“Eu sigo muito animado com a pré-candidatura. É uma pré-candidatura que busca resgatar a autoestima do carioca, botar a Prefeitura para funcionar mais uma vez”.
“Pode ter TV Record, Igreja Universal, máquina da Prefeitura, apoio do Bolsonaro, que eu te garanto que o Crivella não será reeleito. Ele foi, tem sido um péssimo prefeito para o Rio, incompetente, sem capacidade de compreender a cidade. Então, tenho certeza, o Rio felizmente vai mandar o Crivella de volta para casa; ou para a igreja dele”.
“Você vê que a direita nessa eleição, supostamente conservadora, evangélica e contra os comunistas, é representada pelo Crivella, que foi ministro da Dilma. E a esquerda é representada por setores que trabalharam e apoiaram, por exemplo, a eleição a governador de Sérgio Cabral (MDB). Então, acho que isso é uma grande confusão”.
“Como o Crivella, a única qualidade que eu vejo no ex-governador Garotinho; e, neste caso, é a única mesmo; é o fato dele ser um homem de fé. Pelo menos eu quero crer que essa seja a única verdade que ele conta”.
“Eu não fico feliz com a prisão de nenhum deles, nem do Garotinho, nem do Lula, nem do Cabral; lamento que tenham cometido erros. A Olimpíada foi um evento fantástico para a cidade, deixou um enorme legado, com um aporte enorme de recurso da iniciativa privada”.
“A gente errou ao ter implantado aquela ciclovia (Tim Maia), você tem ali um erro de projeto técnico. Mas a responsabilidade política é do prefeito. Eu era o prefeito à época e me causa muita dor, principalmente por aquilo que é irrecuperável, que é a vida de duas pessoas”.
“A vitória do governador Witzel em 2018 se deve ao apoio do presidente Bolsonaro, da família Bolsonaro, a esse desejo das pessoas que aconteceu em 2018 pela ‘nova política’; ele era um desconhecido. Em alguns momentos eu até o chamei de ‘Kinder Ovo’. Mas vários dos aspectos que surgem hoje, eu apontei na eleição”.
“Um dia, se Deus quiser, ainda vou ser governador e mostrar que o estado do Rio não precisa seguir essa sina, não; que a gente vai renovar isso. E, se Deus quiser, com a maioria dos votos de Campos, que é uma cidade que eu adoro”.
“Eu não tenho, focado aqui na política municipal da cidade Rio de Janeiro, eu não tenho como dar opinião na política de qualquer outro município do estado”.
“Eu tenho muito orgulho de marchar ao lado do deputado Rodrigo Maia e acho que ele hoje é um fator de estabilidade e muita força no cenário político brasileiro”.
“Nós temos no estado do Rio (…) mais de 1.800 leitos da rede estadual, municipal e federal vazios, prontos para serem usados. E não havia a menor necessidade de se construir esses hospitais de campanha caríssimos e, pelo jeito, com uma série de desvios”.
Eduardo Paes (Foto: Tânia Rêgo – Agência Brasil)
Essas foram algumas das afirmações feitas por Eduardo Paes, ex-prefeito e pré-candidato a prefeito da cidade do Rio de Janeiro, em entrevista exclusiva respondida por áudio nesta quinta (02). Para conferi-la na íntegra, falando sobre cidade e estado do Rio, política e religião, legado das Olimpíadas de 2016, desabamento da ciclovia Tim Maia, prisões de ex-governadores fluminenses, Garotinhos, Cabral, Lula, Crivella, Bolsonaro, ameaça de impeachment a Wilson Witzel, sonho de chegar ao Governo do Estado, papel de Rodrigo Maia na República e erros no combate à pandemia da Covid-19, confira a edição da Folha da Manhã deste sábado (04), bem cedo nas bancas e na casa dos assinantes.
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode isto ser segredo para ti?
Finalmente, foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo — um punhado de pó —
vê quão perfeito se tornou!
Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.”
(Jalal al-Din Rumi, século XIII)
Makhoul foi três vezes candidato a prefeito de Campos pelo PT, mas nunca deixou de ser crítico ao partido e lideranças nacionais como os ex-presidentes Lula e Dilma (Foto: Folha da Manhã)
Histórias de Makhoul
Era uma tarde quente campista, na Santa Casa de Misericórdia, no verão de 1992. E o neurocirurgião Makhoul Moussallem bateu o martelo: “Eu te dou meia hora para decidir se vai levar ele ao Rio, para operar com Paulo Niemayer. Não discuto competência, mas a técnica é a mesma. Com a hemorragia comprimindo o cérebro, o problema dele é tempo. Se você não decidir, eu abro a cabeça dele e opero sem a sua autorização. E a responsabilidade deixa de ser sua e passa a ser minha”.
Assertivo, sincero e corajoso, características que sempre o distinguiram entre os homens, foi o que Makhoul disse ao jornalista Aluysio Barbosa sobre o filho homônimo deste, então com 19 anos, inconsciente e moribundo sobre uma maca. Horas antes, subira em um telhado de Grussaí para pegar uma bola de frescobol, escorregara a caíra de uma altura de três metros. Sem um galo por fora, a fronte do seu crânio arrebentara por dentro. Se morresse, o faria conhecendo pouco o calor de uma mulher, sem ter um filho ou plantar uma árvore.
Entre lapsos rápidos de semiconsciência, a última coisa que se lembrava, antes de entrar na sala de cirurgia, foi virar a cabeça ao lado, agonizando, para ver seu pai sentado em uma cadeira, chorando em prantos e amparado pela mãe, mulher de têmpera mais forte, de pé ao seu lado. Após as horas de cirurgia, quando os pais foram levados para ver o resultado, diante da incerteza da mãe em saber se aquele corpo inerte ainda era seu filho, Makhoul deu uns tapas no rosto do paciente. Que foram se tornando mais fortes em busca de reação.
Mesmo de olhos fechados e ainda sob efeito da anestesia, o recém-operado finalmente reagiu. Ergueu lentamente o punho direito cerrado, ameaçando o murro contra quem acabara de salvar a sua vida. E, naquele hiato entre dois mundos, vociferou na direção de quem não conseguia enxergar, nem distinguir entre salvador ou agressor: “Para, seu filho da puta!”. Foi a senha para que, em meio ao riso aliviado do médico do pai, a mãe finalmente caísse em prantos por reconhecer quem sobrevivera: “É o meu filho!”.
Na manhã seguinte, o médico foi ter com o paciente, já desperto, na UTI da Santa Casa. A quem perguntou: “Você sabe quem sou eu?”. E teve como resposta estranhamente consciente: “Sei. Você é Makhoul. E me operou”. Dali, durante o processo de recuperação e nos anos seguintes, nasceu daquela beira de morte uma amizade sólida para a vida inteira. Na qual o libanês adotado por Campos, ciente e cioso da história milenar do seu povo, abriu a cabeça do jovem curioso também à cultura do Oriente Médio, berço da civilização. Que faria dela um dos seus pilares na formação como homem.
