é importante, mas o Brasil é mais.

 

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Deputado federal Glauber Braga no Folha no Ar desta terça

 

(Arte: Joseli Matias)

 

Deputado federal suspenso, Glauber Braga (Psol) é o convidado do Folha no Ar nesta terça (03), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.

Ele analisará causas e consequências da suspensão do seu mandato de deputado por seis meses, a partir de dezembro, por conta do episódio da agressão a um militante do MBL dentro das dependências do Congresso Nacional, em abril de 2024.

Glauber também falará da sua visita a vários municípios do Norte, Noroeste Fluminense e Região dos Lagos centrado nas opções de se candidatar à reeleição a deputado federal ou a governador pelo Psol, em outubro.

Por fim, com base nas pesquisas mais recentes, ele tentará projetar a eleição a presidente da República (confira aqui e aqui, aqui, aqui e aqui, aqui e aqui), governador e senador do RJ em 4 de outubro, daqui a 8 meses e 2 dias.

Quem quiser participar do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

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Garotinho: “Quem Rosinha apoiaria a federal? O marido ou o filho?”

 

À sombra das casuarianas de Chapéu de Sol, na manhã deste domingo, Thiago Virgílio, Anthony Garotinho e Aluysio Abreu Barbosa (Foto: Juninho Virgílio)

“Vai ser complicado eu e Wladimir disputarmos juntos pelo mesmo cargo de deputado federal. Rosinha apoiaria quem: o marido ou o filho? E por que Paes, sem ter mais Bacellar na disputa a governador, precisaria de Wladimir como vice?” Foram alguns questionamentos que o ex-governador Anthony Garotinho (REP) fez na manhã de hoje (1º), entre outras coisas, em entrevista à sombra das casuarinas de Chapéu de Sol.

Garotinho passeou pela política municipal, regional, fluminense e nacional neste início de ano eleitoral de 2026. Com a entrevista constantemente interrompida por veranistas, muitas vezes em família, e até adversários políticos, que paravam para cumprimentá-lo, lembrar histórias e conversar.

A íntegra da entrevista exclusiva poderá ser conferida nesta segunda (02), no blog Opiniões e no site Folha1. Como, nesta quarta (4), bem cedo nas bancas e nas casas dos assinantes, no jornal Folha da Manhã.

 

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Elda Moura — A jornada dos guerreiros do Fluminense

 

 

Elda Moura, professora e torcedora do Fluminense

A jornada dos guerreiros

Por Elda Moura

 

Nas rodadas finais do Brasileirão de 2009, o Fluminense carregava um número que mais parecia sentença: 99% de chance de rebaixamento. Lutava contra a tabela, contra a matemática, contra a descrença geral. Ninguém acreditava. Ou quase ninguém …

Seu Alair, o morador mais rabugento do bairro, definitivamente não acreditava. Amaldiçoava o time todos os dias, em voz alta, como se quisesse que o mundo ouvisse: Turma de perna de pau! Ninguém escapava de críticas, nem jogador, nem o futebol.

Para ele, o futebol havia morrido fazia tempo — lá atrás, junto com a geração de Didi, Garrincha, Pelé, Rivelino e outros craques que ele evocava como quem rezava. O que restava agora, dizia, era um esporte em agonia, respirando por aparelhos.

Os números pareciam concordar com Seu Alair. O Fluminense somava apenas 18 pontos em 24 jogos, afundado na lanterna do campeonato, quando Cuca assumiu o time tricolor. A missão era clara e absurda: nos últimos sete jogos, seriam necessários seis vitórias e um empate. Nada menos que isso. Uma tarefa hercúlea.  Daquelas que só entram para a história quando alguém resolve desafiar o impossível.

Pois bem, o impossível foi desafiado, um time de guerreiros nasceu. O Fluminense saiu do “mundo comum” para “provação máxima” em poucos meses, normalmente, os heróis vivem suas epopeias ao longo de anos, mas ali o tempo foi comprimido, cruel, implacável.

