Ricardo André Vasconcelos — Populismo fiscal e responsabilidade social

 

Após décadas de bonança e populismo fiscal que viciaram a sociedade, o grande desafio da administração atual é aprovar um novo Código Tributário adequado à era pós-royalties

 

 

A era das vacas gordas chegou ao fim. Os poços que jorravam o ouro negro nas costas do Cabo de São Thomé estão maduros e despejam cada vez menos dinheiro nos cofres públicos e uma das revelações dessa nova realidade, sempre anunciada e nunca admitida, é que durante três décadas, a administração municipal descuidou-se totalmente da arrecadação chamada de própria, aquela resultante da atividade econômica local. A abundância de recursos externos era tanta, que os últimos governos praticamente tratavam como isentos os contribuintes, pessoas físicas e jurídicas, e essas receitas não significavam nem 5% da receita total do município.

O descuro levou praticamente à desativação da máquina arrecadatória. Basta olhar para a Secretaria Municipal de Fazenda hoje, que conta com uma dezena de fiscais, sendo todos ou quase todos, remanescentes de uma época em que concurso ainda não era exigência para ingresso no serviço público. Sem falar no jurássico sistema de controle de arrecadação…

Esse populismo fiscal que beneficiou empresários e proprietários de imóveis nos últimos anos, mal começou a ser enfrentado pelo atual governo e já surgem reações veementes, principalmente daqueles que mais se beneficiaram com a situação anterior. Como outros setores da sociedade, parte do empresariado local também foi contaminada pela dependência epidêmica dos royalties e, como outro qualquer vício, é preciso reconhecer a dificuldade de mudar de hábitos. Principalmente quando mudar representa aumentar custos/reduzir lucros.

É justificável que no país que tem uma das maiores cargas tributárias do mundo, ninguém goste de pagar imposto, porque tem, todos os dias, exemplos de desvio de finalidade em todos os níveis. Se fiscalizássemos mais o uso dos nossos impostos o resultado seria melhor do que simplesmente sonegar porque os governos gastam mal. Aliás, uma das teorias de formação do Estado, quanto os homens ainda eram nômades, ensina que certa tribo resolveu fixar-se numa área onde teria encontrado terras férteis e ali iniciado atividades agrícolas e, para manter essa sociedade agora não mais nômade, passou a cobrar tributo (pedágio) em troca da permissão para que outros nômades passassem por suas terras. O imposto, assim, teria nascido junto ou até mesmo antes do Estado primitivo.

De volta à Planície Goitacá, em época recente, o dinheiro dos royalties estava de tal forma impregnado na sociedade campista, que criou situações inexplicáveis, como por exemplo, a doação de dinheiro à Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) para promover as Feiras de Preços Especiais (Fepe). Nos anos de 2013, 2014 e 2015, a entidade lojista recebeu dos cofres municipais entre R$ 80 mil e R$ 50 mil por edição em que os participantes, juntos, faturaram em torno de R$ 5 milhões por evento. As informações oficiais foram registradas às épocas respectivas pelo Blog “Eu Penso Que…” (aqui e aqui).

Chegou a hora de retribuir. Com metade do orçamento que a máquina municipal movimentou em 2016 — cerca de R$ 3 bilhões contra R$ 1,5 bilhão em 2017 — o governo Rafael Diniz se mostra disposto a chamar à responsabilidade os setores que mais se beneficiaram do tempo das vacas gordas para que agora ajudem a enfrentar os tempos difíceis. O novo Código Tributário Municipal, fruto da proposta de Lei complementar 0133/2017, aliás, precisa ser debatido no contexto de reorganização do sistema de arrecadação local pós-royalties e sem esquecer as décadas de frouxidão fiscal dos anos de bonança. O fechamento de cerca de 700 pontos comerciais locais não cabe na discussão do novo Código Tributário porque é consequência da crise nacional e eventuais ameaças de demissões e encerramentos de atividades de outros estabelecimentos empobrecem o debate.

O caminho parece ser o do entendimento para que os valores das taxas e tributos sejam reajustados para níveis mais próximos da realidade e longe do populismo fiscal. Ao mesmo tempo, urge uma modernização da máquina de arrecadação, incluindo material humano qualificado e comprometido com a excelência da finalidade do serviço público.

Retribuir aqui não tem o sentido filantrópico e sim do exercício da responsabilidade social inerente à atividade econômica, conforme preceito da Constituição Federal e que se traduz, no dia-a-dia na colaboração ativa para a construção da Nação, não só na geração de empregos, como também, pelos impostos locais, garantir os serviços essenciais mais próximos do cidadão como iluminação pública, coleta de lixo, escolas, creches, serviços de saúde e a própria estabilidade social.

 

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Ocinei Trindade — A ejaculação e o gozo, a gozação e o nojo

 

 

 

Impotente. Diante da ameaça e da perplexidade, algumas pessoas não conseguem reagir à mesma altura de um carrasco, bandido, criminoso, abusador ou do opressor. Estes, destemidos, não medem ações ou consequências quando querem atingir um objetivo, humilhar ou abater a vítima. O ataque cometido por “tarados exibicionistas” ou “pervertidos velados” dentro de ônibus, dentro do Congresso Nacional ou do Planalto (dentro da política em geral) ou do STF (a sigla pode ser reconfigurada), além de empresas que mantêm ligações perigosas como a J&F, por exemplo, me levam a imaginar nossa sociedade se afogando em ejaculações escandalosas ou sob excreções fétidas por um longo e tenebroso inverno. Brasil estuprado e na pior. Horror.

Muitos se chocaram com os flagrantes de homens acusados de se masturbarem dentro de transportes coletivos, e de constrangerem mulheres (e homens. alguns indefesos, também) que ainda sofrem discriminação e desconfiança de conduta quando resolvem denunciar seus abusadores, como os casos recentes que vimos na cidade de São Paulo. Já outras pessoas, talvez, possam nem ter se dado conta dos fatos graves, mas estes são mais frequentes do que se imagina. No fim dos anos 1980, uma colega de faculdade em Campos, chegou aos prantos à instituição de ensino, pois ao descer do ônibus lotado, percebeu que sua roupa estava molhada de sêmen que algum homem ejaculou nela. Pensei comigo, há pessoas capazes de coisas detestáveis e inimagináveis. Tara, distúrbio, bestialidade incontrolável? Horror.

Acredito que os homens acusados de cometerem esses atos libidinosos, no mínimo, sofram de algum transtorno, pois não conseguem controlar seus instintos ou impulsos sexuais. Talvez, semelhantemente aos dependentes químicos que não conseguem se livrar dos vícios de álcool, drogas, cigarro, tranquilizantes, os descontrolados sexuais causem, em princípio, um espanto a mais. Boa parte da sociedade (ainda) enfrenta o desconforto de falar ou de viver a sexualidade dita “normal” ou “saudável”, que dirá das “abusivas”.

Compreender maníacos em geral não é tarefa fácil, cá entre nós. Maníacos por sexo e por corrupção, também. Não sei se as pessoas se indignaram tanto ou até mais com outro fato asqueroso dos últimos dias: a enorme quantidade de dinheiro encontrada em caixas e malas em um apartamento vazio na cidade de Salvador, Bahia. Segundo a Polícia Federal, a fortuna de 51 milhões de reais pertenceria ao ex-ministro do PMDB, Geddel Vieira Lima. Suspeita-se que o dinheiro seja proveniente de propinas ou de desvios de dinheiro público. Geddel coleciona escândalos e acusações ao lado de outros políticos poderosos como o presidente Michel Temer, e os ex-presidentes Lula e Dilma. Ele já foi ministro de confiança de todos e elogiado por todos. Horror.

Houve quem desejasse estar no lugar de Geddel com tanto dinheiro vivo assim dentro de casa, sonhos de consumo, de ter dinheiro fácil. Parece cena de ficção como a da personagem Bibi interpretada pela atriz Juliana Paes na novela da TV Globo, A força do querer. Mulher de traficante, deslumbrada, ao encontrar milhões em notas de dinheiro em espécie referente ao comércio ilegal de drogas e armas, ela não resiste, e pede para ser fotografada mergulhada no dinheiro. A demonstração de status e poder da personagem foi parar nas redes sociais na ficção e fora dela.

A fortuna encontrada no apartamento da capital baiana atribuída a Geddel Vieira Lima também soa como algo ficcional, mas, infelizmente, é a pura realidade. Políticos e empresários corruptos roubam dinheiro de escolas, hospitais, universidades ou da segurança pública, como se fosse algo natural. Quem sabe, como muitos compulsivos sexuais, eles acham aceitável ejacular em público, no pescoço, no rosto ou na roupa de qualquer mulher dentro dos ônibus. A perversão por roubo de alguns homens públicos supera a da ficção televisiva. Horror.

A falta de punições justas (ou seriam leis justas?), ou a sensação de impunidade, algo comum entre os brasileiros, possivelmente, contribuem para que a corrupção e os crimes sejam praticados sem maiores dificuldades. Não são só políticos, empresários ou traficantes que representam o que há de pior na sociedade quando o assunto é corrupção ou ilegalidade. Culturalmente, o país do “jeitinho” ou do “deixa isso pra lá” acostumou-se há pelo menos 517 anos com coisas ilícitas e inconvenientes. Seja pela violência ameaçadora, seja pela indiferença ameaçadora, pessoas vivem ou sobrevivem pelo poder, pela posse de algo, custe o que custar. E roubando. Não se pode generalizar a desonestidade entre políticos e empresários, é verdade. Porém, o senso comum tem nos desanimado bastante.