Foi Makhoul quem introduziu o ex-paciente na história dos cananeus, ou fenícios, como os gregos antigos chamaram os libaneses de hoje. Vizinhos e primos semitas dos hebreus, foram os arquitetos do Templo de Salomão. Na Idade do Bronze, legaram ao mundo as navegações marítimas, do Mediterrâneo até o Atlântico, o comércio e um tal de alfabeto. Foram dominados por assírios, babilônios, persas e pelos gregos de Alexandre. Ainda assim, fundaram Cartago no Norte da África, rival de Roma como a grande potência da Idade do Ferro. Com o Islã, seriam dominados pelos árabes, luz do mundo na Idade Média, cuja língua passaram a adotar. Mas nunca deixaram de praticar também o cristianismo, legado romano cuja versão maronita era a religião do médico de Campos, como de grande parte dos libaneses.
Uma coisa é ler sobre isso nos livros. Outra é ouvir da boca de um personagem vivo desse caldeirão da história humana, cônscio da visão, tato, cheiro e sabor de cada ingrediente. Como uma coisa é assistir nos telejornais sobre a questão da Palestina. E outra era ouvir de Makhoul o testemunho adulto da criança que acompanhava o avô, quando este ia correr os campos da sua propriedade rural nas colinas do Líbano, durante a primavera. E topavam com os corpos de crianças palestinas abraçadas às suas mães, degelando com a neve.
Foram essas raízes profundas de cedro do Líbano, árvore símbolo daquele país, que Makhoul fincou no barro massapê de Campos, ainda criança, acompanhado da família, para crescer entre ipês amarelos. E deixar frutos. Além dos seus filhos Luana, Felipe, Camila e Diego, dos seus netos Jonas, Maria Luiza, Eva e Makhoul Neto, da sua enteada Isadora, as tantas vidas que salvou em sua brilhante carreira na medicina. Talvez não tenha sido a todas que ele tenha podido ensinar a saborear tomates cortados com azeite e sal como isca para cerveja, whisky ou vinho. Ou os versos do persa Jalal al-Din Rumi, poeta medieval que nada fica a dever ao seu contemporâneo italiano Dante Alighieri. O que é uma pena, pois conhecer Rumi é como ter a vida salva de novo: “Você não é só uma gota no oceano,/ Você é o próprio oceano dentro de uma gota”.
Era uma tarde quente asiática em Konya, no verão de 2009, no coração espiritual da Turquia, pulsante no peito do planalto da Anatólia. Bem diferente do que quem só conhece o país por suas capitais antiga e atual, Istambul e Ancara, ou a grande cidade portuária de Ismir — a Esmirna bíblica, onde nasceu o grego Homero, pai de todos os poetas — e supõe que o antigo Império Otomano sobrevive apenas nos seus maiores centros urbanos ocidentalizados de hoje.
Dois ex-pacientes de Makhoul, o homem de 37 anos e seu filho de apenas 9 tinham a vantagem de se parecerem fisicamente com turcos, a despeito das suas roupas ocidentais modernas, em meio a mulheres cobertas com burcas. Visitavam o Museu Mevlâna, instalado em um antigo monastério dervixe, da corrente sufista. Mais mística que o islamismo tradicional, foi fundada com base nos ensinamentos teológicos de Rumi, na pregação do amor, da tolerância e da misericórdia. E se caracteriza por homens que entram em estado de adoração, enquanto dançam rodopiando com saias longas e chapéus cônicos. É um local sagrado de peregrinação aos muçulmanos.
Embora não exista a figura dos santos no islamismo, na analogia com o cristianismo, é como se Rumi fosse. O acesso ao interior do seu Mausoléu de mármore, onde fotos são proibidas, se dá por um túnel em forma de “U”, com o túmulo do poeta na base da “letra”. Embora largo e alto, o caminho se estreita pela presença de devotos, como a entrada do Maracanã em jogo de final de campeonato. O único percurso permitido é da direita para a esquerda, como escrevem árabes e judeus, herdeiros do alfabeto consonantal fenício. “Nós ciscamos para dentro e vocês (ocidentais) para fora”, como ironizava Makhoul.
A sensação claustrofóbica no interior do Mausoléu era reforçada não só pelos corpos humanos apertados uns contra os outros. Mas também pelas mulheres, em êxtase religioso, ecoando aqueles sons agudos no movimento intermitente da língua entre os lábios e o palato. Alguns homens batiam as mãos espalmadas às próprias faces. O homem ocidental estava assustado, mas tentava manter a calma. Seja porque não havia retorno possível, seja porque seu filho, criança que segurava firme pela mão e havia metido naquela celebração de fé no meio da Ásia, estava ainda mais.
Até que finalmente tiveram acesso à base mais larga do “U”, no coração do Mausoléu. Nele, o túmulo de Rumi e o epitáfio que o poeta deixou para si: “Quando estivermos mortos,/ Não procure nosso túmulo na terra,/ Mas o encontre no coração dos homens”. Em busca do que Makhoul ensinou sobre sua cultura, dois seus ex-pacientes foram curados de qualquer medo. E, irmanados a mulheres e homens antes diferentes, pai e filho saíram à luz do sol.
Makhoul nunca fez concessões em seus 75 anos de vida. Após vencer dois infartos e um câncer, nem à Covid que o matou na manhã de quarta (01). Mas quis levá-lo na segunda (29), quando lhe causou uma parada cardíaca e a família foi chamada para se despedir. Só para o libanês provar que, como todo campeão, ainda tinha mais um round guardado para lutar.
Makhoul não chegou a governar a cidade que o adotou, como tentou três vezes. Fez e foi muito mais que isso.
Vá em paz, meu irmão fenício e goitacá!
Publicado hoje (02) na Folha da Manhã
Atualização às 9h49 de 03/07 para acrescer a postagem do que escreveu (confira aqui) o jornalista Ícaro Barbosa, outro ex-paciente de Makhoul, após a morte deste. Além de um trecho em que o médico estabelece, do árabe materno ao português da sua adoção brasileira, uma ponte entre as duas culturas da qual foi fruto. Os dizeres nas duas línguas são do próprio punho de Makhoul. E o vídeo faz parte do documentário “Memórias da Imigração”, do Arquivo Público Municipal de Campos em parceria com a TV Câmara, dirigido por Fred Parente. A contribuição é da historiadora Rafaela Machado, diretora do Arquivo:
Ícaro Barbosa, jornalista e graduando em História
Por Ícaro Barbosa
Makhoul, vou tentar escrever um pouco sobre o senhor. Não posso deixar a única pessoa que viu dentro da minha cabeça, literalmente, partir sem deixar registradas algumas palavras. Na ocasião que o senhor me operou, eu não sabia nem falar, andar ou coisa do gênero, mas acho que não vem ao caso. Tua partida me deixa muito triste. Uma pessoa que eu sempre respeitei e soube que era honesto e íntegro. Tirei meu título aos 16 anos, especificamente para votar no senhor; primeira e última vez que votei no PT (repito, tirei para votar no senhor).
