Antes de se iniciar a sessão da Câmara de hoje, daqui a pouco, às 17h, o blog pede licença ao jornalista Ricardo André Vasconcelos, que concedeu aqui uma elucidativa entrevista sobre a cultura pública de Campos, para republicar sua tréplica nas redes sociais à resposta que a vereadora Auxiliadora Freitas (PHS) deu aqui, sobre as críticas que que a política cultural do município vem sofrendo. Com a palavra, Ricardo André:
Ricardo André (foto de Arthur Damasceno/ Folha da Manhã)
Na pressa em defender sua líder, a vereadora Auxiliadora comete dois erros: primeiro, repete a chata cantilena dos “governos passados” como se todos os críticos do atual governo tivessem se beneficiados deles. Não foi o meu caso. Aliás, tenho independência suficiente para criticar todos os governos após 1996. Outro erro é o fato de ela esquecer que a CPI que investigou os shows no governo Mocaiber (instalada por determinação do Ministério Público Federal), foi arquivada por “falta de provas”. A CPI era composta pelos então vereadores Geraldo Venâncio, Otávio Cabral e Alciones de Rio Preto, todos aliados, hoje, da prefeita Rosinha.
Se a vereadora quer defender a “política cultural” do atual governo, pode começar explicando o porquê do excesso de shows no Farol de São Thomé no verão 2013, em que, só de cachês foram pagos mais de R$ 2 milhões. Pode também dar sua contribuição ajudando a esclarecer porque tantos contratos para montagem de palco assinados com a WORKING EMPREENDIMENTOS E SERVIÇOS (o mais recente foi e R$ 501 mil). E mais: pode também divulgar quantas bibliotecas foram instaladas nas escolas municipais nos últimos cinco anos. Quantos grupos de teatro? E de Dança? E coral, um pelo menos?
Colabora mais com o debate quem não foge dele. Tentar comparar com o (des) governo Mocaiber é até covardia porque administração pior do que a dele é praticamente impossível de fazer.
Depois, em 90, com o fim da Guerra Fria, pareceu-nos que os Estados Unidos iam derramar pelo mundo seu melhor lado: a democracia liberal, a autocrítica modernizadora, o poder multipolarizado, a tolerância; parecia que a liberdade era inevitável, quase uma necessidade de mercado.
Mas, não era esse o desejo dos caretas republicanos. Essa máfia de psicopatas queria se vingar do desprezo que sofreram nos anos 60, se vingar do vexame de Nixon e Watergate, se vingar dos Beatles, dos Rolling Stones, de Marcuse, de Dylan, da arte, dos negros, das mulheres , da liberdade sexual que sempre odiaram. Imaginem Bush, Karl Rove ou Rumsfeld diante de um Picasso, ouvindo “free jazz”. Começou a reação da caretice estúpida contra a modernização do mundo, tanto no Ocidente, quanto no fundamentalismo islâmico. Osama Bin Laden e Bush se uniram, sob a aparência de inimigos, numa aliança fundamentalista contra a paz e a democracia. Deixaram a “herança maldita”: o mercado global insensato, roído por homens-bomba e medo, a destruição do Iraque, o Afeganistão, o Ocidente como cão infiel do Oriente. E hoje assistimos a uma política mundial que é um balé impotente, com a razão humilhada e ofendida, para desespero dos que acreditavam num futuro iluminado. Não teremos nem o “fim da historia” do Hegel, nem do Fukuyama, aquele “hegelzinho” do Departamento de Estado.
Cada vez mais, a vontade dos homens está submetida às suas produções — criamos as soluções que nos aprisionam; as coisas mandam nos desejos. Num primeiro momento, isso nos dá o pavor do descontrole racional sobre o mundo, ou melhor, da “ilusão de controle” que tínhamos : “Ah… que horror… o humano está se extinguindo, a grande narrativa, o sentido geral…”
Mas, pergunta-se: que “humano” é esse que só no séc. XX gerou duas guerras mundiais, Hitler, Mussolini, Hiroshima e Nagasaki, Vietnam, China, Pol Pot, África faminta. Que “humano” é esse que os racionalistas teimosos cismam em idealizar?
Está se formando uma nova vida social, sem finalidade, sem esperança ideológica, mas que poderá ser muito interessante em sua estranheza.
A tecnociência, o espantoso avanço da comunicação, da cultura da web, dos diálogos em rede no mundo todo, os twitters e blogs estão roendo os princípios totalizantes e totalitários. O futuro já era, (apud Valéry). Tudo se passará aqui e agora, sempre. Há um enorme presente. O passado será chamado de ”depreciação”.
A rapidez dessas mutações nos dá frio no estômago, mas a vida mesma dará um jeito de prevalecer e talvez esse atual fantasma que assombra os metafísicos esteja nos libertando de antigos “sentidos” tirânicos, trazendo uma nova forma de aventura existencial e social que possa vir justamente da desorganização da “ideia única”. Em nossa cabeça as ideias sempre criaram as invenções, os avanços morais ou políticos. Mas as ideias agora surgem das coisas. Sistemas éticos ou racionais surgirão dos micro chips, da tecnologia molecular, e não o contrário.
O mundo está se desunificando sim, em forma de uma grande esponja, em vazios, em avessos, em buracos brancos que vão se alargando, à medida que a ideia de o tecido da sociedade “como um todo” se esgarça. Não há mais “células de resistência”; apenas “buracos de desistência”. Há tribalizações de grupos, sem proselitismo; há uma recusa ao mundo, aceitando-o como algo irremediável, mas sem conformismo. Por dentro de seu luto, as tribos se desenham.
Os jovens de hoje querem alcançar uma forma de identidade alternativa e não almejam mais o “Poder” que está em mil pedaços. Antes, lutávamos contra uma realidade complexa, sonhando com utopias totalizantes. Era o “uno” contra o “múltiplo”. Hoje, é o contrário; a luta é para dissolver, não para unir; luta-se para defender o vazio, o ócio possível, o que não seja “mercável”. Agora, os novos combatentes não sonham com o absoluto; sonham com o relativo.
A desesperança está parindo novas formas larvais de sobrevivência. E isso pode ser o novo rosto da humanidade se formando. É claro que o ser humano necessita de explicação, de sínteses, de consolidação de ideias.
Sem duvida, as religiões e o fanatismo estão florescendo, e o irracionalismo (mesmo disfarçado de sensatez) resistirá bravamente.
Talvez sejamos robotizados, modificados geneticamente, talvez espantosas tragédias surjam nos corpos e nas sociedades, mas um tempo diferente de tudo que conhecemos já começou. Os intelectuais falam no tempo pós-humano. Mas a própria ideia de “pós” já é antiga. De qualquer forma, talvez o pós-humano seja interessantíssimo, até divertido. Será que vamos viver dentro de um videogame planetário? Pode ser — mas é mais interessante que o melancólico lamento pela razão e harmonia que não chegam nunca…
Estamos mais sozinhos; o misterioso rumo da História, com tragédias e comédias, está no comando, (como, aliás, sempre esteve), e as tentativas de prevê-las foram todas para o brejo… Estamos em pleno mar, porém mais “perto do selvagem coração da vida”.
Publicado hoje (10/09) na edição impressa de O Globo.
“Eu concordo com o Ricardo André: existe gastança generalizada do governo Rosinha com shows, que não trazem nenhuma evolução à cultura do município, para se criar um clima de campanha eleitoral permanente nas ruas”. A opinião é do ex-candidato a prefeito e pré-candidato a deputado estadual pelo PT de Campos, Makhoul Moussallem, que endossou as críticas não só do jornalista Ricardo André Vasconcelos (aqui), mas dos demais entrevistados na série de entrevistas na Folha em que já falaram os professores Artur Gomes (aqui), Adriano Moura (aqui), Deneval de Azevedo Filho (aqui), Arthur Soffiati (aqui) e Cristina Lima (aqui), além dos diretores teatrais José Sisneiro (aqui) e Antonio Roberto Kapi (aqui).
Como todos os entrevistados, Makhoul também acha que foi danosa a extinção das Fundações Zumbi dos Palmares e Trianon, além da secretaria de Cultura, na última reforma administrativa de Rosinha, que centralizou toda a administração cultural na Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL):
— Em alguns casos, sou até favorável à centralização, no sentido de se dar uniformidade às práticas administrativas. Mas não na arte e na cultura, que são multifacetados, desde sempre, aqui e em qualquer outro lugar do mundo. No caso de Campos, a Fundação Zumbi cuidava mais das questões culturais da afrodescendência. Já a Fundação Trianon, se ocupava mais da questões teatrais, enquanto a secretaria cabia pensar a cultura como um todo, cabendo parte das suas execuções à Fundação Jornalista Oswaldo Lima. Críticas vão sempre existir, mas penso que a organização anterior era mais democrática, cuidando das manifestações culturais de Campos, que são riquíssimas, em todas as suas especificidades.
Para o petista, o critério para se avaliar a atuação do município na cultura teria que ser a relação custo/benefício. No caso, a priorização na contratação dos shows, com nomes nacionais e cachês dispendiosos, até no carnaval, tem gerado muito pouco benefício ao desenvolvimento cultural de Campos, com custos altos aos cofres público:
— Até para se rever isso, para se fazer uma autocrítica sempre necessária, o governo teria que se abrir ao debate com aqueles que vivem e fazem, de fato, a cultura no município. Esse discurso, que percebo ser ecoado no governo e na sua representação na Câmara (aqui e aqui), de que a prefeita foi eleita para fazer o que bem entender, é arrogante na cultura, na saúde, na educação, no transporte público. Mas como se trata de um grupo político que chegou ao poder vindo do teatro, no caso da cultura chega a ser irônico. Com esse grande número de críticas vindo de vários representantes da classe artística de Campos, continuar agindo assim, com prepotência, sem compromisso democrático, não é só falta de cultura; é falta de inteligência.
A vereadora Auxiliadora Freitas (PHS) também entrou no debate sobre a política cultural do governo municipal. Para a aliada do casal Garotinho, gastança é coisa do passado. “Gastança é o que acontecia no passado, com a realização de shows superfaturados e não executados, que motivaram a operação telhado de vidro, da polícia federal, e uma CPI que foi instalada na Câmara depois disso, ignorando, por exemplo, a reforma e ampliação do Teatro Trianon, com a construção do fosso de orquestra e um anexo para montagem de cenografia, carpintaria etc; os incentivos aos grupos de teatro, de musica, de artistas plásticos, de dança, com festivais estudantis, festival de bonecos, congressos de danças, encontros de corais; as peças de teatro trazidas para pré-estréias em Campos e com contrapartidas para artistas locais e com oficinas e workshops em direção, produção, cenografia, Lei Rouanet, entre outras ações”, ponderou a parlamentar.