Apesar de tantas denúncias, delações ou colaborações premiadas, das prisões de políticos e de empresários poderosos, como temos visto nos últimos anos com a operação Lava Jato, às vezes, tenho a sensação de que tudo não passa de encenação, de obra fictícia, uma série de televisão ou um filme como o que acabou de estrear nos cinemas, A lei é para todos, de Marcelo Antunez. Não me animei em assisti-lo, pois já bastam as notícias desestimulantes e diárias sobre os escândalos, o jogo político perverso e pervertido que somos obrigados a lidar. Protestos fazemos? Quem sabe, em uma postagem no Facebook (ou seriam nas urnas?). Horror.

Temos convivido com políticos e empresários enganadores e mentirosos que demonstram um apetite insaciável para gozar sadicamente às custas do dinheiro da população. De Eduardo Cunha a Marcelo Odebrecht, de Antônio Palocci a Joesley Batista, de Aécio Neves a Eike Batista, só para citar alguns dos mais famosos. Eles gozam da nossa cara ou na nossa cara sem a menor vergonha ou embaraço. Há um prazer sórdido para enriquecerem se apropriando do dinheiro arrecadado por meio de altos impostos e contribuições. Nessa relação, sociedade e homens de poder alimentam uma espécie de transa sadomasoquista violentíssima. A gente sofre todas as agressões e despautérios, mas pouco ou nada faz para se livrar desses maníacos bem-vestidos e endinheirados. Resquícios dos hábitos da casa grande e da senzala? Talvez. Ou ainda, pode ser reflexo da opressão dos anos de chumbo durante a ditadura militar. Estamos sendo devorados por outras ditaduras e ditadores, ultimamente, em todas as esferas de poder. Manda quem pode, obedece quem tem “juízo”. Horror.

Tentar ser otimista e esperançoso diante dos últimos acontecimentos no Brasil, exige uma dose extra de vigor e desejo. No fim dos anos 1980, o psicanalista, escritor e cineasta Roberto Freire publicou o livro Sem tesão não há solução, contendo ensaios em que analisa questões psicológicas associadas à política. Se o Brasil não é para amadores, não sei que leitura Sigmund Freud faria a nosso respeito. Gozar o prazer e a felicidade de uma vida digna não é nenhum sonho ou fantasia impossíveis. Porém, neste país, isto é privilégio de muito poucos. A gozação ou a piada que nos fazem têm sido de muito mau gosto e bastante agressivas. Estuprar e ejacular na cara da Nação me dá vergonha e nojo. Há quem não se sinta assim, infelizmente, e a prova está aí, quase todos os dias nos nossos noticiários. Impotente.

 

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Igor Franco — Unidos do Sete de Setembro

 

 

 

Campos, 7 de Setembro, Cepop.

No trajeto, uma intensa batalha travada no trânsito. A tentação de aderir à irregular fila dupla e passar à frente dos carros que aguardavam na mão convivia com a dificuldade em entender um bloqueio que colocava na mesma pista carros que iam ao desfile com os que fugiam para as praias. Quase uma hora depois, ao chegar próximo ao colosso de 80 milhões de reais(!!!!), vi vários flanelinhas uniformizados e preenchendo talões de duas vias comprados na gráfica da esquina. “São 10 reais. Estamos cobrando adiantado”. Paguei sem pestanejar, afinal, um polimento sairia mais caro. “Vamos ficar até o último carro”. Não mais o vi. Aliás, notei o plural: ele e os outros colegas deviam ter conseguido o direito de explorar o estacionamento em alguma concessão pública, pensei.

Caminhando para a entrada, ouço uma música aproximando-se rápido. Era um ônibus trazendo alguma delegação que desfilaria. Cantavam um hino cívico mais ou menos assim: “Ih, f**eu, a ***** apareceu”. Não entendi muito bem quem estava aparecendo, mas agora não importa. Tivesse eu ouvido o alerta daqueles jovens, o tema do texto seria outro.

Cheguei às arquibancadas. Um sol para cada um. O número de ambulantes anunciando seus produtos perdia por pouco para o número de potenciais consumidores. Para aqueles que, como eu, defendem que o pior da crise passou, observar aquela quantidade de vendedores foi um convite para repensar o otimismo.

Pus os olhos na pista. Dezenas de pessoas à paisana transitavam pelas laterais. Seria um corredor de dispersão? Percebi que não quando vi alguns carrinhos de picolé na avenida. Àquela altura, o Exército, a Polícia e os Bombeiros já haviam desfilado. Disputando espaço com transeuntes, ambulantes e diversas pessoas da (des)organização do evento, algumas delegações mal ocupavam meia pista. Bastantes minutos se passaram e o mais próximo possível de algo cívico foi o desfile de, aparentemente, representantes de alguma igreja evangélica. A expressão da religiosidade é, há algum tempo, a única tradição de um passado recente que ainda permeia o tecido social deste país, suspirava eu, saudoso dos tempos não vividos.

Ouvi a plateia agitar-se. Reparei, ainda longe, uma delegação de tamanho razoável. À frente, um rapaz dançava uma mistura de ritmos alegremente, mesmo sem música. Alternava passos de samba com reboladas frenéticas de funk. Alguns aplaudiam efusivamente. Outros, como eu, buscavam significado para aqueles quadradinhos de oito no 7 de Setembro. Concluí que aquilo só podia ser uma homenagem à música popular brasileira (não à MPB, que na verdade é música da elite, mas àquelas escutadas pelo povão mesmo). Já estava a postos para ajudar com um comprimido de Tramal dada a iminência de um mau jeito na coluna do dançarino quando me dei conta de que havia cometido um erro crasso de localização. Na pressa de chegar ao destino, peguei a entrada errada. Ao invés de ir para o Cepop, parei no Sambódromo!

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PS: na semana da comemoração dos 195 anos de Independência, assistimos atônitos passivos à contagem manual dos R$ 51 milhões de reais do peemedebista Geddel Vieira Lima, descobertos em malas e caixas. Um dia depois, o ex-todo-poderoso ministro dos governos Dilma e Lula, Antônio Palocci, fez os brasileiros dormirem assombrados com a confirmação de cifras multibilionárias das propinas pagas pela Odebrecht ao eterno perseguido das elites, Luiz Inácio Lula da Silva. Tido como redentor dos pobres e dos oprimidos por “500 anos”, Lula é incensado por alguns intelectuais de miolo mole como marco zero da real independência brasileira. A ser verdade, a propina da Odebrecht está para ele como a famosa indenização paga pelo Brasil à Portugal e Inglaterra por sua própria independência. Essas bandas sempre tiveram vocações para o ridículo.

PS 2: aliás, dado o conteúdo das gravações desastradas de Joesley Batista e Ricardo Saud, é inevitável dizer que nossa vocação mesmo é a pornochanchada.

 

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Questão de gênero da tela da Globo à realidade da planície goitacá

 

Recorte da capa de hoje (10) da Folha da Manhã

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

“Sou homem, nada humano me é alheio”. Ainda que o homossexualismo fosse prática aceita no mundo greco-romano da Antiguidade, o poeta e dramaturgo latino Públio Terêncio (185 a.C./150 a.C.) talvez não imaginasse como, mais de dois milênios depois do seu verso, se multiplicariam as definições de gênero e sexualidade. Mas, por humanas, saberia que ninguém lhes poderia ser alheio. Caixa de ressonância do mundo de hoje, o Facebook oferece nos EUA, desde março 2014, 56 opções de identificação de gênero na montagem de cada perfil pessoal. Um ano depois, a maior ágora virtual do planeta passaria a ofertar 17 alternativas de gênero aos seus usuários do Brasil.

Renata Melila Duarte (Foto: Diomarcelo Pessanha)

— Aquele desenho que toda a criança faz, com pai, mãe, filho ou filha, casa e árvore, não esgota mais o conceito de família. E isso hoje acontece até com os heterossexuais. A mulher casa com um homem e leva seus filhos de uma relação anterior. Ou é o homem que leva os seus para a nova relação. O mundo mudou, ficou mais dinâmico. E o conceito de família também — exemplifica Renata Melila Duarte, 39 anos, mulher transgênero (identificada com o gênero oposto ao dado no nascimento), que há anos rompeu com o batismo de Carlos Renato. Cursando serviço social na Universo, ela trabalha há 10 anos como assessora da presidente da Associação Irmãos da Solidariedade, Fátima Castro, na assistência aos soropositivos de HIV em Campos.

O conceito de transgênero foi estabelecido em 1965, pelo psiquiatra estadunindense John F. Oliven, da Universidade de Columbia, a partir do seu trabalho referencial “Higiene Sexual e Patologia”. O debate sobre a questão saiu da medicina, psicologia, antropologia, sociologia, filosofia e direito, para entrar de vez nos lares brasileiros com a exibição de “A Força do Querer”, novela das 21h da Rede Globo — variação eletrônica dos anfiteatros de Terêncio. Na TV, a atriz homossexual cisgênero (identificada com seu gênero de nascimento) Carol Duarte vive Ivana, em conflitos com sua família ao se assumir homem trans. Na arte que imita a vida, Ivana tem como referência Tereza, nome de batismo do ator trans Tarso Brant, que interpreta a personagem e serviu de inspiração para Glória Perez abordar o tema em seu folhetim.

