Aparelharam a Petrobras com incompetentes para obter vantagens pessoais e aos partidos

 

Por David Friedlander

 

O empresário Cristiano Kok, presidente do conselho de administração da empreiteira Engevix, admite que pagou cerca de R$ 10 milhões em propina para o doleiro Alberto Youssef e diz ter feito isso para receber pelas obras que fazia para a Petrobras.

“Os políticos aparelharam a Petrobras para arrancar dinheiro das empreiteiras. Foi extorsão”, disse Kok, 69, em entrevista à Folha. “Agora, será que alguma empresa poderia ter denunciado que estava sendo extorquida pelo Paulo Roberto [Costa, ex-diretor da Petrobras]? No mundo real não dá para fazer isso.”

Acusada de participar do esquema de corrupção descoberto na Petrobras pela Operação Lava Jato, a Engevix está sendo processada por improbidade administrativa. O Ministério Público pede indenização de R$ 538 milhões pelos supostos delitos.

Entre os executivos processados, está um dos sócios da empreiteira, Gerson Almada, preso há mais de 120 dias. Empresa de tradição no setor, a Engevix hoje corre o risco de quebrar. Com várias empresas do grupo à venda para pagar dívidas, Kok conta que passou a rezar para pedir ajuda divina. A seguir, os principais trechos da entrevista:

 

 

Presidente do conselho administrativo da Engevix, Cristiano Kok (foto de Ernesto Rodrigues - Folhapress)
Presidente do conselho administrativo da Engevix, Cristiano Kok (foto de Ernesto Rodrigues – Folhapress)

 

Folha — Ao todo, quanto vocês pagaram de propina nos contratos da Petrobras?

Cristiano Kok — Foram R$ 6 milhões a R$ 7 milhões num contrato de R$ 700 milhões da refinaria Abreu e Lima, e mais uns R$ 3 milhões na refinaria de Cubatão. Pagamos em prestações mensais para três empresas do Alberto Youssef, como se fosse prestação de serviços.
Quando começou a Lava Jato, ficamos sem dinheiro e paramos tudo. Só que Youssef tinha duplicatas assinadas por nós e as descontou no banco. O banco veio atrás e tivemos que pagar para não ficar com o nome sujo.

Para quem ia o dinheiro?

Não sei. José Janene [ex-deputado do PP] indicou o Youssef e ele dizia: “Paga isso aqui, paga aquilo ali”. Não sei para onde o dinheiro ia e só soube que as empresas eram do Youssef muito depois.

 

O sr. não desconfiava que o dinheiro era para políticos?

Como a indicação do Youssef foi política, evidentemente ele falava em nome do partido [PP]. Mas para quem ele mandou dinheiro eu não sei.

 

A propina era para ganhar contratos na Petrobras?

Era para não ser prejudicado nos pagamentos de aditivos [aos contratos] e das medições da obra. Os contratos a gente ganhou por licitação.
Mas, para receber em dia, e ter as medições aprovadas, tem que pagar comissão, taxa de facilitação, propina, chame do que você quiser.
Você começa a obra, monta equipe, se instala, sua um pouquinho e aí começam a aparecer as dificuldades para receber. Era chantagem mesmo. Extorsão.

 

E as outras empresas, pagavam para ganhar obras?

Não sei dizer a razão delas. Cada caso é um caso.

 

O sr. tem um sócio na cadeia há mais de 120 dias, está com o nome sujo e precisa vender quase tudo para pagar dívidas. O que passa pela sua cabeça?

Minha resposta imediata seria dizer que foi tudo um absurdo, não devia ter participado. Mas era fazer isso ou ficar sem serviço. As empresas cometeram erros e estão pagando um preço altíssimo por um processo de extorsão. Agora, será que alguma empresa poderia ter denunciado que estava sendo extorquida pelo Paulo Roberto [Costa, ex-diretor da Petrobras]? No mundo real não dá para fazer isso. Você sai do mercado, seu contrato é cancelado, vão comer teu fígado.

 

O governo diz que a Petrobras foi vítima de…

Foi vítima de má gestão. Os políticos aparelharam essa máquina com gestores incompetentes, para obter vantagens pessoais ou para seus partidos. A versão que tem sido divulgada é que a Petrobras foi assaltada por um bando de empreiteiras. A verdade é que os políticos aparelharam a Petrobras para arrancar dinheiro das empreiteiras.

 

O Ministério Público afirma que as doações de campanha também são pagamento de propina, só que disfarçado.

Nunca pagamos doação de campanha para ganhar contratos ou fazer obras. Na última semana de campanha, por exemplo, o tesoureiro da Dilma [Edinho Silva] saiu pedindo dinheiro para todos, e contribuímos com R$ 3 milhões. Tudo registrado. Agora, evidentemente, quando você apoia um partido ou um candidato, no futuro eles vão procurar ajudá-lo de alguma forma, não tenha dúvida. É política de boa vizinhança.

 

Segundo as investigações, as empreiteiras superfaturavam os preços das obras.

Não houve superfaturamento. Não dá para dizer isso sem uma perícia.

 

O TCU (Tribunal de Contas da União) fez perícia e constatou superfaturamento na refinaria Abreu e Lima.

Os critérios do TCU estão errados. Pegam os preços de uma pavimentação de asfalto e aplicam na pista do aeroporto. São coisas diferentes.

 

Mas os preços de Abreu e Lima e de outras obras explodiram.

A Petrobras lançava as obras sem projeto e depois ia acrescentando coisas que encareciam tudo. Pediu granito no banheiro, no refeitório, um revestimento caríssimo nos 53 prédios da refinaria. Em Abreu e Lima, nosso contrato era de R$ 700 milhões, mas acabamos gastando R$ 1,1 bilhão por causa das exigências extras da Petrobras. Nos devem R$ 400 milhões. Em Macaé (RJ), fizemos um contrato de R$ 300 milhões e a obra ficou em R$ 450 milhões. Mais prejuízo. Estamos cobrando a Petrobras por isso. Mas eu devo ser muito burro, porque paguei comissão e perdi dinheiro.

 

Mas fazer obras sem projeto não era conveniente para as empreiteiras? Vocês podiam pendurar lá o que quisessem.

Você entra achando que já que o projeto é mal feito vai poder cobrar mais para fazer direito, só que na hora de cobrar eles não te pagam.

 

Vocês combinavam a divisão das obras entre as empresas?

