André Singer: “Não acho que o lulismo acabou, mas ele está diante da sua maior crise”

O cientista político André Singer é um intelectual ligado ao PT — e também uma das vozes mais ponderadas do partido. Na contracorrente dos setores petistas mais estridentes, Singer defende que o partido faça uma autocrítica, com o afastamento temporário dos acusados de envolvimento no esquema de corrupção na Petrobras. Singer encara também sem alarmismos as manifestações contra o governo, cujo caráter predominante, afirma, foi de protesto democrático. Crítico da guinada econômica do governo Dilma Rousseff, Singer considera, porém, que o “lulismo”, como ele batizou o alinhamento político dos brasileiros mais pobres ao PT sob a liderança do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, está diante de sua maior crise.

 

Voz da ponderação —  André Singer, no jardim de sua casa, em São Paulo. “Nós construímos este sistema partidário e custou muito construí-lo” (Foto: Roberto Setton - Época)
Voz da ponderação —
André Singer, no jardim de sua casa, em São Paulo. “Nós construímos este sistema partidário e custou muito construí-lo” (Foto: Roberto Setton – Época)

Época – Alguns analistas, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, avaliam que nosso sistema político degenerou de um “presidencialismo de coalizão” para um “presidencialismo de cooptação”.

André Singer – Eu vou discordar. No Brasil, sempre houve essa tendência de achar que os partidos políticos são podres, que o sistema político está podre.

 

Época –  A reação do governo Dilma, ao propor, de novo, reforma política, não foi nessa linha? 

Singer – Uma coisa é você dizer que há inúmeros problemas e que eles precisam ser enfrentados. Eu sou a favor de mudanças pontuais, mas que sejam feitas. Acho que nós temos três grandes partidos – o PT, PSDB e PMDB – que conformam um sistema: situação, oposição e um partido de centro, que faz o papel de fiel da balança. Com um monte de problemas? Sim, mas eles expressam interesses sociais e visões que existem na sociedade brasileira.  Nós construímos esse sistema partidário e custou muito construí-lo. Não adianta ficar pensando que vamos de uma hora para outra dissolver tudo e que vai emergir um sistema ideal. Não é assim que funciona no Brasil e em lugar nenhum. Não estou defendendo qualquer tipo de conformismo, mas devo alertar para determinadas ilusões, que não levam a nada.

 

Época –  O que vimos no dia 15 de março foi uma continuação de junho de 2013?

Singer – Há pontos de conexão, mas não há propriamente uma continuação, porque junho de 2013 foi um fenômeno muito complexo, que misturou de tudo. Em um momento, havia da extrema-esquerda à extrema-direita na mesma avenida. Agora, houve uma manifestação, pela primeira vez, de setores de oposição ao governo, nos quais existem centro, direita e extrema-direita. São setores que estavam ansiosos por ir à rua desde 2005. E nunca tinham conseguido massa crítica para se manifestar. Tentaram em 2007, com o “Cansei”, fizeram algumas manifestações não tão grandes depois da eleição e, finalmente, chegaram a 15 de março. O ponto de contato entre esses eventos é esse centro novo.

 

Época – O senhor discorda então de uma avaliação corrente no PT de que as manifestações de 15 de março foram organizadas pela direita? 

Singer – Eu acho que elas foram puxadas pela direita. Quem está à frente dos movimentos é a direita.

 

Época – O que o senhor caracteriza como direita?

Singer – Eu acho que o “Fora, Dilma” expressa isso, de um modo geral. Claro que “Fora, Dilma” pode ser uma maneira de dizer “eu sou contra a Dilma”. Aí há uma certa ambiguidade, porque não dá para saber exatamente se a pessoa que está dizendo “Fora, Dilma” está literalmente querendo defender o impeachment ou se ela está dizendo “eu sou contra a Dilma”. Quem diz “Fora, Dilma”, no fundo, pode aceitar que a Dilma tem de governar. Essa era a maioria das pessoas que foi à Avenida Paulista, em São Paulo. Essa é a minha intuição.

 

Época – O senhor acha então que o grupo de direita que puxou a manifestação não era o grupo majoritário?

Singer – Não é o grupo majoritário. Tanto não é o grupo majoritário que o PSDB, de maneira muito inteligente, percebeu que a bandeira do impeachment não agrega e recuou. Não recuou apenas por uma questão institucional, mas também porque percebeu que não é a bandeira que empolga a maioria. É a bandeira que está na cabeça apenas dos que estão puxando as manifestações. O que é compreensível, porque quem puxa é quem está mais irritado e tem posições mais radicalizadas.

 

Época – Mas qual é a bandeira que empolga?

Singer – Protestar contra o governo. A questão da corrupção, sim, é um catalisador importante. Ela tem uma ligação forte com a questão econômica. Quanto mais a situação econômica é ruim, mais as pessoas vão depositar sua irritação no problema da corrupção. Se a situação econômica estivesse boa, é claro que as pessoas seriam contra a corrupção. Mas seria muito mais fácil para o governo defender a posição, justa na minha opinião, de que tudo está sendo feito para combater a corrupção. Mas as pessoas estão muito irritadas com a situação econômica, e isso potencializa muito o mau humor com a corrupção, o que é absolutamente legítimo e compreensível.

