Aperto
- Autor do post:Aluysio Abreu Barbosa
- Post publicado:3 de setembro de 2015 - 18:51
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“O que menos fazia vida literária, o mais retirado, aquele que fazia uma poesia mais independente de qualquer modismo (…) Ele vivia para a poesia no sentido de viver em poesia, e não no sentido de se dar a conhecer como poeta. Ele era sob certo ponto de vista, vamos dizer, moral, o poeta puro por excelência”.
“A popularidade nada tem a ver com a poesia. A popularidade pode acontecer. Mas um grande poeta também pode passar despercebido. Temos um poeta de quase noventa anos que mora em Petrópolis e ninguém o conhece. Ele é da geração modernista, um grandíssimo poeta. Chama-se Dante Milano”.

Ambas referentes ao mesmo poeta, quando levado em consideração que a primeira declaração é de João Cabral de Melo Neto (1920/99), e a segunda, de Carlos Drummond de Andrade (1902/87), é possível projetar não só o valor do verso de Dante Milano (1899/1991), como antecipar algumas das suas principais características. Carioca, de formação autodidata, trabalhou na imprensa do Rio de Janeiro, antes que as relações de amizade e admiração por sua poesia e traduções lhe rendessem um emprego público, destino seguro à subsistência da maioria dos grandes poetas brasileiros da época.
Recluso desde que morava no Rio, de onde acompanhou o Modernismo de 1922 à distância, ele se exilaria em Petrópolis a partir de 1985, quando um acidente de automóvel lhe custou uma fratura no fêmur. Embora amigo de outros grandes poetas modernistas, como Manuel Bandeira (1886/1968) e Ribeiro Couto (1898/1963), também nunca foi de frequentar círculos literários, embora fosse neles conhecido e admirado por seus contemporâneos. Avesso à fama, justificava-se em prosa e verso:
“A fama tira a sua privacidade. Não gosto de ser apontado na rua, não gosto que ninguém me reconheça. Quanto à glória, é uma ilusão, é algo que muda como mudam as folhas de uma árvore. Um dia você é famoso, daqui a pouco não é mais (…) A glória é, ou era, a ambição de ser admirado por toda a humanidade. A admiração da humanidade por um indivíduo exigiria uma correspondente admiração do indivíduo pela humanidade, falsa, porque a humanidade não é digna de admiração mas de piedade”.
“Tanto rumor de falsa glória
Só o silêncio é musical,
Só o silêncio,
A grave solidão individual,
O exílio em si mesmo,
O sonho que não está em parte alguma”.
Conhecido como a maior “vocação póstuma” de toda a literatura brasileira, só seria publicado pela primeira vez já perto de completar os 50 anos, e à sua inteira revelia. Um amigo, Queirós Lima, pediu-lhe emprestado os originais e levou-os por conta própria à Imprensa Nacional. Dois meses depois, voltou com as provas, comunicou a Dante e pediu-lhe que fizesse as emendas. Mas estas foram tantas que a Imprensa Nacional declinou da publicação. Um ano depois, em 1948, o livro foi finalmente lançado pela editora José Olympio, tornando-se o acontecimento literário daquele ano e rendendo ao seu autor o prêmio Filipe de Oliveira, espécie de Jabuti da época.
Sempre com acréscimo de novos poemas e depois também das suas traduções e parte da sua prosa jornalística, o livro seria reeditado em 1958, 71, 79 e, de maneira realmente póstuma, em 94. Em 98, na coleção “Melhores Poemas” da editora Global, uma sua coletânea foi reunida e prefaciada por Ivan Junqueira (1934/2014), outro grande poeta, jornalista e tradutor. Foi com este último livro que pude me aprofundar na obra de Dante Milano, cujo contato inicial, através do marcante poema “Imagem”, havia travado em outra coletânea: “Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século”, em compilação do professor e crítico Italo Moriconi, editado pela Objetiva em 2001.
Poeta de sólida formação clássica, tinha como mestres os antigos romanos Virgílio (70 a.C./ 19 a.C.) e Horácio (65 a.C./ 8 a.C.); o português Luís de Camões (1524/80); os italianos Dante Alighieri (1265/1321), Francesco Petrarca (1304/74) e Giacomo Leopardi (1798/1837); e os franceses Stéphane Mallarmé (1842/98) e Charles Baudelaire (1821/67). Aliás, do seu xará autor de “A Divina Comédia”, além de admirador, Milano traduziu “Três Cantos do Inferno”, lançados em 1953 e considerados pela crítica a mais precisa versão em português que o pai da língua italiana já teve de um brasileiro.
Alguns anos depois, em 1988, o poeta reuniria em outra tradução uma coletânea de Mallarmé e Baudelaire, destacados nomes do simbolismo e do pré-modernismo na França e no mundo. No mesmo ano, receberia o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, conferido pela Academia Brasileira de Letras, onde, como Drummond e Manoel de Barros (aqui, aqui, aqui e aqui), sempre se recusou em ocupar uma cadeira.