Da última vez que te vi, em Grussaí, em uma festa de aniversário, sentamos juntos na mesa. Brincamos e o senhor zoou da costeleta que eu usava na época. Eu ri. Apesar de não termos tido conversas muito longas ou coisa do tipo, sempre tive e nutri muita simpatia pelo senhor, falando sempre que nos víamos. Não poderia deixar o dia acabar sem registrar em palavras minha admiração e agradecimento ao senhor.
Meus pêsames aos filhos, netos e doutora Vera. Abraços, Makhoul! Vá em paz!
Ontem (29), após apresentar uma piora da condição cardíaca, o médico Makhoul Moussallem, de 75 anos, chegou a ter uma parada cardíaca na UTI do Hospital da Unimed, onde está internando, entubado e no respirador desde 22 de junho (confira aqui), por conta da Covid-19. Seu quadro ainda é muito grave, mas se estabilizou desde a tarde de ontem e segue sem alterações. Até o momento, ele não voltou a apresentar nenhuma arritmia cardíaca.
Também com complicações renais, mas sem novas intercorrências até o momento, ele fez a última hemodiálise no domingo (28). As informações foram passadas pelo irmão e a companheira de Makhoul, os também médicos Bassam Moussallem e Vera Marques.
As complicações cardíacas de Makhoul seriam fruto de uma fibrose, consequência da quimioterapia que fez para curar um câncer, cujo tratamento já havia concluído. Essa fibrose cardíaca teria causado o edema agudo que o levou a ser entubado e colocado no respirador, logo após dar entrada na UTI da Unimed, no dia 22. A quimioterapia também deixou um leve comprometimento renal, que foi agravado pela Covid.
— Eu fui vê-lo ontem, depois de estar entubado, pela primeira vez. Mas depois ele estabilizou e continua muito grave. Porém, de ontem para hoje, mantém um quadro estável. A gente espera cada hora para ver se ele não piora e o corpo possa compensar. Fui vê-lo hoje também, toda paramentada, para ficar um pouco com ele. Eu sei que está grave, mas não perdi a esperança. Ainda bem que, de ontem para hoje, ele não teve nenhuma intercorrência até o momento — explicou Vera Marques, médica e companheira de Makhoul.
Internado e entubado na UTI da Unimed desde 22 de junho (confira aqui), com Covid-19, o médico Makhoul Moussallem, de 75 anos, apresentou piora em sua condição renal e cardíaca de ontem (28) para hoje (29). Segundo seu irmão, o também médico Bassam Moussallem, os rins de Makhoul não estão funcionando bem, mesmo submetido a hemodiálise (confira aqui) desde sexta (26). E sua a frequência cardíaca estaria muito alta. O quadro é considerado gravíssimo.
O quadro cardíaco seria fruto de uma fibrose, consequência da quimioterapia que Makhoul fez para curar um câncer, cujo tratamento já havia concluído. Essa fibrose cardíaca teria causado o edema agudo que o levou a ser entubado e colocado no respirador, logo após dar entrada na UTI da Unimed. A quimioterapia também deixou um leve comprometimento renal, agora agravado pela Covid.
Em sua última entrevista à Folha (confira aqui), em maio de 2018, o hoje deputado federal Marcelo Freixo (Psol) falou ao maior jornal de Campos no mesmo dia que seu então colega de Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) Flávio Bolsonaro (confira aqui), hoje senador e pivô da maior crise do 1 ano e meio do governo do pai. Freixo admitiu que a popularidade do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), “uma média de 30%” mantida mesmo após a prisão de Fabrício Queiroz no dia 18, “ainda é muito elevada”. Mas ressalvou: “A rejeição a Bolsonaro cresce (…) pela sua incompetência, pela incapacidade de governar, de gerar emprego e, principalmente, pela incapacidade em tratar o Brasil no momento da pandemia, cuja existência ele negou”. Ele considerou Wilson Witzel (PSC), sob ameaça de impeachment da Alerj, como “ex-governador em exercício” que “reproduziu práticas encontradas no governo de Sérgio Cabral”.
Freixo também falou sobre as eleições presidenciais dos EUA, sobre a perspectiva de se chegar aos mandantes da execução da ex-vereadora carioca Marielle Franco (Psol) ainda este ano e sobre a aliança feita pelo Centrão com o governo federal “para se esconder das investigações da Lava Jato”. Em maio de 2018, o deputado mais de uma vez se referiu ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) como “golpe”, versão que mantém dois anos depois. Só que, agora, preferiu repetir: “Bolsonaro é um ‘serial killer’ da Constituição”. E voltou a falar em golpe: “Nós temos um presidente que vai a atos promovendo a ideia de fechamento de Congresso, de fechamento do Supremo e de intervenção militar. Então já temos um golpe em curso”. Do Planalto Central à planície goitacá, apostou: “Tudo indica que o Psol de Campos caminhará com candidatura própria (a prefeito)”.
Marcelo Freixo (Foto: Folha da Manhã)
Folha da Manhã – Sua última entrevista à Folha, em 20 de maio de 2018, foi feita e publicada no mesmo dia de outra, com seu então colega na Alerj Flávio Bolsonaro (atual Republicanos). Hoje, ele é senador e você, deputado federal. E, após a prisão do ex-assessor dele, Fabrício Queiroz, no dia 18, é bem mais fácil falar contigo. O que pode falar sobre isso?
Marcelo Freixo – O senador Flávio Bolsonaro não deve estar muito disponível para entrevistas, e nem mesmo disponível para a Justiça. São muitas as tentativas de seu advogado para obstruir a investigação sobre os esquemas de “rachadinha” no seu gabinete quando era deputado estadual. Eram esquemas comandados pelo Fabrício Queiroz, o que gerou a prisão deste. E hoje a esposa do Queiroz está foragida. O senador Flávio Bolsonaro tenta fugir dessa investigação, mas eu acho difícil que ele consiga. Tudo isso cada vez mais coloca a família presidencial próxima de pessoas que viviam, conviviam com as milícias e com muitas práticas ilegais dentro da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.
Folha – Naquela entrevista, perguntado sobre onde poderia chegar a liderança de Jair Bolsonaro em todas as pesquisas sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na eleição presidencial daquele ano, você respondeu: “Qual o tamanho disso? Não sei”. Hoje, quando já sabemos, o que pode dizer sobre estes últimos dois anos?