Curiosidade para muitos em relação a Ivana é que, mesmo sendo um transgênero masculino, ele não demonstrou ter atração por mulheres, embora já tenha se relacionado com um homem na novela. Na vida real, o jovem Átalo Willian Barreto dos Santos é um homem trans de 20 anos. Ator e estudante do curso de licenciatura de teatro do Instituto Federal Fluminense (IFF), ele deixou o nome de Larissa, mas não só se identifica, como se interessa por homens. E explica isso com serenidade e articulação:

Átalo Willian Barreto dos Santos (Foto: Diomarcelo Pessanha)

— Sempre ouço essa pergunta: “Como você é um transgênero masculino se não se relaciona com mulher?”. Para mim, sempre foi natural. O homem que é gay, não deixa de ser homem por isso. O transgay também não deixa de ser homem por isso. Dentro de todas as classificações possíveis, é essa que me cabe. Com o tempo a gente percebe que, mesmo trans, é homem do mesmo jeito. É essa consciência de gênero que controla o nosso corpo. No teatro, eu aprendo que a mente controla o corpo. Sempre tive afinidade com homens homossexuais. É o que eu sou. Quando criança, tinha aquela separação entre meninos e meninas. Eu ficava com as meninas, sem estar.

Em que pesem todas as discussões e polêmicas, ninguém parece discordar que o caminho seguido por Renata e Átalo, como de muitos outros transgêneros em Campos, no Brasil e no mundo, ainda é cercado de preconceito. Marginalizados, são muito poucas as oportunidades profissionais dadas pela sociedade a alguém que se identifica com o gênero oposto ao do nascimento:

— É importante dizer isso: o transexual não consegue emprego. Você não vê uma trans trabalhando num banco, numa empresa. Marginalizada, tratada sempre como cidadão de segunda classe, a maioria acaba empurrada para a prostituição. O máximo que conseguem, dentro de um emprego dito normal, é trabalhar em salão de beleza. A transexual é vista como marginal, que anda com gilete, esse tipo de coisa. Só quem conhece, quem está próximo, sabe que a coisa não é assim. Mas existe esse misticismo, que segrega. Conheço o caso de uma trans de Campos que a família não aceitava. Os amigos abandonaram. E, sem apoio, ela se suicidou. É uma coisa feudal! — denuncia Renata.

— No curso de teatro do IFF, encontrei pessoas mais abertas. Externei a eles a minha condição e senti acolhimento. Mas sei que não é sempre assim. Sem mercado de trabalho, por conta da sua identificação de gênero, muitos trans têm que recorrer à prostituição para ser o que são e conseguirem sustento. Não sou ativista. O que posso fazer é mostrar minha questão, talvez servir como referência a outros rapazes trans. É uma coisa que não pode ser inviabilizada. Não dá para encarar isso apenas de forma científica ou religiosa. As pessoas precisam enxergar que existe outra forma de ser humano. Não é doença, não me debilita, não tira minha consciência. Até ajuda a me encontrar como pessoa. Gênero e sexualidade não são a mesma coisa — diferencia Átalo.

Dentro do universo trans, tão diverso como qualquer outro nicho humano, varia também o conceito de família. Renata é casada há seis anos com o pedreiro Alan Rodrigues Muniz, de 29, com quem leva uma típica vida de casal. Ela o conheceu numa festa de rua em Itaperuna. Eles planejam adotar um filho, depois que Renata passar pela cirurgia de mudança de sexo, feita no Brasil pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2008:

 

Renata e seu marido, Alan, refletem sobre a bancada da cozinha uma títpica vida de casal (Foto: Diomarcelo Pessanha)

 

— Estou há seis meses na fila do SUS para fazer a adequação de sexo. A espera é de dois anos. É o tempo que a lei exige até a aprovação do psiquiatra e do psicólogo, que acompanham cada caso. Tomo hormônios femininos há 15 anos e, há cinco, coloquei próteses de silicone nos seios. Já dei entrada no Ministério Público para mudar minha carteira de identidade. Eu e meu marido pensamos, sim, em adotar um filho. Tanto faz se menino, ou menina. Para criação de uma criança, a base de tudo é o respeito e o amor. No tempo devido, vou esclarecer as opções: menino pode gostar de menina e menino, menina pode gostar de menino e menina. A decisão será só dele, ou dela. Qualquer que seja, eu vou apoiar como mãe.

Fazendo acompanhamento psicológico há um ano, onde sua condição de homem transgênero foi constatada, Átalo ainda não toma hormônios masculinos, nem pensa em fazer a operação de redesignação sexual, mais complicada para quem nasceu com corpo feminino. Embora não se encaixe no padrão monogâmico, mais “tradicional” de Renata, ele também pensa em ter um filho, talvez até gestá-lo:

 

Átalo em busca da identidade de gênero que o reflita (Foto: Diomarcelo Pessanha)

 

— Penso em criar laços familiares, sim. Mas acho que casamento é uma convenção. Você precisa ter laços, ser monogâmico, dividir bens. Não sou monogâmico, como não sou promíscuo. Depende do que a outra pessoa pense de casamento. Também penso em ter um filho, mas não sei como. Mas penso em gerar, sim. Sempre tive essa coisa de perpetuação genética. Isso para mim é um sentido de paternidade, não maternidade. Para engravidar, o homem trans tem que parar de tomar hormônios. Só depois de dar à luz e, se quiser, amamentar, pode votar a tomar hormônios. A outra forma é inseminação, ou adotar.

Através de suas próprias experiências, Renata e Átalo saíram de pontos de partida diferentes. Mas em oposição às designações de gênero recebidas no nascimento, buscaram na mesma humanidade da qual falava Terêncio a resposta ao questionamento mais básico: quem sou?

— Eu nasci em um corpo, mas sei que isso não me pertencia. Minha alma é feminina. Eu sou mulher! Simples assim! — define Renata, caminhando de encontro ao testemunho de Átalo:

— Depois de refletir, cheguei à conclusão: não sou mulher! Nunca me vi. Nunca me senti. Identidade é uma coisa muito importante. É o que a gente é para o mundo. É o que somos para nós mesmos.

 

A figura das hijras remonta os primóridos do hinduísmo, religião viva mais antiga do mundo (Foto: Reprodução)

 

Aquiles trata do ferimento de Pátroclo

“O mundo é sortido, Senhor”. E não é de hoje

Para quem pensa que a complexidade entre gêneros e sexualidade é “produto dos tempos modernos”, ou pós-modernos, um pouco de trabalho de pesquisa sobre o assunto pode ser surpreendente. Na Grécia antiga, cujos valores culturais foram legados ao Império Romano, havia a cultura da efebia, pela qual era visto com naturalidade o hábito de um homem mais velho tomar um mais jovem como amante. O objetivo era também prepará-lo para a vida cívica e militar. A partir da relação entre os heróis míticos Aquiles e Pátroclo, na Guerra de Tróia narrada na “Ilíada”, do poeta Homero (séc. 8 a.C.), base de toda a cultura ocidental, historiadores contemporâneos como o inglês Arnold J. Toynbee (1888/1975) observaram que: “na Grécia, o amor romântico era entre homens”.

Afresco da poeta grega Safo

Em importantes cidades estado gregas como Tebas e Esparta, as relações homossexuais eram reguladas por legislação específica. Por outro lado, foi pelo fato da poeta grega Safo (séc. 7 a.C.) ter nascido na ilha de Lesbos e dedicado parte da sua obra ao canto do amor por outras mulheres, que as homossexuais femininas passariam a ser conhecidas como lésbicas. Considerados os maiores generais e conquistadores, respectivamente, das civilizações grega e romana, Alexandre Magno (353 a.C./326 a.C.) e Júlio César (100 a.c./44 a.C.) eram conhecidos por terem amantes de ambos os sexos.

Em outras culturas, frutos de outros processos civilizatórios, as questões de gênero e sexualidade foram ainda além. Na cultura Iorubá, trazida pelos negros africanos que vieram escravizados ao Brasil, a questão do gênero se dá na forma de princípio ativo (masculino, positivo) e passivo (feminino, negativo) entre suas divindades: os orixás, que representam a dualidade da natureza. A mitologia conta que a cada orixá foi designado a regência entre pontos positivos e negativos, para manter a harmonia e o equilíbrio. Popularmente, eles passaram a ser mais conhecidos como orixás masculinos e orixás femininos, além dos chamados orixás meta-meta — expressão difundida apenas no Brasil para designar orixás que tendem a ficar um período na regência do lado ativo, masculino, e em outro período na regência do lado passivo, feminino.

O candomblé apresenta uma grande tolerância à diversidade, como explicou Reginaldo Prandi, professor da USP especializado nessa religião. “O candomblé é calcado na diversidade, ou seja, considera que nós todos não temos a mesma origem: cada um vem de um lugar, da terra, do trovão, do mar, etc. Cada um vem de um orixá que comanda uma parte da natureza. A primeira base do candomblé é a diversidade.” Essa base na diversidade dá o respaldo para que o candomblé lide melhor com a homossexualidade.

 

Cobertas com o hijab, o véu muçulmano, mulheres transgênero são aceitas no Irã, que pune com a morte os homossexuais (Foto: Reprodução)

 

Da ponte entre África e Brasil para o Oriente Médio, há um dado que pouca gente parece saber: desde 2008, a teocracia islâmica do Irã é o segundo país do mundo, atrás apenas da Tailândia, em número de operações de troca de sexo. E todas são bancadas pelo estado. Embora o homossexualismo seja punido com a morte naquele país fundamentalista, a partir de uma fatwa (opinião de um clérigo, que tem valor de lei) dada em 1980 pelo Ayatollah Khomeini (1902/89), líder da Revolução Iraniana (1979), foram reconhecidas pessoas do intersexo (que nascem com genitálias ambíguas). Posteriormente, a partir de 2001, os transgêneros puderam passar abertamente pelo mesmo processo.