Fonte: Ascom/Professora Auxiliadora
Visões diferentes — Nas últimas semanas, a Folha Dois, caderno cultural da Folha, abriu espaço para artistas que não consideram a Cultura esse “mar de rosas” apresentado pela prefeita Rosinha. As entrevistas foram publicadas no blog “Opiniões”, do jornalista Aluysio Abreu Barbosa (aqui).
Ricardo André: “Cultura no governo Rosinha só a da gastança” (aqui)
Kapi: “Todas as vertentes da cultura são atendidas em Campos? “É mentira!” (aqui)
José Sisneiro: “O dinheiro da Prefeitura funciona como cabresto” (aqui)
Cristina Lima: “Concentrar poder na cultura de Campos é temerário” (aqui)
Arthur Soffiati: “Desde 1989, a cultura de Campos é populista e autoritária” (aqui)
Deneval Azevedo: “Estão traindo a cultura de Campos” (aqui)
Artur Gomes joga pedra na cruz em defesa da arte na cultura pública de Campos (aqui)
Adriano Moura — O artista não é apenas uma vítima na cultura de Campos (aqui)
Vereadores de oposição Marcão (PT) e Rafael Diniz (PPS)
Enquanto alguns vereadores observam que a política cultural do governo Rosinha não é feita para toda a população e o dinheiro utilizado para realização de eventos culturais, onde nem todos têm acesso, poderia ser utilizado para melhorias de outras áreas, outros edis dizem que a cultura de Campos está em um ritmo que agrada a todos.
Desde o final de julho deste ano, a Folha tem publicado entrevistas feitas pelo jornalista Aluysio Abreu Barbosa com figuras públicas envolvidas na cultura do município. Em todas as entrevistas, o ponto em comum respondido foi a administração pública de projetos culturais que foram feitas ao longo dos anos, tanto na atual gestão quanto nas anteriores.
De acordo com o vereador Marcão (PT), que teve um pedido de informação negado sobre shows, a política cultural de Campos é gastar sem efetivação. “Não tem cabimento um município carente no transporte público, sem merenda em escola, saúde com muitas reclamações, fazer shows que nem sempre é para a maioria. Realmente, a cultura no atual governo é de gastança. Afinal, cultura não é apenas show”, opinou
Já o edil Rafael Diniz (PPS) deixou claro que diante da insatisfação das pessoas e através das entrevistas publicadas no segundo caderno da edição impressa da Folha e, na versão online, no blog “Opiniões” do jornalista Aluysio Abreu Barbosa, é notório que a cultura em Campos não é feita para todos. “Não estão investindo em algo que beneficia a todos de uma forma geral. Vamos buscar projetos para investir em cultura, de fato, e continuar batendo nos investimentos feitos que precisem melhorar”, disse.
A cultura de Campos voltou a ser assunto de debate, entre artistas e políticos, após a peça de Nelson Rodrigues, “Bonitinha, mas ordinária”, ter sido vedada de ser apresentada no teatro municipal Trianon. Depois disso, outras polêmicas vieram à tona como o valor do show da cantora Maria Bethânia, que custou aos cofres públicos R$ 233.750,00, cujos ingressos — R$ 100 cada — esgotaram em menos de seis horas de vendagem.
Edis governistas Paulo Hirano (PR) e Jorge Magal (PR)
O vereador Jorge Magal (PR) é um dos parlamentares que analisa a cultura de Campos como satisfatória para todos. “Tanto a pessoa mais humilde quanto aquelas com maior poder aquisitivo tem vez na cultura de Campos. O teatro Trianon, que foi trazido pelo casal Garotinho, é um espelho de que o governo tem feito grandes investimentos na cultura. Não acho que a política cultural é só de gastança. Vejo um funcionamento dentro da normalidade. A prefeitura atendeu a questão do boi pintadinho, do carnaval, da orquestra municipal, entre outros investimentos”, relatou.
Já o líder da bancada governista da Câmara, o vereador Paulo Hirano (PR), afirmou que a Prefeitura de Campos tem investido em várias áreas da Cultura, como, por exemplo, a construção do Centro de Eventos Populares Osório Peixoto (Cepop), espaço adequado para grandes eventos. “Antes, a estrutura era montada em locais improvisados. Em cada ano, os eventos aconteciam em um local diferente e os comerciantes reclamavam muito disso”, disse ao ressaltar vários projetos realizados pela prefeita Rosinha. “O acesso à cultura continua, com as aulas de balé ministradas na Superintendência de Igualdade Racial, antiga Fundação Zumbi dos Palmares. Na sede da instituição acontecem também, aulas de capoeira, judô e teatro, além das atividades desenvolvidas em diferentes polos. Ou seja, é uma construção progressiva e Campos está virando uma usina de arte”, finalizou.
Jornalista e blogueiro Ricardo André Vasconcelos
Na edição da Folha do dia 03 de setembro de 2013, o jornalista Ricardo André, em entrevista feita pelo jornalista Aluysio Abreu Barbosa, disse que a “cultura no governo Rosinha é só a da gastança”. “Em Campos não existe uma política cultural. Existe só a política eleitoral. Tudo é feito de olho no eleitor. O foco é o voto e como fazer para conquistá-lo. Parece que Campos não tem cidadão, só eleitor. O governo Rosinha não desce do palco nunca. Cadê o programa de incentivo à leitura?”, indagou.
O jornalista ressaltou também que com o dinheiro utilizado em shows, outros projetos poderiam ser feitos. “Com o dinheiro de um show de Jorge e Matheus e outro de Maria Bethânia você compraria um caminhão para fazer uma biblioteca itinerante. Dois shows de Michel Teló garantiriam a sobrevivência, por mais de um ano, das centenárias bandas que estão à míngua. E a política de publicação de livros de autores campistas? Formação de plateias para teatro? Nada! Cinema itinerante? Nada! Então não temos política cultural. Cultura no governo Rosinha, só a da gastança”, disse.
Artur Gomes, Adriano Moura, Deneval de Azevedo Filho, Arthur Soffiati, Cristina Lima e José Sisneiro
Além de Ricardo André o sétimo e último entrevistado até o momento, o primeiro entrevistado, logo após o impedimento da peça de Nelson Rodrigues ir ao palco do Trianon, foi o poeta, ator e professor do Instituto Federal Fluminense (IFF) Artur Gomes. O escritor, dramaturgo e professor Adriano Moura foi o segundo entrevistado e disse que “o artista não é apenas uma vítima no meio disso tudo”. Depois de Adriano, foi a vez do professor Deneval Siqueira de Azevedo Filho expressar sua experiência e opinião sobre o atual momento da cultura no município.
O professor, escritor, ambientalista e imortal da Academia Campista de Letras (ACL) Aristides Arthur Soffiati também deu seu parecer, em entrevista publicada no dia 11 de agosto, e disse: “A gente pensa que os artistas e intelectuais invariavelmente têm caráter e comportamento ético. Não é bem assim”. A filha do jornalista Oswaldo Lima e ex-presidente da fundação que leva o nome de seu pai, Cristina Lima, em entrevista publicada no dia 18 de agosto, disse que a cultura deve ser democrática.
A sexta entrevista aconteceu com o diretor, dramaturgo, ator e iluminador de teatro José Sisneiro, que disse: “O dinheiro da Prefeitura funciona como cabresto”.
Matéria do jornalista Mário Sérgio Junior, publicada na edição impressa da Folha de domingo (08/09) e aqui, na Folha Online.
Aqui, o diretor teatral e poeta Antonio Roberto Kapi também participou em entrevista do debate sobre a cultura de Campos.
Qual adjetivo melhor se encaixa para descrever João Luiz Woerdenbag Filho? Quase todos já foram usados, mas sem que nenhum o resumisse melhor do que o apelido dado desde os tempos de escola, por conta do macacão pendurado numa só alça e da barba precoce: Lobão. Poeta tão talentoso quanto Cazuza ou Renato Russo, mas superior como músico aos seus principais pares no rock nacional, o BRock, que explodiu nos anos 1980, de lá para cá Lobão ajudou a escrever a trilha sonora de toda uma geração, pranteou camaradas em armas tombados pelo caminho, tentou mais de uma vez o suicídio, enterrou o pai e a mãe exitosos na mesma tentativa, foi preso por uso de drogas como resposta de um status quo que criticava, vendeu 350 mil cópias de um disco produzido em parte na cadeia, flertou com a bandidagem e o samba dos morros cariocas, integrou a bateria da Mangueira no desfile do centenário da abolição da escravatura, amou intensamente várias e belas mulheres, fez aquele considerado o melhor show do Hollywood Rock e saiu vaiado do palco no Rock In Rio II, entrou em ocaso junto às gravadoras, largou as drogas e revolucionou a indústria fonográfica ao vender seus CDs em bancas de jornal, devorou livros e fundou uma revista que lançou novos nomes na música, ganhou o Grammy de melhor disco de rock com a coletânea unplegged do seu repertório, se reinventou como jornalista e apresentador de programa de TV, apoiou de graça para depois romper ruidosamente com o PT e a esquerda brasileira, e mais recentemente escreveu dois livros: o primeiro, sua autobiografia, concorreu ao Prêmio Jabuti, já vendeu mais de 100 mil exemplares e agora se prepara para virar filme; enquanto no segundo se propõe a questionar toda a cultura nacional a partir do modernismo de 1922. No momento em que Campos debate seus rumos e desrumos culturais, nada melhor que abrir espaço para quem já vem fazendo o mesmo há tanto tempo, a despeito dos interesses do poder ou das vaidades dos artistas, sem nenhum receio em enfiar a unha encravada nas feridas da cultura brasileira.
Folha Dois – Você disse que tudo que é deve à música e aos livros. A partir de ambos, que tipo de homem se tornou?
Lobão – Um pensador livre.
Folha – Esse tipo de formação autodidata, montada em sensibilidade e curiosidade intelectual pré-socráticas, tende a se tornar cada mais rara no mundo de hoje?
Lobão – Me parece que sim. O próprio índice de leitura mais complexa abaixa a cada dia.
Folha – Compositor de mais de uma dezena de hits da música brasileira e, mais recentemente, autor de dois livros de sucesso, hoje se considera mais músico ou escritor?
Lobão – Eu me considero um homem versátil e faço tudo o que me compete fazer com toda a paixão do mundo. Amo fazer música e amo escrever. As duas funções se alimentam e me enriquecem.
Folha – Esse mesmo duplo na arte, entre música e literatura, não aproxima você de Chico Buarque, um dos seus principais desafetos? Há como viver de escrever verso musicado e prosa literária sem admirar Chico? E o que dizer então de Vinicius de Moraes, sobre quem você escreveu que admirar seria o “fim da picada”?