Eu não participei disso. Mas havia, digamos assim, uma certa organização para que uma empresa que já estava trabalhando numa determinada refinaria continuasse lá, porque não tem sentido trocar por outra. A Petrobras poderia fazer isso, mas deixava para o mercado.

 

Isso não é cartel?

Num cartel, um grupo de empresas se organiza para combinar os preços do mercado. No caso da Petrobras, ela é a única compradora, ela estabelece preço e ela escolhe quem participa. Não há a menor chance de entrar numa obra se ela não quiser.

 

O contrato da Engevix com o ex-ministro José Dirceu também era para pagar propina?

Nunca foi propina. Dirceu foi contratado pelo relacionamento que tinha no Peru, em Cuba e na África. Tínhamos interesse nesses mercados, mas não houve resultados. O contrato era em torno de R$ 1 milhão, não sei exatamente. Fizemos outro contrato com o Paulo Roberto Costa depois que ele saiu da Petrobras. Eram R$ 30 mil por mês, para consultoria.

 

Quem é Milton Pascowitch, que seu sócio Gerson Almada citou em depoimento como uma ponte com o PT?

Milton atua conosco há mais de 15 anos. Tem um relacionamento forte com o PT e disse para o Gerson que podia ajudar no relacionamento com o partido. Foram feitos contratos com ele para fazer esse relacionamento. Era uma relação de lobby, nunca para pagamento de propina.

 

O envolvimento no escândalo afetou sua vida pessoal?

Na família tem gente que olha assim meio enviesado, mas até agora não vi ninguém na rua apontando para mim ou coisa parecida. As pessoas que conhecem o setor parecem solidárias, mas ao mesmo tempo estão em busca de oportunidades e vão para cima de você. Nossas empresas perderam valor e tem gente de olho nisso.

 

O que mudou na sua rotina?

Fiquei mais místico. Eu não era voltado para a espiritualidade, agora medito, passei a rezar. Peço ao poder superior uma ajuda. Até agora tive duas sortes que atribuo à proteção divina: não fui preso e não sou réu em processo.

 

A Engevix vai quebrar?

Espero que não. Vendemos nossa empresa de energia e colocamos à venda nossas participações nos aeroportos de Brasília e Natal, e o estaleiro no Sul. Devemos mais de R$ 1,5 bilhão a bancos e fornecedores. Se tudo der certo, vamos encolher, mas continuar vivos. O faturamento do ano passado, que foi de R$ 3 bilhões, cai para R$ 1 bilhão.

 

Como está a negociação do acordo de leniência com a Controladoria-Geral da União?

Assinamos a minuta de um acordo para começar a discussão, mas parou nisso.

 

Conseguirá pagar os R$ 538 milhões cobrados na Justiça?

De jeito nenhum. Se tem alguém que precisa pagar é a Petrobras, que nos deve mais de R$ 500 milhões.

 

Publicado aqui, na folhadesaopaulo.com

 

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Agonizando em praça pública

“Muriendo toro”, óleo de Pablo Picasso
“Muriendo toro”, óleo de Pablo Picasso

 

 

Jornalista, escritor e blogueiro Merval Pereira
Jornalista, escritor e blogueiro Merval Pereira

Por Merval Pereira

As últimas 24 horas demonstraram com rigor a crise profunda em que o governo Dilma está mergulhado, agregando uma série de problemas criados por seu próprio entorno aos que já estão sobre a mesa desde a reeleição. Dois fatos especialmente aumentaram a pressão sobre o governo: um documento atribuído à Secretaria de Comunicação (Secom) com sugestões absurdas da tática a ser usada para tentar reverter a popularidade negativa do governo; e a crise criada por um comentário do ministro Cid Gomes, repetindo como farsa uma frase de Lula em 1989 sobre a quantidade de picaretas e achacadores que o Congresso abriga.

Não bastassem os problemas que o governo tem que enfrentar sem apoio da base aliada, que continua dividida entre seus próprios interesses e a tentativa de fazer populismo num momento de grave crise econômica, vem o ministro Cid Gomes levar para dentro do Palácio do Planalto uma crise política que seria dispensável nesse momento.

Lula já dissera, quando terminou seu mandato de deputado constituinte, que havia 300 picaretas no Congresso. Essa sua frase não foi obstáculo a que, anos mais tarde, fizesse acordos políticos com a maioria desses picaretas, e mais alguns que surgiram pelo caminho.

Já Cid Gomes, depois de ter dito coisa similar, saiu ontem do Congresso debaixo de críticas contundentes, que recebiam aplausos dos “achacadores” de plantão. Para o ex-governador do Ceará, há no Congresso entre 300 e 400 deputados que vivem do quanto pior, melhor. Seriam os “achacadores” do governo, que, disse ele na fala em que supostamente pediria desculpas, deveriam “largar o osso”.

Sua maneira arrogante de se dirigir ao Congresso, até mesmo apontando o dedo para o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, dizendo que preferia ser chamado de mal educado a ser acusado de achacador como Cunha o fora pelo Ministério Público, só fez piorar a situação, embora possa ter tido sucesso em setores do Palácio do Planalto que pensam como ele e não podem explicitar esse sentimento.

Não está aqui em questão se o ministro da Educação tem ou não razão, ou se ele é a pessoa mais adequada para fazer essa acusação. Cid Gomes simplesmente atravessou a calçada para escorregar em uma casca de banana, e o pedido de demissão é uma consequência lógica da pressão do PMDB, mas o que importa é que governo vai agonizando em praça pública.

Só um governo destrambelhado, sem comando e sem rumo como esse, não resolve esse problema com a demissão do ministro no momento exato em que a frase foi divulgada, não importa se o conteúdo é verdadeiro ou não.

E também só em um governo que está em seus estertores acontece o vazamento de um documento como o da Secom. E só num governo incompetente alguém coloca no papel propostas tão absurdamente ilegais como se fossem naturais. Como, por exemplo, reconhecer que há uma simbiose entre o aparato oficial de comunicação do governo e os do PT, além de elementos externos, como os chamados “blogueiros sujos”, classificados de “soldados” de fora do governo, pagos para fazer uma “guerrilha” de informação:

“As responsabilidades da comunicação oficial do governo federal e as do PT/Instituto Lula/bancada/blogueiros são distintas. As ações das páginas do governo e das forças políticas que apóiam Dilma precisam ser muito melhor coordenadas e com missões claras. É natural que o governo (este ou qualquer outro) tenha uma comunicação mais conservadora, centrada na divulgação de conteúdos e dados oficiais. A guerrilha política precisa ter munição vinda de dentro do governo, mas ser disparada por soldados fora dele.”