Representação da deusa hindu Bahuchara Mata

Embora islâmico, o Irã foi influenciado pela cultura da Ásia Meridional, onde a figura das hijras, o terceiro gênero, é reconhecida e protegida por lei na Índia, Paquistão, Nepal e Bangladesh. Embora as hijras estejam presentes também no islamismo, suas bases estão no hinduísmo. Deusa desta religião politeísta e antiquíssima, Bahuchara Mata é a padroeira da comunidade hijra. O mito narra que um rei não teve filhos e decidiu orar à deusa para que ela lhe concedesse uma criança. O pedido foi atendido, mas o filho, príncipe Jetho, era impotente. A deusa então apareceu a Jetho em um sonho e ordenou que ele cortasse seus genitais, passasse a usar roupas femininas e se tornasse seu servo. Desde então, Bahuchara identifica homens impotentes e ordena o mesmo. Caso se recusem a obedecer, a deusa os amaldiçoa para que nasçam homens impotentes pelas próximas sete reencarnações.

As hijras são identificadas com os eunucos, homens castrados que serviam às cortes da Antiguidade e Idade Média, geralmente usados na guarda dos haréns dos governantes. Curiosamente, uma das seis peças de Terêncio que sobreviveram até nossos dias é a comédia intitulada “O Eunuco”. Como vaticinou outro poeta, o brasileiro Manoel de Barros (1916/2014): “O mundo é sortido, Senhor”. E não é de hoje.

 

 

Página 7 da edição de hoje (10) da Folha

 

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Fabio Bottrel — Bata forte, artista, como os anos pela vida

 

Sugestão para escutar enquanto lê: Silêncio – Ludwig Van Beethoven

 

https://www.youtube.com/watch?v=39DNaNAMKAU

 

 

“O terapeuta”, de René Magritte

 

 

Ontem, ao caminhar pelo Centro, senti algo novo em frente ao Teatro de Bolso e o brilho dos meus olhos fizeram o corpo parar, lembrei quando o conheci, ministrando uma palestra e bate-papo com grandes nomes na ocupação. Lembrei-me da primeira peça que ali assisti, Pontal, estava tudo muito quente pela falta do ar condicionado, mas ninguém se importava com tal fato ínfimo perante a grandeza do momento. Àquele tempo, mesmo diante de tanta luta dos que se revezavam na ocupação e da sociedade, o futuro era incerto diante das politicagens que assolavam seu destino.

Como alguém que se renova, que se levanta da queda e sacode a poeira de cara limpa, eu o senti diferente e me alegrei, coisa que já predestinava quando soube, o grande nome do teatro campista o daria a mão e zelaria para que se reerguesse: Fernando Rossi, personagem que figura nesse texto escrito logo após a mágica do encontro entre Pontal e o público no Teatro de Bolso.

 

Bata forte, artista, como os anos pela vida!

21/05/2016

 

Estalava o ventilador numa noite tão quente do ar machucar o pulmão. Com um violão, a esperança na mão, no palco do Teatro de Bolso um artista dormiu, e ao dormir sonhou que era um pássaro. Bateu as asas forte, tão forte, muito forte! E subiu, subiu, subiu. Achou uma fresta num cano escuro, entrou e voou além do teto, subiu, subiu, subiu, viu, toda a cidade iluminada, a ponte verde ao lado do abandono rosa. Enquanto o vento frio soprava no seu bico, sentia o pequeno coração bater acelerado com as asas abrindo altas e donas do céu estrelado atrás de si, sentia o ar entre as penas, a vida longe de ser pequena. Do alto viu sua morada, no telhado do teatrinho, um velho ninho amassado e usurpado por predadores ao longo do tempo. Ali estavam seus filhos gritando, aproximava-se uma trupe de aves de rapina para roubar-lhes a casa. Desceu com toda a força, bateu forte as asas como batem os segundos no tempo, desceu, desceu, desceu enquanto o vento passava como passam os anos pela vida o levando a 48 anos atrás…

…Ainda era sua primeira muda de pena quando levava alguns pedaços de palha no bico para construir um aconchegante e pequeno ninho no telhado do teatrinho, escutava as vozes de Gilda Duncan, Rubens Fernandes, Nely Fernandes, Paulo Roberto, Romilda Nunes e Odilon Martins ecoarem e chegarem aos seus ouvidos através da pequena fresta do cano no teto enquanto a cidade iluminada observava a primeira peça no Teatro de Bolso, onde construiu sua casa às vozes de A Moratória, em 15 de abril de 1968. Sentia nas patinhas os tremores dos aplausos, olhava as ondinhas que o vento fazia no rio Paraíba, arrumava palha por palha alinhavando seu ninho e depois empoleirava-se no muro para ver todo o mundo ir embora, quando o último ia, voltava para sua casa, ficava a observar as estrelas até seus olhos fecharem…

De manhã bateu as asas como batem os segundos no tempo, o vento passava como passam os anos pela vida e após 7 rajadas quebrou a asa num tronco soltando 26 penas no Boulevard Francisco de Paula Carneiro. Banhou seu canto com silêncio, não haveria mais dança nesse terreno, corpos ao relento, sua árvore fora cortada. De peito estufado, que pássaro da arte não se dobra com a dor, viu seu coração ser demolido, pétala por pétala, pena por pena. Ali ficou, demorou, caminhou, voltou para a sua casa, no telhado do Teatro de Bolso, chorou. O tempo derramou três lágrimas de silêncio enquanto a pele do pássaro enrugava, em agosto de 1978, na solidão de seu ninho, pôde voltar a admirar o canto dos atores ecoando pela fresta do cano no telhado, anunciando O Pagador de Promessas de Dias Gomes, numa montagem com Orávio de Campos enquanto o mar de luzes da cidade era o holofote do seu palco. Nesse mesmo dia, um passarinho com cores tão vivas que mesmo no escuro pareciam brilhar pousou no muro do telhado e ficou a olhar, imaginar, enquanto ouvia Marisa Almeida e Roberta Nogueira cantar, dançar nas ondas sonoras do ar. O passarinho se aproximou e o pássaro da arte curvou sua cabeça na alegria de ser, um dia, a saudade de alguém. O passarinho colorido subiu ao ninho, se aconchegou, asa com asa, pena com pena, protegeram-se do frio dobrando as patinhas dentro do ninho, e de que importava o mundo se estavam juntos?

Bateram as asas como batem os segundos no tempo, o vento passava como passam os anos pela vida e no silêncio costumeiro do frio alienador o pássaro voltou para a casa e viu três ovos, que foram se romper com a trilha sonora de poesias nas vozes de Osório Peixoto, Fernando Rossi, Adriano Moura e Kapi em 27 de março de 1991. Nasceram, filhos da poesia e das cores, filhos das vozes eternas que ecoam no vazio das reles rouquidões. Com a alma dos artistas moldaram seus cantos, cresceram, pássaros da planície imensa, da angústia imensa, da luta imensa, densa, seus cantares pediram bença à arte.

A vida era boa naquele teatrinho, brincavam de descer na fresta do cano no telhado e se empoleiravam ao lado dos refletores que iluminavam o palco. Olhavam os artistas ensaiarem com o coração a vapor, voavam entre eles como um balé encenado, sapecavam de poltrona em poltrona até saírem pela janela para continuarem as brincadeiras nas árvores da Avenida 15 de Novembro. À noite iam se aconchegar, os três filhotes e os pais dentro do ninho, e ver toda a cidade aplaudir os atores que antes encenavam para as cadeiras vazias.  No eco de suas almas bateram as asas como batem os segundos no tempo, o vento passava como passam os anos pela vida levando a 2014…

…Desceu, desceu, desceu! Enquanto batia forte as asas para proteger sua família, lembrava de ter visto os pássaros dissimulados nos entornos, aves de rapina em pele de cordeiro, chegaram até a sua casa pelo inverno, comendo as últimas folhas das árvores que morreram sufocadas. Ouvindo seus filhos gritando enquanto tentavam se defender, batia as asas até quebrá-las de tanta força, desceu, desceu, desceu! Com o bico afiado enfiou no olho da primeira ave que viu, mas eram muitas, e viu, seus filhotes mortos no bico da ave maior, carregados e dissolvidos na noite. Enquanto lutava, suas penas foram arrancadas uma por uma, olhou seu companheiro se debater sem vida no cimento frio do telhado enquanto as cores se tornavam apenas vermelho. Machucado, o pássaro da arte apoiou seu bico no cimento áspero ao lado do pescoço aberto de quem agora é sua saudade, e dormiu. Ao dormir sonhou que era um artista, no centro do Teatro de Bolso, em meio ao silêncio campista, segurava um poema de Eduardo Alves da Costa, com os braços abertos e o pulso sangrando recitava fragmentos da alma para a plateia de cadeiras vazias:

 

“Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem;

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.”

 

— Bata forte, artista, como os anos pela vida! – Gritou uma voz sem corpo no meio da escuridão. O artista não teve medo, ocupava sua casa com o coração e a alma abraçada às de outros artistas – cujo tempo já havia levado o corpo – sonhando com o dia em que ali ganhará seu pão.

— Meu bem, não se culpe tanto com o tanto de alma que és feito. Tire do seu rosto essa gordura dos três anos de solidão, tudo na vida deixa de ser, mesmo você. – Disse a atriz ao caos dentro do ator.

Ele correu para a coxia, arrumou-se rápido, era dia de peça na ocupação e sua voz não mais silenciada será escutada. De peito nu, no dia 15 de maio de 2016 o ator abriu os braços ao lado de Yve Carvalho e José Carlos Rosa enquanto encenava a peça Pontal, montada por Kapi. Com o corpo em cruz bateu forte no peito, como batem os segundos no tempo, o vento passava como passam os anos pela vida e quando o grito dos três anos perdidos bateu à porta, acordou!