Cada rodada era uma batalha, cada acréscimo no tempo da partida era um desafio, cada penalidade marcada era um inimigo. Sem armadura ou espada, os guerreiros se feriam, sangravam e seu Alair se desesperava, mesmo com o Fluminense precisando só de um empate para não cair na última rodada, ele não conseguia crer, era um pessimista contumaz.Parte superior do formulário

A última batalha seria dificílima: jogar contra o Coritiba no território inimigo, arquibancadas hostis, nervos à flor da pele. Não era apenas mais um jogo — era o limiar entre a queda e a permanência. Em campo, o Fluminense não jogava bonito, jogava o necessário. Cada dividida era um juramento, cada passe, um ato de fé.

O empate bastava, mas ninguém ousava confiar nisso. Empates são frágeis demais. O medo rondava como sombra, e o silêncio antes do apito inicial pesava mais que a própria bola. Seu Alair assistia ao jogo de braços cruzados, o cenho franzido, pronto para a blasfêmia. Não gritava mais — observava. Talvez porque, no fundo, também estivesse atravessando sua própria provação: admitir que ainda era possível acreditar. Quando o gol saiu, houve espanto. Ele ficou sem palavras, como se o impossível tivesse tropeçado.

 

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Nelson Lellis — A armadilha do silêncio nas pautas identitárias

 

(Criado com IA)

 

 

Nelson Lellis, doutor em Sociologia Política pela Uenf

Fígaro e o fóbico: a armadilha do silêncio nas pautas identitárias

Por Nelson Lellis

 

Introdução: casos factuais

O debate público brasileiro atravessa um momento de interdição que transcende a mera polarização; vivemos a instauração de uma certa auditoria do pensamento. Esse fenômeno ficou evidente no último ano, quando a crítica de Chico Bosco a certas vertentes do feminismo contemporâneo foi recebida não com contra-argumentos, mas com um escrutínio moralizante que visava deslegitimar o interlocutor antes mesmo do debate.

Essa dinâmica confirma o diagnóstico recente de Vladimir Saflatle na revista Piauí: a universidade e a esfera pública estariam se convertendo em um “grande FMI universitário”. Para Safatle, operamos hoje sob uma lógica de ajuste estrutural das ideias, onde identidades são geridas como ativos financeiros e o pensamento crítico é substituído por uma burocracia de conformidade que decide quem pode falar e sobre o que é permitido divergir.

É nesse cenário de vigilância que a pesquisa de Beatriz Bueno acerca do conceito de “parditude” emerge como um caso paradigmático. Ao propor o reconhecimento do pardo não como um resíduo da branquitude ou uma categoria a ser subsumida automaticamente pela negritude, mas como uma ontologia mestiça com vivências, dores e complexidades próprias, a pesquisadora tocou no nervo exposto dos dogmas identitários.

A reação de setores da militância e da academia ao seu estudo — muitas vezes sendo acusada de “eugenista” ou “desmobilizadora” por ousar diferenciar a experiência parda da negra — ilustra perfeitamente a tese do “FMI” de Safatle: a diversidade é celebrada apenas até o momento em que ela desafia a cartilha hegemônica da gestão identitária.

O caso da parditude nos força a encarar o paradoxo atual: as pautas identitárias, que nasceram para dar voz a saberes silenciados (Foucault), correm o risco de instaurar novos regimes de verdade que, ao rejeitarem a complexidade do real (como a existência de uma identidade mestiça autônoma), reproduzem a exclusão que dizem combater.

Retomo nesse breve texto, portanto, a máxima de Pierre Beaumarchais em “O Casamento de Fígaro” (1778): “Sem a liberdade de criticar, não existe elogio sincero”. Se a tentativa de Beatriz Bueno de complexificar o debate racial é interditada pelo medo do cancelamento ou pela acusação automática de fobia, o que resta não é justiça social, mas um silêncio preventivo. E onde impera o silêncio, a democracia fenece.

 

A liberdade de criticar: do Fígaro ao fóbico

Em 1778, Pierre Beaumarchais escreveu “O Casamento de Fígaro”, uma peça que, antes mesmo da Revolução Francesa, já disparava contra os privilégios da nobreza. Nela, o protagonista imortalizou uma máxima que ecoa em nossos dias: “Sem a liberdade de criticar, não existe elogio sincero”. O raciocínio é direto: se sou proibido de discordar, meu apoio não é admiração, é medo ou obrigação. Para que o elogio tenha valor, ele precisa ser uma escolha, não uma imposição.