Freixo – Jair Bolsonaro foi eleito, o que eu considero um acidente histórico. Uma pessoa, quando é eleita, não se torna dona da democracia nem dona de um país, nem das pessoas que vivem nesse país. Ao tomar posse, ele jura uma Constituição e tem que respeitá-la. Hoje são diversos pedidos de impeachment, todos por crime de responsabilidade gravíssimos. Jair Bolsonaro hoje é acusado em tribunais internacionais por crimes de genocídio. Neste momento (quinta, dia 25) em que dou entrevista para a Folha da Manhã, vejo mais de 54 mil brasileiros mortos, mais de 1 milhão de pessoas contaminadas e um presidente que sequer coloca um ministro da Saúde para fazer com que a população possa se defender dessa pandemia. Então, é muito grave o momento que os brasileiros estão vivendo. O presidente se mostra um despreparado completo para exercer a função para a qual ganhou a eleição. Ele tem que respeitar a Constituição Federal. Se ele não respeita, não pode continuar como presidente.
Folha – Também naquela entrevista, analisando os 20% de intenções de votos com que Bolsonaro já aparecia nas pesquisas presidenciais, você disse: “A gente vai concluir que 20% do eleitorado brasileiro é fascista? Não, não é. Se for, a gente está perdido”. Bolsonaro foi eleito no 2º turno presidencial com 55,13% dos votos válidos. E, mesmo após a prisão do Queiroz, o presidente manteve 30% de apoio popular nas pesquisas. O que esses números permitem concluir? Como adjetivo ou substantivo, o emprego da palavra “fascista” tem sido numericamente exitoso à esquerda?
Freixo – Eu acho que aquele meu raciocínio é válido para hoje. Pesquisas apontam uma média de 30% de apoio ao presidente Bolsonaro. Ainda é uma média muito elevada. Mas, em pesquisa recente da pesquisadora Esther Solano, percebe-se uma divisão entre aqueles fiéis. Que seriam bem menos que 30%. Não chegariam a 10%, menos os críticos e os arrependidos. Não são todos iguais, os brasileiros que estão nesses 30%. No Nordeste, por exemplo, eles nem chegam a 20%. É muito importante fazer o número de apoiadores de Bolsonaro ser reduzido, pela tragédia que é o governo dele. Agora, por outro lado, tem 70%, em alguns lugares 80%, que já são contrários a ele. A rejeição a Bolsonaro cresce desde o primeiro momento do seu governo, e cresce pela sua incompetência, pela incapacidade de governar, de gerar emprego e, principalmente, pela incapacidade em tratar o Brasil no momento da pandemia, cuja existência ele negou. Ele chegou a chamar de “gripezinha” uma pandemia que hoje vitima mais de 50 mil famílias no Brasil. O meu raciocínio ainda é o mesmo. Não são todos iguais esses que ainda apoiam o Bolsonaro. É um número bem menor do que aquele que o elegeu. É muito importante que a gente vá acompanhando. Essa pesquisa de 30% foi feita antes da prisão do Fabrício Queiroz (e confirmada depois). Essa prisão do Queiroz vai revelar relações muito criminosas da família. Bolsonaro vai perder, com sua família, o lugar da honestidade sobre a qual tanto fala, pois dificilmente o senador Flávio Bolsonaro vai escapar dessa investigação. Sem dúvida alguma, isso vai reduzir o número de apoiadores do presidente.
Folha – Na entrevista que deu no mesmo dia que você à Folha, naquele maio de 2018, Flávio Bolsonaro, entre outras coisas, afirmou: “a direita saiu do armário”. E os fatos de lá para cá, provam que ele estava certo. Com que roupa essa direita saiu do armário? As ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e os inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF) podem pô-la a nu?
Freixo – O Brasil vive ao mesmo tempo três investigações muito profundas, muito graves, que envolvem diretamente pessoas muito próximas do presidente. Mais do que ficar falando de fascismo, que é uma palavra que boa parte da população não entende, eu acho que todo o campo progressista, comprometido com a democracia, tem que falar com as famílias, falar de saúde e de emprego. Foram três coisas que o Bolsonaro abandonou: saúde, família e emprego. As investigações atuais sobre grupos bolsonaristas são muito graves. Eles respondem por fake news, tem uma investigação sobre isso e que pega muita gente próxima ao presidente. Há uma investigação sobre crimes contra a democracia, inclusive com deputados sendo investigados por terem financiado com dinheiro público crimes contra a democracia, como propor fechamento do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal, intervenção militar. Dinheiro público foi desviado para financiar esse tipo de coisa. Isso é muito grave, assim como a própria ação de milícia envolvendo Queiroz, envolvendo “rachadinha” e a própria família Bolsonaro diretamente.
Folha – Você disse ter aberto mão da pré-candidatura a prefeito do Rio para “chamar todos aqueles setores, para além da esquerda, que estão comprometidos com a democracia”. Que ameaça a democracia sofre? Como o discurso de união e o Psol ficam quando o PT insiste no personalismo de Lula e fica fora da Frente Democrática com Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e o ex-presidente Fernando Henrique (PSDB)?
Freixo – São dois momentos distintos no que diz respeito a essa unidade. Primeiro, é uma unidade pela democracia, uma unidade para exigir respeito à Constituição da República. Nessa unidade, cabe todo mundo, como aconteceu no movimento das Diretas Já na década de 1980. No palanque das Diretas Já, você tinha forças antagônicas, mas todas eram comprometidas com a derrota da ditadura e queriam a eleição direta para presidente. Apesar de a emenda Dante de Oliveira não ter sido aprovada pelo Congresso Nacional, sem dúvida alguma aquele movimento foi vitorioso e decisivo para sairmos de uma ditadura civil-militar com tantos prejuízos à história do Brasil. Agora, esse primeiro movimento é semelhante, é para não permitir que Bolsonaro continue rasgando a Constituição do Brasil todos os dias. Bolsonaro age como um “serial killer” da Constituição, ele mata a Constituição todos os dias. A cada dia, um novo artigo é rasgado por Bolsonaro. Isso tem que ser impedido por forças democráticas. Não é um movimento da direita ou da esquerda, mas de todos juntos pela democracia. Este é um momento. Um outro momento é o de alianças de um campo progressista que possa ter um programa, mais do que um líder. Nós temos grandes figuras nacionais, e não somente o Lula. Nós temos o Ciro Gomes, o Flávio Dino, o Fernando Haddad, a Manoela D’ Ávila. Nós temos pessoas com muita capacidade de liderar. O que a gente precisa é de um programa, um projeto, que garanta saúde pública, educação pública, segurança pública, emprego, desenvolvimento, que dê conta da questão ambiental. Qual programa todas essas lideranças podem defender juntas? Essa será uma unidade programática em um segundo momento, ai sim, já pensando em uma eleição. Agora é hora de respeitar a Constituição, de garantir democracia e vida.