Junto dessa herança clássica, os 141 poemas que Dante Milano publicou em vida eram também frutos de uma dicção moderna, marcada pelo ritmo semântico, ditado não só pelo som, mas pelo sentido. Quase sempre apoiado no tripé temático “morte/amor/sonho”, com preocupação formal manifesta na cinzelagem de cada consoante e vogal, em busca do Absoluto e sem tempo para o lirismo do cotidiano, a poética milaneana apresenta uma unidade inconfundível, talvez melhor definida pelo amigo Manuel Bandeira:
“Exemplo singularmente raro em nossas letras, parece o poeta escrever seus versos naquele inconfundível momento em que o pensamento se faz emoção”
Ou, no dito do historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902/82), pai do Chico:
“Em outras palavras, seu pensamento é sua forma”
E se a vida é tempo perdido, não percamos mais o nosso deste domingo de sol com tanta prosa, caminhando o quanto antes aos versos de um homem culpado de ser homem:
Cantiga
A vida é tempo perdido.
O que se ganha é bem pouco.
Que vale ao morto o vivido?
Que vale ao vivo, tampouco?
E nunca me sai do ouvido
Esse rumor incessante:
“A vida é tempo perdido”…
Oh, que marulho distante,
Voz de sepultos oceanos
Num caracol aturdido.
Longos dias, breves anos.
A vida é tempo perdido.

Tercetos
Eu sou um rio, a água fria de um rio.
Profundo, cabe em mim todo o vazio,
Um reflexo me causa um calafrio.
Sou uma pedra de cara escalavrada,
Uma testa que pensa, e sonda o nada,
Uma face que sonha, ensimesmada.
Sou como o vento, rápido e violento,
Choro, mas não se entende o meu lamento.
Passo e esqueço meu próprio sofrimento.
Sou a estrela que à noite se revela,
O farol que vê longe, o olhar que vela,
O coração aceso, a triste vela.
Sou um homem culpado de ser homem,
Corpo ardendo em desejos que o consomem,
Alma feita de sonhos que se somem.
Sou um poeta. Percebo o que é ser poeta
Ao ver na noite quieta a estrela inquieta:
Significação grande, mas secreta.
Tudo que tinha a dizer sobre a vida e a obra de Robert Burns (1759/96), poeta nacional da Escócia, escrevi em 2009 no blog “Cantos”, que dividia com os professores e também poetas Adriano Moura e Fernanda Huguenin, em texto republicado dois anos depois aqui, neste “Opiniões”. À poesia do bardo escocês, fui apresentado na segunda metade dos anos 1990, a partir de edição bilíngue da Relume Lumará, comemorativa do whisky Teacher’s, com introdução e tradução da poeta brasileira Luiza Lobo, que me foi dada de presente pelo jornalista Celso Cordeiro Filho. E o que apreendi pela leitura, mesmo mais de 200 anos após a vida de quem escreveu, me serviria de guia ainda atual ao que vi, ouvi, cheirei, tateei e provei das Terras Baixas e Altas da Escócia, numa viagem que fiz em 2007, como mochileiro por boa parte daquele belíssimo país.
Em prosa própria, pouco ou nada tenho a acrescentar ao que escrevi em 2009 e republiquei em 2011. Em relação à poesia, porém, apenas uma de Burns, é sempre muito pouco. Assim, no misto de fábula, sátira social, de costumes e religiosa, antes que os fiéis de hoje se reúnam na tradição das missas e cultos dominicais, convém dar uma espiadela nos versos de “A um piolho”, mas sem confiar muito na moral elitista das seis estrofes iniciais. Afinal, só quando o protagonista do poema desce do Lunardi — gorro em forma de balão criado em homenagem ao italiano Vicenzo Lunardi (1759/1806), que realizou cinco vôos de balão nos céus da Escócia — rumo ao pescoço da bela Jenny, se desvela o erro fatal não apenas dela, mas que a vaidade costuma aplicar sobre todos nós: “Oh, se algum Poder nos concedesse/ Vermo-nos a nós como nos vêem!/ Nos livraríamos de tantos vexames,/ E tão falsas impressões”…
Abaixo, na tradução sem “gestos e roupagens” da Luiza Lobo:

A UM PIOLHO
AO VER UM NO CHAPÉU DE UMA DAMA NA IGREJA
I
Oh! onde vais, criaturinha rastejante?
Tua impudência te protege fortemente,
Só te posso dizer que estranhamente
Andas em gaze e renda,
Embora, oh Deus! tema que hás de jantar
Num tal lugar.
II
Oh tu, animalito feio, malfazejo e andejante,
Detestado, desprezado por pecadores e santos!
Numa dama tão fina, como ousas
Pousar o pé!
Some daqui e procura teu jantar
Na tua ralé.
III
Fora! vai rastejar nas têmporas de um mendigo,
A arrastar, estirar e escarrapachar as patas
Pulando no gado, entre teus semelhantes,
Em grupos ou enxames;
Onde chifre ou osso jamais perturbarão
Tua vasta plantação.
IV
Agora, queda-te aí! estás fora de vista,
Firme e confortável sob os ornamentos;
Não, por minha fé, não ficarás contente
Enquanto não te alçares
Ao píncaro, ao ponto mais elevado
Do chapéu de madame.