 

Época – Quando houve a manifestação, parte expressiva do PT disse que ela, de alguma forma, era golpista. 

Singer – Em certo momento, sim, parecia mesmo uma movimentação golpista. De um lado, havia esses grupos que pedem abertamente intervenção militar, o que é golpe. Do outro, grupos que pedem o impeachment que, a meu ver, seria um golpe branco. Como esses grupos puxaram as manifestações, parecia que elas teriam esse caráter. Mas, quando foi chegando perto, a situação mudou. A manifestação atraiu muita gente que não tem essa postura. Se a manifestação tivesse mantido a feição golpista, haveria um número menor de pessoas na Paulista. À medida que a manifestação foi crescendo, foi se moderando. Ela se tornou uma manifestação mais moderada de protesto contra o governo.

 

Época – O senhor escreveu que a crise do governo está relacionada ao que muita gente chama de estelionato eleitoral. Reeleita, a presidente Dilma adotou políticas que ela criticou na campanha e dizia que seriam adotadas por Aécio Neves. Mas era possível dobrar a aposta na política econômica do primeiro mandato? 

Singer – Dou uma resposta de cientista político, e não de economista. Se a presidente Dilma tinha a avaliação de que precisava fazer um ajuste recessivo, ela não podia ter prometido que ia envidar esforços imediatos na retomada do crescimento e dizer que o ajuste recessivo seria feito pelo adversário. O preço é muito alto: o eleitor não perdoa esse tipo de mudança abrupta. Eu não tenho uma fórmula econômica, mas me parece que ela teria de dar curso ao que ela falou na campanha. Tentar reativar a economia e evitar o que está acontecendo agora, que é o desemprego. Nós vamos ver um desemprego maior como resultado do ajuste recessivo que está começando a ser adotado.

 

Época – Não está faltando autocrítica por parte do PT? 

Singer – Está na hora, sim, de o PT fazer uma autocrítica. Ele precisa fazer uma revisão de sua postura, porque nasceu para ficar à margem de qualquer desvio ético. Essa característica prevaleceu durante muito tempo e deu muita energia moral para o PT. O partido não deveria colocar em risco esse patrimônio. Tenho defendido que as pessoas que estão sendo investigadas sejam provisoriamente afastadas, para que o partido possa começar um processo de revisão. Ao mesmo tempo, é correto dizer que está caindo sobre o PT um peso que não está sendo aplicado aos outros partidos. Especificamente ao PSDB, que está saindo ileso de todo o processo do mensalão mineiro e do chamado Trensalão, em São Paulo. É preciso fazer as críticas e cobranças, mas precisamos perceber que o PT é um partido fundamental no sistema partidário. Demonizar o PT não vai ajudar a democracia brasileira.

 

Época – Dado o cenário de desgaste político e crise econômica, o senhor diria que o lulismo acabou?

Singer – Não, não acho que acabou, mas ele está diante de sua maior crise, de seu maior desafio. A desaprovação do governo alcançou as camadas sociais que são a base propriamente do lulismo, o subproletariado e a  nova classe trabalhadora. Isso é um tremendo problema, que não tinha acontecido até aqui. Quando a classe média se afastou do PT e do Lula, veio essa nova base que sustentou as três eleições seguintes. Se a eleição fosse hoje, olulismo não ganharia. Mas estamos no começo de um processo. Temos a eleição do ano que vem e depois a eleição de 2018. Muita coisa vai acontecer. A liderança política do ex-presidente Lula por enquanto está mantida. Ele é um líder que tem demonstrado grande capacidade de invenção. Ninguém sabe dizer  o que vai acontecer nem com a economia internacional nem com a economia brasileira. A gente não pode decretar ainda o fim do jogo.

 

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O PT perdeu o controle sobre a corrupção e não sabe o que fazer

Protesto de 15 de março
Protesto de 15 de março

 

 

Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat
Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat

Por Ricardo Noblat

 

No auge do escândalo do mensalão em 2005, tendo assumido temporariamente a presidência do PT, Tarso Genro, atual ex-governador do Rio Grande do Sul, propôs a refundação do partido.

Isso passaria, entre outras coisas, pelo reconhecimento dos erros do PT, o afastamento de militantes suspeitos de envolvimento com corrupção e a escalação de novos nomes para comandar o partido.

A proposta de Tarso esbarrou na força da corrente majoritária no PT, aquela liderada, na época, pelo ex-ministro José Dirceu. Lula também não se empenhou para que a proposta de Tarso vingasse.

O mundo gira, a Lusitana roda, e o PT se vê metido outra vez em crise semelhante, mas muitas vezes superior à do mensalão. Saiu o pagamento de propinas a deputados. Entrou o Petrolão.