Folha – Analistas sustentam que o perigo de uma ruptura democrática no Brasil poderia vir menos das Forças Armadas, sobretudo após a prisão de Queiroz, do que das milícias e do forte apoio que o presidente tem entre as Polícias e os Bombeiros Militares. Com sua experiência à frente da CPI das Milícias na Alerj, concorda com essa tese?
Freixo – Nós não vivemos o mesmo momento que vivemos em 1964. Em 64, havia o governo João Goulart, que falava das Reformas de Base. Houve uma ruptura democrática ali, feita pelos militares e por um setor dos empresários brasileiros da época. Não é isso que vivemos hoje. Agora, nós já temos um governo que não respeita a Constituição, nós já temos um governo que é absolutamente violento, que fala em armas no lugar de entregar respirador. Que não amplia leitos e fala em guerra civil. Nós temos um presidente que vai a atos promovendo a ideia de fechamento de Congresso, de fechamento do Supremo e de intervenção militar. Então já temos um golpe em curso. Eu não acredito que as Forças Armadas cometam mais um erro em sua história em relação a isso, essa ruptura. O que a gente precisa fazer é interromper uma ruptura que já acontece, e não que vai acontecer. Nesse sentido, as Polícias Militares são muito práticas, e obedecem aos governos estaduais. Também não acredito nisso que falam, nessa inversão de valores nas polícias. Bolsonaro tenta alimentar uma sociedade armada, formando milícias políticas, como esse acampamento dos 300, que é algo violento e completamente ilegal, com gente já presa, inclusive. Então, é evidente que Bolsonaro quer um governo autoritário, mas não tem força política. A prisão do Queiroz vai revelar a proximidade do presidente com grupos criminosos, e ele vai, cada vez mais, perder força e apoiadores, ficar mais frágil.
(Foto: Folha da Manhã)
Folha – Em Campos, no dia 5, a PM reprimiu (confira aqui) com bombas de gás lacrimogêneo um protesto antirracista pacífico de cerca de 16 estudantes no Centro da cidade, que respeitava as regras sanitárias da pandemia da Covid-19. Como a PM não tinha feito o mesmo em atos bolsonaristas na cidade de 15 de março (confira aqui) e 17 de abril (confira aqui), a reação das instituições como OAB, Ministério Público, Legislativo e imprensa locais (confira aqui) fez com que uma nova manifestação antirracista, em 10 de junho, pudesse ocorrer (confira aqui) em respeito às regras e sem repressão. O exemplo de Campos, com a imposição das instituições, vale ao Brasil?
Freixo – Diante de uma ameaça às instituições, a melhor coisa a fazer é ver as instituições responderem dentro das suas atribuições. Se o presidente participa de um ato pedindo o fechamento do Congresso, o Congresso tem que reagir. Se um deputado fala em AI-5, existe Comissão de Ética no Congresso para ele. São as instituições respondendo à altura das ameaças e das violações. Se um deputado paga a organização de um ato antidemocrático pelo fechamento do Supremo, o Supremo investiga esse deputado, quebra seu sigilo e exige que se cumpra a lei. Existe uma Constituição para isso. Então, são as instituições reagindo. Se o presidente manda um jornalista calar a boca, cabe à imprensa falar ainda mais, ser ainda mais crítica. São as instituições da sociedade civil, ou instituições do Estado, reagindo para garantir a democracia. A democracia não é algo natural, é uma construção que passa por pessoas e por instituições. Por isso que é muito importante fazer com que a lei seja cumprida, e, neste sentido, as instituições são decisivas. Não pode haver tolerância para atos que sejam criminosos perante a Constituição e repressão para atos que pedem democracia, como este ao qual você se refere. É uma inversão completa de valores. Vamos combinar que não é liberdade de expressão dizer que um juiz tem que morrer, que um deputado tem que morrer, que tem que estuprar filha de juiz. Isso não é liberdade de opinião, de expressão; isso é crime. Quem fala algo criminoso responde por crime. Isso não pode, de forma alguma, ser chamado de liberdade de expressão. A gente precisa muito bem equilibrar esses limites, que estão muito claros, sem sombra de dívida, dento da Constituição de 1988. Não é à toa que ela é chamada de Constituição Cidadã. É uma constituição feita à luz de uma vitória sobre uma ditadura. Não pode ser ameaçada por um ditador de plantão. O Bolsonaro age como um serial killer da Constituição. Ele mata um artigo por dia. É contra isso que precisamos reagir, e nada melhor do que as instituições para fazerem valer o que está escrito na Constituição de 1988.
Folha – O ato antirracista reprimido pela PM em Campos foi em torno do Pelourinho, monumento histórico do passado da escravidão negra na cidade. E foi lá que terminou o ato seguinte com um cartaz afixado no Pelourinho, indagando: “Quem mandou matar Marielle?”. Com a prisão dos executores da ex-vereadora carioca do Psol, como chegar aos mandantes? O silêncio dos milicianos Ronie Lessa e Élcio de Queiroz, presos pela Polícia Civil do Rio, ou de Adriano da Nóbrega, morto pela PM da Bahia, continuará valendo?
Freixo – Eu acompanhei muito de perto essa investigação, junto com a família e junto com a delegacia de homicídios aqui do Rio de Janeiro. Eu não tenho a menor dúvida de que, neste ano ainda, nós vamos saber qual grupo político, quais figuras políticas do crime do Rio de Janeiro foram responsáveis, foram os mandantes da morte da Marielle. Novas prisões vão acontecer, já aconteceram agora há pouco tempo, e a Polícia Civil tem linha de investigação, a gente acompanha de perto e confia muito, tanto no Ministério Público quanto na polícia. Não tenho dúvida: este ano nós saberemos quem foram os mandantes da morte da Marielle.
Folha – Embora dificilmente vão ocorrer em outubro, por conta da pandemia, o TSE trabalha para realizar as eleições municipais ainda este ano. O Psol não apresentou nenhum pré-candidato a prefeito em Campos. Como vocês pensam o partido no município e na região?
Freixo – Tudo indica que o Psol de Campos caminhará com candidatura própria, mas os prazos foram esticados, e este é um debate, o das eleições em todo o Estado do Rio de Janeiro, que ainda não estou conseguindo acompanhar neste momento da pandemia e de uma crise tão grande em Brasília. Tenho certeza de que os dirigentes e os filiados ao Psol de Campos vão escolher o melhor caminho. Torço muito para isso porque tenho uma visão muito estratégica dessa região para o desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro e mesmo do país. Não podemos pensar pequeno sobre isso. O Norte Fluminense tem um potencial que jamais poderia ter sido desprezado por nenhum governante. Infelizmente foi, durante muito tempo, mas não pode ser mais. Campos, Macaé e toda a região são cada vez mais estratégicas para todos nós, para a política e para a economia do Rio de Janeiro, não só em função do petróleo, mas principalmente pela necessidade crucial que temos de melhorar a qualidade de vida e a atividade econômica fora da Região Metropolitana.