Lobão – Olha, eu não considero o Chico um desafeto. Tenho carinho por ele. Só não gosto do que ele faz. Agora, se dependesse do Chico para me inspirar a compor ou a escrever, eu teria me tornado um colecionador de selos. A mesma coisa cabe ao Vinicius. Poucas obras me são tão agressivamente repelentes do que as desses autores. Embora eu aprecie os sonetos do Vinicius, não suporto suas canções.
Folha – A outro de seus detratores, você dedicou a música “Para o mano Caetano”. A letra oscila em críticas pesadas e declarações de amor. Numa paráfrase já lugar comum, dá para ecoar Elis, outra sobre quem você se divide entre elogios e críticas: “Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões”?
Lobão – Eu não dediquei nada a ninguém. Eu simplesmente compus uma réplica precisa e direta. Não se trata disso. É mais simples: Eu não pertenço a esse ramo musical/filosófico/estético.
Folha – Sem lugar comum são os diálogos das suas composições. É o caso de “As flores do mal”, do poeta francês Charles Baudelaire, em sua “A queda”; de “Além do bem e do mal”, do filósofo alemão W. F. Nietzsche, na sua “Deus é o diabo de folga”; ou de “El Desdichado”, poema mais famoso de Gerárd de Nerval, outro francês, que gerou sua “El Desdichado II”. Essa erudição é reconhecida por fãs e crítica? E assusta os desafetos?
Lobão – Eu acho muito pouco provável. A crítica é de uma indigência mastodôntica e os desafetos, não raro, inaptos para qualquer apreciação mais honesta e acurada. Só conseguem esboçar cacoetes comportamentais de mal estar. Já da parte dos fãs, existem casos de pessoas que mostraram perceber essas sutilezas. Fato esse que muito me agrada.
Folha – Sua autobiografia, “50 anos a mil” é aberta com você e Cazuza, numa madrugada fria de junho de 1984, no cemitério do Caju, no Rio, chorando e cheirando cocaína sobre o caixão de Júlio Barroso, da banda Gang 90. Até que ponto o prólogo reafirma sua amizade de vida e morte com os dois expoentes do BRock, e até que ponto é para chocar?
Lobão – Nem uma coisa, nem outra. O prólogo tem uma razão estratégica na narrativa do livro, pois quero deixar bem claro que seria ali, naquelas miseráveis circunstâncias, que todos os sonhos de construirmos uma nova geração de estetas e pensadores da cultura nacional estava morta. Não haveria, dali em diante, mais nenhuma possibilidade de um futuro para a música brasileira que não fosse o mesmo do mesmo.
Folha – Você disse ter prometido que o melhor ainda estaria porvir, nos túmulos de Júlio e, depois, de Cazuza, morto em 1990. Como essa expectativa se encaixa naquilo que disse em entrevista linkada em seu site: “Esta é a nossa pior época”?
Lobão – Sim, estamos passando por um dos piores momentos da nossa história. Contudo, pessoalmente, estou vivendo um momento maravilhoso e em plena fase de crescimento artístico. Pena não poder dividi-lo com mais pessoas.
Folha – Além de Júlio e Cazuza, outra morte precoce que você lamenta é a de Renato Russo, em 1996. A partir dessas perdas o BRock perdeu espaço para outros estilos, ou isso aconteceria mesmo se todos se mantivessem vivos e produzindo?
Lobão – Eu afirmei que tudo morreu com o Júlio. O resto foi detalhe. Já estávamos coletivamente mortos.
Folha – Sobre Cazuza e Renato, como vê os autores de “Brasil” e “Que país é esse?” cantando o país governado há 10 anos pelo PT? Acredita que, como você, eles teriam guinado politicamente 180º com a realidade pós-Mensalão?
Lobão – O Renato sempre detestou petistas e era francamente capitalista. Já Cazuza era PT e não sei se teria coragem de mudar de opinião.
Folha – Como alguém que apoiou Lula de graça, desde o segundo turno da eleição presidencial de 1989, quando participou daquele célebre comício na Candelária, com Luís Carlos Prestes segurando o microfone para você cantar “Revanche”, até que esta finalmente se desse em 2002, pode ter se convertido na voz mais contundente contra o petismo entre os artistas brasileiros?
Lobão – O PT é uma farsa e eu nunca fui um fã ardoroso do partido. Apenas lutei para que chegasse ao poder por uma espécie de vez histórica: Eles, os petistas, tinham que mostrar ao que vieram, principalmente com a bandeira da ética e da honestidade. Uma vez ficando bem claro que era uma deslavada mentira e, para piorar, arreganhando um viés neocomunista, eu pulei fora dessa canoa furada o quanto antes. O fato de escrever o “Manifesto” me deu muito mais embasamento sobre a política em geral. Li mais de 60 livros para me nutrir de informações e acabei o livro bem melhor do que comecei.
Folha – Em “Manifesto do nada na Terra do Nunca”, seu segundo livro, você chegou a dedicar um capítulo inteiro a propor a execução da presidente Dilma Rousseff. Mesmo em metáfora, o escritor não encarnou o “Exagerado” de Cazuza?
Lobão – Basta ler com atenção e poderá perceber a pertinência da violência da metáfora. Não. Escrevi com temperança e didática e se usei de cores carregadas foi porque a situação assim exigiu.
Folha – Sobre um dos arquétipos petistas, você escreveu: “o intelectual de esquerda é o campeão mundial da punheta de pau mole (…) Sempre deprimido, paranoico, ressentido, sempre vitimizado por complôs cósmicos, sempre pronto para eliminar suas contradições na base do grito”. Não há exceções menos neurastênicas?
Lobão – Não, por ser um erro basilar. Quem se dispõe a pensar dessa maneira,estará inescapavelmente com alguma séria patologia.
Folha – Diante de tantas críticas a um poder hegemônico tão sensível a elas, não teme sofrer o que chama de “simonalização”?
Lobão – Sou insimonalizável. Pode crer.
Folha – No poema “Aquarela do Brasil 2.0”, que abre o livro, você abriu fogo também contra os evangélicos: “E no cagaço metafísico/ da multidão de contritos telerredimidos/ brota o pavor da morte, da vida, do sexo,/ da doença, da pobreza e do castigo./ Fazendo bispos milionários,/ gângsteres do paraíso,/ lotearem pedacinhos do firmamento/ para histéricos apocalípticos aguardarem…/ o fim do mundo fora de perigo”. Teme o fundamentalismo religioso no Brasil?
Lobão – Estamos entre a cruz e a calderinha. Ou nos transformamos de vez num Cubão ou caímos numa teocracia de quinta.
Folha – Você é carioca da gema, baterista da Mangueira. A última pesquisa ao governo do Rio, colocou Marcelo Crivella na frente, seguido de Lindbergh Farias e de Anthony Matheus. Com dois evangélicos e um petista liderando, sente mais vontade de continuar morando em São Paulo?
Lobão – Esse panorama não poderia ser mais lamentável. Nada poderia ser pior. Eu amo morar em São Paulo e mesmo se o Rio fosse um lugar razoavelmente aprazível, não me sinto mais morando onde nasci e me criei.
Folha – Seu diálogo em questionamento ao manifesto antropofágico de Oswald de Andrade é ponto de partida, espinha dorsal e último capítulo do seu novo livro. Não é ambição demais ir contra toda a base do modernismo brasileiro de 1922, para tentar justificar suas críticas presentes à cultura nacional que aquele movimento determinou?
Lobão – Pois é, por termos nos baseado todo o nosso caldo cultural na Semana de 22 é que estamos nessa miséria ontológica desde então. Pior é saber que esse culto submisso e medíocre ainda reverberará por muitos anos nas mentes dos intelectuais brasileiros. Problema todo de quem embarca nessa, mas acredito que essa babação de ovo irá esvanescer-se, principalmente com o auxílio do meu livro. Muita gente começou a enxergar com outros olhos o movimento e temos uma razoável chance de nos libertarmos de suas amarras, produzindo uma nova estética, um novo pensamento, uma visão mais certeira de nós mesmos como povo, uma nova forma de produzir cultura. Creio que ficou bem claro a ampla e eficaz defenestração do pensamento do nosso querido Oswald, cometida no último capítulo. Fato este que não precisou lá de muito esforço. Se tivesse o mínimo de suspeita de que pudesse fracassar na empreitada, não me exporia ao ridículo de uma tentativa incorreta.
Folha – Música mais tocada no Brasil dos anos 1980, “Me Chama” poderia existir sem a fundamentação do coloquial feita por Oswald em “Pronominais”, sem acender seu cigarro na brasa dos versos dele: “Dê-me um cigarro/ Diz a gramática/ Do professor e do aluno/ E do mulato sabido/ Mas o bom negro e o bom branco/ Da Nação Brasileira/ Dizem todos os dias/ Deixa disso camarada/ Me dá um cigarro”?
Lobão – Esses caras promoveram um downgrade tremendo na língua portuguesa falada e escrita no Brasil! Temos que lembrar que falar o português correto para esses caras era reacionário! Incitaram uma lusofobia cavalar em nossa forma de pensar. A Semana de 22 foi um mal terrível para toda a cultura do país por gerações e gerações. De outra maneira, se pensasse diferente disso, não seria possível ter tido o meu insight sobre a Terra do Nunca.
Folha – Como está o projeto para transpor “50 anos a mil” ao cinema? O filme sai mesmo em 2014? José Eduardo Belmonte será o diretor e Rodrigo Santoro, Lobão? Pelo menos na vontade do autor do livro e personagem central, em que ele será diferente dos sucessos “Cazuza, o tempo não para” e “Somos tão jovens”?
Lobão – Estão trabalhando no roteiro e deve ser rodado em 2014 para sair em 2015. O resto, não tenho a menor ideia. Quanto ao nível do filme, tenho a sorte de ainda não ter morrido e posso acompanhar com um sentido mais crítico o desenrolar das filmagens.
Aqui, no jornal virtual “O Campista”, o professor de história e escritor gaúcho, mas campista por opção, Cristiano Pluhar, deu seu testemunho sobre como a estrutura municipal da cultura de Campos. Para quem quiser saber, na visão de quem veio de fora, como (não) funciona por dentro a cultura centralizada pela prefeita Rosinha na Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), necessária a leitura do texto que o blog pede a devida licença para republicar abaixo. Já para saber melhor quem é o Cristiano, basta conferir aqui a boa matéria publicada com ele na Folha Dois, feita pela jornalista e blogueira Luciana Portinho.
a imprensa, no presente, discute fervorosamente a debilidade das ações — ou falta delas – culturais nos Campos dos Goytacazes. As personalidades políticas responsáveis, respondem as críticas através de discursos tolos recheados de comparativos — citando shows — e enaltecedores de um Governo Populista.