As diferenças: o escândalo de agora movimentou muito mais dinheiro. E não serviu apenas para financiar campanhas. Serviu também para enriquecer muita gente.

À falta de novas ideias, Tarso voltou a propor uma limpeza em regra no partido. A começar pelo afastamento de João Vaccari Neto, tesoureiro do PT e réu no processo da Lava-Jato.

Tudo indica que sairá derrotado novamente. Ontem, os 27 diretórios estaduais do PT se reuniram em São Paulo com a presença de Lula (aqui). E nada se falou sobre Vaccari. Pelo contrário.

É tal o desligamento do PT da realidade em sua volta que foi aprovado um manifesto onde o partido afirma que vem sofrendo não por seus erros, mas “por suas virtudes”. Pode crer. Foi isso mesmo.

Como resposta à crise, o PT sugere o aprofundamento da reforma agrária, o apoio à criação de um imposto obre grandes fortunas e aprovação do projeto de lei que estabelece o direto de resposta nos meios de comunicação. Tudo ideia velha. Sem apelo nas ruas.

Pelo seu absurdo, o trecho do manifesto destinado a mais repercutir é aquele onde o PT se diz vítima de uma campanha que almeja o seu aniquilamento.

— Condenam-nos não por nossos erros, que certamente ocorrem numa organização que reúne milhares de filiados. Perseguem-nos pelas nossas virtudes. Não suportam que o PT, em tão pouco tempo, tenha retirado da miséria extrema 36 milhões de brasileiros e de brasileiras. Que nossos governos tenham possibilitado o ingresso de milhares de negros e pobres nas universidades.

Até hoje, o PT, Lula à frente, não admite que o mensalão existiu. Não é de duvidar que possa dizer o mesmo quando chegar ao fim o caso da roubalheira na Petrobras.

A verdade é que o PT perdeu o controle do esquema de corrupção que ele mesmo montou nos últimos 12 anos. E a essa altura não sabe mais o que fazer.

 

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Governo Dilma autoriza aumento de até 7,7% nos remédios do brasileiro

remédios mais caros

 

 

Os preços dos remédios poderão subir até 7,7% a partir desta terça-feira, dia 31 de abril. Foi publicada hoje no Diário Oficial da União resolução da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (Cmed) estabelecendo os reajustes por faixa, que vão de 5% a 7,7%, de acordo com o perfil do produto.

A decisão tem validade para mais de 9 mil medicamentos. Entre eles estão produtos de uso contínuo ou administrados no tratamento de doenças graves. Entram na lista também antibióticos, anti-inflamatórios, diuréticos, vasodilatadores e ansiolíticos. Os fitoterápicos e homeopáticos, por sua vez, têm preços liberados.

São três faixas de aumento — conforme a participação dos genéricos no faturamento — para o preço na saída das fábricas. O reajuste mais alto, de 7,7%, será para os medicamentos da classe em que a participação de genéricos no faturamento é igual ou superior a 20%. Mais da metade dos medicamentos com preço controlado está nessa categoria, que também é equivalente à inflação oficial medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA medido pelo IBGE) nos 12 meses encerrados em fevereiro.

Na segunda categoria, de classes com participação de genéricos entre 15% e 20%, o aumento será de 6,35%. Nela, está o menor número de fármacos — cerca de 2,5% do total. Por último, com 43% dos produtos vendidos, está a classe com participação de genéricos em faturamento abaixo de 15%, que terá reajuste de 5%.

No ano passado, quando a inflação ainda estava em ritmo menor, o aumento nos preços dos medicamentos autorizado foi bem menor: entre 1,02% e 5,68%.

 

Novos critérios

Em fevereiro, o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) haviam anunciado novos critérios para adequar o índice de aumento “à realidade do mercado farmacêutico”. Na ocasião, o governo afirmara que o reajuste deveria ficar abaixo da inflação e menor em relação ao que seria calculado com a regra anterior. No ano passado, o reajuste máximo também foi equivalente ao índice acumulado no período, de 5,68%.

A estimativa oficial é de que haja uma redução na ordem de R$ 100 milhões nos gastos com medicamentos no Brasil em um ano, para o mercado geral de medicamentos do país, para as famílias, governos e prestadores de serviços que compram medicamento.

Segundo o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma), no ano passado, houve um aumento médio de 15% nos custos de produção das empresas do setor. Além disso, a entidade destacou que houve uma desvalorização de 27% do real nos últimos 12 meses, o que impacta os custos de produção.

 

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“Mula” de doleiro revela como levava dinheiro do Petrolão preso ao corpo

Info folha sp - transporte dinheiro sujo
Infográfico de Luciano Veronezi – Folhatress (clique na imagem para ampliá-la)

Por Flávio Ferreira

 

Em depoimentos e conversas com investigadores e advogados, Rafael Angulo Lopez, funcionário de Youssef que fez acordo para colaborar com as apurações, explicou como era possível levar até € 1 milhão (cerca de R$ 3,5 milhões) em notas de € 500, ou R$ 500 mil em notas de R$ 100.A rotina dos entregadores do doleiro Alberto Youssef envolvia o desconforto para levar centenas de notas presas ao corpo e situações como o encontro com um político odiado e uma confusão com a tripulação de um avião.