 

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Luciane Silva — Eu estudei em escola pública! E você?

 

 

 

Escrevo este texto enquanto preparamos os equipamentos para mais uma ação de nosso projeto de extensão. Amanhã estaremos no Colégio Estadual Dr. Thiers Cardoso para a oficina Arte e Memória na escola: O Brasil através de sua música. Durante duas horas apresentamos um século de música, saindo de Adoniran e chegando a Emicida.

Bem, como alguns de vocês já sabem, minha tese expressa meu interesse sobre música e sociedade, sobre periferia e produção cultural.  Meu texto anterior sobre insurgência e greve recuperava memórias sobre atuação dos estudantes na década de 90. Na contribuição de hoje olho para o futuro que encontramos nas escolas de Campos. E neste texto quero nomear alguns dos amigos que até aqui já responderam a minha pergunta: Marcos, Márcio, Gizele, Valéria, Fernanda, Jorge, Paulo, Rodrigo, Ana, Ausberto, Daniel, Michely, Marcely, James, Ivilla, Elaine e Marcelo.

Sabe o que temos em comum? Durante toda a nossa formação ou em parte dela, passamos pela escola pública e seguimos neste processo. Temos aqui professores da UFF, da Uenf, do IFF, amigos de Porto Alegre, de São João da Barra, de São Paulo, da Maré, de Cabo Frio… ou seja, com toda as suas limitações, com todas as deficiências que por ventura muitos trazem da escola pública, ela permanece como uma referência.

Como uma experiência de vida. Quando apresentamos a bossa nova para alunos expostos às rádios, não queremos levar o bom gosto cultural. Não queremos educá-los a gostarem destas produções com um discurso de autoridade.  Nada disso.

Nossa aventura tem início nas marchas de carnaval com refrões como “bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar, o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar” para apresentar aos alunos a Era Vargas. Apresentamos Zé Carioca ao som de “Aquarela do Brasil” e seguimos com o barquinho de Nara Leão e Menescal até desembarcar no baião de Gonzagão. Essa oficina já passou pelo IFF na Semana de Geogradia, por Itaperuna, sendo apresentada também na Feira de Ciências da Uenf, no início deste ano.

Ao mesmo tempo em que tenho o prazer em reviver para alguns os festivais com Chico e Milton apresentando “Cálice”, percebo a demora com que os alunos engajam-se em nossa proposta. Mas não seria simples desinteresse. Talvez o desafio em repensar a escola resida nas formas de produção de engajamento. E no momento em que as primeiras batidas pesadas de Fim de Semana no Parque ganham o espaço, uma mudança qualitativa ocorre. Finalmente eles demonstram adesão ao discurso. Este é nosso ponto de reflexão e por isto os projetos de extensão são essenciais para pesquisa.

No dia 26 de agosto, no Jockey, mais de 30 alunos ecoaram “Rap da Felicidade”, ao som de Cidinho e Doca. Não faço distinção entre “Faroeste Caboclo”, “Construção” e “Rap da Felicidade”. São letras longas, contundentes, bem construídas internamente. O que mudou no cenário musical e na escola? As rádios e seu monopólio vendem sons e as imagens são parte fundamental da socialização juvenil. Não seria mais exatamente música para ouvir, mas para ver. Pode parecer estranha a idéia, mas reféns de uma sociedade do espetáculo, termo cunhado por Guy Debord, estes alunos de escola pública nem sempre realizam as conexões entre raça, classe e produção musical.

Certamente a forma como o corpo feminino é apresentado, não possibilita que essas meninas se libertem. No início da oficina, em uma linguagem bem direta, apresentei a seguinte letra “eu te amava nos tempos da escola, mas você não de deu atenção, pedi uma chance, pedi duas, mas você me disse não, vou marcar de te ver e não ir, vou te comer e abandonar, esta é a lei do retorno e não adianta chorar”.

Visivelmente com risos nervosos, confessaram conhecer a música. Então brinquei com os garotos “muito fora de moda esse comportamento, tratem as meninas com respeito, as mulheres hoje são espertas e inteligentes, não estão mais nessa onda”. Claro que as meninas aderiram. Mas é preciso enfrentá-los, em sua agressividade natural, em seu pedido truncado por afeto e orientação. Sim, a escola pública, assim como nossas universidades, são essas usinas de criatividade, desejos e incertezas. Não devemos moer seus espíritos para jogá-los em seus bairros. Sim, eles têm interação com o tráfico. Vamos colocar isto em debate. Sim, eles já têm uma vida sexual. E a religião não colaborou para mudar os quadros de aumento das doenças sexualmente transmissíveis.

Acabo por acaso de assistir a “Capitão Fantástico”. E o ponto interessante deste filme foi a capacidade de explicar os fenômenos do mundo tal como se apresentam. Vejam que Mc Don Juan, o cantor da letra citada acima, deve ter 16 anos.  Em que momento de sua trajetória artística chegou a conceber que uma menina deve ser “comida e abandonada”?

Pois bem, vou contar a vocês que gravadoras como a Furacão 2000 testam nos bailes certas tendências que agora chegam à São Paulo. Ou seja, mesmo que Deise Tigrona quisesse cantar o amor, sua família era sustentada com o Rap da Injeção, “tá ardendo doutor”. Meus interlocutores na favela não queriam aquelas letras, apresentavam outras, até mesmo o chefe do tráfico em determinada favela proibia certas letras. Mas, vidrados na imagem, mantidos sobre excitação constante dos sentidos, nossos alunos de escola pública perdem a possibilidade de criar.

Somos tão jovens, éramos logo ali, nos anos 80, apaixonados e perplexos. Mas fosse o punk dos Titãs, ou o ska dos Paralamas, estávamos interessados em um país que não conhecíamos. Da mesma forma como ainda eram as letras de Renato Russo que embalavam nosso platonismo. Me parece que nossas experiências geracionais nos anos 80 ainda eram românticas. Pois bem, se a televisão nos deixou burros demais, a web explodiu as possibilidades, ampliou uma certa indiferença.

Simmel, um judeu alemão adorável nos fala dessa vida na cidade. De um espírito indiferente, estimulado pelo neon, acossado pelo excesso de luz, de som, de movimentos. Essa é a disputa vivida na escola pública. Sem violões e num tempo de alta velocidade, disputamos corações e mentes destroçados pelos conflitos urbanos, pela precariedade estrutural do bairro, pelo estigma policial, por uma subindústria cultural para a qual quanto mais exposição dos quadris, dos seios e dos dorsos masculinos, mais vendas.

E não se enganem, transexuais fazendo sucesso só serão permitidas por algum tempo. Pois a base que comanda o monopólio das rádios, televisões e jornais não foi alterada. Pablos ou Fernandas duram o tempo dos “likes” de estação. A luta real é contra este projeto de desmonte da escola pública e das universidades, ocupando, produzindo outros sentidos. Fazendo vídeos e músicas ao invés de consumir os hits de São Paulo com Mcs que sequer escolhem o que cantam.

Ah, e no meio disto tudo, estamos tentando fazer uma Mostra de Música em Campos, em novembro. Com total liberdade de criação.

 

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Terrorismo teme consequência e Garotinho teme Rosinha na Chequinho

 

Charge do José Renato publicada hoje (08) na Folha

 

 

 

 

Terrorismo medrou (I)

A civilidade imperou no desfile cívico, ontem, no Dia da Independência em Campos. Nas arquibancadas do Cepop, símbolo maior da gastança nos oito anos da gestão Rosinha Garotinho (PR), houve manifestações contrárias e favoráveis ao atual governo municipal. Mas todas dentro dos limites do estado democrático de direito. Comandante do 8º BPM, o tenente-coronel Fabiano Santos confirmou que seu setor de inteligência sabia do movimento urdido nas redes sociais para tentar ameaçar fisicamente o prefeito Rafael Diniz (PPS) durante o evento, na prática de terrorismo político que chegou a parar Campos na última segunda (04).

 

Terrorismo medrou (II)

Nas duas últimas edições desta coluna, a tentativa de impor o terrorismo ao município foi denunciada (aqui e aqui). Num movimento que usou a greve dos servidores na segunda, com insatisfação dos rodoviários, garis e motoristas de ambulância das empresas prestadoras de serviço, Campos ficou parte daquele dia sem ônibus e coleta de lixo. Esses movimentos reivindicatórios foram utilizados pelo grupo apeado do poder, após quase 30 anos, para tentar instalar o caos na cidade. Coagir publicamente o prefeito no 7 de Setembro seria a cereja desse bolo, cuja assadura foi interrompida quando a tampa do forno foi aberta e a receita revelada.

 

Terrorismo medrou (III)

Quem acompanha a política goitacá mais de perto, sabe que a acachapante vitória eleitoral de Rafael, ainda no 1º turno, em todas as sete Zonas Eleitorais, se deu também porque, após as primeiras prisões da operação Chequinho, o esquema de compra de votos do garotismo teve medo de sair às ruas. Guardadas as distinções devidas, não foi diferente ontem no Cepop. Também ontem, esta coluna advertiu que quem embarcasse na promoção de terrorismo pela cidade teria que medir as consequências dos seus atos. Para isso, só há uma solução: a imposição do limite da lei. Os próximos dias dirão se governo e oposição aprenderam a lição.