Ao observarmos o cenário atual, amparados por leituras como as de Yascha Mounk (A armadilha da identidade), percebemos um paradoxo perigoso. É inegável que as políticas identitárias surgiram para dar voz a saberes historicamente silenciados e desmascarar falsas universalidades (Foucault). No entanto, há uma ironia trágica na prática contemporânea: ao blindar suas pautas contra qualquer análise externa, certos ativismos instauram novos regimes de verdade, tão dogmáticos quanto os antigos.

Se a ética se constrói na coragem de dizer a verdade diante do poder — o que Foucault chamava de parrhesía —, a interdição da crítica sob o rótulo automático de fobia anula esse ato ético. O aliado que se cala por medo do cancelamento não oferece apoio real, mas uma confissão de fé performática.

 

A Interdição do Debate e o “Lugar de Fala”

O primeiro ponto de desgaste é a distorção do conceito de “lugar de fala”. Originalmente criado para iluminar perspectivas esquecidas, ele tem sido usado para encerrar discussões. Se um aliado não pode questionar uma tática ou postura sem ser tachado de “fóbico”, seu apoio perde a substância racional. A causa, a longo prazo, definha pela falta de oxigênio intelectual.

 

A Sacralização da Identidade

Do ponto de vista da sociologia da religião, notamos uma lógica sectária. A identidade tornou-se o “sagrado”. Tocar nela de forma crítica é visto como profanação. Essa barreira é visível tanto em grupos progressistas quanto conservadores: onde termina a crítica sociológica e começa a intolerância? Se não encontrarmos essa linha, o respeito será apenas uma fachada.

 

O Limite entre Crítica e Ódio

É preciso, contudo, um cuidado fundamental: a distinção entre crítica e discurso de ódio. Beaumarchais falava de criticar atos e ideias, jamais de desumanizar pessoas. No Brasil, infelizmente, o termo “liberdade de expressão” é frequentemente sequestrado para camuflar o racismo e a homofobia. A liberdade que defendemos aqui é a de discordar civilizadamente, pois só dela nasce o reconhecimento legítimo.

 

Por uma Democracia com Atrito

Movimentos sociais verdadeiramente fortes são aqueles que suportam o escrutínio. O elogio que vale a pena é aquele que reconhece a legitimidade do outro, mesmo apontando suas falhas. Uma democracia saudável precisa dessa tensão. Como na física, sem o atrito não há movimento; resta apenas a inércia de um discurso vazio.

 

Concluindo…

O percurso que traçamos, da interdição sofrida por Francisco Bosco à “auditoria” denunciada por Vladimir Safatle, revela que a crise do debate público brasileiro não é apenas de civilidade, mas de ontologia política. O caso da “parditude” de Beatriz Bueno serve aqui como a prova final e irrefutável de que o “Grande FMI Universitário” não tolera o excedente da realidade. Ao tentar enquadrar a complexa experiência mestiça brasileira na planilha binária de importação norte-americana, o dogmatismo identitário precisa silenciar a dissonância para manter a sua coerência interna.

Contudo, o silenciamento do dissenso cobra um preço alto: a esterilização da própria política. Quando a dúvida é convertida em fobia e a crítica em heresia, o que resta não é militância, mas liturgia. Nesse momento, a lição de Fígaro torna-se muito peculiar: a legitimidade de qualquer pauta progressista depende vitalmente da sua capacidade de suportar o contraditório. Se quisermos construir uma justiça social que não seja apenas uma gestão burocrática de ressentimentos, precisaremos resgatar urgentemente a liberdade de criticar. Pois, sem ela, todo elogio à diversidade continuará sendo, tragicamente, apenas medo disfarçado de virtude.

O principal entrave reside nessa tribalização do intelecto: no ambiente digital, a crítica raramente é recebida como um convite à reflexão, sendo imediatamente processada como um ataque à identidade do grupo. Isso gera um efeito de silenciamento preventivo, onde o medo do estigma social (a acusação de fobia ou heresia) sufoca a honestidade intelectual antes mesmo que ela se transforme em palavra. Além disso, enfrentamos o desafio da distinção semântica. Em um cenário de polarização aguda, a linha que separa o escrutínio legítimo de ideias (a liberdade de blâmer) da agressão desumanizante tornou-se perigosamente tênue.