A estratégia dos entregadores era compactar ao máximo o dinheiro, envolvendo as notas com filme plástico usado para embalar alimentos e furando os volumes para tirar o ar e compactá-los. Meias elásticas e coletes ortopédicos ajudavam a ocultar os pacotes sob as roupas.

Lopez disse que uma vez ficou contrariado ao levar dinheiro para o senador e ex-presidente Fernando Collor de Mello (PTB-AL), que foi afastado por corrupção em 1992 e hoje é investigado por suspeita de envolvimento com o esquema na Petrobras.

Lopez disse a Youssef que não iria fazer a entrega, mas o chefe insistiu. Lopez afirmou que entregou o dinheiro a Collor em seu apartamento e, ao se dirigir para a saída, resmungou: “Velho gordo!”

O delator também relatou uma ocasião em que outro emissário de Youssef, Adarico Negromonte, foi encarregado de levar R$ 500 mil a Salvador. Ele embarcou no avião errado, rumo a Maringá (PR), e discutiu com os tripulantes do avião, mas não conseguiu trocar de aeronave e foi obrigado a ir até o Paraná e voltar.

O ex-presidente Collor nega ter recebido propina do esquema de corrupção e diz que o encontro relatado por Lopez não aconteceu. Negromonte afirma que o episódio descrito por Lopez não ocorreu.

 

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BNDES tem prejuízo de R$ 2,6 bilhões com ações da Petrobras

Banco

 

 

O BNDES informou nesta segunda-feira lucro líquido de R$ 8,594 bilhões em 2014, um crescimento de 5,4% em relação aos R$ 8,150 bilhões obtidos em 2013. É o terceiro maior lucro alcançado na história do banco. O ganho com participações em empresas passou de R$ 2,5 bilhões em 2013 para R$ 2,9 bilhões em 2014, mas o montante de provisões para perdas com ações saltou de R$ 2,04 bilhões em 2013 para R$ 2,8 bilhões em 2014. Segundo o banco, a maior perda do banco ocorreu devido ao investimento em papéis da Petrobras. Em grave crise, em meio a denúncias de corrupção, as ações da estatal vêm sofrendo forte desvalorização.

Só com os papéis da estatal, o banco estimou o prejuízo em R$ 2,6 bilhões. As ações da petrolífera foram transferidas pela União para aumentar o capital do BNDES e estão enquadradas em resolução do Conselho Monetário Nacional que determina que as perdas só são contabilizadas quando são vendidas ou transferidas. Sob essa regra, portanto, apenas R$ 1 bilhão em prejuízo foi reconhecido no resultado de 2014. O R$ 1,6 bilhão restante foi lançado no patrimônio líquido para possível ajuste futuro.

Segundo o banco, a influência positiva para o desempenho veio do resultado com financiamentos a projetos (intermediação financeira), que passou de R$ 11,7 bilhões em 2013 para R$ 13,4 bilhões em 2014. O BNDES informou que também contribuiu para o desempenho a manutenção do índice de inadimplência no mais baixo nível de sua história, de 0,01%, em 2014. Na análise do banco, os demais indicadores, no período, também foram positivos.

 

Patrimônio de R$ 66,3 bi

A rentabilidade sobre o patrimônio líquido médio do Sistema BNDES alcançou 13,05% no exercício corrente, e o índice de Basileia atingiu 15,9%, situação confortável diante dos 11% exigidos pelo Banco Central (BC), frisou o banco.

Em dezembro de 2014, o patrimônio líquido do Sistema BNDES totalizou R$ 66,3 bilhões, acima dos R$ 60,6 bilhões de dezembro de 2013. Os ativos totais do Sistema BNDES somaram R$ 877,3 bilhões em 31 de dezembro de 2014, apresentando crescimento de R$ 42,5 bilhões (5,1%) em relação a 30 de setembro de 2014 e de R$ 95,2 bilhões em relação a 31 de dezembro de 2013.

O saldo da carteira de crédito e repasse, líquido de provisão para risco de crédito, atingiu R$ 651 ,2 bilhões no encerramento de 2014, dos quais 81,4% correspondiam a créditos de longo prazo.

 

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Delator revela propina do Petrolão “na cara e na coragem”

Shinko durante depoimento à Justiça Federal (foto: reprodução)
Shinko durante depoimento à Justiça Federal (foto: reprodução)

 

 

Por Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

 

O engenheiro Shinko Nakandakari,um dos delatores da Operação Lava Jato, afirmou à força tarefa do Ministério Público Federal que ofereceu “na cara e na coragem” propina para o gerente geral da Refinaria do Nordeste (Rnest) Glauco Colepícolo Legatti. Segundo Nakandakari, na Petrobrás “era muito difícil aprovar aditivo (aos contratos)”.