Entre Abril de 2009 — tempos do grande amigo Avelino Ferreira — e Novembro de 2012, trabalhei no Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho, onde publiquei dois livros sobre a História dos Campos dos Goytacazes — “Campos Capital? Os interesses econômicos e políticos distantes do povo”, 2010 e, juntamente com José Victor Nogueira Barreto, “O preconceito estampado”, 2011. Em Abril de 2012, fui transferido – por questões ignóbeis e personalistas — para auxiliar na fundação do Museu Histórico de Campos dos Goytacazes — onde, juntamente, com Alba Vieira, construí o circuito expositivo “Campos dos Goytacazes através dos tempos”.
A mudança proporcionou minha transferência de uma empresa terceirizada para o Regime Especial de Direito Administrativo — Reda. O mesmo foi interrompido pelo STF, em 31 de Agosto de 2012 e a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes perdeu todas as tentativas de reversão do caso.
Na esperança ingênua de mudança, trabalhei durante três meses, gratuitamente no Museu — a Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima é a responsável pela instituição —, contando com a palavra da Presidente Patrícia Cordeiro, dirigida em reunião realizada no CEPOP que garantia o pagamento aos trabalhadores.
Adquiri uma dívida de quase R$ 6mil que perdura até hoje.
Com a reeleição da Prefeita Rosinha Garotinho, garantiram — a FCJOL — que haveria a recontratação de todos os funcionários.
Apenas um trabalhador não foi chamado: eu.
A razão, desmentida pela Presidente da FCJOL, foi algum comentário que postei não sei se no Facebook, no site www.historiasdoscampos.com.br ou… Na verdade, nem sei qual é o comentário.
Deixo claro que não compactuo com as ações políticas da família. Todavia, independente, aproveitei o espaço cultural para promover a História regional.
Hoje, meu nome é repudiado pela FCJOL e por pessoas “amigas” que se afastaram por receio de perseguição.
Fato comum na Gestão presente.
Bem, após breve explanação, foco na atuação dos órgãos subordinados da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima.
O Museu Histórico de Campos dos Goytacazes serve à realização de eventos espaçados e exposições políticas que inflam o ego da Presidente. Muitos gritos — quando há contrariedade — ameaçam. Trabalhadores de uma empresa terceirizada lá estão e outros — antigos do Reda — foram inseridos no tal RPA. Existem, também, DAS.
Outra instituição, o Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho não recebe investimentos; além da questão paternalista que lá reside. Importantíssima instituição está em estado vegetativo.
O Museu Olavo Cardoso está fechado — a FCJOL fala em reforma.
A Biblioteca Municipal Nilo Peçanha é entupida de ótimas ideias que não recebem investimentos.
Para finalizar, o Centro de Eventos Osório Peixoto — Cepop. Feiras de automóveis, Carnaval feio — com Escolas de Samba do Rio de Janeiro que cobram cachês ilógicos — e que, no final do mês de Agosto, recebeu a II Semana do Folclore — 3 dias — na intenção de valorizar a Cultura distante — e assim permaneceu — da população campista.
Leitores, diversos shows de artistas “de fora” servem, como já comentei em outra postagem, à informalidade dos vendedores de cervejas. Ou Michel Teló combina com a Festa do Santíssimo Salvador?
Assim, findo minha explanação com um pedido: imprensa, há motivo para tanta reclamação?
Seria possível para um grupo de teatro da Campos de hoje assumir a direção do município, como ocorreu nos anos 1980, mantendo-se no comando pelos 30 anos seguintes? Não para o jornalista e blogueiro Ricardo André Vasconcelos, que participou das montagens de peças como “Precisa acontecer alguma coisa”, em 83, e “Brava gente brasileira”, em 85, que tinha dividido nas funções de autor, diretor e ator o prefeito de Campos eleito em 88, hoje deputado federal e pré-candidato a governador do PR, Anthony Matheus. Da arte à vida que a imita, “mas não repete a história nem como farsa”, Ricardo subiu ao palco central também nos dois primeiros governos do grupo, identificando a campanha perdida a governador, em 1994, como o divisor de águas entre os rumos coletivos e o projeto pessoal de poder que entende ter sido o roteiro seguido a partir dali. Desde então, não apenas a cultura, mas todas as demais políticas dos governos de Campos passaram a ver o “respeitável público” como se fosse formado não por cidadãos, mas apenas por eleitores. Dentro deste contexto, a administração Rosinha, ao centralizar toda a cultura na Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), longe de exceção, seria a regra, na qual os recursos públicos não têm sido poupados para se levar gente às ruas e criar um clima de “campanha eleitoral permanente”. A partir do acompanhamento das publicações no Diário Oficial (DO) do município, Ricardo denuncia: “Cultura nesse governo só a da gastança”.
(Foto de Arthur Damasceno/ Folha da Manhã)
Folha Dois – Você vestiu a carapuça quando a presidente da FCJOL disse em entrevista (aqui) ao site Campos 24 Horas: “Tem gente que lê, por exemplo, o Diário Oficial, não interpreta o que está escrito e, mesmo assim, omite (sic) opinião. E, aí, claro, de forma equivocada. Vou dar um exemplo: Publicação de licitação na modalidade de registro de preço, que é interpretado como se fosse para um único evento e que não é. E quem entende desse mecanismo, sabe como funciona”. Sem se omitir em emitir juízo, como funciona?
Ricardo André Vasconcelos – Eu sou leitor de Diário Oficial não é de hoje. Não acompanho só o atual governo. Sempre vi o DO como uma fonte notícias, de pauta e é assim que continuo lendo-o todos os dias. Em 2008, durante o carnaval, foi publicado o extrato de contrato da empresa de coleta de lixo por 10 anos ao custo de R$ 562 milhões. Era o governo Mocaiber. Divulguei no blog e, mesmo sendo um ano eleitoral, nenhum candidato teve interesse em colocar o dedo na ferida. Portanto, sempre que é publicado um extrato de contrato, seja de aluguel de trio elétrico, contratação de artistas, montagem de palco ou editais para obras, entre outros atos, eu recorto da versão em PDF na Internet e posto no blog como forma de ajudar o governo a cumprir o preceito constitucional da publicidade dos atos administrativos. Por causa disso achei uma deselegância a presidente da Fundação Cultural criticar quem divulga o Diário Oficial e vesti, sim, a carapuça. No sábado anterior à entrevista ao Campos 24 horas ela já havia feito a mesma abordagem no programa Entrevista Coletiva, na Diário FM. Quando eu disse que sei como funciona, é que na lei 8.666/93, do governo Itamar Franco, há brechas para dispensa de licitação para casos de artistas e outros tipos de contratação cuja especificidade não tem como ser auferida num certame licitatório. Nessa brecha legal você tem como contratar só quem te interessa. Só contrata quem é seu amigo, do seu partido, do seu grupo político ou quem, de uma forma ou de outra, possa dar alguma retribuição por essa escolha. Outro exemplo é a publicação genérica de “eventos culturais, comemorativos e esportivos”. Como não discrimina quais são e nem onde foram realizados fica sempre a dúvida e a dúvida é irmã-gêmea da suspeita.
Folha – Além de você, outro a acusar o golpe foi o também blogueiro Cláudio Andrade, que cobrou (aqui) da entrevistada o esclarecimento que entendeu não ter sido feito sobre o registro de preço nas publicações do FCJOL no DO. O fato de você e Cláudio estarem sendo expondo em seus blogs as publicações da FCJOL em Diário Oficial incomoda? Por quê?
Ricardo André – É uma questão técnica da qual não sou especialista. Sou é curioso e chato. Sei somar dois mais dois contextualizando as informações num formato de comunicação. A administração pode fazer um pregão para registro de preço para que os fornecedores daqueles produtos ou serviços saibam que, por exemplo, a fundação tal pode, dentro de certo período de tempo, pagar tal preço por aqueles serviços ou produtos. Mas o que postei no blog foi bem diferente. O que desagradou ao pessoal da FCJOL foi que eu postei os valores pagos à Working Empreendimentos pelo aluguel e montagem de palco no valor de R$ 347 mil, ao que parece, para a Festa de São Salvador. Digo parece porque, mesmo após publicação no blog com replique em vários outros blogs e na versão impressa da Folha, ninguém da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima ou da Secom/PMCG disse uma palavra sobre o assunto. Dias depois o DO trouxe um extrato de contrato, no valor de R$ 501 mil para aluguel de palco da mesmíssima Working. Ora, será que pagaram e depois assinaram o contrato? As publicações são obrigatórias no DO, e o que eu e Cláudio Andrade fazemos, é dar eco e tentar contextualizar essas informações públicas. Por exemplo, há anos, desde o começo do pagamento dos royalties do petróleo eu sempre divulguei os valores mensais. Ainda como repórter da TV Norte Fluminense, nos anos 80, ou na editoria de economia e editoria geral da Folha, de 1998 a 2002, sempre foi preocupação minha acompanhar e divulgar todo dia 20 de cada mês os valores repassados aos municípios da região. O cidadão/contribuinte precisa ter essa informação até para dimensionar e direcionar suas demandas ao poder público. E a questão não fica restrita à área da cultura porque a gastança é em outras as áreas e de forma suspeita, apesar de legal. Parece paradoxo, mas não é. A lei permite que os contratos tenham seus valores reajustados e que sejam prorrogados, mas o que se faz na PMCG é que as prorrogações são regra e não exceção. Veja o caso das três agências cuidam da propaganda do governo Rosinha desde 2009. São as mesmas e, na semana passada tiveram seus contratos aditados pelo quarto ano ao custo total de R$ 15 milhões por ano. A mesma situação é das cinco maiores fornecedoras de mão-de-obra para a Prefeitura de Campos. Os contratos também foram renovados há poucos dias por cerca de R$ 65 milhões. Outro exemplo foi a GAP, aquele empresa que alugava, também desde o início do governo, ambulâncias para a PMCG e só teve o contrato rescindido depois que a Revista Época denunciou que o dono da empresa era um “fantasma”. E olha que o deputado Garotinho também já tinha alugado um carro da mesma GAP e foi volante um Fusion branco da GAP que o presidente local do Partido da República, e filho do casal Garotinho, se envolveu num acidente de trânsito. Isso é apenas uma pequena mostra da confusão, de fundir mesmo, que fazem do público com o privado e encobrindo tudo com pouca transparência, mas que já permite levantar algumas informações e protegidos por uma massacrante e milionária propaganda no rádio e TV. De novo a receita infalível (?) do populismo de resultados capitaneado pelo deputado Garotinho.
Folha – Em seu acompanhamento do DO, observou um aumento nas despesas da FCJOL após a reforma administrativa de Rosinha, que extinguiu a secretaria de Cultura e as Fundações Trianon e Zumbi dos Palmares, colocando toda a política pública da cultura de Campos sob tutela administrativa de Patricia Cordeiro? Percebe alguma motivação implícita nessa mudança?