O desafio da crítica hoje é, portanto, duplo: a) resgatar a civilidade para manter a capacidade de confrontar a ideia sem aniquilar o sujeito; b) combater o dogmatismo aceitando que a dúvida e o contraditório não são inimigos da causa, mas os únicos elementos capazes de conferir autenticidade ao apoio e à militância. Sem enfrentar esses desafios, corremos o risco de transformar o debate público em um eco de monólogos, onde a verdade é medida pelo volume da adesão, e não pela força da razão.

 

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Em prosa e verso — Sebastianismo, o Supremo e os “heróis da democracia”

 

Os “heróis” D. Sebastião, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli (Montagem: Joseli Matias)

 

 

Sebastianismo, o Supremo e os “heróis da democracia”

(A Dionísio Barbosa, meu bisavô português de Paredes de Coura, perto da fronteira do Minho com a Galícia)

 

Dom Sebastião foi rei de Portugal de 1557 a 1578. Assumiu o trono quando seu país era a potência emergente da Terra, líder da Expansão Marítima e Comercial Europeia.

Antes deste século 21 marcado pelo soerguimento de China e Índia, quem abriu, dos séculos 15 ao 20, o domínio do Ocidente sobre o mundo? A resposta está no poema “A Mensagem”. É o único do luso Fernando Pessoa publicado em livro durante sua vida:

 

“A Europa jaz, posta nos cotovelos:

De Oriente a Ocidente jaz, fitando,

E toldam-lhe românticos cabelos

Olhos gregos, lembrando.

 

O cotovelo esquerdo é recuado;

O direito é em ângulo disposto.

Aquele diz Itália onde é pousado;

Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

 

Fita, com olhar esfíngico e fatal,

O Ocidente, futuro do passado.

 

O rosto com que fita é Portugal.”

 

Diante dos novos mundos da Idade Moderna abertos à vanguarda do rosto português, D. Sebastião preferiu olhar por cima do ombro da História: às Cruzadas da Idade Média contra os mouros. E acabou por estes morto ou desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos, Magreb muçulmano do Norte de África.

Sem deixar herdeiro, D. Sebastião lançou Portugal, de maior nação da Europa, à condição de província espanhola na União Ibérica de 1580 a 1640. Mas gerou, em Portugal e sua colonização do Brasil, o sebastianismo: a espera pelo regresso de um herói messiânico que nos resgatará ao tempo de glória.

Sem a mesma origem étnica, é o mesmo ethos do “Make America Great Again” (“Faça a América Grande de Novo”). Do Maga dos EUA de Donald Trump, bola da vez como imperador do mundo a olhar sobre o ombro da História. Provavelmente, com o mesmo fim. Do século 16 ou de quem supõe a ele poder regredir no século 21 de China e Índia.

Palavra que tem tradução em outras línguas por sentimento universal, mas sem o léxico que a caracteriza mais profundamente na língua portuguesa, “saudade” tem o sebastianismo por placenta. Que deseja por quase meio milênio, na mesma “Mensagem” de Pessoa, “O Desejado”:

 

“Onde quer que, entre sombras e dizeres,

Jazas, remoto, sente-te sonhado,

E ergue-te do fundo de não-seres

Para teu novo fado!

 

Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,

Mas já no auge da suprema prova,

A alma penitente do teu povo

À Eucaristia Nova.

 

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,

Excalibur do Fim, em jeito tal

Que sua Luz ao mundo dividido

Revele o Santo Gral!”

 

No Brasil, o sebastianismo esteve na origem das suas duas maiores guerras civis. A de Canudos, no sertão da Bahia, entre 1896 e 1897. E a do Contestado, entre Paraná e Santa Catarina, de 1912 a 1916. A diferença? A segunda não teve Euclides da Cunha. Ambas foram movimentos messiânicos rurais, com religiosos por salvadores.

O sebastianismo esteve na queda do Império pelo golpe militar que proclamou a República em 1889, na Revolução de 1930, na ditadura do Estado Novo entre 1937 e 1945, na ditadura militar entre 1964 e 1985, na eleição direta do caçador de marajás Fernando Collor de Mello a presidente em 1989, no seu impeachment em 1992.

