Aumento
- Autor do post:Aluysio Abreu Barbosa
- Post publicado:20 de janeiro de 2015 - 16:56
- Categoria do post:Sem categoria
- Comentários do post:0 comentário

Não lido bem com morte. Já a encarei de frente duas vezes, consegui controlar o pavor diante à possibilidade real de deixar de existir, e creio não ter me saído mal. Afinal, como aconselhou Marco Aurélio (121/180 d.C.), imperador e filósofo de Roma: “A morte sorri para todos. Tudo que um homem pode fazer é sorrir de volta”. Mas, até pela chance de já ter cumprido essa bravata latina, e sobrevivido, me acovardo diante à morte alheia pela impossibilidade de encará-la e bater de volta, impotente para brigar por meu semelhante pela justiça das chances de vida que tive, por gente que talvez as merecesse mais.
Myrthes Cardoso Barbosa foi a mulher mais especial que conheci. Assumida toda a parcialidade que um neto pode ter por sua avó, e o que isso pode querer dizer para um filho de Diva Abreu, a lucidez e a longevidade da mãe do meu pai me faziam imaginá-la como uma cruza de gente com árvore: Homo sapiens com jacarandá.
Se uma pessoa com lembrança viva da II Guerra Mundial (1939/45) é de cara projetada anciã pela contemporaneidade, o que dizer de quem trouxe até 2014 suas memórias vivas da I Guerra Mundial (1914/18)? Pois Myrthes, nascida em 1907 no prédio da Lira de Apolo — campista mais da gema, impossível —, contava como se fosse ontem de quando era uma criança e descia as escadas que separavam sua residência, no piso superior, do concorrido boticário do seu pai, no térreo, curiosa com aqueles homens reunidos, seus tons graves e cenhos franzidos, em torno do jornal recém-chegado da capital com as notícias mais recentes dos campos de batalha da Europa, nos tempos em que Adolf Hitler (1889/1945) ainda era um desconhecido cabo do exército alemão.
As consequências da I Guerra mudariam direta e radicalmente a vida de Myrthes, pois nascida da insalubridade das trincheiras européias e espalhada pelo mundo com o retorno dos soldados às suas pátrias, a gripe espanhola mataria a sua mãe, Capitulina, uma intelectual que fazia tradução de revistas francesas ao português. Órfã ainda adolescente, minha avó teve que largar a escola para se converter em mãe dos dois irmãos menores, meus tios-avós Sanoca e Joãozinho, todos falecidos só após os 90 anos. Francisco, pai dos três, além de competente boticário, num tempo em que a função equivalia às do médico e do laboratório reunidas, era também músico autodidata. Orgulhava-se, não sem motivo, de tocar todos os instrumentos de sopro da Lira de Apolo.
Myrthes teve uma paixão na vida: Domingos Barbosa, o “Capitão”. Alto, louro, de olhos azuis e porte atlético, tinha o corpo moldado pelos sacos de farinha que cresceu carregando nas costas, para ajudar o pai padeiro, um lusitano de dois metros de altura e origens celta e judia, da província do Minho, chamado Dionísio, que gostava de misturar feijão na sopa, contava histórias aos netos de quando fugiu de lobos em Portugal e vivia a ecoar a moderação: “Calma que o Brasil é nosso!”.
Myrthes certa vez me confessou que vendo da janela meu avô, rapagão forte de beleza ariana, sem camisa e suado a carregar nas costas a matéria prima do pão, destinou-se: “Esse homem vai ser meu!”. Teve que esperar mais do que o costume da época, casando-se só aos 25 anos, depois que ele foi a Minas, onde ela passava férias, só para pedir sua mão. Tiveram cinco filhos: Dionísio (em homenagem ao avô), Aluysio, Ana Maria, Heloísa e Luiz Edmundo.
