Paixão em Cristo
Em Gregório de Matos (1636/95) e Salvador Dalí (1904/89), a paixão em Cristo:
A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.
A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.
A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p‘ra chamar-me
A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.
Transporte e educação lideram as causas dos protestos em Campos

Para os campistas que tem saído às ruas para protestar, o transporte público é o principal problema da cidade, seguido da educação, da infraestrutura urbana, da saúde, da habitação, de benefícios sociais e da segurança. Dos 38 protestos populares registrados este ano em Campos (confira-os, um a um, aqui), 11 deles foram contra a precariedade do transporte público, em pontos fisicamente distantes do vasto município, o que indica a generalização do problema: cinco na Baixada Campista (três em Mineiros, um em Donana e outro em Ponto dos Coqueiros), dois na área central, dois em Lagoa de Cima, um em Santa Cruz e um no Parque Califórnia. Já na educação, outro calcanhar de Aquiles do governo Rosinha, que oferece o pior ensino municipal de todo o Estado do Rio, segundo dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), foram 10 as manifestações. Demandas de infraestrutura urbana geraram sete protestos, seguidas da saúde e da habitação, com três cada; e de benefícios sociais e da segurança pública, cada um gerando duas manifestações.
Além de usar os supervisores municipais para montar uma rede, via WhatsApp, para monitorar e tentar evitar novos protestos, se a tática adotada pelos garotistas-rosáceos for realmente fomentar e jogar a maior luz possível em protestos de cobrança aos serviços públicos do governo estadual assumido este mês por Luiz Fernando Pezão (PMDB), concorrente direto do deputado federal Anthony Garotinho (PR) na corrida ao Palácio Guanabara, a tarefa pode não ser das mais fáceis. Das 38 manifestações de 2013, apenas três poderiam servir a este fim: duas por cobrança de segurança pública e uma (entre as 10 da educação) feita por professores, funcionários e alunos da Uenf, em greve por melhores condições desde março. Mas a imensa maioria dos protestos em Campos são por serviços públicos tão básicos, que fica muito difícil jogar a responsabilidade sobre eles além do colo do município, sobretudo quando não se perde a conta do seu orçamento bilionário.
Desgastado com protestos que criou, governo Rosinha cria rede para evitá-los