Diz também o documento atribuído à Secom e não desautorizado, que “a publicidade oficial em 2015 deve ser focada em São Paulo, reforçando as parcerias com a Prefeitura. Não há como recuperar a imagem do governo Dilma em São Paulo sem ajudar a levantar a popularidade do Haddad. Há uma relação direta entre um e outro.”

Não é com propaganda que os governos, o de Dilma e o do prefeito Fernando Haddad, recuperarão a popularidade perdida devido à incompetência no trato das questões do dia a dia do cidadão-eleitor. Só fatos, decisões concretas, reconhecimento de erros, farão com que seja possível pensar em uma recuperação de imagem. E assim mesmo sem garantia de sucesso.

A proposta só demonstra claramente como o governo Dilma se confunde com o PT e não tem uma visão global, nem dos problemas nem das soluções.
Um governo para todos, balela da propaganda oficial.

 

Publicado aqui, no Blog do Merval

 

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Dilma pode terceirizar o governo. Não a Lava-Jato

atrás do próprio rabo

 

 

Jornalista Carlos Alberto Sardenberg
Jornalista Carlos Alberto Sardenberg

Por Carlos Augusto Sardenberg

 

Quando o ministro do Trabalho considera boa a notícia do fechamento de 2,4 mil empregos com carteira, não precisa dizer mais nada. Mas ele ainda disse que a crise não é extrema como se fala por aí.

Não é extrema porque o país não vai acabar, claro, mas, para o governo e para a presidente Dilma, é uma situação quase sem saída.

As 2,4 mil vagas foram fechadas em fevereiro, número assim qualificado:

— O resultado é bem pior do que esperavam os analistas;

— É muito pior do que fevereiro do ano passado, quando foram criados 260 mil postos;

— Em todo o ano passado, foram criados quase 400 mil empregos com carteira;

— Nos 12 meses encerrados em fevereiro último, foram fechadas 47 mil vagas;

— A região com o maior fechamento de vagas em fevereiro foi o Nordeste, com perda de 27,5 mil.

O Datafolha divulgado ontem informa que cresceu expressivamente o medo de perder o emprego. Diz ainda que apenas 16% dos eleitores nordestinos aprovam o governo Dilma.

Juntando as coisas: a geração de emprego era a única coisa positiva que resistia até o ano passado. Cada vez mais fraca, mas ainda positiva. O Nordeste foi onde a presidente obteve seu melhor resultado na eleição de outubro. Ou seja, o governo e a presidente estão perdendo seus maiores trunfos.

Como uma notícia dessa pode ser boa? Só tem um jeito: o ministro devia estar esperando coisa pior.

Ou acha, como parece achar todo o governo, a julgar pelas primeiras reações pós-manifestações, que dá para virar o jogo no grito, quer dizer, na comunicação.

Mesmo nesse departamento, contudo, o governo começou mal. Anunciar com toda a pompa, incluindo Hino Nacional para uma plateia de autoridades convocadas, um velho e requentado pacote de medidas anticorrupção, no dia mesmo em que se revelava a conexão Petrobras-Vaccari, só serve para estimular mais panelaços.

E como ficamos?

No nosso regime, o presidente não cai assim tão fácil. A Constituição coloca restrições ao impeachment para preservar a estabilidade a longo prazo. Mas os governos caem — ministros, líderes parlamentares e porta-vozes podem ser substituídos para dar uma nova direção à gestão. Ainda que indecisa e contrariada, parece que a presidente vai por aí. Já há ministros caindo.

E para quem ela pode terceirizar o governo? O pessoal do PMDB, do lado político e administrativo, Joaquim Levy do lado da economia.

Não deve ser por acaso que as modificações no programa de ajuste estão sendo negocias por Levy com os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha.

A política econômica é, no essencial, correta. Na verdade, a única saída para o momento. Mas é um ajuste, um arrocho — ou seja, as coisas vão piorar antes de melhorar, com mais inflação e mais desemprego, os dois piores fantasmas a assombrar a vida das famílias. E das famílias das classes médias, incluindo a nova, eleitora preferencial de Dilma. De todo modo, ganhando-se tempo, a política econômica se acomoda.

Na política propriamente dita, parece claro que Michel Temer, Calheiros e Cunha, com o pessoal do velho PMDB, são muito mais competentes que a presidente e sua turma.

A variável que ameaça essa construção é menos a deterioração das condições econômicas, um processo lento, e mais a Lava-Jato. Na sua décima fase — a “Que país é este?” — atingiu pesadamente o PT e se aproximou mais do núcleo dirigente. E já está bem perto de políticos do PMDB, justamente os encarregados de refazer o governo.

Também não custa lembrar que, na mesma pesquisa Datafolha de ontem, apenas 9% dos entrevistados fizeram avaliação positiva dos deputados e senadores. E 50% os consideraram ruins e/ou péssimos.

No positivo, perderam para Dilma, que fez 13%. No negativo, ganharam dos 62% de ruim/péssimo da presidente. No agregado, um empate muito feio.

À medida que avançam as investigações, o valor das delações vai declinando. Claro, os promotores e o juiz Moro já sabem muito do que o pessoal pode contar.

Mas ainda faltam peças importantes, especialmente fatos concretos, como número de contas, extratos de transações, datas de reuniões e movimentações financeiras, identificação dos verdadeiros donos de contas no exterior.

E falta também, segundo fontes próximas ao processo, uma especial delação, a de Ricardo Pessoa, da UTC. E não é nem para falar do cartel das empreiteiras, mas de doações que teriam sido feitas para o tesoureiro da última campanha da presidente Dilma.

A presidente sempre pode trocar ministros e políticos, mas se aquela for mesmo a última delação, como a presidente poderá fazer com ela mesmo?

A política econômica é, no essencial, correta. Mas é um ajuste, um arrocho — ou seja, as coisas vão piorar antes de melhorar.