Folha – Como vê as atuações do governo Wilson Witzel (PSC) e Jair Bolsonaro na pandemia? O governador está seriamente ameaçado de impeachment, após a operação Placebo, que teve como alvo a compra de respiradores e os hospitais estaduais de campanha. Campos já pode desistir do dele, que atenderia todo o Norte e Noroeste Fluminense?
Freixo – Os hospitais de campanha nunca representaram uma solução para o novo coronavírus. Todos os especialistas, todos os profissionais da Fiocruz e os representantes mais sérios das entidades médicas dizem que o que a gente precisava era abrir os leitos existentes e desativados, garantir sua reativação. Por exemplo, os leitos dos hospitais federais que estão fechados até hoje e não foram disponibilizados. Isso Bolsonaro poderia fazer com muita facilidade. Então, a gestão hospitalar de um lugar já com profissionais e equipamentos é o mais importante e mais rápido. Os hospitais de campanha são muito caros, lentos, e eles não necessariamente atendem a essa demanda. Inclusive, hoje, já temos uma utilização dos leitos bem menor nos hospitais, não chega a 40% no Rio de Janeiro, o que mostra que a utilização de hospitais de campanha não era, desde o início, uma boa ideia. Isso já tinha sido alertado por muitos profissionais. E tudo isso acabou servindo a algumas investigações sobre superfaturamento e corrupção. Sem dúvida alguma, acho que o Witzel é um ex-governador em exercício. Ele reproduziu práticas encontradas no governo de Sérgio Cabral. Não representava uma nova política, como foi anunciado por Bolsonaro e por Flávio Bolsonaro no momento da sua eleição.
Folha – Bolsonaro e Witzel foram eleitos com o discurso da “nova política”. O segundo é investigado por desvios na Saúde, envolvendo o escritório de advocacia da primeira dama e o empresário Mário Peixoto. São a mesma área, modus operandi e empresário do esquema de corrupção do ex-governador Sérgio Cabral (MDB). E o presidente corre o risco de ter o seu Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras que catapultou a Lava Jato, que só contou o que sabia com a ameaça da sua família também ser presa. Como ocorre agora com a mulher de Queiroz, enquanto a ex-namorada do advogado Frederick Wassef começa a ser investigada. A “nova política” envelheceu?
Freixo – Na verdade não existe uma nova política representada por Bolsonaro. Ele sempre conviveu no subterrâneo da política, é deputado há quase 30 anos, sempre conviveu com as práticas do Centrão, foi do mesmo partido do Paulo Maluf, nunca levantou a voz contra a corrupção e sempre foi um deputado apagado, com pouquíssima contribuição no Congresso, assim como seus filhos no parlamento. O resultado daqueles movimentos de 2013, com a crise de representatividade profunda na sociedade, é que se passou a buscar uma nova política, mas Bolsonaro não a representa, definitivamente. A nova política não pode descartar as instituições e nem tentar remeter a períodos de tortura e de fim da democracia. Isso é velho demais. Bolsonaro sempre conviveu com esquemas corruptos, dentro dos seus partidos e no próprio parlamento. E, agora, as investigações sobre Queiroz e sobre seu advogado vão deixar muito claro que não temos uma nova política, muito pelo contrário, temos o que sempre houve de pior na velha política.
Folha – Nos EUA, embora tenha sido obrigado a adotar a quarentena horizontal para enfrentar a pandemia, Donald Trump também politizou o vírus, numa tática desastrosa tanto na saúde, quanto eleitoral, como indicam todas as pesquisas ao pleito presidencial deles em 3 de novembro. Se o moderado Joe Biden vencer, o eixo político do mundo penderá ao centro? Isso poderia favorecer alguém como Sérgio Moro?
Freixo – Acho que a derrota do Donald Trump vai mexer com o mundo inteiro, porque há uma onda conservadora, da qual o Trump foi uma pessoa muito importante, que se espalhou por vários países da Europa e também da América. A derrota do Trump, igualmente, vai gerar uma derrota muito grande para toda essa extrema direita eleita. Não acho que a vitória do Biden vá favorecer a um ou outro no Brasil, mas vai trazer um debate de volta para o campo da democracia. Acho que o Sérgio Moro cometeu erros muito graves, em aproximação com o governo Bolsonaro, e se apagou demais. Não acredito que ele volte a ser uma figura proeminente depois do desastre que foi sua participação em um governo tão atrasado como o de Bolsonaro.
Folha – Quando o socialista Bernie Sanders ainda tinha chances nas primárias democratas a presidente dos EUA, o filósofo da USP Vladimir Safatle, que já tinha causado grande impacto com o artigo (confira aqui) “Como a esquerda brasileira morreu”, disse em entrevista ao jornalista Mario Sergio Conti que identificava elementos “revolucionários” tanto no projeto de governo de Sanders, quanto no governo Bolsonaro. No sentido de que, mesmo em espectros políticos opostos, ambos tentavam romper com o status quo, ao qual o PT aderiu no poder. Como você vê?
Freixo – Eu não vejo qualquer aspecto revolucionário no governo Bolsonaro. Eu vejo todos os aspectos reacionários, ou seja, mais do que conservadores. Ele não quer conservar, ele quer retroagir. Ele elogia tortura, fala em ruptura democrática, e ele tem ali, evidentemente, um elo de uma extrema direita autoritária. Como ele se elege? Ele não se elege por ser antipetista. Havia muitos outros antipetistas que foram derrotados junto com PT. Bolsonaro se elege ao construir uma imagem falsa da não-político, e ele precisa provocar crises atrás de crises no seu governo para não entregar o resultado de um governo, porque ele precisa dizer que a política não o deixa governar. Essa é uma estratégia que leva à ideia de que só é possível governar com poder autoritário. Isso não tem nada de revolucionário, na minha opinião. Isso é reacionário, e não é o que o Brasil precisa, ainda mais diante de uma pandemia com mais de 54 mil brasileiros mortos até este momento.
Folha – Naquela entrevista de maio de 2018, você afirmou e reafirmou que o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016 foi “golpe”. Por que não foi com o ex-presidente Fernando Collor de Mello (hoje Pros) em 1992? Ou não seria no caso de Witzel ou Bolsonaro? Sobre este, após a aliança do governo com o Centrão ter engessado o presidente Rodrigo Maia (DEM), vê ambiente no Congresso para isso?