O mais trabalhoso foi meu pai. Adolescente rebelde, acabaria expulso do Liceu, após ter desacatado ostensivamente uma professora. Myrthes não teve dúvida ao interná-lo em Pádua. Aluysio protestou num típico dramalhão juvenil: “Se a senhora me internar em Pádua, eu me jogo do trem e morro esmagado nos trilhos”. Ao que sua mãe respondeu com firmeza: “Não tem problema. A gente enterra. Mas você vai morrer estudando”.
Se Aluysio morreria bem depois de ter completado seus estudos e se tornado um dos grandes nomes do jornalismo de Campos e do Estado do Rio, o mesmo sucesso na criação se repetiu sem coincidências com os demais filhos. Dionísio, com a Caiana Discos e depois Vídeo, foi referência por décadas no comércio goitacá. Ana Maria, como professora de Português, lecionou com brilhantismo até se aposentar no Abel, principal colégio de Niterói. Heloísa, cujo sucesso acadêmico lhe valeu ainda jovem uma cobiçada bolsa de estudos na Universidade de Sorbonne, em Paris, leciona até hoje na UFRJ. E Luiz Edmundo, caçula temporão, é há muitos anos um dos advogados tributaristas mais conceituados do Rio de Janeiro. Nada mal para a fornada da mulher de um padeiro!
Castigada nos últimos anos pela catarata que a deixou capaz de enxergar apenas vultos, no lugar de se entregar, aquela senhora nascida antes da I Guerra usou da audição e da fala como armas para se manter à vanguarda do tempo presente. Diariamente, ouvia em TV e rádio os noticiários nacionais, internacionais e locais. Morando fora de Campos desde 1973, primeiro em Volta Redonda, depois em Niterói, acompanhava a cidade natal pelas leituras que sua filha Ana Maria e sua acompanhante, a inestimável Célia, faziam do jornal fundado por seu filho. Adorava conversar; sobretudo e sobre tudo: do último jogo do seu Fluminense à Guerra da Síria, da presidência de Obama nos EUA ao mais recente escândalo político do Brasil.
Getulista de carteirinha, Myrthes sempre dizia sobre o “Pai dos Pobres” ao meu ouvido desconfiado: “Foi o maior dos brasileiros, meu filho!”. Chegaria também a ser uma entusiasta lulista, mas teve uma enorme decepção com a corrupção do PT trazida a furo a partir do Mensalão e, mais recentemente, pelo Petrolão, se tornando crítica ferrenha daqueles que há 12 anos saqueiam nosso país.
Aos 107 anos, Myrthes adorava viver. E teve uma das vidas mais plenas que conheci. A única coisa que, não ela, mas eu sempre lamentei, é não ter podido completar sua educação formal. Tenho certeza que a academia perdeu uma grande mente, dedicada pela necessidade ao cotidiano de dona de casa, primeiro ao pai e aos irmãos pequenos, depois ao marido e aos filhos, ajudando ainda na criação de três dos 17 netos: Chico, Paula e Zé Guilherme Barbosa Leite, filhos de Heloísa.
Lúcida até o fim, quando sentiu que seu sofrimento seria em vão, e que até os jacarandás um dia se vão, teve a coragem e a dignidade de pedir para morrer, sendo atendida por seu Deus católico e kardecista algumas horas depois. Respirou pela última vez no início da manhã do dia 27, teve seu corpo cremado em Niterói e suas cinzas, como foi seu desejo expresso, serão jogadas no rio Paraíba do Sul, em frente à praça São Salvador onde nasceu e de onde seu coração, em 107 anos, jamais saiu.
Dolosamente sem TV, jornal, rádio e internet, ou sem sair muito de casa, dediquei a passagem de ano para curtir pela minha avó o luto que as necessidades da Folha não me permitiram após a morte de meu pai, seu filho mais parecido com ela. Até ligar à minha mãe, para desejar-lhe feliz ano novo, nos primeiros minutos de 2015, não sabia da tragédia ocorrida dois dias antes, na mesma Atafona na qual me encontrava e onde morrera a pequena Laura Mayerhoffer Peralva, de apenas um ano e meio.