 

Publicado aqui, no Portal do Sardenberg

 

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O muito de farsa e pouco de verdade no show de Cid Gomes

leão gatinho

 

 

Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat
Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat

Cid Gomes dá seu show, posa de herói, e perde o palanque que o Ministério da Educação lhe garantia

Por Ricardo Noblat

 

Há muito de farsa e pouco de verdade em tudo o que foi dito, ontem, por personagens de primeiro plano e de bastidores da trapalhada cometida por Cid Gomes, ex-governador do Ceará, e que lhe custou o cargo de ministro de Educação do que a presidente Dilma chama de “Pátria Educadora”, o novo slogan do seu segundo governo.

Tudo começou com uma visita de Cid, no último dia 27, a Belém do Pará. Para fazer jus à sua imagem de boquirroto, não resistiu a dizer o que pensava do Congresso durante um debate com professores e alunos. Chamou o Congresso de antro de “achacadores”. Afirmou que existem ali entre 300 e 400 achacadores.

Uma fita com as declarações de Cid bateu nas mãos de Hélder Barbalho (PMDB-PA), ministro da Pesca, filho do ex-senador Jáder Barbalho. De Hélder a fita passou para o líder do PMDB na Câmara dos Deputados. E deu origem à convocação feita pela Câmara para que Cid se explicasse.

Dilma não gostou da confusão que se armava. Ela quer tudo, menos se atritar com o PMDB. Recomendou a Cid que desse um jeito de recuar do que dissera, salvando a própria face se isso fosse possível. Primeiro Ciro inventou que estava muito doente, e se internou no Hospital Sírio Libanês para fugir à convocação.

Uma junta de três médicos, que são também deputados, visitou Cid no hospital. E constatou que ele sofria de “sinusite leve”. Cid foi então reconvocado. E, ontem, apresentou-se no plenário da Câmara para enfrentar os deputados. Dois de seus quatro irmãos, entre eles o ex-ministro Ciro Gomes, estavam em Brasília.

Os Gomes têm fama no Ceará de não levar desaforo para casa. Ciro aconselhou Cid a reafirmar tudo o que havia dito em Belém. Perderia o cargo de ministro, é fato. Mas sairia como herói por ter enfrentado os deputados. Especialmente Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, a quem chamou de “achacador”.

Cid telefonou para amigos dizendo como se comportaria na Câmara. E pedindo que o assistissem pela televisão. Um dos amigos avisado por ele foi o cantor Fagner, que estará esta tarde em Brasília. O show de Cid foi ao ar exatamente como ele imaginara. Da Câmara, ele foi ao encontro de Dilma para pedir demissão.

Sabia que se não o fizesse seria demitido. Antes que ele saísse do Palácio do Planalto, Aloizio Mercadante, chefe da Casa Civil da presidência da República, telefonou para Eduardo e informou que Dilma demitira Cid. Pouco importa se ele pediu demissão ou se ela o demitiu. Cid perdeu um palanque. Dilma ganhou uma vaga no governo para negociar com os que a apoiam.

Se dependesse de Lula, Cid seria substituído por Mercadante. E Jaques Wagner, ex-governador da Bahia e atual ministro da Defesa, ocuparia a Casa Civil. O PMDB cobra um ministério de peso a Dilma, o sexto. Não quer o da Educação porque acha que ele não tem autonomia para, digamos, facilitar a vida do partido.

Um emprego com bom salário espera Cid no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

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PF prende prefeito do PT na BR 101 em Macaé quando recebia propina

 

 

Mais um escândalo envolvendo o Partido dos Trabalhadores (PT) ganhou destaque nacional nesta quarta-feira, dia 18, após a prisão do prefeito de São Sebastião do Alto, Mauro Henrique Chagas (PT). Ele foi preso pela Polícia Federal no estacionamento de um posto de gasolina na BR 101, em Macaé. Segundo a polícia, o político foi abordado durante o pagamento de uma propina no valor de R$ 100 mil, que teria sido exigida por ele mesmo, para que um empresário pudesse começar obras nas áreas de saúde e saneamento no município da Região Serrana do Rio, que fica já quase na divisa com o Noroeste Fluminense. O valor cobrado representaria  10% de duas licitações para a execução dos serviços.

O assunto foi destaque no Jornal da Globo já na madrugada desta quinta-feira. Segundo informações da InterTV  Serramar, afiliada da emissora, o empresário já sabia da operação e colaborou com a Polícia Federal. Os agentes teriam usado roupas de uma suposta empresa de terraplanagem para fazer o flagrante, cercando o carro do prefeito.

O G1 da Região Serrana também informou que entrou em contato com a assessoria do prefeito Mauro Henrique Chagas através de e-mail, conforme exigido pela mesma, mas até  por volta das 21h30 dessa quarta ninguém havia se pronunciado.

Mauro Henrique Chagas era vice-prefeito de Carmond Bastos (PT) e assumiu a prefeitura em abril de 2013. O prefeito eleito Carmod Bastos foi afastado do cargo após denúncias de irregularidades administrativas e instauração de uma CPI na Câmara de Vereadores. Carmond foi condenado por oito crimes, entre eles, fraudes em dispensa de licitação e aumento do próprio salário, sem lei que autorize.

 

Publicado aqui, na Folha Online

 

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Refém do PMDB, Dilma “aceita” demissão de Cid Gomes

Eu penso que
Por Ricardo André Vasconcelos, em 18-03-2015 – 18h54
Cid Gomes
Cid Gomes foi demitido agora há pouco pela presidente Dilma Rouseff, minutos depois de ser sabatinado na Câmara dos Deputados. Cid foi à Câmara, como convocado, para prestar esclarecimentos sobre uma declaração sua, feita a estudantes no Pará, de que no Congresso teria “400 ou 300 achacadores”. O então ministro, numa sessão tensa, se desculpou alegando que falara em como “pessoa física”, num contexto privado e sem elaborar a frase, mas durante toda a sessão, manteve suas críticas à base aliada do governo e terminou apontando diretamente para o presidente da Câmara, Eduardo Cunha:

— Eu fui acusado de ser mal educado. O ministro da Educação é mal educado. Eu prefiro ser acusado por ele [Eduardo Cunha] do que ser como ele, acusado de achaque.”

