Um dia depois, resposta à denúncia de censura a Nelson por religião de Rosinha

“A Prefeitura de Campos não vai se pronunciar, porque desconhece oficialmente o assunto”. Foi com essa evasiva que a secretaria municipal de Comunicação Social de Campos respondeu por telefone, às 17h34, ao pedido de esclarecimento feito pelo repórter da Folha Celso Cordeiro, em relação à grave denúncia de que a encenação da peça “Bonitinha, mas Ordinária”, de Nelson Rodrigues (1912/80), maior autor da dramaturgia brasileira, que seria apresentada no Trianon pelo grupo carioca de teatro “Oito de Paus”, como chegou a ser programado para 10 de agosto, foi cancelada com a justificativa de que o texto seria “imoral”, teria “muitos palavrões”, o que “poderia ofender a prefeita Rosinha, por ela ser evangélica”.
Segundo divulgou inicialmente aqui o blogueiro Cláudio Andrade, em e-mail enviado pelo diretor do grupo “Oito de Paus”, Luís Felipe Perinei, a versão ao cancelamento da peça lhe teria sido repassada pelo ex-diretor da Fundação Trianon, hoje superintendente do teatro, após a reforma administrativa de Rosinha, João Vicente Alvarenga. Este, de acordo com Luís Felipe, teria se mostrado “indignado” com a decisão, que teria sido tomada pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, nova toda-poderosa da cultura de Campos, presidida pela Patrícia Cordeiro, esposa do cantor baiano Lucas “Cebola” e considerada pessoa do círculo de confiança pessoal da prefeita Rosinha.

Não por outro motivo, João Vicente e Patrícia também foram procurados pela reportagem da Folha. No relato criterioso do seu jornalista Celso Cordeiro:
— João Vicente foi procurado, por telefone, às 14h30, mas não se encontrava na presidência do Teatro Trianon. Sua secretária Vânia atendeu e prometeu localizá-lo, tendo o cuidado de saber antes qual era o assunto. Informada, pediu para que entrasse em contato daqui a uma hora. Às 15h35m, durante novo contato disse que ele não se encontrava e que não tinha hora para chegar, mas que o recado foi passado. Quanto a Patrícia Cordeiro, ao ser contactada, às 14h51, também não foi localizada, mas no seu gabinete, a secretária Carla Rocha pediu o telefone do repórter e disse que retornaria. Nesta verdadeira via-crucis telefônica, às 15h10m, o assessor de imprensa da Fundação Oswaldo Lima, Ruan Gomes Barros, ligou à redação da Folha. Pediu que o assunto a ser tratado com Patrícia fosse formalizado através de e-mail e, que logo em seguida, daria a resposta também por e-mail. Às 16h, após o envio do e-mail solicitado, Ruan foi procurado novamente, mas argumentou que Patrícia não havia chegado e que tão logo tivesse a resposta, a enviaria. Diante da observação que a matéria teria horário para ser fechada, disse lamentar mas que nada poderia fazer.