“Glauco não facilitava nada. Para que esse aditivo fosse aprovado é que era pago o valor para Glauco.”

Ao todo, segundo o delator, foram repassados R$ 400 mil para Legatti, valor pago “em parcelas”. O primeiro pagamento foi em junho de 2013. “A princípio a reação de Glauco não foi natural, em nenhum momento eu tinha tido esse tipo de relacionamento com ele”, disse Nakandakari.

Legatti foi afastado do cargo em novembro de 2014, oito meses depois da deflagração da Lava Jato. Os pagamentos para o então gerente geral da Abreu e Lima ocorreram principalmente ao longo de 2014, afirma o delator. No dia do primeiro encontro, disse Shinko Nakandakari, “sentiu que Glauco iria aceitar o suborno”.

No segundo encontro, Nakandakari levou R$ 50 mil em dinheiro vivo. Segundo ele, o então gerente da Refinaria Abreu e Lima aceitou a propina. Os encontros ocorriam em hoteis no Rio. O primeiro foi no Sofitel, depois no Hotel Cesar Park. Os pagamentos ocorriam em intervalos de 30 e 60 dias, “alguns com valores maiores, outros menores”.

 

Publicado aqui, no Blog do Fausto Macedo

 

 

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Em meio à crise da Petrolão, Petrobras propõe aumento de 13% para seus diretores

Info folha sp 3Por Samantha Lima

 

Em meio à maior crise de sua história, a Petrobras pede aos acionistas que aprovem, na assembleia do próximo dia 29, um teto de remuneração 13% acima do que foi pago em 2014 para executivos que dirigem a empresa, considerando a média por executivo.

Além disso, num momento de resultados financeiros em risco, quer aumentar a proporção de salário fixo e reduzir a de remuneração variável, atrelada a resultados.

O teto médio fixo proposto, considerando os oito atuais diretores, é R$ 1,6 milhão para cada um por ano, 22,7% acima do R$ 1,3 milhão pago em 2014 e 9% acima do teto pedido no ano passado.

Dividido por 12 meses mais o 13º salário, o valor de 2015 equivale a um salário médio mensal de R$ 123 mil.

Em bônus por desempenho, a proposta é zero. Em participação nos resultados, é pagar, em média, R$ 92 mil a cada um dos oito diretores, 64% abaixo de 2014.

As informações constam do manual para participação de acionistas na assembleia.

 

  “Preventivo”

A Petrobras afirma que a proposta de 2015 contempla inflação de 8,09% prevista pelo BC para este ano. Em 2014, a inflação oficial, medida pelo IPCA, foi de 6,41%. Também seriam incluídos itens não previstos, como passagens aéreas e auxílio moradia. A estatal diz, ainda, que reduziu as remunerações variáveis “preventivamente”, diante das incertezas do resultado de 2014.

Entre janeiro e setembro de 2014, a Petrobras lucrou R$ 13,4 bilhões, 22% abaixo de igual período de 2013. A produção cresceu 3% e a geração de caixa, afetada pela defasagem do preço dos combustíveis que vigorou até outubro, caiu 11%.

De 2013 para 2014, a Petrobras aumentou em 18% a remuneração total paga aos sete executivos que dirigiam a empresa. O salário fixo (incluindo férias e 13º) de todos os diretores foi 10,7% maior –avançou de R$ 8,25 milhões para R$ 9,13 milhões.

O total pago aos então sete executivos, entre eles a então presidente Graça Foster e seis diretores, subiu de R$ 13,1 milhões, para R$ 15,4 milhões. Na média, cada um fez jus a R$ 2,2 milhões em 2014, contra 1,87 milhões em 2013. Graça e cinco deles deixaram a empresa há dois meses. O maior incremento na remuneração veio da participação nos resultados: entre 2013 e 2014, o valor pago aos diretores foi multiplicado por três, de R$ 606 mil (R$ 86 mil por diretor), para R$ 1,790 milhão (R$ 256 mil por diretor).

O bônus por desempenho foi 0,1% menor, de R$ 631 mil em 2013, para R$ 615 mil.

Um conselheiro da Petrobras, que pediu anonimato, disse que valores relativos a desempenho (bônus e participação nos resultados) pagos em 2014 referem-se aos resultados de 2013. Naquele ano, o lucro aumentou 11%.

Os valores pagos em 2014 obedeceram aos tetos aprovados na assembleia de acionistas realizada em abril do ano passado, quando os principais desdobramentos da Operação Lava Jato ainda estavam por acontecer.

A proposta para 2015 propõe um teto 1,1% maior para a remuneração média de cada diretor e 13% a mais do que foi efetivamente pago a cada executivo em 2014.