 

Sentença à vista

A semana chega ao fim, em meio a um feriado prolongado, com grande expectativa, já que não deve demorar muito para que seja divulgada a sentença daquele que é apontado pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal como o “líder” do “escandaloso esquema” da Chequinho. Após a apresentação das alegações finais, feitas pelo advogado de Anthony Garotinho, o próximo passo do juízo da 100ª Zona Eleitoral é a sentença.

 

Bola de cristal

Não é de hoje que Garotinho brada por onde passa, ou nos espaços de comunicação que lhe restam, que será condenado. Mais uma vez parece ter colocado sua bola de cristal para funcionar, dando como certa uma sentença desfavorável, fruto, segundo ele, de “perseguição”. O que o marido da ex-prefeita Rosinha insiste em negar estão comprovados em várias provas e depoimentos, que puderam ser avaliados por, pelo menos, cinco advogados, que o representaram ao longo desta ação penal.

 

Pressão de Rosinha?

Nos bastidores dizem que mais do que sua condenação Garotinho tem temido as consequências à sua esposa, também alvo de ação judicial na Chequinho. Rosinha estaria receosa com o que está por vir e vê mais do que os planos eleitorais, sempre traçados pelo marido, serem comprometidos. A rotina de dona de casa, artesã e vendedora de cosméticos também estaria ameaçada. Dizem os mais próximos ao casal que uma suposta pressão de Rosinha sobre o “presente” de Garotinho tem sido mais perturbador do que qualquer sentença.

 

Restituição

Em tempo de crise, qualquer dinheiro é muito bem vindo.  E para quem tem direito a restituição do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) de 2017, a consulta ao quarto lote estará disponível a partir das 9h de hoje.  O lote contempla 2,257 milhões de contribuintes, totalizando a liberação de mais de R$ 2,7 bilhões. Também serão liberadas para consulta restituições residuais dos exercícios de 2008 a 2016. A consulta é feita no site oficial da Receita Federal.

 

Com o jornalista Rodrigo Gonçalves

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

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Guilherme Carvalhal — O realejo

 

O realejo tocava uma valsa antiga na esquina sobre a calçada. O tripé montado no concreto manchado por uma fina camada de lodo parecia sem firmeza com suas marcas de ferrugem e tinta gasta. As bases de borracha preta comida deslizavam na umidade prestes a cair. Os movimento de cordas e fole, um mecanismo já antigo e gasto, faziam sair o som grave e melancólico misturado com ruído de engrenagens oxidadas, uma combinação de balada de amor imperfeito com ranhuras metálicas ao fundo.

As pessoas paravam e rodeavam apreciando aquele espetáculo soturno, atraídas por um tipo negativo de curiosidade. O ritmo não causava estranheza aos ouvidos e alguns transeuntes ousavam dizer já tê-las ouvidas nos bailes de roça há muitos e muitos anos. Havia quem contasse detalhes e desse palpites quanto ao nome de seu compositor, um dito cujo que percorria o Nordeste com o acordeon nas costas.

Um senhor de cara enrugada, de linhas desenhadas a navalha, girava a manivela com seu braço frágil, dando origem à movimentação da máquina e produzindo a música. Saiba seu futuro por apenas dois reais, leia apenas quando chegar em casa, dizia um cartaz afixado à lateral de madeira corroída pelos cupins do realejo.

Sobre uma pequena bancada, atado por uma corrente, um papagaio mexia o pescoço ao ritmo da valsa, balançando de quando em vez as patas. Tomada de curiosidade e com sorriso divertido nos lábios, Clarice, que passava distraidamente, se deixou hipnotizar pelo som e assistiu pasma à apresentação da música e da ave esverdeada. Impressionada pelo exotismo e com desejo de participar daquela experiência inusitada, sacou uma nota e entregou ao velho. Ele deu algumas batidas com os nós dos dedos contra a madeira, sonorizando uma espécie de código, e o papagaio abaixou para bicar um pequeno envelope branco com um lacre dourado e os dizeres ratificando o “Só abra em casa” impresso, para em seguida entregá-lo. Pôs o papel dentro da bolsa, enviou um pequeno sorriso ao velho, que não retribuiu, e saiu, desejosa de ver o que o destino lhe reservaria.

O que deveria se tratar de simples brincadeira, algo de cunho altamente jocoso com o qual se deparara andando pela rua sem qualquer tipo de pretensão de seriedade (não haveria de acreditar numa simples previsão do futuro feita por um papagaio dançante bicando pedaços de papel escritos à mão sabe-se lá por quem) acabou lhe causando forte impacto. Abriu o envelope, viu a mensagem e um misto de agonia e raiva sucedeu; seus olhos esmaeceram e perderam repentinamente o brilho. Emburrou a cara e ficou recostada à janela pelo resto do dia, condoendo-se internamente e regurgitando a mensagem martelante em sua cabeça. Não conseguia simplesmente ignorar aquela predição maliciosa e para aliviar a tensão tamborilava furiosamente os dedos.

Everaldo olhou-a e notou com estava estranha. Em um lampejo de interesse perguntou o que havia ocorrido. Acostumara-se com suas crises, sua comiseração, seu pedido de piedade por si própria, porém nunca a vira com raiva; achava inclusive que fosse incapaz de ter este sentimento. Buscando confortá-la, dirigiu-lhe a palavra, coisa que raramente fazia, e ela rosnou um xingamento, levantou irritada e saiu de casa. Ele não entendeu nada e ficou a fitar o infinito tentando achar nele alguma resposta.

Caminhando pelas ruas, o papel não saía de sua cabeça. Tudo que ocorria indubitavelmente a levava a crer que sua vida não valia nada e mais e mais sentia esta confirmação. Parecia tratar-se de uma verdade inconveniente, quando lhe dizem algo que você é simplesmente incapaz de admitir, mas se vê diante da obviedade e simplesmente não pode negar. Era absurdo demais para qualquer ser humano admitir, ver real aquilo que tem de mais escondido em si, aquela verdade que nunca põe para fora, os segredos íntimos jamais revelados, aquilo que é preferível esquecer; Clarice viu-se com este lado exposto, atingida no âmago. Toda a verdade que se recusava a enxergar sobre si mesma cuspida em sua cara e da pior forma possível por alguém que não conhecia.

Talvez fosse uma simples brincadeira de mau gosto, algo arranjado para simplesmente incomodá-la. Rodou pelas ruas à procura do velho do realejo. Não estava mais no local onde se encontrava pela manhã. Desaparecera e nem as marcas do tripé permaneciam na camada de lodo, já apagadas pelos passos. Perguntou às pessoas próximas e ninguém lembrava que ele estivera ali. Realejo, o que é isto? Não, não vi nada. Aqui, com um papagaio? Você é louca? Ninguém viu. Ninguém sabia. Ninguém lembrava. Uma figura de traços tão singulares manipulando um aparelho completamento fora de uso em uma tradição de oráculos esquecida passou completamente despercebida. Todos comentavam durante a manhã e reparavam na estranheza da música emitida pelo aparelho. Agora nada.

Desesperou-se no meio da rua. Terá sido um sonho? Uma simples mensagem? Havia pago dois reais a ele com absoluta certeza. Ouviu o soar melancólico fundido com as engrenagens emperradas, estava claro em sua mente. Não se tratava de uma mera ilusão. Tudo parecia ser completamente real. Não fantasiou a música, o papagaio, o velho ou a mensagem. O que ocorreu? Aonde estava o velho? Qual significado disso tudo?

Clarice saiu andando repleta de confusões em sua mente. Teve momentaneamente algumas lembranças de infância, quando se perdia em meio a indagações diversas sobre várias coisas ao mesmo tempo. Um presságio de seu futuro. Mais parecia o presente. Cenário turvo. Sentiu um mal-estar no meio da rua. Correu a uma lixeira e vomitou. Os passantes se assustaram, um guarda veio perguntar se está tudo bem, ela disse que sim enquanto ainda cuspia os restos de caldo amarronzado com gosto de bile e limpava a boca com os dedos. Saiu andando envergonhada procurando algum canto para se esconder. Qual será seu futuro? Algo explicado em um pedaço de papel? Clarice sempre tentou achar explicação para tudo. Queria que tudo fizesse sentido. Desde a infância. Perguntava sobre as coisas ao redor, a lógica envolvendo cada processo do mundo captado pelos seus sentidos. Buscava um senso coerente para tentar entender. Qual o sentido do papel? Precisava haver. Qual a lógica da mensagem e do velho que tocava o realejo?

Tão sem sentido. Reles brincadeira. Não. Havia sentido. O que aquilo queria dizer? Seu pequeno momento capaz de destruir suas perspectivas de vida. Pedras rolando. Ou não haveria sentido algum e tudo seria mera obra do acaso? Assim como a origem do universo, do Big Bang à bomba de nêutrons; não havia coerência em nada daquilo que entendia como existência.

Clarice correu para a beirada do rio e vomitou. Os restos descerem junto com as águas. Permaneceu durante algum tempo. Ouvia o barulho do rio, as lágrimas desciam de seus olhos e murmurava baixinho consigo mesma o quanto odiava a própria vida. Perambulou desnorteada pelo resto do dia. As imagens distorciam em seus olhos. Estava perdida na cidade onde sempre morou. as ruas entortavam, sentia-se tonta, cambaleava pelas ruas, deixou-se cair no meio-fio, esforçou-se para permanecer em pé, circulou sem rumo até se cansar e voltar para casa.

Ao ver Everaldo, jogou-se aos seus braços em busca de amparo. Deixou todas as lágrimas saírem e reclamou de como sua vida era horrível. Ele a levou à cama e deu um remédio para dormir. Ficou sem entender porque ela estava deste jeito. Sobre a mesinha da sala havia um envelope que ele não tinha reparado. Talvez tivesse alguma ligação. Pensou que fosse alguma carta com notícias negativas, apesar de não haver remetente. Pegou o envelope e abriu. Lá dentro havia um papel em branco.