Ricardo André – A pergunta é ótima para “despatricizar” essa questão. A Patricia é uma pessoa amável, inteligente e sempre muito agradável, pelo menos comigo. O que eu questiono, o que me provoca gastura é a gastança desenfreada, que não é da Patricia. A gastadeira é Rosinha. Por mais boa vontade que tenha, Patricia não passa de mera executora do jeito Rosinha de governar. Esse governo vive em campanha eleitoral permanente, e campanha eleitoral precisa de gente amontoada na rua. E é com show, trio elétrico e palcos alugados a peso de ouro que se junta gente para aplaudir. O populismo precisa disso como o ar que respiramos. Por isso é política da família Garotinho gastar o que for preciso para ter gente na rua ouvindo música, mesmo que seja de qualidade ruim, como na maioria das vezes é; porque assim, pensam eles, estão atendendo a uma demanda do público. Enquanto educar, no sentido mais amplo do vocábulo, seria oferecer ao público opções de melhor qualidade e uma diversificação cultural que alimente a alma e inspire reflexão. Acho que essa gente que está no governo sabe muito bem disso e promove uma espécie de conspiração para alienar, porque assim, sem pensar, emburrecendo, o curral eleitoral aumenta cada vez mais. A secretaria de Cultura, que tinha à frente o teatrólogo e professor Orávio de Campos, foi extinta numa reforma em que a prefeita extinguiu também a Fundação Zumbi dos Palmares, que fazia uma política afirmativa boa em relação à inclusão dos negros, com cursos pré-vestibulares, por exemplo. A justificativa para a reforma foi o enxugamento da máquina, mas ao mesmo tempo Rosinha criou as secretarias da Pesca e a do Idoso, duas sinecuras para aliados políticos, além de cerca de uma centena de cargos de confiança para os cabos eleitorais. Na verdade acho que a única cultura que Rosinha conhece bem é a da gastança, e com o dinheiro dos outros, porque sei que ela é excelente administradora do próprio lar.
Folha – E à cultura em si, qual sua opinião sobre esse movimento de centralização administrativa, delegando plenos poderes à FCJOL, criticado publicamente pelos professores Artur Gomes (aqui), Adriano Moura (aqui), Deneval de Azevedo Filho (aqui), Arthur Soffiati (aqui) e Cristina Lima (aqui), além dos diretores de teatro José Sisneiro (aqui) e Antonio Roberto Kapi (aqui)?
Ricardo André – Eu penso que a centralização é justamente para atender à decisão da prefeita em fazer da área cultural um comício permanente. É claro que pode-se destacar um ou outro ponto positivo, como a abertura do Museu, a realização da Bienal do Livro ou um apoio à fórceps para a ONG Osquestrando a Vida, mas praticamente toda a energia e verbas dos organismos oficiais de cultura, agora todos sob o guarda-chuva da Fundação Oswaldo Lima, vão para os eventos que atraem multidões, contratação de artistas caros, bandas, trios elétricos , camarins, buffets e grandes estruturas de palco como se viu na Festa de São Salvador. Veja só: o Cepop , que é uma obra de R$ 100 milhões, que se justifica para economizar dinheiro com aluguel de estruturas desmontáveis, vive às moscas a maior parte do ano porque o governo Rosinha quer manter, por exemplo a festa de São Salvador na praça. Ora, a Festa do Padroeiro pode ser na praça mas os shows como da Banda Cheiro de Amor e Michel Teló poderiam ter sido no Cepop. Ou alguém acredita que o tradicional público da festa católica foi à praça ver Michel Teló? Eu ouvi a prefeita Rosinha dizer, na mesma entrevista da Patricia na rádio, que não da para levar o palco do Cepop para a Praça. Ora, então leve os shows da praça para o Cepop. Então, a centralização elimina o pior inimigo do populismo que é o debate. Numa direção mais capilarizada nos organismos culturais sob a tutela da administração municipal, muitos dos erros cometidos hoje seriam evitados. Mas penso este governo quer é isso mesmo: juntar multidão para alienar num imenso e permanente comício. Então, para quê diversificação de opiniões? Basta meia dúzia de executores para fazer a vontade da prefeita pródiga, gastadeira e alcançar o projeto desse grupo de permanência no poder.
Folha – Quem acompanha os bastidores da política, sabe que Patricia, via Linda Mara, é pessoa da conta de Rosinha, o que, por surreal que pareça, não é a tônica dos muitos cargos da Prefeitura de Campos. Cultura à parte, enxerga algum objetivo político e/ou financeiro nesta parte que cabe à prefeita no latifúndio bilionário do seu próprio governo?
Ricardo André – É intuitivo, mas acho que a prefeita pensa assim: “poxa, o Garotinho manda aqui, ali, o vereador tal indicou o secretário sicrano, os partidos ‘x’ e ‘y’ me empurravam beltrano e fulano e eu mesma que tive 160 mil votos não tenho o meu pessoal, a minha turma?” Repito: é intuitivo mas sei que o próprio Garotinho defendeu mudança na presidência da Fundação, mas a prefeita bateu pé e ainda submeteu à sua pupila os presidentes das fundações extintas, ou seja, Trianon, com João Vicente Alvarenga, e Zumbi dos Palmares, com Jorge Luiz dos Santos, além do próprio Orávio, que era o secretário de Cultura. Hoje os três são subordinados à presidência da FCJOL. E todos os três indiscutivelmente mas experientes que Patricia. Na época eu postei no blog, e agora repito, que a “Cultura foi a grande vítima da reforma de Rosinha”.
Folha – Por falar em Linda Mara, você disse em seu blog que ela assumiu o lugar de Mauro Silva, que por sua vez voltou à Secom, para fazer na Câmara o que nenhum vereador governista tem feito: defender Patricia Cordeiro à frente da FCJOL. Por que ela estaria disposta a fazer o que ninguém mais quis? E por que essa defesa, em suas palavras (aqui), seria “irracional e apaixonada”?
Ricardo André – É verdade que, com uma base aliada tão grande, com 21 vereadores, os interesses são muitos e às vezes concorrentes. Os vereadores não entram com profundidade em nenhuma discussão. Ficam na superfície dos assuntos, numa defesa pessoal e apaixonada da prefeita e do marido dela como se fossem amestrados para isso. Não argumentam com raciocínio lógico sobre as questões levantadas pela oposição. Há exceções, claro, mas entre 21 vereadores praticamente apenas dois, Paulo Hirano e Abdu Neme, têm um discurso mais ou menos articulado como a gente pode ver, por exemplo, quando está em discussão algum requerimento de informação formulado por algum dos quatro vereadores da oposição. Aliás, acho que a oposição perde a oportunidade de usar isso a seu favor, ou seja, são apenas quatro, mas todos falam muito bem da tribuna, são bem informados e deveriam partir para o embate contra a bancada governista que, apesar de majoritária carece de bons oradores e se limitam no rame-rame da mera repetição de repetir a cantilena do chefe . Nesse sentido, acho que Linda Mara, minha afilhada do primeiro casamento e a quem prezo, tem pouco a oferecer, porque apesar da experiência de rádio tem pouco traquejo na interatividade que a atividade parlamentar exige. Vai ser mais uma a ser perder na maioria na vala comum dos aliados que se limitam a votar de acordo com os interesses da prefeita e não da cidade.
Folha – Ainda em relação à entrevista de Patricia ao site, em nenhum momento foi perguntado a ela sobre as denúncias de favorecimento da banda A Massa, cujo percursionista é seu marido, nas contratações com dinheiro público pela Fundação que preside. Como jornalista e alguém que já integrou o governo, entende que essa satisfação pública, até para se negar e desmentir, seria devida?
Ricardo André – Acho essa história de A Massa, Lucas Cebola e outras bandas que estariam sendo contratadas seguindo o mesmo itinerário de interesses, o menor dos males e o menor dos gastos que a gente verifica todos os dias, até mesmo para a área cultural. Para quem acompanha o Diário Oficial é fácil perceber que as despesas com as bandas locais em alguns casos são até constrangedoras de tão baixos os cachês em detrimento dos artistas de fora. Então, o favorecimento parece existir num contexto total e não apenas em relação ao marido da presidente da Fundação. Por exemplo, artistas que são reconhecidamente amigos da prefeita, como a cantora Joana, com cachê de R$ 50 mil; Elymar Santos, de R$ 38.900 ; e o agora companheiro de partido, Neguinho da Beija Flor, que recebeu R$ 53.108, estão sempre sendo contratados para cantar na cidade. As bandas locais ganham muito pouco, quase nada perto de cachês como os de Maria Bethânia, a R$ 233.750,00, ou Michel Teló, que custou R$ 158.950,00. Todos esses valores são oficiais e foram postados em meu blog com recortes dos atos oficiais do Diário Oficial. No verão do Farol de São Thomé, por exemplo, foram cerca de R$ 2 milhões só em cachês, fora os trios elétricos, palcos, transporte, hospedagem, luz, som, bufett, segurança, etc. Quanto ao fato de a PMCG ou FCJOL não se pronunciarem sobre as críticas que recebem, isso é uma determinação de governo ignorar tudo e tentar desqualificar o crítico. Um governo que tem em torno de 70 % de aprovação pode fazer isso. Mas que cidade não daria uma aprovação tão alta com uma campanha de televisão tão massiva como estamos vendo agora. Em cada intervalo da programação das retransmissoras locais da Globo e Record entra propaganda da Prefeitura de Campos e que mostram uma cidade sem problemas, com remédios nos postos de saúde e onde até o Ferreira Machado é hospital de primeiro mundo, Um governo que estupra a realidade desse jeito precisa dar satisfação a alguém?
Folha – Soffiati citou o pensador francês Abraham Moles para considerar a cultura pública de Campos, desde o primeiro governo Anthony Matheus, como “autoritária” e “populista”. Ele foi além, afirmando que o grupo político que assumiu o poder em 1989, passou a ver a cultura como uma maneira de se fazer política partidária e ganhar dinheiro ilícito. Como alguém que participou do primeiro escalão da Prefeitura entre 1990 a 96, tem algo a dizer sobre o que viveu e viu?