V
Homessa! ousas mostrar o focinho,
Como uma groselha, cinzento e roliço:
Oh, uma pasta mercurial e pestífera,
Ou algum pó vermelho mortífero
Em tal dose te daria, que a catinga
Do teu traseiro consertaria!
VI
Surpresa não me faria te encontrar
Na touca de flanela de uma velha;
Ou talvez nalgum moleque maltrapilho
Em sua jaqueta;
Mas no elegante Lunardi de madame pousar?!
Como ousas? Fora!
VII
Oh, Jenny, não vira tua cabeça
A pavonear e exibir tua beleza!
Mal imaginas a maldita presteza
Com que este ínfimo ser rasteja!
E já de seus olhos odientos e agudas garras
Começas a te aperceber!
VIII
Oh, se algum Poder nos concedesse
Vermo-nos a nós como nos vêem!
Nos livraríamos de tantos vexames,
E tão falsas impressões:
Sem mais nos exibir com gestos e roupagens,
Até nas devoções!
1786


Por Gustavo Alejandro Oviedo
Nesse sábado, Garotinho voltou a explicar, na Radio Diário, a necessidade de antecipar os royalties futuros como a única saída para poder enfrentar a crise que o município está atravessando. Insistiu no seu exemplo de que a operação de crédito seria parecida à situação de uma pessoa obter um empréstimo onde pagaria apenas 1% ao ano, o que evidentemente demoraria 100 anos em quitá-lo. Isto, claro, se o banco fosse tão generoso de não cobrar juros durante um século.
Vou fazer uma previsão mais realista, onde não se subestime a inteligência do público. Tomemos como referência o empréstimo já obtido pelo município em 2014 junto ao Banco do Brasil. O banco entregou 250 milhões, e a prefeitura o devolverá em duas parcelas de 150 milhões, uma este ano e a outra em 2016. Ou seja, pagará ao todo 300 milhões, sendo 50 milhões de juros (10% ao ano).
Num eventual novo empréstimo, onde as condições sejam semelhantes, o município iria tomar emprestado aproximadamente 1 bilhão de reais, pois essa é a previsão de queda de arrecadação deste ano. Pela resolução nº 43 do Senado Federal, que agora autoriza a operação, essa antecipação só poderia ser devolvida em parcelas anuais que não ultrapassem 10% da receita obtida do petróleo (Royalties e Participações Especiais).
Suponhamos, então, que somos o banco que irá emprestar dinheiro ao município de Campos. O negocio é interessante, pois a quitação está garantida por recursos oriundos da ANP e não há chance de que uma instabilidade política local ameace o pagamento. É mais ou menos como um empréstimo consignado. O lado ruim é que não tem como se saber o quanto o município receberá de Royalties e PE no futuro. O que ingressa depende do preço do barril e da produção na bacia local.
Como será calculado o valor dos juros, então? Embora não possa ter ideia disso, não seria estranho pensar que fariam alguma coisa similar ao feito na operação de 2014: estabelecer um valor determinado (o emprestado + juros) e que este seja pago até sua quitação, sem que se tenha certeza de quando acontecerá isso.
Imaginemos o que o banco pensaria: se vou emprestar 1 bilhão, e o cliente só pode devolver entre 50 e 80 milhões ao ano, a amortização do capital se fará, no melhor dos casos, em 13 anos. Se cobrarmos um juro de 10% ao ano (afinal, somos um banco), teremos de somar 130% a 1 bilhão de reais, o que daria um montante a ser devolvido de 2,3 bilhões de reais. Esse valor demoraria 29 anos em ser pago, considerando que se devolvesse ao banco 80 milhões a cada ano.
Repito, não sou um expert em finanças, mas a conta que estou fazendo é a mais otimista para a Prefeitura. O mais provável é que as condições sejam piores (no meu exemplo, o banco aplicou juros apenas pelos primeiros 13 anos).
29 anos para pagar o déficit de 2015.
E o ano que vem? Como será a situação financeira do próximo ano, se a uma eventual queda de arrecadação teremos que descontar a parcela do empréstimo de 2014 (150 milhões) além da parcela deste novo empréstimo. Será que vamos ter que fazer uma nova operação similar, comprometendo outros 10% dos royalties durante mais 29 anos, e assim por diante?
Garotinho desafia os críticos a apresentar uma outra solução, pois essa é a única que ele vê possível no presente cenário local. Se se trata de apresentar solução para o problema financeiro da Prefeitura, pediria a ele e a sua mulher para que, primeiro, nos informem qual o tamanho do rombo, a quem está se devendo e como pensam gastar o dinheiro que pretendem pedir emprestado. Mas suspeito que o que Garotinho pede é uma solução para ele próprio sair da crise em que, junto com a prefeita, voluntariamente produziram, ao inchar a máquina pública para que se sustente com um recurso que, deveriam ter sabido, é volátil e finito.
Os administradores pródigos voltam amanhã à Câmara, não arrependidos, mas desejosos de torrar a herança de todos seus irmãos campistas.
Publicado originalmente aqui, na democracia irrefreável das redes sociais