A notícia da demissão de Gomes, foi dada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que disse ter recebido telefonema do ministro da Casa Civil, Aluizio Mercadante.
Do Portal da Câmara dos Deputados:

18/03/2015 – 18h05 (atualizado às 18h11)

Eduardo Cunha diz que foi comunicado da demissão do ministro Cid Gomes

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, acaba de anunciar que foi comunicado pela Casa Civil da Presidência da República sobre a demissão do ministro da Educação, Cid Gomes. O ministro estava há pouco no Plenário da Câmara, onde foi chamado para explicar declaração de que haveria “300 ou 400 achacadores no Congresso”.
O líder do governo, deputado José Guimarães (PT-CE), disse que o ministro vai conversar com a presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. Muitos líderes cobraram a saída do ministro do cargo, depois que ele manteve as declarações de que alguns deputados seriam “achacadores”.
Explicando-se aos deputados, Cid Gomes disse que há deputados que “criam dificuldades para obter facilidades”, pediu desculpas a quem se sentiu ofendido, mas partiu para o ataque, cobrando lealdade dos deputados da base e apontando ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha.Atualização correção de título – Oficialmente foi Cid que pediu demissão.
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PMDB dá ultimato a Dilma: Ou Cid Gomes sai agora, ou partido sai da base

Ciro Gomes, ministro da Educação, teve a cabeça exigida a Dilma pelo PMDB, após ter dito que a Câmara Federal teria entre 300 a 400 “achacadores”
Ciro Gomes, ministro da Educação, teve a cabeça exigida a Dilma pelo PMDB, após ter dito que a Câmara Federal teria entre 300 a 400 “achacadores”

 

 

Por Vera Magalhães

 

O PMDB fez chegar à presidente Dilma Rousseff  que ou o ministro Cid Gomes é demitido ou pede demissão da pasta da Educação ainda na tarde desta quarta-feira (18) ou o partido está fora do governo e da base aliada.

Cid participa neste momento de uma Comissão Geral, no plenário da Câmara, que foi marcada para ouvi-lo sobre declarações em que disse que, na Casa, haveria entre 300 e 400 deputados “achacadores”.

A expectativa do governo e do Legislativo era que ele se desculpasse pelas declarações e tentasse recompor suas relações.

Não só Cid Gomes não fez isso como, dedo em riste em direção ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), vociferou: “Prefiro ser acusado de mal educado a ser acusado de achacador como ele [Cunha], que é o que dizem dele as manchetes dos jornais”.

Antes, o ministro já havia dito que quem é da base aliada do governo tem de votar com o governo. “Ou larguem o osso. Saiam do governo.”

Seu único gesto conciliador foi pedir desculpas “àqueles que não agem dessa maneira”, depois de reafirmar que alguns eram “oportunistas”.

A partir daí, líderes se revezam na tribuna para exigir a demissão de Cid Gomes.

Na chegada, Cid Gomes levou uma claque para apoiá-lo no depoimento, mas Cunha os expulsou das galerias. O depoimento do ministro já havia sido adiado por conta de uma internação médica do titular do MEC.

Enquanto isso, a cúpula do PMDB avisou diretamente a um auxiliar de Dilma que o partido não abre mão de que ele seja demitido ou renuncie ao cargo ao término da sessão. “Ou é isso ou ela perderá o partido. Dessa vez é sério”, diz um interlocutor peemedebista com acesso ao Planalto à coluna.

A avaliação do partido é que o que Cid Gomes fez é a “desmoralização completa da relação institucional” entre os dois Poderes.

Deputados acusaram o ministro de mentir e fizeram uma série de acusações de irregularidades a seu governo no Ceará. “Quem não lhe conhece que lhe compre”, disse o deputado Cabo Sabino (PR-CE).

Outro o acusou de superfaturar um show de Ivete Sangalo para inaugurar um hospital e de viajar com a sogra em jatinho pago pelo governo.

A todas as acusações e críticas, Cid Gomes ouviu calado, com riso irônico nos lábios, em pé na tribuna do lado oposto àquela em que os parlamentares se revezavam.

Assessores próximos a Dilma consideram a queda do ministro a saída mais provável para mais esse capítulo da crise política que traga o mandato da presidente.

 

Publicado aqui, na folhadesaopaulo.com

 

Ou dá ou desce

 

 

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Crítica de cinema — Mais do mesmo

Bagdá Café

 

 

Simplesmente acontece

 

 

Mateusinho 1Quem aprecia cinema sabe que, em larga escala, as histórias produzidas atualmente visam o lucro. Para alcançá-lo, a equipe se adéqua apenas às exigências do mercado e elabora longas-metragens conhecidas como blockbusters, que, fatalmente, atrairão grande quantidade de pessoas para as salas espalhadas pelo mundo. Não há preocupação em cumprir um dos maiores papéis da arte: envolver o espectador a ponto de produzir reflexões e discussões a partir do que é mostrado, como ocorre tanto em filmes estrangeiros — Efeito Borboleta (2004), de Eric BressJ. Mackye Gruber — quanto em brasileiros — Solidões (2013), de Oswaldo Montenegro.

No entanto, a relação esperada entre arte e público não é uma das preocupações presentes em “Simplesmente acontece”, dirigido por Christian Ditter. O roteiro, adaptado do livro homônimo de Cecelia Ahern, abusa das fórmulas repetitivas e enjoativas sobre o final da adolescência e novas experiências de personagens entre 18 e 30 anos, sempre focando em desencontros amorosos. Não há novidades no enredo que possam ser aproveitadas e extraídas da história sem temperos e maiores atrativos, podendo levar o espectador ao tédio com apenas vinte minutos de filme.

A história se passa na Inglaterra e nos Estados Unidos. Dois jovens, Rosie (Lily Collins) e Alex (Sam Claflin) são alunos da mesma escola. Os personagens, adolescentes no começo da história, são amigos desde a infância. Mas, como esperado em filmes de comédia romântica, ambos nutrem sentimentos até então impossíveis de serem concretizados. Ela namora outros rapazes, assim como ele mantém relacionamentos com outras meninas, e nenhum dos dois deseja ceder ao romance, sendo este o atrativo para os admiradores do gênero.

Ambos querem sair da Europa para a América do Norte com o objetivo de estudar. Ela visa a Universidade de Boston e ele, Harvard. Ao ser aprovada na instituição, Rosie descobre que está grávida e abre mão do seu sonho de cursar Hotelaria. Alex, sem saber da situação da amiga, parte para outro continente e promete esperá-la. A garota, então, dedica-se à filha Katie. Mas o amor platônico pelo rapaz não é esquecido, e eles continuam a se corresponder periodicamente. O desenrolar da história, como anseiam os espectadores envolvidos com o sonhado namoro dos personagens — tática usada por escritores, roteiristas e demais criadores para manter o público preso à narrativa — culmina no esperado fim para os longas-metragens do estilo.