 

Publicado aqui, na folhadesaopaulo.com

 

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Crime e castigo — Da leitura e sua aplicação

Crime e castigoDepois do que o jornalista Ricardo André Vasconcelos escreveu aqui, sobre a utilização de um jornal como veículo de ameça de um grupo político contra todos aqueles que ousem questioná-lo, em jornal, blogs e na democracia irrefreável das redes sociais, pouco ou nada resta a ser dito. Para resumir o ridículo da ação desastrada, bastaria lembrar, como Ricardo o fez, que o chefe desse mesmo grupo político não tem nenhuma formação para se destacar em sua ativa lida blogueira como Torquemada pretenso em Inquisição contra tudo e contra todos, na qual só há um Deus, com um único representante direto na Terra: Anthony Garotinho.

Sinceramente, pelo ridículo auto-explicativo de origem, não queria tratar do assunto. Todavia, como colaboradores da Folha Online e do jornal impresso foram publicamente “ameaçados” na mesma… matéria, me vejo na obrigação institucional (e moral) de me posicionar. Mas pelos mesmos motivos já explicitados aqui e aqui, faça-o apenas na dimensão menor deste blog, sem macular a Folha com miudezas. Certo da grandeza que habita em gente que conheço, creio falar pelo José Paes, pelo Murillo Dieguez, pelo José Armando e pelo José Geraldo, valiosos colaboradores da Folha “jurados” juridicamente, assim como pela Jane Nunes e pelo Cláudio Andrade, demais cabras marcados para “morrer” nos tribunais. Acho que na ânsia de lamber a sola das botas do chefe, alguém acabou se confundindo. Confundiram os seis com uma meia dúzia qualquer, capaz de dar alguma confiança a jagunços a mando de coronel.

Ao fim e ao cabo, em vez de se manchar um famoso romance de Dostoiévski (1821/81) no título de um texto de péssima qualidade, nessa obsessão patética para se demonstrar a cultura que não se tem, é sempre melhor ler o mestre russo, assim como saber onde se pode aplicá-lo à perfeição: “Oh, sim, quando é preciso, afogamos até nosso senso moral, a liberdade, a tranquilidade, até a consciência, tudo, tudo, vendemos tudo por qualquer preço!” (Crime e castigo)

 

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Crítica de cinema — Carícias burocráticas

Colyseu

 

O garoto da casa ao lado

 

Mateusinho 1O garoto da casa ao lado — Define-se o “slut shaming” como o ato de induzir uma mulher a se sentir culpada ou inferior devido a prática de certos comportamentos sexuais que desviam de expectativas ditas tradicionais de seu gênero. Estes comportamentos incluem, dependendo da cultura, ter um grande número de parceiros sexuais, ter relações sexuais fora do casamento, ter relações sexuais casuais, agir ou se vestir de uma maneira que é considerado excessivamente sexual.

Vivemos  tempos de multitonalidades do cinza, mas também de muita luta e discursos feministas inflamados, que nos trazem à discussão sobre a igualdade de gênero, como o da atriz Patrícia Arquette, que ganhou o Oscar 2015 de melhor atriz pelo papel de Olivia Evans em “Boyhood — Da Infância à Juventude”.

Aí, vem a Universal Pictures e lança o thriller erótico/suspense “The Boy Next Door” ( “O Garoto da Casa ao Lado”). Com um orçamento de quatro milhões de dólares — muito abaixo dos padrões de Hollywood, roteiro da quase iniciante Barbara Curry (empapuçado de clichês) e com a direção do nova-iorquino Rob Cohen, de filmes como “A sombra do Inimigo” (2012), “A Múmia – Tumba do Imperador Dragão” (2008), “Ameaça Invisivel – Steath” (2005), “Velozes e Furiosos” (2001) e “Sociedade Secreta” (2000), que realiza toda filmagem, de seu segundo filme teatral, em um prazo apertado de 25 dias.

No elenco, Jennifer Lopez, a linda produtora, cantora e atriz americana de descendência e curvas latinas (“Selena”, de 1997; “Sangue e Vinho”, de 2006; e “Dança Comigo”, de 2004) interpreta a protagonista Claire Peterson. Ryan Gusman (“Força de Elite”, de 2014, “Ela Dança, Eu Danço” 4 e 5) como o sedutor sarado maníaco/obsessivo Noah Sandbom. John Corbett (“Bebê a Bordo”, de 2009; “Sex and the City”, de 2010; “NCIS: Los Angeles”, de 2012; e “Sex&Drugs&Rock&Roll”, de 2014), vive o marido traidor arrependido: Garrett Peterson. E Ian Nelson (“Jogos Vorazes”, de 2012; “O Melhor de Mim”, de 2014; e “O Juiz”, de 2014), como Kevin, o filho tímido e influenciável com problemas de saúde.