Freixo – Olha, é golpe quando você não tem crime de responsabilidade. Está muito comprovado que no governo Dilma, que foi um governo ruim, não tinha crime de responsabilidade. A pedalada é um debate que evidentemente foi forçado pelo próprio Centrão, que hoje escora o governo Bolsonaro, e Michel Temer (MDB). Já Bolsonaro tem uma fila de crimes de responsabilidade, inclusive crime de genocídio já denunciado ao Tribunal de Haia. São sucessivos crimes gravíssimos. Aliás, eu tenho até saudade do Brasil de quando o debate de crime de responsabilidade era sobre pedalada. Agora é sobre genocídio. Bolsonaro não é cassado porque fez acordos, entrega cargos atrás de cargos ao Centrão. E a única coisa que o Centrão quer neste momento do governo Bolsonaro é se esconder das investigações da própria Lava Jato. O governo Bolsonaro virou um grande esconderijo da Lava Jato. É isso que buscam os líderes dos partidos que o apoiam, formam um grupo de 200 deputados ao lado dele. Mais do que cargos, que eles têm e Bolsonaro entrega, mais do que emendas, que deveriam estar indo para a Saúde e vão para mãos de deputados e partidos, o que os líderes do Centrão querem é fugir das investigações ligadas à Lava Jato. Hoje, aquele governo construído por Bolsonaro e Sergio Moro é o maior esconderijo de criminosos da Lava Jato. O Brasil realmente não é um país para principiantes. O governador Wilson Witzel terá um processo de impeachment contra ele por desvios e crimes claros na área de saúde. É robusta a denúncia contra o Witzel. Isso tudo é muito diferente do que aconteceu em relação à presidenta Dilma. E eu reafirmo, não era um governo que eu apoiava, não era um governo com o qual eu concordava. Mas para sofrer impeachment tem que ter crime de responsabilidade. Se o governo Bolsonaro fosse um governo ruim, eu jamais pediria impeachment. Mas é um governo péssimo, ruim e criminoso, com atos antidemocráticos financiados por pessoas ligadas ao presidente e com a participação do presidente, além do crime de pandemia, que é inclusive previsto no Código Penal.
Até o começo desta tarde de sexta-feira (26), o quadro de saúde do médico neurologista Makhoul Moussallem, de 75 anos, seguia grave, mas estável, na UTI do Hospital da Unimed de Campos. Infectado pela Covid-19, seus parâmetros respiratórios seguem inalterados e ele está sem febre, indicando que a infecção vem respondendo aos medicamentos. Porém, devido a uma piora da função renal, passará a partir de hoje a se submeter a hemodiálise. As informações foram passadas por sua companheira Vera Marques, também médica, que vem acompanhando o caso de perto.
Makhoul deu entrada na Unimed (confira aqui) na manhã de segunda (22), após uma tomografia mostrar piora da infecção, que passou de 25% para 50% a 75% dos pulmões. À noite do mesmo dia, já na UTI, ele foi entubado e colocado no respirador, após um edema agudo. Foi provavelmente causado por uma fibrose cardíaca, consequência da quimioterapia que fez para curar um câncer, cujo tratamento já havia concluído. E também deixou um leve comprometimento renal, cuja piora gerou a necessidade da hemodiálise, fundamental para manter seu quadro estável.
“Pesquisas apontam uma média de 30% de apoio ao presidente Bolsonaro. Ainda é uma média muito elevada”.
“Mais do que ficar falando de fascismo, que é uma palavra que boa parte da população não entende, eu acho que todo o campo progressista, comprometido com a democracia, tem que falar com as famílias, falar de saúde e de emprego”.
“Bolsonaro age como um ‘serial killer’ da Constituição, ele mata a Constituição todos os dias”.
“Nós temos um presidente que vai a atos promovendo a ideia de fechamento de Congresso, de fechamento do Supremo e de intervenção militar. Então já temos um golpe em curso”.
“Vamos combinar que não é liberdade de expressão dizer que um juiz tem que morrer, que um deputado tem que morrer, que tem que estuprar filha de juiz. Isso não é liberdade de opinião, de expressão; isso é crime. Quem fala algo criminoso responde por crime”.
“Não tenho dúvida: este ano nós saberemos quem foram os mandantes da morte da Marielle”.
“Tudo indica que o Psol de Campos caminhará com candidatura própria (a prefeito)”.
“Sem dúvida alguma, acho que o Witzel é um ex-governador em exercício. Ele reproduziu práticas encontradas no governo de Sérgio Cabral”.
“Bolsonaro sempre conviveu com esquemas corruptos, dentro dos seus partidos e no próprio parlamento. E, agora, as investigações sobre Queiroz e sobre seu advogado (Frederick Wassef) vão deixar muito claro que não temos uma nova política, muito pelo contrário, temos o que sempre houve de pior na velha política”.
“Acho que o Sérgio Moro cometeu erros muito graves, em aproximação com o governo Bolsonaro, e se apagou demais”.
“Havia muitos outros antipetistas que foram derrotados junto com PT (em 2018). Bolsonaro se elege ao construir uma imagem falsa da não-político, e ele precisa provocar crises atrás de crises no seu governo para não entregar o resultado de um governo, porque ele precisa dizer que a política não o deixa governar”.
“Bolsonaro não é cassado porque fez acordos, entrega cargos atrás de cargos ao Centrão. E a única coisa que o Centrão quer neste momento do governo Bolsonaro é se esconder das investigações da própria Lava Jato. O governo Bolsonaro virou um grande esconderijo da Lava Jato”.
Marcelo Freixo (Foto: Folha da Manhã)
Estas foram algumas das afirmações feitas pelo deputado federal Marcelo Freixo (Psol/RJ), em entrevista exclusiva respondida por e-mail entre quarta (24) e quinta (25). Para conferi-la na íntegra, falando sobre Brasil, EUA, Estado do Rio, Campos e Norte Fluminense, confira a edição da Folha da Manhã deste sábado (27), bem cedo nas bancas e na casa dos assinantes.
STF, Carmém, Fux, Bolsonaro e as covas abertas pela Covid em Manaus (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Sabe aquela bravata dos bolsolavistas, de que eu “Mito” não teria culpa pelos até aqui 54.434 mortos oficiais da Covid-19 no Brasil, 2º país do mundo com mais óbitos na pandemia, porque o Supremo Tribunal Federal (STF) teria delegado a responsabilidade a governadores e prefeitos?
Pois é. É mais uma deslavada mentira do governo investigado pelo mesmo STF no inquérito das fake news:
— O que o Supremo disse é que a responsabilidade é dos três níveis (federativos: União, estados e municípios). E não é hierarquia, porque na federação não há hierarquia. para estabelecer condições necessárias, de acordo com o que cientistas e médicos estão dizendo que é necessário, junto com governadores, junto com prefeitos. Acho muito difícil superar (a pandemia) com esse descompasso, com esse desgoverno (…) isso vai resultar em mortes, e haverá responsabilidade por isso — esclareceu (aqui) a ministra do STF Carmém Lúcia, em live promovida pela Unicamp.