Ao longo do filme, determinadas sequências indicam outros possíveis caminhos mais interessantes para a história, como as consequências da morte do pai da protagonista e o impacto da gravidez na vida da jovem, que troca os estudos pelo papel de mãe em tempo de integral.

Uma dessas cenas mostra o diálogo entre os personagens, no qual Rosie explica a Alex o motivo de não ter contado sobre o nascimento de sua filha. A protagonista diz ao amigo que esta seria a única forma de alguém continuar a vê-la como Rosie, e não como uma estranha. A conversa demonstra a dificuldade de amadurecimento da mulher, que não consegue se enxergar, agora, como adulta e gostaria de manter, por meio do amigo, um vínculo com o passado, representando o sentimento de meninas despreparadas para a maternidade.

A despeito da existência de outras perspectivas para a história, o roteiro de Juliette Towhidi deságua no previsível (o amor mal resolvido do casal) e afunda na entediante mesmice, indo de encontro às possibilidades narrativas que poderiam ser exploradas para melhor aproveitamento do filme.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme

 

 

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Vencedor do Oscar, “Ida” finalmente chega hoje à tela do cinema de Campos

Ida 1

 

Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano, mas sonegado na programação dos cinemas comerciais de Campos, o polonês “Ida”, de Pawel Pawlikowski, terá sua primeira exibição pública hoje nestas terras de planície cortadas pelo Paraíba do Sul. E o que é melhor, com entrada gratuita. Será a terceira sessão de 2015 do Cineclube Goitacá, sempre às quartas-feiras, a partir das 19h30, na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento da rua Conselheiro Otaviano com av. 13 de Maio. O filme será apresentado e terá o debate mediado por mim, cuja crítica ainda impactado pelo encantamento da sua primeira sessão, num cinema de Botafogo, no Rio de Janeiro, escrevi e publiquei aqui.

À crítica e à matéria publicada hoje na Folha dois, aqui e reproduzida abaixo, da jornalista e também crítica de cinema Paula Vigneron, pouco ou nada tenha a acrescentar. Exceção única a uma pergunta feita ontem pela repórter, após fazer-lhe um confissão sobre o filme, mas cuja resposta mais adequada só me ocorreu hoje, não em prosa, mas nos versos do mestre Dante Milano: Por que me apaixonei pela personagem Ida?

 

Imagem

Uma coisa branca,
Eis o meu desejo.

Uma coisa branca
De carne, de luz,

Talvez uma pedra,
Talvez uma testa,

Uma coisa branca,
Doce e profunda,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.

Uma coisa branca,
Eis o meu desejo.

Que eu quero beijar,
Que eu quero abraçar,

Uma coisa branca
Para me encostar

E afundar o rosto.
Talvez um seio,

Talvez um ventre,
Talvez um braço,

Onde repousar.
Eis o meu desejo,

Uma coisa branca
Bem junto de mim,

Para me sumir,
Para me esquecer,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.

 

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O filme polonês “Ida” (2013), de Pawel Pawlikowski, será exibido hoje (18), às 19h30, no Cineclube Goitacá. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o longa-metragem será apresentado pelo jornalista e crítico de cinema Aluysio Abreu Barbosa. O Cineclube acontece todas as quartas-feiras, na sala 507 do edifício Medical Center, no Centro.

— É um filme que não passou em circuito comercial em Campos e vai ser exibido amanhã (hoje) de forma gratuita — alertou o jornalista.

“Ida” conta a trajetória de uma jovem noviça prestes a se tornar freira. A personagem é interpretada por Agata Trzebuchowska. Antes de prestar os votos, a madre superiora a aconselha a buscar Wanda, sua tia e única parente viva, vivida por Agata Kulesza. Ela, então, é confrontada por uma rotina diferente da sua devido à vida desregrada da mulher. O encontro leva Ida a conhecer a verdadeira história de sua família, que é judia e foi morta durante a Segunda Guerra Mundial.

Aluysio destacou o contexto histórico da Polônia no período da Segunda Guerra Mundial, que compõe, entre outros aspectos, o filme “Ida”.

— A Segunda Guerra começa na Polônia. Hitler e Stalin invadem, juntos, o país. Quando se tornam antagonistas, a Polônia passa a ser palco de guerra dos dois genocidas. A presença dos judeus foi muito forte — comentou, ressaltando que alguns dos principais campos de concentração foram construídos na região, como Auschwitz.

A fotografia do filme, cuja direção é de Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski, foi destacada pelo jornalista. Segundo Aluysio, a fotografia de “Ida” está lado a lado com filmes como “Barry Lyndon”, de Stanley Kubrick; “Lawrence da Arábia”, de David Lean; “O homem de Aran”, de Robert Flaherty; “Ran”, de Akira Kurosawa;  “Imensidão Azul”, de Luc Besson; e “Herói”, de Zhang Yimou.

— É uma das maiores já feitas na história do cinema. Não tem uma tomada que não seja genial. A fotografia me lembrou muito o trabalho de Walter Carvalho no filme brasileiro “Heleno” – afirmou.

A atuação de Agata Trzebuchowska e Agata Kulesza é, também, um dos pontos positivos do filme.

— As atrizes estão soberbas. Na vida, você tem uma série de paixões platônicas irrealizáveis. Acho que me apaixonei platonicamente pela personagem Ida. Dá vontade de abraçar, cuidar e, ao mesmo tempo, admirar uma força que eu nunca vou ter. É uma personagem fantástica. Acima de tudo, assisto ao filme embasbacado porque não vou entendê-lo completamente. Para isso, tem que ser mulher. O filme é muito feminino — opinou.

Ganhador, também, dos prêmios de Melhor Filme Europeu, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor Fotografia e Júri Popular da 27ª edição do European Film Awards, “Ida” recebeu críticas de poloneses, incluindo o ministro das Relações Exteriores, Grzegorz Schetyna. Eles lamentaram o fato de o cinema do país ser reconhecido somente pela abordagem de temas judeus. Segundo matéria divulgada pelo portal G1, a opinião foi rebatida por Pawlikowski, que questionou a “crença ‘patriótica’ de que um longa-metragem deve passar uma boa imagem de seu país de origem”.