Ricardo André – O grupo político que assumiu em 1989 almejava mudar o mundo e acho que conseguimos alguns êxitos no início. Para mim, pessoalmente, o divisor de águas foi 1994, na primeira candidatura de Garotinho ao governo do Estado, quando ficou claro que o sonho não era de um grupo e sim a obsessão do líder do grupo. E para literalmente financiar este sonho valia tudo e penso que na raiz de tudo, de todos os males, desvios de conduta e todos os malfeitos de 94 para cá são para alimentar essa obsessão. E aí entram os oportunistas que ganham fortunas para integrar essa engrenagem. Mas nem sempre foi assim. Sou de um tempo em que não tínhamos carro oficial, quando hoje são dezenas alugados e alguns até blindados; quando viajávamos com dinheiro do nosso bolso, quando eu mesmo fui a Cuba em 1991, na comitiva de Garotinho pagando a própria passagem. O que eu vi em seis anos de governo foi uma mini-revolução numa cidade que tinha duas creches, poucas escolas, não tinha pronto socorro. É certo em 1989 tinha uma nova Constituição em vigor que deu mais dinheiro aos municípios e os royalties começam a, timidamente ainda, a pingar nos cofres da Prefeitura. Mas havia uma vontade enorme de romper aquele ciclo comandado há décadas por Zezé Barbosa, Rockfeller e Alair Ferreira, que era o que mais repudiávamos. Com Garotinho, à frente daqueles homens e mulheres, todos na faixa dos 30 anos, demos o melhor de nossas vidas por um projeto que, pelo menos eu, pensava ser para a cidade. É dessa época o início da construção do novo Trianon, da primeira grande reforma do Teatro de Bolso, do início do projeto “Pra Ver a Banda Passar”, que por vários anos garantiu a subsistência das bandas tradicionais de Campos. Não houve um ano neste período em que a Prefeitura não promovesse festivais de teatro universitário, infantil e das escolas municipais, sem falar nos festivais de música e poesia. Só restou o de poesia. Investir dinheiro público em comunicação já estava no modus operandi de Garotinho, mas tínhamos uma preocupação de usar boa parte da verba para campanhas educativas e para apoiar peças de teatro com anúncios na televisão. Em termos de comparação tudo é muito distante. Para se ter uma ideia, o orçamento da Secom no último ano da minha gestão, em 1996, era de R$ 600 mil, enquanto em 2013, é de R$ 16 milhões. Cristina Lima, com quem trabalhei em parceria todo esse tempo, eu na Secom e ela na FCJOL, disse aqui mesmo na Folha que o que ela gastou no verão de 1996 foi em torno de R$ 190 mil reais. Mesmo com a inflação no período, que não foi grande coisa, é uma distância amazônica, como diria Nelson Rodrigues. No último verão, o governo Rosinha gastou R$ 190 mil só com o cachê de dupla sertaneja Jorge e Matheus. Ressalto que esse fenômeno da espetaculização com dinheiro público não é só em Campos. É um mal que se alastra pela região e praticamente todo o país.
Folha – Em outra análise historiográfica, Deneval afirmou que aquilo que identificou como “garotização” foi “péssimo” à cultura de Campos. No que viu dentro e depois fora do governo, qual a sua avaliação?
Ricardo André – O garotismo não foi péssimo apenas para a cultura de Campos. A história vai mostrar que a transformação do município numa capitania hereditária ainda vai nos custar décadas de atraso. Esse falta de compromisso com a res publica e a utilização privada dos bens que são de todos como se fosse a regra, vai deixar marcas profundas, muito maiores daquelas que tentamos apagar e deixadas pelos coronéis do passado. Superaram em tudo. Hoje temos uma sociedade civil cooptada e não pelos belos olhos dos governantes. É doação de um terreno da municipalidade para uma entidade de classe aqui, uma verba para ajudar outra entidade a realizar um evento ali e não há mais ambiente para crítica. E isso é terrível porque o governante e sua entourage se habituam à bajulação e recebem crítica como ofensa. Jânio Quadros dizia, embora não sei se praticasse, que preferia o “elogio que constroi ao elogio que corrompe”.
Folha – É irônico um grupo que assumiu o poder em Campos, egresso do teatro, hoje sofrer tantas críticas justamente em sua política cultural?
Ricardo André – Em Campos não existe uma política cultural. Existe só a política eleitoral. Tudo é feito de olho no eleitor. O foco é o voto e como fazer para conquistá-lo. Parece que Campos não tem cidadão, só eleitor. Aqui e ali tem uma iniciativa ou outra, mas o forte, como já disse, são os eventos grandes e caros com utilização de grandes estruturas alugadas e para juntar gente. O governo Rosinha não desce do palco nunca. Cadê o programa de incentivo à leitura? Com o dinheiro de um show de Jorge e Matheus e outro de Maria Bethânia você compraria um caminhão para fazer uma biblioteca itinerante. Dois shows de Michel Teló garantiriam a sobrevivência, por mais de um ano, das centenárias bandas que estão à míngua. E a política de publicação de livros de autores campistas? Formação de plateias para teatro? Nada! Cinema itinerante? Nada! Então não temos política cultural. Cultura no governo Rosinha, só a da gastança.
Folha – Você participou da gênese desse grupo político desde os seus tempos de palco, no início dos anos 1980. Como foi a experiência de ensaiar, atuar e viver o burburinho da encenação de peças como “Precisa acontecer alguma coisa”, em 83, escrito e dirigido por Anthony e Fernando Leite, ou “Brava gente brasileira”, em 85, escrita por Fernando e dirigida pelo hoje deputado federal e pré-candidato a governador do PR, ambas no Teatro de Bolso?
Ricardo André – Foi um período extremamente rico para todos nós que o vivemos. Éramos todos muito jovens, idealistas, cheios de energia para mudar o Brasil que ainda vivia o final de uma ditadura militar e os textos eram políticos, panfletários e com foco nas questões sociais locais. “Precisa Acontecer Alguma Coisa” completa 30 anos agora, em outubro ou novembro, e o texto retratava os núcleos da sociedade em esquetes: a família, o partido político, o casamento e a igreja. Amarrando tudo isso tinha um editor de jornal, personagem de Anthony, chamado Martinho, numa homenagem a Martinho Santafé, jornalista que atualmente mora em Macaé. Enquanto aguardava um telefonema do hospital sobre o parto de seu primeiro filho e a expectativa de acontecer alguma coisa que valesse a manchete do jornal, Martinho comentava as cenas até que seu filho nasceu e esta virou a manchete do jornal que era distribuído à platéia. Neste jornal tem um artigo meu que diz assim: “o texto soou assim como um clarim, não de verdades absolutas, pois utópico seria, porém, como um clarear dentro de nós, de conscientização de que alguma coisa precisa ser feita. Primeiro dentro de nós, depois, dentro das instituições das quais fazemos parte, para assim, transformarmos a sociedade”.
Folha – Alguma coisa se perdeu nesses mais de 30 anos de imitação entre a vida e a arte? O que, quando, como, onde e por quê?
Ricardo André – Relendo agora o texto acima, vejo que evolui muito pouco nestes 30 anos. Penso como pensava em 1983. Quem mudou não fui eu. Quando mudaram eu não estava por perto. Quando? Quando se deixaram mudar ao invés de mudar os outros e o porquê não me arrisco a palpitar. Da minha parte, me contento em dar minha contribuição como jornalista, profissão da qual não mais sobrevivo, mas exerço-a como voluntário num blog ao qual dedico boa parte das minhas horas de folga.
Folha – Em seu entender, como aqueles Anthony e Rosinha dos anos 80 enxergariam e reagiriam, no palco e fora dele, à política feita pelos dois, hoje, no município? Falta a quem a eles se opõem a efervescência e a coragem daquele Bolinha ainda pré-Garotinho? Seria possível para um grupo de teatro da Campos de hoje chegar aonde vocês chegaram? Por quê?
Ricardo André – Por muito menos meteram o pé na porta assumiram, vergo que hoje conjugamos “ocuparam”, o Teatro de Bolso no último dos três governos Zezé Barbosa. Como acho que a história não se repete nem como farsa, acho que vai levar muito tempo para Campos produzir outro Bolinha ou outro Garotinho, tanto para o bem quanto para o mal, não respectivamente e sem maniqueísmo. Se a oposição, que como disse a deputada Clarissa Garotinho, “não faz nem cosquinha”, tivesse metade da disposição do Bolinha, ou metade da disciplina do Garotinho, o embate político local não seria tão desigual. Uma parte da oposição finge ser oposição e outra é menos corajosa do que se esperava.
Folha – Artur Gomes, que chegou a participar do primeiro governo municipal de Anthony, embora tenha afirmado que o então prefeito começou a romper com as diretrizes do “Muda Campos” já a partir de 1991, não deixou de se lembrar saudoso daquele primeiro verão do Farol, em 89, quando afirmou que Campos tinha mais cultura, com muito menos dinheiro, sendo endossado por Cristina Lima, então presidente da FCJOL. Concorda com ambos? Também sente saudades? Do quê?
Ricardo André – Pode ser o romantismo dos derrotados, mas sinto falta das dificuldades que nos obrigava a ser mais criativos. Das noites no Bar Doce Bar depois dos ensaios ou dos espetáculos. Das sessões de cinema que fazíamos num circo à Beira-Mar nos primeiros verões no Farol de São Thomé…
Folha – Em seu blog, o jornalista Alexandre Bastos usou (aqui) uma foto do show de Michel Teló na festa de São Salvador, com 40 mil pessoas, para constatar que foi mais que o dobro da somatório de público do ato em defesa dos royalties, dos protestos dos Cabruncos Livres, da passeata dos médicos e do abraço ao Asilo do Carmo. No frigir dos ovos entre cultura, saúde, solidariedade e, sobretudo, política, é essa aritmética que de fato interessa a quem governa Campos? Há como mudar?
Ricardo André – Essa história de calcular multidões é, geralmente, furada. Duvido que caibam na Praça São Salvador 40 mil pessoas. Na segunda passeata dos Cabruncos tinha um público compacto, praticamente da Praça das Quatro Jornadas até à Catedral. Então, quem me garante que no evento dos Cabruncos tinha 5 mil pessoas e no Michel Teló 40 mil? Com os Cabruncos eu estava lá; no show de Teló, não, é claro! O que faz as pessoas se juntarem é a mobilização de cada um e de seus grupos sociais e, eventualmente em momentos de consciência coletiva, como nas passeatas de junho deste ano e nas concentrações pelas diretas já em 1983/1984. Para o governo, qualquer governo, multidão boa só se for a favor. Contra é oposição raivosa. Como mudar? Fico com o nosso grande Ariano Suassuana sobre as três grandes virtudes cristãs, “claudico na fé, deixo a desejar na caridade e tento me salvar na esperança”.
Como qualquer debate sem dono, aquele aberto sobre a cultura de Campos, há algum tempo, tem se alimentado e crescido a partir do próprio debate. Seja a partir da Folha impressa e/ou virtual, deste blog, da democracia irrefreável das redes sociais, ou das simples e velhas rodas de conversa, várias são as sugestões e os caminhos ainda não percorridos, que têm sido apontados por quem, felizmente, ainda se mostra capaz de discutir arte e cultura além das circunvoluções do próprio umbigo. Neste sentido, o blog republica abaixo, na forma mais relevante de post, as sugestões do professor, escritor, crítico de cinema, ambientalista e imortal da Academia Campista de Letras (ACL) Arthur Soffiati, feitas aqui, em comentário a este “Opiniões”, que se agregarão à pauta futura (e necessária) do debate…
Até aqui, tenho gostado muito das entrevistas criticando a política cultural autoritária e populista do atual governo municipal. Creio não ter errado em perceber que as críticas à prefeitura por censurar Nelson Rodrigues são apenas erupções de um processo de vulcanismo mais profundo que desagrada aos artistas e intelectuais de Campos. A entrevista da Presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima foi realmente sofrível. Na tentativa de justificar as atitudes do governo municipal, ela acabou por afundar mais ainda o grupo Garotinho.