 

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Terrorismo e reação no Dia da Independência em Campos dos Goytacazes

 

 

 

Independência ou morte

Hoje, no desfile de 7 de setembro, marcado para o Cepop, símbolo maior da gastança nos oito anos de governo Rosinha Garotinho (PR), se comemora o Dia da Independência do Brasil. Revisões históricas à parte, o evento poderá simbolizar até que ponto Campos é realmente independente, ou não, do grupo político que governou o município por quase 30 anos. Governando há pouco mais de oito meses, Rafael Diniz (PPS) estará presente. E dentro do clima de terrorismo instalado na cidade desde segunda (04), ontem continuou a se engendrar abertamente nas redes sociais os preparativos para hoje tentar coagir e ameaçar fisicamente o prefeito.

 

Interesses e interesses

Na edição de ontem (aqui) desta coluna, também viralizada nas redes sociais, se alertou até que ponto chegou o clima de “quanto pior, melhor” em Campos. Como foram cobradas a reação contra quem trabalha sem constrangimento contra a cidade, e a imposição do limite da lei a quem deixou o moral atrás de si, na prática de terrorismo político. Conduzido como massa de manobra por quem foi apeado do poder com a eleição de outubro, o descontentamento com o governo Rafael teve vários motivos ontem elencados aqui. Alguns deles são confessáveis e legítimos, outros nem tanto.

 

Alvo é IMTT?

Entre as causas menos nobres ao descontentamento, foi escrito: “há aqueles que perderam a boquinha, própria ou de alguém próximo”. Mas o que a coluna não citou ontem foi um caso inverso: o de quem tenta cavar sua boquinha no governo, criando-lhe dificuldades, para vender “facilidades” — como a “proteção” vendida pela máfia contra o mal que ela mesma pode causar. Por exemplo, e se o movimento que organiza nas redes sociais os protestos de hoje tivesse como um dos seus líderes alguém com passado suspeito na área do transporte? E se, no presente, ele agisse movido por ambição pessoal no Instituto Municipal de Trânsito e Transportes (IMTT)?

 

Presente repete passado

Como comportamento, geralmente, vem da prática, poderia ser o caso de alguém que atuasse num setor burocrático de transporte e passasse a fiscalizar com o rigor da lei as vans e lotadas numa certa linha intermunicipal. E, assim que parasse de receber o “agrado” da empresa de ônibus que monopolizasse essa mesma linha, passasse a defensor das mesmas vans e lotadas que antes perseguia. Alguém nesta condição, certamente não veria com bons olhos a atuação irretocável do arquiteto e urbanista Renato Siqueira à frente do IMTT, que fiscaliza (aqui) vans e lotadas em Campos por apego à lei, não interesse pecuniário escuso.

 

Delação futura

Como caso real e análogo ao exemplo hipotético, pertinente a situação de Rogério Onofre, ex-presidente do Departamento de Transportes Rodoviários do Rio (Detro), no governo Sérgio Cabral (PMDB). Preso pelo juiz federal do Rio Marcelo Bretas, ele foi solto pelo insuspeito ministro do Supremo Gilmar Mendes, para ser preso novamente pelo magistrado carioca, por ter ameaçado torturar e matar delatores. E se, seguindo o comportamento padrão de quem puxa cana na Lava Jato, Onofre também virar delator? Numa dessas coincidências da vida, isso poderia chegar ao protesto programado para hoje contra o governo de Campos? Mistérios!

 

Ovos do Pq. Aurora

Falando ontem à coluna, o vereador de oposição Thiago Virgílio (PTC) garantiu não ter nada a ver com o terrorismo que ameaça bater ponto no desfile cívico de hoje. Ele desmentiu gaiatices das redes sociais, dando conta que, através da sua arregimentação, teria acabado o estoque de ovos do Parque Aurora. Conhecido como “Pit Bull Rosa”, o edil ressalvou que sua combatividade é para os embates na tribuna da Câmara, “não num evento festivo, diante de crianças, estudantes, com agressões verbais e físicas”. No entanto, alfinetou o prefeito, que, segundo ele, fez a bancada governista esvaziar as sessões legislativas de terça e ontem.

 

Limite da lei

Primo de Thiago e também vereador, só que do governista G-5, Jorginho Virgílio (PRP) tem o mesmo receio. Não por outro motivo, ele se reuniu na terça com o comandante do 8º BPM, tenente-coronel Fabiano Santos, a quem alertou sobre pessoas que no dia anterior espalharam lixo no Capão e no Caju, além da convocação para tumultos hoje no Cepop. Ontem, numa reunião do prefeito com a base governista, foi pactuada a necessidade de reação política e da imposição do limite da lei contra o terrorismo que se tenta implantar na cidade. Quem nele embarcar, que saiba a quais interesses está servindo. E meça as consequências.

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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Gustavo Alejandro Oviedo — Para quem diz que não tem nada novo na TV

 

 

 

Esta semana finalizou um dos fenômenos mais importantes da televisão mundial: foi ao ar o ultimo episódio da terceira temporada de Twin Peaks, pela Netflix.

O seriado, criado pelo diretor David Lynch, teve as suas duas primeiras temporadas exibidas em  1990 e 1991, respectivamente. Numa pequena cidade do interior do estado de Washington, uma garota, Laura Palmer, é assassinada. Para investigar o crime, o FBI envia até Twin Peaks  o agente Cooper, quem terá que lidar com uma fauna de habitantes bastante excêntricos. Mas não apenas isso. Com o decorrer dos capítulos, o ‘universo Lynch’ irá desflorando, apresentando também universos paralelos, entidades metafísicas y monstros sobrenaturais.

O programa se antecipou, em muito, a projetos como “Arquivos X”, “Lost” ou “The Leftovers”. E pagou um preço pela audácia: com a audiência despencando, a rede ABC, produtora do seriado, cancelou o projeto. No entanto, no último capítulo da segunda temporada, o agente Cooper se encontra com a falecida Laura Palmer no plano extra-terrenal chamado “Black Lodge”, e ali a moça faz uma profecia: eles se reencontrarão 25 anos mais tarde.

Com apenas alguns meses de demora, a predição de Palmer se realizaria.  O canal americano Showtime, em parceria com a Netflix, estreou, de maio até esta semana, a continuação da saga metafísica de Lynch, um quarto de século depois. Para os antigos espectadores, tornar a ver os mesmos personagens, passados tantos anos, é se reencontrar com velhos conhecidos, além de provocar aquela melancolia de ver o que o tempo faz com rostos que recordávamos jovens. Para os novos assistentes, é uma experiência que lava os olhos diante de tanta mesmice e mediocridade.

Quem conhece um pouco da filmografia de David Lynch sabe que uma das obsessões do diretor é mostrar o contraste entre o corriqueiro e o sobrenatural, ou, mais bem, o aspecto surreal que se esconde por trás do cotidiano da sociedade norte-americana.  Lynch nunca foi um narrador clássico, no sentido facilitar a vida para seus espectadores (suas duas exceções são The Elephant Man e, não casualmente, A Straight Story). Aquela característica se mantém, ou melhor, se potencia na terceira temporada do seriado.

E é ali onde reside a maravilha de Twin Peaks, e faz dela uma opção única entre as dezenas de programas de TV que hoje temos disponíveis: é absolutamente hipnótica e imprevisível. Embora alguns puristas sustentem que é necessário ter visto os capítulos prévios das temporadas anteriores, garanto que isto é absolutamente desnecessário.  Você não vai entender absolutamente nada, mas não poderá largar os olhos da tela.

É necessário esclarecer:  Twin Peaks pode ser totalmente maluca, mas não é indecifrável. Há uma secreta coerência dentro do universo metafísico de Lynch.  Só que as regras que o regem não são aquelas do nosso mundo ‘normal’. Quem tenha assistido as temporadas 1 e 2 podem captar algumas coisas a mais do que os novos espectadores, mas também não vão pegar tudo. Por outro lado, entender, para Lynch, não é mais importante do que sentir. Ele quer que o espectador fique colado à tela, fascinado pela sucessão de imagens, sons e músicas.

No filme ‘O Ultimo Magnata’, de Elia Kazan, um poderoso produtor de Hollywood (Robert De Niro) tenta explicar ao prestigioso escritor (Donald Pleascence) que acaba de contratar para que escreva roteiros – e que não sabe nada de filmes – qual é o segredo do cinema. O faz improvisando uma situação sem lógica nenhuma, acerca de uma moça e um homem que a observa. De repente, De Niro para de contar a história, e fica olhando para o escritor, quem não se aguenta e pergunta: ‘o que acontece depois?”.

Isso é o que David Lynch consegue em Twin Peaks. Após cada cena absurda, surreal e inverossímil, você fica se perguntando ‘mas, o que acontece depois?’.

A cena do ‘O Último Magnata’ pode ser vista em Youtube, neste link.

 

 

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Terrorismo em Campos ultrapassa o limite da lei e exige reação

 

 

 

Tiro na cabeça?

Há limite ao “quanto pior, melhor” em Campos? Na segunda (04), a reboque da greve do servidor convocada por um Siprosep pressionado pelo receio de perder o poder para sua oposição interna, a cidade teve uma pequena mostra: coleta de lixo da Vital e ônibus parados até o final da tarde, além das ambulâncias da Prime circulando só com 30% da frota. Agora, num grupo de WhatsApp intitulado “Oposição ao Rafael Diniz”, perfis fake se organizam para tentar coagir e ameaçar fisicamente o prefeito no desfile cívico de 7 de setembro. Nas redes sociais já circulam gravações de áudio pregando: “o Rafael Diniz merece um tiro na cabeça”.