O sebastianismo esteve nas eleições presidenciais de Lula em 2002 e 2006, na Lava Jato entre 2014 e 2021, no impeachment de Dilma Rousseff em 2016, na prisão de Lula em 2018. E, no mesmo ano, na eleição a presidente de Bolsonaro. Como na sua prisão em 2025. Por quem? Ao sebastianismo? Pelos “heróis da democracia” do STF!

Do que o bilionário escândalo do liquidado Banco Master já revelou sobre os ministros do STF Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, os sebastianistas de turno podem escolher. Entre R$ 3,6 milhões mês ao escritório de advocacia da esposa, uma viagem com tudo pago num jatinho à final da Libertadores em Lima, ou até seguranças no resort Tayayá.

Enxergar o óbvio, e se revoltar contra isso, não é atacar a democracia, estúpido! É defendê-la até dos… “defensores”. Da prosa enquanto língua do mundo real, no qual D. Sebastião nenhum virá nos resgatar, aos versos incompletos de um poeta menor. Sem “o sublime da pessoa” ou pontuação, bisneto de um lusitano e só em minúsculas:

 

“d’além da taprobana, do lado de lá

dobraram o mundo vasco e fernão

fados ecoados numa noite de bruma

em que regresse el-rey d. sebastião”.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Reconhecimento ao promotor Victor Queiroz após 20 anos em Campos

 

Promotor de Justiça Victor Queiroz em entrevista ao Folha no Ar (Foto: Folha da Manhã)

 

Promotor Victor Queiroz

Após mais de 20 anos em Campos, o promotor de Justiça Victor Queiroz teve na quinta (29) sua remoção confirmada (confira aqui) para atuar na capital. Ele sairá da Promotoria junto à 3ª Vara de Família goitacá para a disputada 7ª Promotoria de Justiça de Família do Rio de Janeiro, onde deve assumir em abril.

 

Paulista adotado por Campos

Formado em Direito na USP em 1993, Victor é um paulistano que adotou e foi adotado por Campos, constituindo aqui família. Ingressou no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro por concurso público em 1996. Rodou por vários municípios do estado, antes de vir para o Norte Fluminense, inicialmente em São Francisco de Itabapoana.

 

Experiência profissional

Após um ano em SFI, passou outro na Investigação Penal de Campos. Nos 10 anos seguintes ficou na Promotoria Cível, seguidos de outros 10 na Promotoria de Família. Na comarca, atuou também como promotor eleitoral, no Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e na coordenação do Centro Regional do MP.

 

Palavra do promotor

“Sou grato a tudo o que vivi profissionalmente em Campos. Aqui aprendi a ser uma pessoa e um profissional melhor, graças a todos os colegas e amigos campistas. A vida segue e levarei para sempre comigo as boas lembranças e os aprendizados. Vim de longe para crescer como ser humano em Campos. Gratidão sempre”, disse Victor.

 

Palavra do procurador

“O dr. Victor passou umas duas décadas em Campos. Fez um excelente trabalho, um colega de mérito reconhecido por todos, pelos colegas, magistrados, advogados, pela comunidade local. E que, certamente, também brilhará aqui na nova atribuição”, disse Antônio José Campos Moreira, procurador-geral de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.

 

 

Jurisprudência de Campos ao Rio

A comarca goitacá perderá sem Victor. E ganha a capital. As muitas manifestações (confira aqui) saudando o promotor e o ser humano parecem contrariar a desinteligência que Nelson Rodrigues atribuía à unanimidade. De Campos ao Rio, o paulista leva a jurisprudência do último dos juízes da Antiga Israel: “Honrarei aqueles que me honram” (1 Samuel 2:30).

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Lula fica no empate técnico com Flávio e Tarcísio ao 2º turno

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Empates técnicos no 2º turno

Os maiores problemas à reeleição de Lula estão nas simulações de 2º turno. Que ele liderou numericamente, mas em empate técnico, na margem de erro, contra Flávio (44,8% do petista a 42,2%, diferença de 2,6 pontos) e contra Tarcísio (43,9% do presidente a 42,5%, diferença de apenas 1,4 ponto).

 

Lula e Flávio patinam no 2º turno

Na simulação de 2º turno contra Flávio, Lula oscilou 0,7 ponto para cima, dos 44,1% de intenção em dezembro aos 44,8% de janeiro. Enquanto o senador oscilou 1,2 ponto para cima no mesmo período: dos 41,0% de dezembro aos 42,2% de janeiro. Dentro da margem de erro, os dois patinaram no último mês.