A crítica sobre o filme “Ida” foi publicada na edição do dia 22 de fevereiro da Folha Dois, na coluna “Caixa de Luzes”, escrita por Aluysio. O texto pode ser encontrado no blog Opiniões, hospedado na Folha Online. Na próxima quarta-feira (25), o filme “A experiência” (2001), de Oliver Hirschbiegel, será comentado pelo jornalista Marcos Curvello.

 

Até às 19h30, confira o trailer do filme:

 

 

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Nem uma passeata de golpistas, nem o Brasil unido de verde-amarelo contra a corrupção

Mulher agita bandeira para manifestantes (EFE)
Mulher agita bandeira para manifestantes (EFE)

 

 

Por Flávia Marreiro

 

Nem a caricatura de uma passeata inteira de banqueiros e golpistas nem a apaziguadora imagem televisiva do Brasil, heterogêneo, unido e de verde-amarelo contra corrupção. O retrato que as reportagens e os institutos de pesquisa, o Datafolha em São Paulo e o Index em Porto Alegre, revelam sobre domingo é um pouco mais complexo e nem por isso menos aterrador para a presidenta Dilma Rousseff. O que os números mostram é que há potencial de crescimento na onda anti-Governo, entre outras coisas, pelo “contágio afetivo” e potente das contundentes imagens dos últimos dias. Se juntarmos a análise do perfil de quem foi à marcha pró-Governo na sexta na avenida Paulista, o quadro piora mais. E, ao que parece, a primeira resposta de Brasília e de Dilma não tem como amainar essas insatisfações.

Segundo o instituto Datafolha, 82% dos que foram à passeata de centenas de milhares na Paulista no domingo votou no candidato da oposição, Aécio Neves (PSDB). Quase metade deles (47%) disseram ter se motivado pela luta anticorrupção enquanto menos de um terço (27%) disseram defender o impeachment da presidenta. Disseram ganhar mais de dez salários mínimos 41% do entrevistados. Em termos de renda, um panorama bastante parecido emergiu na medição do instituto Index, em Porto Alegre, que monitorou a grande passeata de estimados 100.000 na capital gaúcha — 40,5% disseram receber mais que dez mínimos — e se conhece a correlação entre o dado e eleitores de Aécio. Sobre Curitiba se pode dizer algo semelhante.

Esse contingente provavelmente já sensibilizado pela campanha opositora no ano passado, e com um núcleo antipetista consistente ao menos em São Paulo, só encontrou mais motivação e discurso com o tarifaço do começo de janeiro e o desfile de tragédias da estatal Petrobras e seu enorme escândalo de corrupção entre janeiro e fevereiro. Mas, provavelmente, nesse grupo, ainda está sub-representado o eleitorado que votou em Dilma, mas a classificaramde mentirosa por aplicar um ajuste fiscal que não foi adiantado na campanha (vide as vaias que a presidenta recebeu no evento em São Paulo). São os que começam a sentir e a reclamar dos efeitos da estagnação econômica e da inflação.

O que os números mostram é que há potencial de crescimento na onda anti-Governo, entre outras coisas, pelo “contágio afetivo” e potente das contundentes imagens dos últimos dias

A isso se soma o resultado do Datafolha sobre a marcha pró-Dilma na avenida Paulista na sexta, com o núcleo mais organizado da base petista: centrais sindicais e movimentos sociais consolidados, como o MST. Para 25%, maior percentual entre os medidos, o motivo de ter ido às ruas foi defender os direitos trabalhistas, ou seja, para tentar resistir à parte das medidas que integram o pacote de arrocho fiscal (entre elas, mudanças na pensão por morte e no seguro desemprego).

“A pergunta não é apenas sobre quem estava nas ruas ontem, mas sobre todos que temos ouvido falar nas ruas, nos bares, nos ônibus nessas últimas semanas. Há muita gente que não está mobilizada (ainda), mas está participando desta onda anti-Governo”, escreveu Rodrigo Nunes, professor da PUC-Rio que analisou os protestos de junho de 2013. “Contágio afetivo é exatamente isso: uma participação que necessariamente precede uma adesão refletida e deliberada”.

 

Insatisfação

Agora, Dilma discute o que pode fazer para tentar aplacar a resistência nessa parte dos governados que já foi às ruas no domingo, e que poder fazê-lo de novo em abril. Aqui a palavra importa: governados. Não adianta falar de eleitorado, como fez o ministro Miguel Rossetto (Relações Institucionais), e esse é um dos ruídos causados pela retórica do Planalto, que ainda ressoa a campanha. Com a legitimidade avariada por uma eleição apertada, espera-se uma ação mais programática, que reconheça concretamente a força das manifestações de domingo e contemple algo do que estão pedindo. Mas isso é o que? Provavelmente, apenas o pacote anticorrupção não bastará. A presidenta Dilma, apesar de todo o ensaio de flexibilidade e citações sobre humildade, deixou transparecer desconfiança de que é possível, de fato, atender aos que protestam contra ela. “Você só pode abrir diálogo com quem quer abrir diálogo também. Com que não quer abrir diálogo você não tem como abrir diálogo”, repetiu.

Agora Dilma discute o que pode fazer para tentar aplacar a resistência nessa parte dos governados que já foi às ruas no domingo, e que poder fazê-lo de novo em abril. Aqui a palavra importa: governados. não adianta falar de eleitorado

Dilma e parte do Governo parecem estar inclinados a acreditar que lidam com um sentimento difuso contrário a ela e a seu partido difícil de conter, a despeito. Algo que parece ter, na visão de parte dos petistas, relação com o que o ex-ministro do Governo tucano, Luiz Carlos Bresser-Pereira, disse em entrevista à Folha de S. Paulo: um ódio de classes de cima para baixo. Na análise completa do ex-ministro, parte da responsabilidade é do próprio Governo, já que um combustível para o sentimento é a falta de crescimento econômico que teria dinamitado o pacto socioeconômico dos governos do PT.

Nunes, da PUC-Rio, e  Pablo Ortellado, da USP, estão entre os que tentam entender a composição social das manifestações de junho de 2013 e as de agora para encontrar matizes. André Singer, também da USP, vê a volta da direita com força às ruas pela primeira vez desde a redemocratização. Antes, em um artigo já clássico sobre os protestos de junho, Singer afirmou que um baixo proletariado com maior grau de instrução que seus pais foi às ruas em junho de 2013, uma espécie de vanguarda da nova ‘Classe C’ (e que talvez esteja sendo afetado pelas mudanças no FIES), é um público “em disputa”. Pelos números do Datafolha, essa faixa ainda não foi às ruas majoritariamente.