No dia 22, o também ministro do STF Luiz Fux já havia desmentido (aqui) Jair Bolsonaro (sem partido) e seus apoiadores, na “narrativa” que disseminam nas redes sociais para tentar eximir o governo federal pela desastrosa condução do combate da Covid-19 no Brasil. Que já foi chamada em rede nacional pelo presidente de “gripezinha” e “resfriadinho”:
— O Supremo não exonerou o Executivo federal das suas incumbências. Porque a Constituição Federal prevê que, nos casos de calamidade, as normas federais gerais devem existir. Entretanto, como a saúde é direito de todos e dever do estado, num sentido genérico, o estado federativo brasileiro escolheu o estado federado em que os estados têm autonomia política, jurídica e financeira — explicou Fux, eleito hoje como próximo presidente do STF.
A partir das 7h desta sexta (26), quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o pré-candidato do PDT a prefeito de Campos, Caio Vianna. Ele falará sobre a pandemia da Covid-19, governo Jair Bolsonaro (sem partido) x seu PDT de Ciro Gomes, além do governador Wilson Witzel (PSC) sob ameaça de impeachment. Analisará também a as quedas substanciais e progressivas das receitas do petróleo (confira aquie aqui) com a necessidade que elas impõem de redução na máquina pública municipal. E, no último bloco, falará da administração Rafael Diniz (Cidadania), do deputado federal Wladimir Garotinho (PSD), da sua pré-candidatura a prefeito e demais adversários.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Makhoul foi três vezes candidato a prefeito de Campos pelo PT, mas nunca deixou de ser crítico ao partido e suas lideranças, como os ex-presidentes Lula e Dilma (Foto: Folha da Manhã)
Internado por conta da Covid-19 ontem (22) na UTI do Hospital da Unimed de Campos, o médico Makhoul Moussallem, de 75 anos, apresenta um quadro grave, mas estável. Segundo explicou sua companheira, a também médica Vera Marques, ele foi entubado e passou a usar respirador após um edema agudo. Teria sido causado por uma fibrose cardíaca, consequência da quimioterapia que fez para curar um câncer, cujo tratamento já havia concluído. Nascido e criado no Líbano, se radicou com a família em Campos ainda adolescente, onde salvou várias vidas ao longo da uma brilhante carreira na medicina. E quase chegou a governar a cidade que o adotou.
Candidato a prefeito de Campos três vezes (2004, 2006 e 2012) e uma a deputado federal (2014), além de um dos médicos neurologistas mais respeitados da cidade, Makhoul começou a apresentar os primeiros sintomas da Covid no dia 15, com febre e tosse. No dia seguinte (16), começou o tratamento com antibiótico e corticoide. Fez também uma tomografia, que apresentou comprometimento de 25% dos pulmões, e um teste PCR para a doença, cujo resultado foi confirmado no dia 20.
Ontem, apesar de ter acordado bem disposto e sem febre, Makhoul fez uma segunda tomografia, que apontou uma evolução do comprometimento dos pulmões para 50% a 75%. Saiu do exame feito na manhã já sentindo cansaço e foi direto para a Unimed, da qual foi um dos fundadores em Campos. Ficou inicialmente na terapia semi-intensiva, até vagar um leito na UTI. E, após o edema, teve que ser entubado e colocado no respirador à noite do mesmo dia.
Além das consequências cardíacas da quimioterapia, que concluiu há dois anos, Makhoul já teve dois infartos, há mais de 20 anos. Sua condição respiratória é afetada por um enfisema pulmonar. Além da fibrose no coração, no qual usa por isto um aparelho desfibrilador, a quimioterapia também deixou um quadro de leve comprometimento renal, que vem respondendo ao tratamento, desde que se internou na Unimed.
— O quadro de Makhoul é grave, mas estável. E, apesar das comorbidades, todas as adversidades de saúde que já passou demonstraram que ele tem uma resposta medicamentosa impressionante. É um dos homens mais fortes que já conheci. Ele luta pela vida, tem uma vontade de viver incrível. Acorda todo dia com vontade de tomar café e ser feliz. Acho que ele vai sair vencedor — testemunhou Vera Marques, companheira de Makhoul.
Vereador Luiz Alberto Neném (Foto: Folha da Manhã)
Como anunciado em primeira mão no programa Folha no Ar do início da manhã de hoje, na Folha FM 98,3, e foi reforçado à tarde na sessão virtual da Câmara Municipal de Campos, pelo presidente Fred Machado (Cidadania), o vereador Luiz Alberto Neném (PSL) deve ter alta nesta quarta do Hospital da Unimed de Campos. Como o blog noticiou aqui, na última quinta (18), ele teve quadro confirmado de Covid-19 e se internou naquele mesmo dia em um leito clínico do hospital, após uma tomografia registrar que a infecção tinha atingido 50% dos seus pulmões.
Segundo o próprio Neném informou por telefone, e é possível constatar por sua voz, seu quadro clínico vem apresentando melhora. E ele está há quatro dias sem febre, o que indica a redução da infecção. Desde a sexta (19) ele faz diariamente fisioterapia pulmonar. Neste dia, uma nova tomografia indicou que o quadro dos pulmões permanecia estável. Ele voltou a repetir o exame na tarde de hoje. Que, se apontar a redução esperada, deve implicar amanhã na sua liberação para casa.
— Acompanhei o caso por acesso remoto o tempo inteiro, junto à colega infectologista Patrícia Pandolfi, que é infectologista da Unimed. Quando houve a piora do quadro de comprometimento pulmonar, achamos que seria mais seguro internar. E, desde então, Neném vem respondendo muito bem ao tratamento, Está há quatro dias sem febre, a tosse está bem mais espaçada, o quadro clínico mostra melhora, indicada também pelos exames laboratoriais. Esperamos só que isso seja confirmado pelo laudo da tomografia feita hoje para poder liberá-lo, provavelmente nesta quarta — explicou a clínica geriatra Deborah Casarsa, médica do vereador.
A partir das 7h da manhã desta quarta (24), o convidado do Folha no Ar é Dom Fernando Rifan, bispo da Administração Apostólica São João Maria Vianney, que reúne a ala tradicionalista do catolicismo romano em Campos. Ele falará sobre a prática da fé cristã durante a pandemia da Covid-19, sobre conservadorismo religioso e conservadorismo político, além de analisar os governos Jair Bolsonaro (sem partido), Wilson Witzel (PSC) e Rafael Diniz (Cidadania).
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.