 

Lula e Tarcísio estáticos no 2º turno

Nas simulações de 2º turno entre Lula e Tarcísio, o petista oscilou 0,1 para baixo no último mês: dos 44,0% de dezembro aos 43,9% de janeiro. Enquanto Tarcísio se manteve entre dezembro e janeiro nos mesmos 42,5% no 2º turno contra Lula. Na série de pesquisas Paraná, os dois também patinaram em números quase exatos no último mês.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Lula bate Ratinho no 2º turno

A única simulação de 2º turno, das três feitas pela pesquisa Paraná, em que Lula liderou acima da margem de erro foi contra o governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD): 44,7% do petista a 38,9%. Seriam 5,8 pontos de vantagem pela reeleição do presidente.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Maioria contra reeleição de Lula

Os cenários apertados de 2º turno de Lula contra Flávio ou Tarcísio parecem refletir a maior dificuldade do primeiro: hoje, uma maioria numericamente apertada de 51,0% dos brasileiros acha que o presidente não merece ser reeleito. Outros 45,3% que acham que, sim, ele merece a reeleição, enquanto 3,8% não souberam opinar.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE

Análise do especialista

“A Paraná de janeiro testou dois cenários de 1º turno e três de 2º turno. Em todos, Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas são os adversários mais competitivos de Lula. A pesquisa deu empate técnico no 2º turno de Lula com os dois. O quadro, hoje, é de indefinição”, resumiu William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Lula lidera nova pesquisa, mas com obstáculos à reeleição

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Obstáculos à reeleição de Lula

Lula (PT) lidera os cenários de 1º turno presidencial, mas não vai além do empate técnico no 2º turno contra o senador Flávio Bolsonaro (PL) ou o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (REP). O maior obstáculo do petista à urna de 4 de outubro, daqui a 8 meses e 4 dias? Ele não merece ser reeleito, hoje, para 51,0% dos brasileiros.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Dados na nova pesquisa

Em resumo, foi o que a pesquisa nacional do instituto Paraná, divulgada na quinta (29) e feita com 2.080 eleitores de 25 a 28 de janeiro, em 26 estados e distrito federal, no total de 160 municípios. Com margem de erro de 2,2 pontos para mais ou menos, foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-08254/2026.

 

Lula contra Flávio no 1º turno

Nos dois cenários estimulados (com a apresentação dos nomes ao eleitor) de 1º turno da pesquisa Paraná, Lula liderou fora da margem de erro. Contra Flávio como principal candidato de oposição no lugar de Tarcísio, o petista teve 39,8% de intenção de voto. Ficou 6,7 pontos acima dos 33,1% do filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Lula contra Tarcísio no 1º turno

Contra Tarcísio no lugar de Flávio, Lula liderou com mais folga a simulação de 1º turno, com 40,7% de intenção de voto. Ficou 13,2 pontos acima dos 27,5% a presidente do governador paulista.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Flávio cresce de dezembro a janeiro

Na comparação da série de pesquisas do instituto Paraná, Flávio cresceu 5,3 pontos nas simulações de 1º turno: dos 27,8% de intenção que tinha em dezembro aos 33,1% de janeiro. No mesmo período, Lula oscilou 2,2 pontos para cima: dos 37,6% de dezembro aos 39,8% de janeiro.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Lula cresce contra Tarcísio

Já na simulação de 1º turno com Tarcísio no lugar de Flávio, o governador de São Paulo oscilou 1,3 pontos para cima na série de pesquisas do instituto Paraná: dos 26,2 de intenção de dezembro aos 27,5% de janeiro. Enquanto Lula cresceu 2,9 pontos no mesmo período: dos 37,8% de dezembro aos 40,7% de janeiro.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Paulista adotado por Campos, promotor Victor Queiroz vai atuar no Rio

 

Promotor de Justiça Victor Queiroz em entrevista ao Folha no Ar (Foto: Folha da Manhã)

 

Após mais de 20 anos em Campos, o promotor de Justiça Victor Queiroz foi removido e irá atuar na capital. Ele sairá da Promotoria junto à 3ª Vara de Família goitacá para a disputada 7ª Promotoria de Justiça de Família do Rio de Janeiro, onde deve assumir em abril.