Na trama, após ser traída pelo seu marido Garrett Peterson (John Corbett) , a professora de literatura clássica Claire Peterson (Jennifer Lopez) está em vias de se divorciar. Ela vive sozinha com o filho adolescente Kevin, até perceber que um jovem acaba de se mudar para a casa ao lado. O sedutor,  Noah Sandborn (Ryan Guzman) rapidamente oferece ajuda nas tarefas da casa e se torna o melhor amigo do filho de Claire. Diante da fragilidade, carência e beleza da professora,  aos poucos, o vizinho passa a seduzi-la, levando a uma noite de amor entre os dois. No dia seguinte, a professora está decidida que tudo foi apenas um erro, mas Noah não pretende abandoná-la tão cedo. O caso de amor torna-se uma violenta obsessão e o drama erotizado se transforma em suspense com sustos bastante previsíveis. Confesso que não dava para contar com a seringada no olho do vilão.

Sem nenhum destaque nas atuações. O casal protagonista não passa muita paixão na cena mais ardente do  filme, com movimentos e carícias burocráticas que não encantam. A beleza do casal, não se discute. O Ryan Gusman  tenta um Noah que lembra, fisicamente, o Stanley Kowalski de Marlon Brando em “Uma Rua Chamada Pecado” (1951), com direito a camisetas brancas de mangas enroladas, e faz suas primeiras cenas de nudez, para a felicidade das mulheres e simpatizantes. A Jennifer Lopez não convence como professora de literatura clássica e nem como mulher sexy na carestia, mas é de uma beleza muito generosa, indo e vindo. De repente, correria com um Chevrolet esportivo roxo na descida e com freio sabotado. Depois, acidente de mini-van com explosão de caminhão tanque. Foi que aproveitaram a experiência do diretor Rob Cohen em  “Velozes e Furiosos”.

A Diva tem fãs fieis pelo mundo todo, o que pode garantir uns caraminguás. O que me espanta, é que a atriz/cantora ainda precise fazer esses filmes e bancar uma coprodução para garantir o papel de protagonista.

Não está fácil para ninguém. De bom tom parar com esse negócio de “slut shaming” com a J-Lo!

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje da Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Ricardo André reage à ameaça: “Aula de (mau) jornalismo”

Eu penso que

 

Aula de (mau) jornalismo 

 

Por Ricardo André Vasconcelos, em 29-03-2015 – 20h09

 

Através de seu porta-voz na mídia impressa, o jornal O Diário, o grupo político dominante na cidade, ameaçou, em sua edição de hoje (ontem, 29/03), com processos judiciais, militantes das redes sociais. Além de tentar desqualificar alguns dos mais ativos blogueiros da cidade — muitos dos quais com relevantes prestados ao mesmo grupo político a que hoje serve o jornal — a matéria revela, entre vários pecados, a mistura de críticos de carne e osso com fakes, sem citar um caso único caso concreto. E sonega ao leitor amostras de “crimes de calúnias, infâmias e injúrias”. Quem são os caluniados e caluniadores? Que calúnias foram publicadas?

E mais: se “esquece” de listar um dos blogs mais conhecidos do Estado, assinado pelo atual secretário de Governo e líder do grupo político que criou o jornal, Anthony Garotinho, que responde a diversos processos, inclusive movido pelo atual presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (aqui). Garotinho faz jornalismo investigativo e os outros caluniam?

Opinativa da primeira à última linha, a matéria que é manchete da edição deste domingo, curiosamente, não é assinada, ao contrário dos blogueiros citados no jornal, que expõe-se em textos assinados em seus espaços virtuais. Pois é. Só tem medo de ser processado quem não tem convicção do que escreve.

Na verdade, essas falsas vestais que empenham sua pena como ventrículos para dar voz ao chefe, deixam muito a desejar no exercício de seu abjeto ofício. Tanto, que a matéria da edição de hoje, que este Blog reproduz abaixo, deveria ser pregada nas salas de aula do Curso de Jornalismo da nossa Uniflu. Ao menos para ensinar como se faz um (mau) jornalismo.

 

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Poema do domingo entre budiões e baianas

Aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, postei um poema virgem de festival ou publicação, em atendimento ao pedido do poeta, produtor cultural, artista multimídia e professor Artur Gomes. Num distante 1992, numa edição do FestCampos de Poesia, no qual acabei tirando primeiro e segundo lugares, realizado no hoje abandonado anfiteatro do Parque Alberto Sampaio, Artur foi o primeiro intérprete dos meus versos. E isto é mais que muito. Não por outro motivo, neste domingo, dia mais dado às possibilidades de contemplação, republico abaixo o poema, escrito em Atafona, logo após ter metido o pé na estrada numa inesquecível viagem de carro, paradeira de ida e volta, até Salvador (BA):

 

Budiões azuis

 

 

budiões e baianas

 

criados como crianças

azuis

por parte de céu

e mar

budiões bailavam ciranda

ciosos de mim

 

seus bicos de papagaio

imitavam silêncios

na babel sustenida

e o estalo das vagas

no palato das pedras

vorazes por algas

 

as tartarugas, não

— distintas dos budiões

elas eram budistas:

pastavam serenas

arando mesuras

com nadadeiras espátulas

 

abr’olhos!