Não é de hoje, Campos tem sido refém dessa história sempre passional entre criador e criatura, que desde a Antiguidade gerou clássicos como “Édipo Rei”, do grego Sófocles (496 a.C/406 a.C.), ou já no Romantismo do séc. 19, como o “Frankenstein” da inglesa Mary Shelley (1797/1851). No filho que mata o pai para tomar-lhe o trono e a rainha, ou no monstro parido com partes de cadáveres para cobrar sua humanidade a quem o criou, houve também quem visse em Campos, desde 1989, com a então renovação política do município rimando com a mudança do seu eixo econômico da agroindústria sucroalcooleira para os royalties do petróleo, um paralelo da passagem de poder de Ramiro Bastos para Mundinho Falcão, na Ilhéus da célebre “Gabriela, Cravo e Canela” de Jorge Amado (1912/2001). Tomado o poder, a renovação veste o chapéu do coronel sobre a própria cabeça, finalmente desnuda sob a aba da conquista, para confirmar a sentença de outro escritor, o italiano Tomasi Di Lampeduza (1896/1957), que nos adverte em seu “O Leopardo”, pela boca do príncipe de Falconeri: “As coisas têm que mudar para permanecerem as mesmas”. E tanto pior quando a renovação se revela permanência, pelas décadas seguintes, com muito mais dinheiro para bancar delírios obsessivos muito mais altos de poder.
Feito o preâmbulo da arte que imita a vida para ser por ela imitada, em outra velha história entre criador e criatura, talvez pernóstica, talvez necessária numa cidade governada há 25 anos por um grupo político egresso do teatro, inegável que o advento dos protestos, com fechamento de rodovias, foi introduzido em Campos pelo governo Rosinha. Desde a primeira cassação da prefeita por crime eleitoral, durante seis meses de 2010, até a segunda, por apenas dois dias de setembro de 2011, o modus operandi de guerrilha urbana foi também repetido em todas as manifestações governistas contra as decisões sobre a partilha dos royalties no Congresso Nacional. Para protestar contra elas, em março de 2013, além da BR 101 ser mais uma vez fechada, até o aeroporto Bartolomeu Lyzandro e Heliporto do Farol chegaram a ser tomados por hordas compostas de DAS e servidores municipais terceirizados, liderados pessoalmente por vereadores e secretários de Rosinha, em cenas explícitas de vandalismo e depredação, diante da total passividade da Polícia, do Ministério Público e do Judiciário locais. No caso de dúvida, aconselha-se a refrescar a memória aqui e aqui.
Com o poder público municipal que ensinou como protestar contra aquilo que não lhe convém, assim como com aqueles de esfera estadual e federal que nada fizeram para coibir ou punir os excessos cometidos, a população campista aprendeu a lição. Afinal, como reza a Constituição em seu Art. 1º, parágrafo único: “Todo poder emana do povo”. Não por outro motivo, para protestar contra saúde, educação, escoamento de águas da chuva e, sobretudo, transporte público, os campistas adotaram os protestos, tanto nas áreas centrais, como nas mais periféricas do vasto município, muitas vezes acompanhado do fechamento estradas e ruas. Nas últimas semanas, tantas foram as manifestações, por motivos e em lugares diferentes, algumas ao mesmo tempo, que tem sido até difícil a cobertura jornalística de todas, dificuldade felizmente atenuada por uma recente e popular aplicativo virtual: o WhatsApp. Através dele, a Folha lançou uma campanha na qual você, leitor, é o repórter, pelo número 99208-7368, numa contribuição diária com fotos, vídeo, áudio e informações, todas em tempo real, sobre as muitas demandas enfrentadas pelo cidadão num município de orçamento bilionário.
Mas, para provar como é confusa essa história entre criador e criatura, o mesmo governo municipal que ensinou à população como fechar vias públicas como forma de protesto, criando o que agora lhe atormenta quase diariamente, a contrariedade do cidadão com seus serviços públicos, manifesta através do WhatsApp, acabou levando o governo municipal a criar uma rede de monitoramento, usando o mesmo aplicativo. Com a criação de grupos virtuais, os supervisores municipais, cargos indicados e subordinados à secretaria de Governo de Suledil Bernardino (PR), passaram a se dedicar à observação atenta de qualquer manifestação virtual que possa gerar um protesto real nos bairros. Ao menor sinal de que mais um possa pipocar, é imediatamente acionado o supervisor do bairro cuja população ameaça ir às ruas por seus direitos, para tentar debelar a iniciativa. Para se prestarem a esse (des)serviço de contra-informação, os servidores recebem como DAS 7, cujo salário passou a cerca de R$ 2.250,00 bancados pelos cofres públicos municipais, após o aumento de 50% concedido recentemente pela prefeita Rosinha, enquanto liberou aos servidores concursados, portanto desobrigados de qualquer função política, um reajuste de apenas 10%, depois de propor inicialmente 7%.
Já desgastado pela falta de qualquer satisfação pública sobre o “Verão da Gastança” no Farol (aqui), além das falhas de infraestrutura que permitem vários pontos de alagamentos na cidade em qualquer chuva mais forte (aqui), os protestos feitos na grande maioria dos casos para cobrar serviços públicos municipais, têm incomodado bastante o governo Rosinha. De fato, para quem tem mais informação e sabe ler um pouco além do escrito, não só o monitoramento dos supervisores via WhatsApp, mas outra tática foi também adotada nos bastidores garotistas-rosáceos: fomentar e dar a maior luz possível a todos os protestos de cobrança ao governo estadual, assumido neste mês por Luiz Fernando Pezão (PMDB), concorrente direto do deputado federal Anthony Garotinho (PR) na corrida ao Palácio Guanabara. Além de tentar prejudicar politicamente Pezão, a ideia, daqui a outubro, é tentar jogar apenas na conta dele as manifestações populares campistas de protesto.
Abaixo, um resumo dos protestos populares neste ano de 2013, na esperança de que, neste jogo entre criador e criatura, as coisas não permaneçam as mesmas:
Fevereiro




Março



19/03 – Permissionários do Shopping Popular Michel Haddad manifestam e pedem apoio de Guarda Municipal para segurança na travessia da avenida.

20/03 – Mães de alunos da creche do Parque Imperial fecham parte da RJ 216, pedindo auxiliares de creche na unidade depois que uma professora foi agredida.
21/03 – Beneficiários do Bolsa Família fazem manifestação em frente à sede do programa, depois da redução do número de fichas para o recadastramento por conta do feriado.





Abril
01/04– Pais de alunos se manifestam contra falta de auxiliares na creche de Donana e falta de funcionários na creche escola Madre Tereza de Calcutá, em Travessão.




















Atualização às 0h14 de 18/04: Longe de esforço meramente individual, a confecção desta laborosa postagem foi fruto de semeadura e colheita coletivas, da qual participaram os jornalistas Simone Barreto, Rodrigo Gonçalves, Silésio Corrêa, além do designer Eliabe de Souza, o Cássio Jr., sem os quais não seria possível reunir esse trabalho de quatro meses numa parceria reafirmada dia após dia, entre toda a redação da Folha e seu mais importante colaborador: você, leitor.
Sem Patrícia ou respostas, ato de apoio à política cultural tem o Boi Capeta