Formado em Direito na USP, maior universidade da América Latina, em 1993, Victor é um paulistano que adotou e foi adotado por Campos, constituindo aqui família. Ingressou no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro por concurso público em 1996. Rodou por vários municípios do estado, antes de vir para o Norte Fluminense, incialmente em São Francisco de Itabapoana.

Após um ano em SFI, passou outro na Investigação Penal de Campos. Onde passaria os 10 anos seguintes na Promotoria Cível, seguidos de outros 10 na Promotoria de Família. Na comarca, atuou também como promotor eleitoral, no Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e na coordenação do Centro Regional do MP.

— Fiquei tocado com as palavras de reconhecimento e de incentivo do Dr. Antônio José Campos Moreira, Procurador-Geral de Justiça. Sou grato a tudo o que vivi profissionalmente em Campos dos Goytacazes. Aqui aprendi a ser uma pessoa e um profissional melhor, graças, em grande parte, a todos os colegas e amigos campistas. A vida segue e levarei para sempre comigo as boas lembranças e os aprendizados. Vim de longe para crescer como ser humano em Campos. Gratidão sempre — disse Victor, após ter sua remoção de Campos ao Rio anunciada por volta das 14h de hoje.

Confira no vídeo abaixo e na transcrição do áudio:

 

 

— Declaro removido o doutor Victor dos Santos Queiroz, que passou seguramente umas duas décadas em Campos dos Goytacazes (…) Fez um excelente trabalho em Campos, um trabalho marcante, um colega de mérito reconhecido por todos, pelos colegas, pelos magistrados, advogados, pela comunidade local. E que, certamente, também brilhará aqui na nova atribuição. Parabéns ao doutor Victor! — reconheceu Antônio José Campos Moreira, Procurador-Geral de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.

 

Confira abaixo a repercussão da remoção do promotor Victor ao Rio entre outros operadores do Direito em Campos:

— Dr. Victor é um profissional de excelência, com competência e humanidade inquestionáveis. Fará muita falta na nossa comarca — disse a advogada Mariana Lontra Costa, presidente da OAB-Campos.

—  Parabéns pela excelente trajetória. Seu trabalho sempre seguirá brilhando — disse a promotora de Justiça de Campos Anik Rebello Assed.

— Grande promotor de justiça — resumiu o procurador de Justiça campista Cláudio Henrique da Cruz Viana, presidente da Associação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (Amperj).

— Ele era o promotor da minha Vara. Sucedeu Dra. Claudia Quaresma, a Dra. Claudinha. Conheci o Victor quando cheguei aqui na região, precisamente em Itaperuna, nos idos de 1998. Victor é daquelas pessoas que vemos cada vez menos. Joia rara. Promotor experiente, técnico, zeloso e humano. Toda homenagem a ele é merecida. Sem favor algum — disse o juiz de Direiro aposentado em Campos Elias Pedro Sader Neto.

— Excelente Profissional. Desejo sucesso nessa nova etapa — disse o advogado Filipe Estefan, ex-presidente da OAB-Campos.

— Excelente profissional. Uma perda para a cidade. Que seja feliz e tenha o mesmo ou ainda mais sucesso no Rio — disse o advogado Carlos Alexandre de Azevedo Campos, ex-assessor do Supremo Tribunal Federal (STF).

—  Concordo. Um profissional exemplar — disse o advogado Andral Tavares Filho, ex-presidente da OAB-Campos.

— Um profissional extremamente gentil, respeitoso e ético. Sempre disposto a encontrar soluções justas para os problemas apresentados. Realmente, uma grande perda para o meio jurídico campista. Desejo sorte e sucesso — disse o advogado José Paes Neto, ex-procurador-geral de Campos.

— O dr. Victor Queiroz foi meu professor na graduação e posteriormente nos encontramos por um período na vida profissional. Para além da competência, amplamente reconhecida entre os operadores do Direito, sempre chamou a atenção pela educação, simplicidade e gentileza, sinais incontestáveis de um grande caráter. Não tenho dúvidas de que será muito bem sucedido na nova etapa — disse Pedro Emílio Braga, delegado campista de Polícia Civil e titular da 123ª DP de Macaé.