 

Nova campanha: terrorismo

Para quem tem memória ruim, convém lembrar das campanhas fracassadas por quem perdeu a eleitoral, em todas as sete Zonas de Campos, no 1º turno de outubro passado. Primeiro, as eleições a prefeito de Campos seriam anuladas em maio. Depois, o governo municipal não teria dinheiro para pagar o servidor — o que realmente aconteceria, se não fossem revertidos na Justiça (aqui) os termos pactuados pelos Garotinho na “venda do futuro”. Agora, aproveitando o descontentamento inevitável com os ajustes necessários para se pagar uma dívida de R$ 2,4 bilhões deixada (aqui) pelos oito anos de gestão Rosinha, a nova campanha é o terrorismo.

 

Descontentes

Por certo, não se pode generalizar. Há quem simplesmente não tenha votado em Rafael — embora minoria, não são poucos: mais de 141 mil campistas. Há quem tenha votado e, diante do contraste entre promessas de campanha e prática, se arrependido. Há o servidor que, independente do voto, briga pelo que entende ser seu direito. Há as empresas que prestam serviço à Prefeitura, cujos donos nem votam em Campos, mas também brigam pelo bolso. Há os do contra e aqueles que perderam a boquinha, própria ou de alguém próximo. Há até motoristas de lotadas e vans que param a cidade (aqui, aqui, aqui e aqui) para não ter suas ilegalidades fiscalizadas.

 

Reação

Independente do motivo, qualquer um pode ser contrário a qualquer governo. O que não se pode, pelo menos não se deve, é ser contra a cidade. Sobretudo quando essa (o)posição confere vaga na massa de manobra política de quem jogou esta mesma cidade na situação complicada na qual se encontra — talvez a mais difícil da sua história recente. Ao governo, por óbvio, cabe reagir politicamente, na Câmara Municipal e por um secretariado preso demais ao perfil técnico. Já contra o clima de terrorismo que se tenta implantar, a obrigação de reação é de todo o cidadão. Se o limite moral ficou para trás, quem lá o deixou deve temer o da lei.

 

Futuro em jogo

A expectativa é que as finanças do Estado do Rio entrem nos trilhos. O futuro político do Estado também está em jogo, segundo o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), que assinou ontem, em Brasília, com o presidente da República em exercício, Rodrigo Maia (DEM), a homologação da adesão do Estado do Rio de Janeiro ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF). O governador fala em “ajuste duro”, necessário e mais importante para o seu sucessor no cargo.

 

Petiscos no Farol

O setor gastronômico da praia de Farol de São Thomé está pronto para a realização do 5° Festival de Petiscos. O evento começa amanhã e será realizado ainda nos dias 8, 9, 10, 15, 16 e 17, a partir do meio-dia, em frente à área da Marinha. Na área cultural, 20 bandas foram convidadas. Os pratos serão vendidos ao preço único de R$ 15. A iniciativa segue a proposta da atual gestão de manter o Farol movimentado o ano todo. O evento é organizado pela Associação dos Hoteleiros e Comerciantes da praia e tem patrocínio da iniciativa privada.

 

Ponto facultativo

Na sexta-feira, 8 de setembro, dia seguinte ao feriado de 7 de Setembro, Independência do Brasil, será ponto facultativo nas repartições públicas municipais de Campos. A decisão do prefeito Rafael Diniz foi publicada no Diário Oficial do Município, sob o Decreto 175/2017. A medida prevê ainda o funcionamento, sem prejuízo, dos serviços essenciais, como plantões médico-hospitalares e funcionamento das Unidades Básicas de Saúde (UBS), além da coleta de lixo, entre outros.

 

Com a colaboração da jornalista Dora Paula Paes

 

Publicado hoje (06) na Folha da Manhã

 

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Destruição de casuarinas em Atafona é condenada e gera revolta

 

Flagrante da destruição de casuarinas saudáveis, com folhagem densa e verde, na orla de Atafona durante a tarde de ontem (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Após derrubar casuarina, a retroescavadeira empurra o ronco morto pela beira do declive de areia (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Tronco da casuarina arrancada é jogado pela pá da retroescavadeira (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Ontem (04), em Atafona, presenciei e registrei em imagens a retirada de casuarinas por uma retroescavadeira da empresa União, que atua pela Prefeitura de São João da Barra (SJB) na desobstrução de areia entre a praia e a av. Atlântica. Sem tempo para apurar o caso, passei os flagrantes fotográficos (aqui) ao jornalista Arnaldo Neto, cujo blog é dedicado à cobertura dos fatos de SJB. Todavia, diante da repercussão do episódio e da afirmação de que as “árvores já estavam caídas”, porque “estão cercadas de umidade e areia”, só posso dizer que o secretário sanjoanense de Meio Ambiente, Alex Firme, está mal informado ou mentindo.

A versão oficial sobre as casuarinas arrancadas não convenceu a ninguém. Denunciada pelos flagrantes fotográficos, a ação do governo sanjoanense foi condenada tanto pelo ambientalista e historiador Aristides Soffiati, quanto pelo advogado Geraldo Machado, um dos líderes do movimento SOS Atafona, que tem cobrado do poder público ações contra o avanço do mar e das dunas na praia sanjoanense:

— Lamentamos mais essa agressão à natureza, gratuitamente levada a caso, não se sabe por ordem de quem, ou em atendimento de que interesse. Dizer-se que as árvores estavam fracas, não se aceita, porque é inverídica a tal versão; se é que alguém teve a coragen de isso afirmar. As casuarianas serviam de sombra e proteção natural contra o excesso de areia e sedimentos violentamente trazidos pelo forte vento nordeste, sobretudo nos meses de agosto a outubro. Agora, o que fazer para repor a coisa ao estado anterior? Plantar vegetação rasteira, cuja manutenção exige frequente e forte fiscalização, que o poder público não exercita? A bola fica com a Prefeitura. Nós, sociedade civil, ficamos à espera de respostas objetivas e convincentes — cobrou Geraldo.

Embora acredite que a casuarina não é a espécie vegetal ideal para ser plantada na faixa de areia de Atafona, no sentido de evitar ou retardar o avanço do ar, o professor Soffiati também condenou sua retirada pela ação do Meio Ambiente de SJB:

— A casuarina é uma espécie australiana. Ela resiste aos fortes ventos, pois suas folhas têm formato de fios. São folhas filiformes. Se me perguntarem se a casuarina é a espécie ideal para nossas praias, responderei que não. Mas não terei o desplante de recomendar o corte raso delas sem um plano elaborado de revegetação com espécies nativas, assim como não cometerei o erro absurdo de apoiar a morte de um alemão que se diverte no mar por não ser estrangeiro. Há casos consumados de plantio de casuarinas em praias, além de outras espécies exóticas. Em resumo, creio ser condenável a destruição de casuarinas sem um plano bem fundamentado para a sua substituição.

Abaixo, o rastro de destruição das casuarinas deixada na manhã de hoje em Atafona, entre a faxa de areia da praia e a av. Atlântica:

 

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Nas redes sociais, a retirada das casuarinas causou revolta. No grupo “Lembranças de Atafona”, onde Arnaldo Neto publicou (aqui) o link da postagem em seu blog, hospedado no Folha1, com os flagrantes da ação do Meio Ambiente sanjoanense, várias foram as reações contra a ação do Meio Ambiente sanjoanse:

— Devo classificar como: crime ambiental, descaso ou incompetência? Isso só vai agravar a desertificação da orla de Atafona — avaliou Carlos Augusto Carvalho.

— Tirar as dunas, tudo bem. Agora tirar as casuarinas é sacanagem — condenou Edson Santos.

—  Onde está o Ibama? A Areia, certo; casuarinas, é crime — denunciou Ginex Carvalho.

— Será que foi um acidente? Custo a acreditar que alguém seja idiota a ponto de premeditar — questionou Elizabeth Senra.

— Absurdo! A vegetação é que segura a areia! — advertiu Date Moll.

— Povo burro! São as raízes das árvores que mantém a solidez da muralha de areia que protege a praia. Colocam pessoas despreparadas para executar um serviço dessa natureza — apontou José Carlos Silva.

— Ministério Público, veja essa vergonha. Sai um pouquinho do ar-condicionado — convocou Robson Godinho.

— Que estupidez! Tem que ver de quem veio essa ordem absurda —  quis saber Maria Helena Guaraná.

— Tudo de qualquer jeito, boi com abóbora. Cadê o zelo pelo planeta? Tirar a areia é uma coisa necessária. Agora, arrancar as casuarinas, jamais! — diferenciou Marcilia Leão Maciel Barcelos.

— Se elas estavam morrendo, como foi informado,deveriam plantar o triplo, pois as casuarinas foram trazidas e plantadas em toda orla para servirem de embate contra os ventos — explicou Nice Barcelos.

— Não é de hoje que estamos indo à secretaria de Meio Ambiente reclamar, mas parece que quanto mais reclamamos, mais eles nos afrontam. Já não aguentamos mais. Parece que fazem de propósito. Não tem nada de casuarina morrendo, não. As máquinas que estão derrubando. Eu tenho prova de que as máquinas estão tirando as casuarinas — comentou Cristina Botelho Godinho, antes de publicar (aqui) sua própria postagem, também com fotos, no grupo “Lembranças de Atafona”. Confira abaixo:

 

 

 

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