Mas tenho uma nova questão: e se, na próxima eleição municipal, elegermos um prefeito disposto a abrir o espaço merecido para a cultura, o que proporíamos? E se, usando uma expressão muito vulgarizada, passássemos de estilingue a vidraça, qual seria a nossa posição? Se um dos entrevistados fosse convidado a organizar o setor cultural, quais seriam as suas propostas?
Arthur Soffiati
Como alguém que dedicou à militância nas artes os 43 últimos anos, dos 58 que tem de vida, com a bagagem dois FestCampos vencidos como poeta e mais de 100 peças montadas, inclusive no Rio de Janeiro, como diretor teatral, pode estar hoje desempregado e há um ano sem encenar nada numa cidade de orçamento bilionário e governada por um grupo político egresso do teatro? Na imitação tragicômica entre a arte e a vida, talvez nenhum caso pessoal encarne melhor o atual cenário da cultura de Campos do que o de Antonio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi. Presente a todas as manifestações organizadas pelos artistas locais em protesto contra a denúncia de censura a “Bonitinha, mas ordinária”, de Nelson Rodrigues, no Trianon (relembre o caso aqui e aqui), ele foi também o primeiro a encenar uma peça no teatro hoje referência de Campos, quando este ainda estava só no esqueleto, em 1995, com “Gota d’água”, adaptação de Chico Buarque e Paulo Pontes da tragédia grega “Medeia”, de Eurípedes (480 a.C/ 406 a.C.). Ecoando quem inventou o teatro, a democracia e uma tal civilização ocidental, Kapi respondeu à presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), a quem foram concedidos plenos poderes sobre a cultura pública de Campos. Se ela afirmou em entrevista que “todas as vertentes da cultura do município têm sido atendidas”, o diretor de teatro e poeta goitacá foi lacônico: “É mentira!”
(Foto de Rodrigo Silveira/ Folha da Manhã)
Folha Dois – Você participou de todas as manifestações dos artistas de Campos, desde a denúncia de censura à peça “Bonitinha, mas ordinária”, de Nelson Rodrigues, no Trianon, por supostos motivos religiosos da prefeita Rosinha. Até agora, qual é o saldo?
Antonio Roberto Kapi – Apesar de muito blá-blá-blá e do individualismo da natureza ególatra do artista campista, como bem disse Soffiati (aqui), acho que o saldo é positivo, principalmente pelo debate suscitado através do face e das entrevistas dadas por artistas e intelectuais à Folha da Manhã. Por inúmeras vezes tentei unir os diversos segmentos da classe artística para lutar em prol do bem comum, mas sempre me deparei com barreiras e suspeitas de que eu estava liderando movimentos em benefício próprio. Espero que desta feita o movimento sem lideranças vingue e seja vitorioso em suas reivindicações.
Folha – O professor e escritor Arthur Soffiati afirmou em entrevista que a discussão sobre a cultura de Campos importa mais do que aquilo que a gerou. Concorda? Por quê?
Kapi – Claro que sim. Essa política cultural (?) que vigora no município há muito, é uma política equivocada, calcada no princípio romano da política do “pão e circo”, que leva diversão para o povo, não cultura e não contribui em nada para a formação e o crescimento do ser humano que aqui vive. Não que a população não tenha direito à diversão, mas cultura é bem diferente de lazer e a indústria cultural de massa tem meios eficazes de se perpetuar, não depende de verbas públicas, a não ser quando serve a outros propósitos. Acho que a censura a “Bonitinha, mas ordinária”, do genial Nelson Rodrigues, foi providencial ao mostrar a cara da pobreza cultural e da incompetência dos gestores desta política. Foi o detonador de um processo de indignação da classe artística.
Folha – Sobretudo após a entrevista de Soffiati, que embora não tenha sido o único, foi quem mais abertamente criticou também os artistas locais, alguns destes acusaram o golpe, chegando a questionar o próprio debate. Como alguém que milita no meio há mais de 40 anos, há como se pretender fazer cultura sem debatê-la?
Kapi – Há que se considerar o fato de que toda a classe é composta de diversos indivíduos, inclusive a artística, com os mais diversos níveis de formação e talento. Cada um reflete no seu processo de criação o que absorve do mundo. Esse embate depende basicamente de sua capacidade intelectual e deságua no exercício dialético do debate. Muitas vezes sem nem mesmo entendê-lo.
Folha – Essa reação negativa de alguns artistas teria sido apenas vaidade ferida por quem se viu criticado numa discussão da qual talvez se julgasse dono, ou poderia ser algo mais, como as dificuldades que a continuidade do debate podem ter gerado em projetos pessoais junto à FCJOL?
Kapi – A classe artística local é bem diversa. O único elo comum é a vaidade. Não creio em artista modesto. E essa vaidade muitas vezes faz com que o artista não meça esforços para dar vazão ao seu exibicionismo. Só que não tem como ser “Arlequim, servidor de dois amos”. Ou você serve à causa ou aos seus interesses pessoais.
Folha – A partir da denúncia de censura de Nelson, o poeta Artur Gomes propôs (aqui) encenar em protesto “O pagador de promessas”, de Dias Gomes, nos jardins do Trianon. Depois, Soffiati propôs a formulação coletiva de uma notícia-crime ao Ministério Público para se investigar o suposto superfaturamento dos shows. E, sobre uma proposta e outra, nenhum artista sequer se pronunciou. Falta coragem?
Kapi – Acho que a remontagem do “O pagador de promessas”, de Dias Gomes, ironias à parte, bem pertinente, até porque protestar pela arte fazendo arte tem tudo a ver. Estamos juntos, Artur, pode contar comigo. Quanto à proposta de Soffiati, acho que “…não é que falte coragem, tá sobrando medo…”. Ninguém tá afim de dar a cara a tapa. Mesmo porque, falemos a verdade: se o Ministério Público de Campos quisesse de fato, já teria feito alguma coisa.
Folha – Também professor e escritor, Adriano Moura ressalvou (aqui) que “o artista não é apenas uma vítima no meio disso tudo”. Soffiati foi além ao afirmar: “Ele (o artista de Campos) está no poder não para atender ao público, mas para realizar suas ambições pessoais e para ter uma fonte de renda”. Via de regra, é isso mesmo?
Kapi – Como diz meu amigo Murilo Dieguez: “É cada um por si e Deus contra”. Mas se houvesse uma política cultural justa o artista se daria ao respeito. Pois respeito não se vende, não se impõe, se dá. Mas tentando sobreviver de sua arte, só se entregando ao que chamamos no teatro de caça níqueis.
Folha – Não só Adriano, Soffiati e Artur (aqui), mas também os professores Deneval de Azevedo Filho (aqui) e Cristina Lima (aqui), além do diretor de teatro José Sisneiro (aqui), foram unânimes em confirmar a existência da cultura do pires na mão, entre os artistas locais, em relação ao poder público. Acha que ela interessa mais a quem se acomoda em ser pedinte ou a quem escolhe se atende ou não? Há como mudar? Interessa mudar?
Kapi – Antes do advento do garotismo sempre se produziu cultura em Campos, em todos os segmentos. Cheguei a ganhar dinheiro fazendo teatro. À época, o único espetáculo que dirigi produzido pelo poder público municipal foi “Arena contra Zumbi”, de Gianfrancesco Guarnieri, em 1988, quando da inauguração do Parque Alberto Sampaio, no governo de Zezé Barbosa, quando a cultura do município era vinculada a um departamento e comandada pela professora Diva Abreu Barbosa. Depois começou a ser implementada uma política cultural (?) calcada em eventos, pura e simplesmente. Houve um tempo em que tínhamos oportunidade de assistir aos consertos do “Projeto Aquarius”, em que a folclorista Ana Augusta Rodrigues capitaneava a cultura popular e nos induzia a respeitá-la e valorizá-la. Hoje temos o Milton Cunha a ditar regras, sabe-se lá a que preço, sobre nossas manifestações culturais mais genuínas. Vivemos num tempo que em muito nos faz lembrar o filme “Mephisto”, de István Szabó. Se há como mudar? Claro que há. Depende de vontade política. Afinal, o Fundo Municipal de Cultura foi criado pra quê? Com dotação orçamentária e editais que contemplem os diversos segmentos, é a forma mais democrática e justa de se implementar uma política cultural no município. Essa história de se criar demandas é pura balela, embromação. Tentando contribuir para a efetiva implantação do fundo, consultei um tributarista, que me esclareceu sobre a inconstitucionalidade de se atrelar a dotação ao IPTU e ao ISS. Mas com relação aos royalties não há impedimento legal, o que falta é vontade política. Mas a municipalidade vetou, por achar elevado, o percentual de 0,1% proposto por Vilmar Rangel ao elaborar a minuta do projeto de lei de criação do Fundo. O que daria algo em torno de R$ 500 mil ao ano. Só o cachê da Bethânia foi em torno da metade deste valor. E eles acham este valor elevado? Faz-me rir!
Folha – Você trabalhou no primeiro governo de Anthony Matheus, além das administrações Sérgio Mendes, Arnaldo Vianna e Alexandre Mocaiber. Que diferenças observou não só entre cada uma delas, como também naquilo que viu de fora nas gestões Rosinha, integrando o processo que Deneval chamou de “garotização” e julgou “péssimo” à cultura de Campos? Soffiati está certo ao considerar essa política cultural ao longo de 24 anos como “populista” e “autoritária”? Por quê?
Kapi – Em 1989, tudo era novidade. Minha geração chegara ao poder e entendíamos que a máxima teatral, “O espetáculo não pode parar”, deveria ser o lema de nossa ação. Trabalhávamos muito, até que fizemos com que ele (Anthony) fosse considerado um grande administrador. Mas depois dos dois primeiros anos, a máscara começou a cair. Já no governo de Sérgio podemos implementar uma política de cultura e de turismo verticalizada. Chegamos a trazer uma faculdade de turismo para Campos. Do segundo governo de Garotinho, me neguei a participar. Quando Arnaldo assumiu passamos a viver uma fase de efervescência cultural, tanto no que tange à política cultural quanto à política de eventos em si, no que pese a forma de fomento implementada. Já no governo Mocaiber, tivemos a excelente atuação de Luciana Portinho à frente da cultura, que muito incentivou o artista local. Todas tiveram seus equívocos, erros e acertos. Mas nada supera o retrocesso, o populismo e a exclusão da política cultural (?) atual, que embora eu tenha em seu estafe pessoas do quilate de Orávio, de João Vicente, de Leninha, concentra todo poder e a caneta nas mãos de quem nem sabe quem é Nelson Rodrigues.