— Profundo e intenso nas manifestações jurídicas. Técnica irreparável. Minimalista na postura institucional, como a carreira requer. Faz valer o juramento em cada detalhe. Pode palestrar Brasil afora. Tanto na técnica como na postura. Um jurista extra-série. Existem craques: Edmundo, Bebeto, Cristiano Ronaldo. Existem extra séries: Romário, Messi, Zico. Dr Victor é extra-série — disse Matheus José, procurador do município de Campos.

— Desejo todo sucesso ao promotor Victor Queiroz em seu novo desafio . Promotor firme e humano, que cumpre sua função com excelência e com o desejo de justiça. Foi um privilégio para Campos a sua passagem por nossa cidade, que por isso o adotou — disse Heitor Campinho, juiz de Direito de Campos.

 

Última atualização às 11h40 de 31/01/26.

 

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Arthur Soffiati — Cinema subterrâneo dos anos 1950 e 1960

 

 

Arthur Soffiati, crítico de cinema, historiador, professor, ambientalista e escritor

Cinema subterrâneo

Por Arthur Soffiati

 

Não tenho nenhuma formação em cinema. Minhas reflexões e meus comentários sobre a sétima arte decorrem de cinefilia e leituras. Sempre dependi das salas de cinema, hoje em declínio. Raramente recorro a plataformas na televisão. Mas conto, ainda, com uma grande coleção de DVDs.

Em 2020, os cinemas fecharam por conta da pandemia. Decidi, então, desarquivar filmes a que eu nunca havia assistido. Dei preferência a filmes considerados ruins. Era preciso  conhecê-los como comentarista de cinema desde 2005, na Folha da Manhã. Eram, principalmente, filmes produzidos entre 1950 e 1965. Com interesse, passei a comentá-los.

Concluí que aqueles filmes revelavam uma indústria cinematográfica norte-americana nos porões dos grandes estúdios. Houve cineastas formidáveis nessa década, como Roger Corman, Jack Arnold e Nathan Juran. Corman começou fazendo de tudo: carregava e montava cenários, atuava como iluminador, distribuía cartazes, redigia roteiros, iluminava, maquiava e dirigia. Além disso, revelava nomes de artistas, como Jack Nicholson e Francis Ford Coppola. Corman se tornou uma lenda. Os efeitos especiais eram caros, mas havia Ray Harryhausen, o grande mago do stopmotion. Seu trabalho era caro, mas havia concessões. O filme podia ser ruim, mas seus bonecos eram sinônimo de qualidade. Uma miniatura de pterossauro podia transportar Rachel Welch nas garras.

Esses filmes de segunda categoria inspiraram filmes hoje considerados marcos do cinema. Dan O’Bannon, roteirista de “Alien” fala da influência exercida sobre ele de “O monstro do Ártico” (1951), “O planeta proibido” (1956), “O planeta dos vampiros” (1965). Aponto ainda “Ele! O terror que vem do espaço” (1958), de Edward L. Cahn, e “O planeta dos vampiros” (1965), de Mario Bava, outro nome icônico.

Os diretores de filme B alertavam e exploravam os medos com filmes como “A invasão de Marte”, “Tarântula”, “O ataque dos caranguejos monstruosos”, “A guerra dos mundos”. Por trás de uma invasão de seres extraterrestres, havia o medo de uma invasão soviética.

Os filmes da década de 1950 marcaram muito diretores como Steven Spielberg, George Lucas, Tobe Hooper e Quentin Tarantino. O esquema de um filme como “Tubarão”, o segundo de Spielberg e que lotou os cinemas, vem dos filmes B: uma pequena cidade que enfrenta um problema. De um lado, um político ou um empresário querendo promover o lugar, mesmo com um perigo iminente. De outro, um cientista ou uma pessoa comum, alertando sobre o perigo. O “monstro” aparece e estraga a festa. Mas, apesar de tudo, o bem triunfa sobre o mal.

Assistindo a esses péssimos-ótimos filmes, percebi que gosto mais de cinema que de filmes. Decidi escrever sobre esses filmes considerados B pelo baixo orçamento. Meus comentários foram reunidos no livro “Um cinéfilo em quarentena seguido de seres extintos no cinema”. Neles, aparecem discos voadores, monstros que saem do mar, mulheres seminuas nos braços de macacos, zumbis, caveiras. Entrei nesse mundo e não consigo sair.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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