Também integrante do grupo “Oito de paus”, Rodrigo Vahia se manifestou aqui, sendo replicado aqui no blog da editora da Folha Dois, Lívia Nunes, sobre o cancelamento da peça no Trianon, e seus supostos motivos de ordem pessoal e religiosa da prefeita de Campos:
— O fato que vou relatar aqui é GRAVE. Não pelo aspecto financeiro ou pelo descomprometimento. Mas pelo coronelismo e pelo cerceamento ao direito individual de liberdade. Além de, grosseiramente falando, ainda termos pessoas despreparadas e imbecis opinando e interferindo sobre políticas culturais, quando na verdade não deveriam nem estar varrendo rua, que é para não ofender os garis. Mas o fato é que o meu grupo de teatro teve a peça “Bonitinha, mas Ordinária” CENSURADA em Campos, pela Fundação Trianon, após a troca da sua presidência que resolveu rever os projetos já contratados. Simplesmente porque a peça de Nelson Rodrigues poderia ofender a prefeita Rosinha Garotinho, que é evangélica. Em pleno século XXI? Roubo, corrupção, lavagem de dinheiro através de ONGs, isso não ofende a atual prefeita, não é… Coitada, ela não deve saber dessas coisas… Ou deve rezar bastante e seu Deus a perdoa. Afinal, dinheiro não falta para pagar a própria redenção. Mas aí já não cabe a ninguém… Já que trata da individualidade dela. A questão é quando a individualidade de um governante interfere nas escolhas referentes ao coletivo. E é na minha opinião, a menos que eu esteja realmente ficando louco, INADMISSÍVEL, uma peça ser censurada porque pode desagradar esse ou aquele político!!! SE ALGUÉM CONCORDA COMIGO, POR FAVOR, COMPARTILHE ESSA MENSAGEM ATÉ QUE ELA CHEGUE À FUNDAÇÃO TRIANON EM CAMPOS. Não porque eu queira fazer a peça lá agora, porque sinceramente perdi a vontade. Mas porque acho digno mostrar também a essas pessoas que não vivemos mais em um regime absolutista e que não se faz política, nem muito menos arte, com a opinião ou aprovação de quem quer que seja. Nem de Deus. Quiçá de uma rosa.
Atualização às 19h50 para correção de datas.
Atualização às 12h30 de 10/07 para reproduzir a resposta dada só hoje por João Vicente Alvarenga, em nome do Teatro Trianon, publicada aqui, aqui, aqui e aqui, respectivamente, nos blogs do Ralfe Reis, do Gustavo Matheus, do Alexandre Bastos e da Suzy Monteiro, mas sonegada durante todo o dia de ontem à reportagem da Folha. Apesar de genérica, sem tratar especificamente da versão apresentada publicamente à denúncia de censura da peça, confira abaixo a nota da superintendência do Trianon:
“Cumpre-nos informar que não há nenhuma verdade nas alegações do grupo teatral 8 de Paus. O fato é que em reunião de rotina com diretores e a presidente da FCJOL observei que a peça “Bonitinha, mas ordinária” apresentava inconsistência na documentação apresentada, sugerindo sua análise posterior para aproveitamento no cronograma do Departamento de Literatura da Fundação Cultural, na medida em que não havia compromisso consolidado em contrato.
A prefeita Rosinha não teve acesso à agenda de agosto do Teatro Trianon, que não se encontrava fechada, e, portanto, não se posicionou a respeito de seu conteúdo. Cabe ressaltar que a administração pública é laica e que o fato da Prefeita ser evangélica não nos impediu de pontuar os atos culturais de forma múltipla, diversa, e respeitosa, apoiando realizações como a do Carnaval, grupos de Jongos e Mana Chica (manifestações afro-religiosas), festas tradicionais da Igreja Católica ou eventos por esta religião promovidos, como a da Jornada Mundial da Juventude, entre tantas outras.
Para nós, tanto Nelson Rodrigues, como qualquer outra expressão do teatro, da literatura, das artes em geral, tem sua importância. Entendemos que a palavra ganha no teatro conotações múltiplas através do jogo metafórico que se instaura em cena.
Recebemos no Trianon a comédia “Hermanoteu na terra de Godah”, que conta a história de Hermanoteu, típico hebreu do ano zero, companheiro, bom pastor e obediente. Ele recebe a missão divina de guiar seu povo à terra de Godah, numa sátira à história bíblica de Moisés. A pré estreia de “Maria do Caritó”, protagonizada pela atriz Lilia Cabral e tantas outras obras importantes e consagradas, independente de referências religiosas, ganharam espaço. Tal fato nos conduz a seguinte reflexão: o verdadeiro preconceito e a intolerância podem estar se apresentando de forma invertida.
Atenciosamente,
João Vicente Alvarenga
Superintendente do Teatro Municipal Trianon/FCJOL – Prefeitura de Campos”

