advertiam os lusos

em luzes adivinhas

ao há de vir

 

abdicado das gueixas

por iemanjá como quenga,

vesti guelras na vista…

colori os corais

corei coralinas

e cruzei com sereias

que deram cria

 

um raio de sol

oblíquo

foi o obstetra

 

atafona, 29/01/07

 

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Crítica de cinema — Para sempre Atafona

Caixa de luzes

 

 

Para sempre Alice

 

 

Mateusinho 4Para sempre Alice — Meu pai dizia que nunca se deve usar a primeira pessoa em texto jornalístico. Tanto pior quando se trata de uma crítica, cujo distanciamento é ainda mais recomendável à análise do todo. E aqui desrespeito o sábio ensinamento em busca da sua compaixão, leitor, pois é inglória a tarefa de tentar analisar “Para sempre Alice”, depois que o fizeram, neste mesmo espaço, a Paula Vigneron (aqui) e o Gustavo Alejandro Oviedo (aqui). E, assumida a primeira pessoa, para quem nela de fato me conhece, sabe que não sou de fazer favor, sobretudo em se tratando de escrita e cinema.

Entre a “arte de perder” entalhada pela primeira crítica e a “alegria da tristeza” no oxímoro poetado do segundo, qual caminho distinto escolher para falar da história da brilhante professora Alice Howland, doutora em linguística e dedicada mãe de família que descobre, aos 50 anos, sofrer precocemente de uma variante bastante agressiva do Mal de Alzheimer? E se essa personagem for interpretada pela ainda bela Julianne Moore, no papel que lhe rendeu com toda justiça o Oscar, o Globo de ouro, o Screen Actors Guild, o Bafta, o Spirit Award, o SAG, o Hollywood Awards, o London Film Critic’s Circle, o National Board of Review e o Critic’s Choice de melhor atriz?

Para qualquer um que já tenha encarado de frente a possibilidade real de deixar de existir, inevitável a eletricidade correndo à pele, a respiração funda e os olhos marejados na identificação doída com a cena onde Alice, insone com a suspeita ainda não confirmada do Alzheimer, acorda o marido, o médico John Howland (um contido Alec Baldwin), para comungar no meio da madrugada seu pavor pela perda da identidade, composta nas memórias de uma mente sensível e privilegiada, à beira se erodindo do Nada. E para quem é mãe (ou pai), a fisga puxa pelas entranhas na cena na qual o casal revela aos três filhos adultos — Anna (Kate Bosworth), Tom (Hunter Parrish) e Lydia Howland (Kristen Stewart) — o diagnóstico já confirmado de Alzheimer de Alice, além da possibilidade que os três possam também desenvolver a doença, pela hereditariedade involuntária de uma mulher no “revés de um parto”, com o perdão do furto a Chico Buarque de Holanda.

Para quem nunca encarou a perspectiva concreta do fim da própria vida, nem gerou outra, basta ser humano e mortal para se solidarizar, como todos que em intenção a ajudam a recolher os papéis do seu discurso caídos ao chão, na cena onde Alice, já afetada pelo Alzheimer, fabrica forças para palestrar ainda com eloquência e arrebatar um público igualmente afetado, direta ou indiretamente, pela doença. E esta é outra grande virtude do filme: mostrar, sem apelos lacrimogêneos, como a família de um paciente de enfermidade incurável e terminal adoece toda junto.

Na vida que imita a arte para ser por ela imitada, foi o caso de Wash Westmoreland, que dirigiu e roteirizou “Para sempre Alice”, conjuntamente com seu marido, Richard Glatzer, falecido precocemente no último dia 10, aos 63 anos, vítima de esclerose lateral amórfica (ELA), doença que afeta os neurônios responsáveis pelos movimentos do corpo e causa a perda do controle muscular. Ele foi diagnosticado com ELA um pouco antes de começar o projeto do filme, que dirigiu enquanto a doença se agravava rapidamente.

Na ficção, desde sua primeira crise mais séria, enquanto corria, até o avanço inexorável da doença, onde os momentos de ausência das memórias mais elementares se tornam cada vez mais frequentes, a câmera do casal Glatzer e Westmoreland  foca em Alice, deixando todo o fundo turvo, sob vertigem, na tentativa dos diretores de transferir ao espectador a perspectiva agônica da personagem, enquanto esta tenta em vão responder para si mesma quem ela própria é.

Da zona litorânea de Nova York, onde Alice caminha em busca de lembranças engolidas a cada onda, à foz do Paraíba do Sul que corta e forma esta planície, o Atlântico é o mesmo. Navegando por suas águas, se você ler esta crítica de cinema depois ou antes da matéria de capa desta edição de Folha Dois (aqui), não há mentira em dizer que Alice é Atafona, fêmea dotada de beleza, brilho e charme, cujas memórias ainda vivas se mantêm na mente dos que a amaram e foram nela amados, mesmo depois que a ação da natureza as carregou ao anonimato do oceano.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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