Iniciado por volta das 18h20 de hoje, em frente ao tradicional churrasquinho do Chá-chá-chá, o ato de apoio à cultura pública do município de Campos, não contou com a presença de quem a comanda, a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Patrícia Cordeiro, nem ofereceu respostas aos questionamentos sobre o “Verão da Gastança” no Farol, feito em blogs, imprensa e vereadores de oposição. Segundo o presidente da associação dos Bois Pintadinhos, Marciano da Hora, disse ao repórter da Folha Mário Sérgio Junior, a iniciativa partiu de “todas as entidades que são gestoras de cultura”, com a “intenção de formar um comitê permanente para realizar fóruns de 15 em 15 dias, além de um seminário initulado ‘Minha Cultura Campista’”, ainda sem data. Músico de talento, em jazz e MPB, quem se apresentou foi o flautista (e saxofonista) Dalton Freire. Estão ainda previstas apresentações de dança de salão, capoeira, jongo e da bateria da escola de samba União da Esperança.
Em seu momento mais cheio, no Centro da cidade em horário de saída de serviço, o evento chegou a contar com a participação de cerca de 60 pessoas. A única autoridade que marcou presença, pelo menos até agora, foi o superintendente de Igualdade Racial (a extinta Fundação Zumbi), Jorge Luiz dos Santos, que na verdade organizou o evento (relembre aqui), numa reunião na segunda-feira (14/04), na tentativa de dar apoio à presidente da FCJOL e à política cultural que ela comanda. Na ausência de Patrícia e de respostas sobre o “Verão da Gastança”, assim como o rolo compressor governista a exime de comparecer para dá-las na Câmara Municipal, em manobras sempre comandadas pela vereadora Linda Mara (Pros), a primeira figura pública a comparecer ao evento de hoje foi o Boi Capeta.
Campos sem 63 das 82 ambulâncias contratadas desde 2013, e trabalhadores sem receber

Das 82 ambulâncias terceirizadas em contrato, desde dezembro de 2013, com a Prefeitura de Campos, apenas 19 estão prestando o serviço essencial de Saúde Pública do município. E do pessoal herdado pela atual Nova Master da antiga empresa GAP, cujas relações com os Garotinho foi alvo de escândalo de repercussão nacional (confira aqui), 120 funcionários estão até agora sem receber o mês trabalhado de março, sem dinheiro para bancarem a Páscoa das suas famílias.
A despeito das promessas do governo Rosinha, cujo líder na Câmara, vereador Paulo Hirano (PR), chegou a prometer em fevereiro que todas as 82 ambulância estariam circulando em março (confira aqui), das 26 que desde então haviam sido entregues, além de nenhuma nova chegar, sete delas se encontram paradas por problemas mecânicos, segundo denunciaram hoje à repórter da Folha Dora Paula Paes os representantes dos motoristas que estão sem receber seus salários. Eles ameaçam cruzar os braços e parar completamente o serviço, já reduzido a menos de 25% da demanda, se a situação continuar. Junto a representantes da Nova Master, a informação é de que, só após a Páscoa, terão finalmente depositados seus vencimentos de março.
Sem 63 (56 que nunca chegaram, mais sete que estão à espera de conserto) das 82 ambulâncias contratadas desde dezembro, e com motoristas ameaçando parar por não receber salários, a promessa da Prefeitura de Campos, feita em TV e rádio no programa Folha no Ar, no último dia 8, pelo secretário de Administração Fábio Ribeiro (relembre aqui), seria de que as 56 ambulâncias restantes chegariam num prazo entre 45 a 60 dias, num envio de 10 novas ambulâncias por semana. Passada mais de uma semana sem que nenhuma ambulância tenha sido entregue, hoje, dia 16, a secretaria de Comunicação, cobrada pela reportagem da Folha, enviou por e-mail mais uma promessa:
“De acordo com o secretário municipal de Administração e Gestão de Pessoas, Fábio Ribeiro, o prazo é que a Nova Master entregue as ambulâncias até o dia 20”.
Wladimir já havia antecipado apoio de Cabral à candidatura de Crivella

“A candidatura de Crivella (PRB) a governador veio por um pedido da presidente Dilma (PT), que queria ter mais um palanque no Rio. Depois, sem conseguir atrair outros partidos ou apoios, ele decidiu desistir. Cabral (PMDB) soube e chamou Crivella, pedindo para manter a candidatura, que ele iria ajudar, porque precisava dela para tentar impedir a volta de Garotinho (PR) ao governo do Rio”. Dada desde a semana passada, em conversa antes da entrevista publicada no domingo aqui, o presidente do PR em Campos, Wladimir Garotinho, já havia antecipado o que o jornalista da Veja Lauro Jardim noticiou ontem aqui, no “Radar on-line”, e o “Ponto de Vista” do Christiano Abreu Barbosa foi o primeiro a divulgar, aqui, na blogosfera local.
Em estilo mais virulento que o do filho, foi a mesma coisa que Anthony Garotinho repetiu hoje, aqui, em seu blog. Já a “ajuda” que, segundo antecipou Wladimir, teria sido prometida por Cabral, Lauro Jardim revelou já ter começado, com a retirada da pré-candidatura própria a governador do PSC, para que o partido iniciasse entendimentos para o apoio à caminhada de Crivella ao Palácio Guanabara.


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