Folha – Leu a entrevista feita com a presidente da FCJOL no site Campos 24 Horas (aqui), sobre as críticas que a política pública da cultura do município vem sofrendo? Entre outras coisas, ela afirmou que todas as vertentes da cultura de Campos têm sido atendidas. Concorda?
Kapi – É mentira! Somente uns poucos privilegiados têm acesso às benesses do poder. Com exceção das bandas de axé, de pagode e similares e algumas instituições que botaram a boca no trombone, todos estão à míngua, tentando fazer das tripas coração para exercer o seu mister.
Folha – A presidente da FCJOL também defendeu na entrevista a centralização de toda política pública da cultura de Campos em suas mãos, feita a partir da última reforma administrativa de Rosinha, num movimento criticado publicamente por Artur, Adriano, Deneval, Soffiati, Cristina e Sisneiro. Você, o que achou?
Kapi – Essa reforma administrativa foi um verdadeiro retrocesso. Não tem explicação lógica que a justifique. Quem é Patricia, no que tange à cultura? Qual a sua experiência enquanto gestora? Quem é ela face a Orávio e João Vicente? Com essa defesa, ela demonstra claramente porque está ocupando o cargo que ocupa. “Só se conhece verdadeiramente um homem quando ele detém o poder e legisla as leis”, como asseverou Sófocles, em “Antígona”.
Folha – Ausente na entrevista foi a pergunta sobre as denúncias de favorecimento nas contratações pela FCJOL da banda A Massa, cujo percursionista é marido da presidente da mesma FCJOL. Mas o fato é que também nenhum artista tocou no assunto, nem na reunião com a presidente, em 17 de julho, nem na Conferência Municipal de Cultura, três dias depois, ambas com a sua presença. O assunto é tabu?
Kapi – Não acompanho de perto as contratações da Fundação. Tudo que sei é através do face e considero esse um nepotismo deslavado. Consta que a denúncia contra Patrícia Cordeiro e seu marido, por improbidade administrativa, já está feita no Ministério Público. Cabe, portanto, à prefeita e/ou ao Ministério Público abrir uma investigação para apurar os fatos e cumprir a devidas sanções. Se é tabu, temos que reivindicar que este seja quebrado.
Folha – Por falar na Conferência de Cultura, você perdeu a eleição de delegado para representar Campos na Conferência do Estado, em meio a vários indícios de irregularidade e manipulação no pleito, apontados (aqui) pela estilista Lívia Amorim. Por que essas denúncias não foram até hoje formalizadas à secretaria estadual e ao ministério da Cultura? É assunto posto? Sua eleição mudaria alguma coisa?
Kapi – Na realidade, eu estou eleito sim. Segundo Orávio, alguns participantes não oficializaram suas inscrições, o que levou a diminuir o número de representantes de três para dois, já que este deveria ser proporcional ao número de representantes da sociedade civil na conferência. Como ele correu atrás das pessoas para que estas se inscrevessem após o término da Conferência, a proporcionalidade passou de dois para três representantes. Afinal, eu já fui representante eleito da sociedade civil pela região Norte Fluminense no Conselho Estadual de Cultura. Devo ter alguma importância neste contexto.
Folha – Você é um dos principais defensores da implementação do Fundo Municipal de Cultura, aprovado desde o fim do governo Mocaiber e empurrado com a barriga nos cinco anos seguintes de governo Rosinha. Por que ele seria tão importante e como fazer para que finalmente se torne realidade?
Kapi – Como já disse, essa história de nós artistas criarmos demandas é pura balela. Acho lastimável que um governo cuja origem está nos palcos trate a cultura com tanto menosprezo. Esperava mais de Orávio, um intelectual e agente cultural com um histórico invejável. Acho que ele comete alguns acertos quando o deixam trabalhar, mas com a experiência e o currículo que tem, vê-lo jogando o jogo dos contentes é deplorável. Se a política municipal de cultura estiver alicerçada no Fundo e gerenciada pelo Conselho, acredito que teremos uma política cultural de fato. Acho que só conseguiremos isso deixando as vaidades e os interesses pessoais de lado e nos unindo para pressionar o Legislativo a abraçar a nossa causa. Com certeza, quem abraçá-la estará bem na fita com a classe artística.
Folha – Deneval e Soffiati lembraram a necessidade de interação entre os agentes culturais e as universidades do município, muitas vezes isolados em seus saberes. Entre 1994 e 2005, você dirigiu o departamento de cultura da Faculdade de Odontologia de Campos (FOC) e há pouco concluiu uma bolsa na Uenf. Qual a importância desse diálogo e como ele poderia evoluir no município?
Kapi – Sou do tempo em que a educação formal se baseava em preceitos humanistas, o que muito contribuiu para a formação do cidadão que hoje sou. Quando Lusitano me convidou para atuar na FOC como diretor teatral, vislumbrei a possibilidade de implantar uma coordenação cultural que pudesse incutir nos alunos uma consciência humanística que os levassem a uma consciência critica de seu papel social enquanto profissionais. Deu super-certo. Implantamos oficinas de teatro, canto coral, artes plásticas, buscando uma interação escola/comunidade que começou com a montagem de “Os órfãos de Jânio”, de Millôr Fernandes e culminou com a montagem de “O Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meirelles, que envolveu 100 pessoas em cena, entre alunos da FOC, da FDC e integrantes da comunidade do Matadouro. Já na Uenf, a visão tecnicista da educação dificultou um pouco a implementação de uma leitura humanista da formação acadêmica. Somente através da arte o ser humano é capaz de depurar sua sensibilidade. Não que todo mundo deva ser artista, mas a depuração da sensibilidade possibilita uma leitura mais humana do mundo.
Folha – Em seus tempos na FOC, você foi o primeiro a montar uma peça no Trianon, em 1995, ainda com o teatro só no esqueleto, sem teto. Como foi aquela encenação de “Gota d’Água”, adaptação de Chico Buarque e Paulo Pontes da tragédia grega “Medeia”, de Eurípedes? Cristina Lima disse sentir falta dos artistas de Campos no Trianon. E você?
Kapi – À época, embora integrasse o governo Sérgio Mendes, resolvi montar “Gota d’água” no Trianon no osso, como forma de protestar contra a morosidade da obra, além de provar que os artistas de Campos tinham condições e talento para ocupar aquele espaço. Na minha concepção o palco do Trianon estava para nós, artistas, assim como a casa própria para os operários. Após cada apresentação, fazíamos questão de ressaltar a importância da obra para a arte campista. No Festival de Teatro Universitário daquele ano, ganhamos todos os prêmios e Angela Bastos, então colunista social da Folha, passou a se referir a mim como “o mestre Kapi” no jornal. Mas não foi somente “Gota d’água” que montei no Trianon. “Terror e miséria no III Reich”, de Bertolt Brecht; “Sons do Planeta Blue”, de Beth Rocha; “O pássaro azul”, de Maeterlinck; “Os dragões não conhecem o paraíso”, de Caio Fernando Abreu; e “O Bruxo do Cosme Velho”, de Luciana Tavares, fazem parte do meu currículo naquela casa de espetáculos. Infelizmente o Trianon se transformou no grande detonador da produção cultural da cidade, com uma programação que em geral apresenta humoristas globais de qualidade duvidosa, do Zorra Total, um dos piores programas de humor da TV aberta brasileira. Quando não, é cedido para reuniões do estafe municipal, em pajelanças generalizadas, ou congressos e afins. O seu espaço deveria ser destinado exclusivamente para as arte.
Folha – Ironicamente, a última peça que você dirigiu, há um ano, no Sesc, foi justamente “Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico”. Na condição de quem mergulhou na vida e na obra do maior dramaturgo brasileiro, para reunir ambos no palco, como viu a denúncia da sua censura em Campos e a repercussão do caso em mídia nacional (aqui e aqui)?
Kapi – A sede de poder faz com que às vezes vassalos queiram ser mais realistas que o próprio rei. Não acredito que a iniciativa tenha partido diretamente de Rosinha. Muito menos de Orávio ou de João Vicente. Assim como não acredito nas desculpas esfarrapadas apresentadas para justificar o injustificável. Existe todo um estafe no Trianon capacitado para orientar os grupos e companhias que lá pretendem se apresentar. Se isso não ocorreu, alguém falhou e com certeza não foi o pessoal do grupo “Oito de Paus” (que denunciou a censura). Eu mesmo passei por uma situação no mínimo delicada, quando pretendi montar “Vestido de Noiva”, de Nelson. Quando souberam que eu estava ensaiando a peça, a então Fundação Teatro Municipal Trianon me solicitou o projeto, porque entendiam que o centenário de Nelson não poderia passar em branco. Apresentei o projeto e valores que seriam divididos com o Sesc. Fiquei aguardando até 15 dias antes da estréia prevista, com o contrato com o Sesc já assinado. Como não se dignaram a me dar uma satisfação, me vi obrigado a criar um texto, “Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico”, para não descumprir o contrato com o Sesc e, além de não receber, ter que pagar a multa devida por quebra de contrato. É uma falta de respeito total, ao teatro, aos artistas, à memória de Nelson. Acho que o Sated (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões) deveria se pronunciar emitindo uma nota de repúdio a esta situação.
Folha – Sobre sua direção de “Meu querido diário”, peça de Adriano interpretada por Yve Carvalho, no Teatro de Bolso, em 2009, a matéria da Folha Dois à época já alertava ao “ostracismo a que pretenderam relegá-lo os podres poderes da planície”. Como alguém com mais de 100 peças encenadas, inclusive no Rio de Janeiro, pode estar hoje desempregado e já há um ano sem montar nada numa cidade governada por um grupo político egresso do teatro? Seu caso resume o da cultura de Campos? E fere?
Kapi – Já estou acostumado com as adversidades. Nasci após três tentativas de aborto, de uma mãe tuberculosa. Há 16 anos adoeci, entrei em coma e sobrevivi sem seqüelas. Em 2009, após ficar desempregado, por apoiar a candidatura de Arnaldo à prefeitura, entrei num processo depressivo que resultou numa tuberculose, que levei três anos pra curar. Herdei de minha mãe a perseverança e sou bom de briga, no sentido figurado. Mas no momento, estou ensaiando “Zoo Story” , “A história do zoológico”, de Edward Albee, com Yve Carvalho e Luis Fernando Sardinha, sem apoio nenhum do poder público. Estamos tentando sensibilizar a iniciativa privada para podermos viabilizar o projeto. Afinal, vaso ruim não quebra, vira craquelê.