Ainda com a cara ardendo por essa bofetada da vida, acabei de falar com minha mãe e liguei em ato contínuo para Cristina Lima, amiga querida e avó de Laura. Primeira a tomar a neta nos braços após sua morte, ela teve a generosidade de comungar comigo um pouco do que foi a vida de uma criança afetuosa, de pele morena, cabelos e olhos negros, franciscana com os animais e curiosa do mundo que, como as palavras, só começava a descobrir.
Conheci-a pelos olhos da sua avó, do mesmo modo que a minha enxergava sem ver. Como nascem os anjos e jacarandás, ela me tocou.
Publicado hoje na Folha
O guardador de rebanhos VIII
Por Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas —
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três,
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz no braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras nos burros,
Rouba as frutas dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus,
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia,
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
“Se é que as criou, do que duvido” —
“Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada,
se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres”.
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
………………………………………………………………..
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
………………………………………………………………………
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
…………………………………………………………………………
Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?
Lisboa, 08/03/1914
“Estudamos um valor que, ao mesmo tempo, proporcionasse a necessária melhoria da arrecadação do imposto e tivesse um impacto econômico-financeiro suportável para o contribuinte. Esse limite foi fixado em um reajuste máximo de 50% sobre o valor do terreno e 25% sobre o valor da edificação. Os reflexos dessa atualização parcial no valor venal refletiu em uma correção média de 31,73% do IPTU”. A confissão detalhada do aumento do Imposto Predial e Territorial Urbano que será pago pelo campista em 2015 está no próprio projeto de lei 0133/2014, enviado pela prefeita Rosinha Garotinho (PR) e aprovado na sessão do dia 16, graças ao voto de 18 dos 20 vereadores governistas — Paulo Hirano (PR) estava de licença e Jorge Magal (PR) se absteve.
Baseado no próprio projeto de aumento do IPTU de Rosinha no qual votou contra — junto com os colegas de oposição Rafael Diniz (PPS), Fred Machado (PSD), Nildo Cardoso (PMDB) e José Carlos (PSDC) — o vereador Marcão (PT) foi taxativo:
— Que a verdade seja dita! Quando se aumenta o valor venal dos imóveis, aumentamos também o valor do IPTU, mesmo que não haja aumento da alíquota. Está no Artigo 10 da Lei que aumenta o IPTU: “A base de cálculo do IPTU, é o valor venal do Imóvel”. Aumentou o IPTU, sim! Esta é a verdade! Está na Lei da Rosinha, para quem quiser e souber ler!
Pressionado pela reação popular amplamente negativa contra aumento do IPTU, na noite de segunda-feira o vereador Alexandre Tadeu (PRB), que faz sucesso como apresentador local da rede Record, enviou por e-mail sua versão dos fatos, onde tentou negar o aumento pelo qual votou a favor:
— O que houve foi a correção do valor venal dos imóveis, valor junto ao cadastro da Prefeitura. E somente imóveis em locais com valorização comercial acima de 100% tiveram seus valores corrigidos. Ou seja, somente os imóveis situados em área nobre da cidade. Mesmo os imóveis localizados em bairros que receberam investimentos como água, luz, saneamento e calçamento não foram incluídos. A alíquota do IPTU permanece a mesma. Da mesma forma que votei contra o aumento da taxa de iluminação pública, jamais votaria a favor do aumento do IPTU. A verdade será vista quando os carnês chegarem. Tô contigo!
Ao abusar do eufemismo para falar do aumento real de 31,7% no IPTU que aprovou, Tadeu disse a verdade sobre sua votação contrária, junto com a oposição e o colega de partido Dayvison Miranda, aos 31,5% de reajuste na taxa de iluminação pública aprovado na mesma sessão pelo “rolo compressor” de Rosinha. Quanto ao IPTU, no entanto, Marcão ressalvou:
— Tadeu está certo! A verdade, que já é vista em dezembro por toda a população, doerá no bolso do cidadão em março, quando começarem a chegar os carnês do novo IPTU.
Publicado hoje na Folha