Vários analistas já apontaram que há uma disposição maior em se definir publicamente como de direita, algo que ainda teria certo atraso para ser refletido inteiramente no sistema político

Vários analistas já apontaram que há uma disposição maior em se definir publicamente como de direita, algo que ainda teria certo atraso para ser refletido inteiramente no sistema político. Até pouco tempo, como demonstraram as pesquisas do brasilianista Timothy Power, da Universidade de Oxford,pouquíssimos parlamentares se definiam como de direita no Brasil.  Uma virada se aproxima, com a quebra do consenso social e político no qual foi escrita a Constituição de 1989, em meio a um triênio de estagnação?

Ortellado vê uma tensão entre a direita ainda minoritária institucionalizada em partidos e o “ativismo de direita”, como o Movimento Brasil Livre e o Vem Para Rua, mais afinados com o discurso sobre a falência dos partidos. Nas manifestações de domingo, os políticos que tentaram ter protagonismo foram rechaçados.

Para o professor Nunes, há que se separar, na análise, uma pauta socialmente conservadora de uma defesa de políticas mais à direita, com privatizações e críticas aos programas sociais. No caso das primeiras, que inclui bandeiras como a redução da maioridade penal por exemplo, há alimentação ativa “em programas de rádio e TV, igrejas”, diz ele.

As pessoas estão sentindo uma série de coisas, que vão da deterioração do quadro econômico à frustração com os serviços públicos e com a insularidade do sistema político, e há uma narrativa vaga que diz para eles: “o nome disso que vocês estão sentindo é corrupção, é PT”

“Não é que essas pessoas tenham subitamente se descoberto a favor do estado mínimo e das privatizações. Mas elas estão sentindo uma série de coisas, que vão da deterioração do quadro econômico à frustração cotidiana com os serviços públicos e com a insularidade do sistema político, e há uma narrativa vaga que diz para eles: ‘o nome disso que vocês estão sentindo é corrupção, é PT, etc”, escreveu Rodrigo Nunes. O escândalo da Lava Jato, os problemas de gestão na Petrobras combinados com alta de preços e impostos são combustível para o quadro. “Essa narrativa oferece não só a perspectiva de uma gratificação imediata […] como a possibilidade de uma vez mais estar participando de algo coletivo, de sentir novamente aquela sensação de pertencer a uma força maior, capaz de meter medo nas autoridades.”

Segundo o Datafolha, 74% foram às ruas pela primeira vez no domingo. Se a análise acima está certa, não será difícil convencê-los a voltar.

 

Publicado aqui, no elpais.com

 

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Não fica impune o governante que xinga seu próprio povo de golpista

tiro pela culatra 1

 

 

 

Professor e engenheiro Hubert Alquéres
Professor e engenheiro Hubert Alquéres

Não se xinga o povo de golpista

Por Hubert Alquéres

 

A presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula e a turma do PT ainda não descobriram que não se xinga o povo, cansado de corrupção, de golpista. No panelaço do Dia Internacional da Mulher rotularam a manifestação como uma tentativa das elites de forçar o terceiro turno eleitoral.

A resposta veio velozmente. Nesse domingo dois milhões de brasileiros foram às ruas e em São Paulo aconteceu a maior manifestação da história do país contra um governo.

Nem isso tirou o Planalto do universo próprio em que vive e da alienação na qual estão mergulhados o governo e a presidente.

Em vez de tomar um choque de realidade e calçar as sandálias da humildade, o governo fez exatamente o contrário, através dos ministros Eduardo Cardozo e Miguel Rossetto.

O Ministro da Justiça repetiu promessas de dois anos atrás, quando das jornadas de junho de 2013, como se elas respondessem a indignação manifestada hoje.

Palavras surdas frente ao clamor de 2013 e muito menos capazes de satisfazer aos sentimentos cívicos que brotaram nas ruas nesse 15 de março, de norte a sul, de leste a oeste do país. Em todos os andares da sociedade.

O outro, Miguel Rossetto, fez pior. Reproduziu a tese do golpismo, praticou o autoengano, ou tentou enganar a todos nós.

Duas questões preocupam em seu pronunciamento. A primeira é a insistência do Planalto de dividir o país entre os eleitores de Aécio Neves — os que fizeram as manifestações —, e os de Dilma.

Ora, é obrigação da presidente governar para todos os brasileiros, independente de como cada um votou na última disputa presidencial.

O dito do ministro desnudou o governo petista: só pensam em função de sua carteirinha partidária. Se consideram representantes do PT e não do povo. E tratam os outros como se fosse o “resto”.
A segunda questão é o apelo ao medo para levar a sociedade à paralisia.

Propositadamente Rossetto superestimou o peso da meia dúzia que prega intervenção militar, rechaçada pelos milhões que ocuparam as ruas.

Balela. As Forças Armadas sequer dão ouvidos às vozes isoladas que se comportam como viúvas da ditadura. Estão em sintonia com o amplo sentimento de civismo, de amor à democracia, expresso na já histórica jornada de 15 de março.

Em vez de criar fantasmas, o governo Dilma deveria cair na real para não ampliar o fosso que o aparta do povo brasileiro.

Esse é o xis do problema: não basta apenas o governo reconstruir a interlocução com sua base parlamentar.

Mais importante é criar pontes com a sociedade. E isto não é uma questão de marketing, é política.

Passa, obrigatoriamente, por um pedido de desculpas aos brasileiros por sua inépcia de não ter percebido o assalto à Petrobras. Pelos erros primários e grosseiros cometidos na condução da economia; pelo discurso falso e ilusionista da campanha eleitoral.

Mas, contar ao povo a verdade será a condenação do seu partido. Representaria a negação do que foi até agora o seu governo.

O jeito vai ser se encastelar no Palácio. Como fez nesta segunda-feira à tarde quando admitiu dar entrevista coletiva num horário onde a população estaria trabalhando e não poderia bater panelas. Não conseguiu. À noite, quando o Jornal Nacional repercutiu a fala da presidente, milhares de pessoas em diversas cidades mantiveram a marcação cerrada e fizeram mais um panelaço.

Como se nota, não fica impune o governante que xinga seu próprio povo de golpista.

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

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