Aqui, em seu “Ponto de Vista”, o blogueiro Christiano Abreu Barbosa ressaltou, dia desses, a boa sacada da campanha de Rosinha em colocar a imagem dela junto de cada placa de candidato a vereador. Uma vez que a coligação governista detém a maior nominata, poder econômico e estrutura de campanha, a superexposição da prefeita tende a favorecê-la em outubro.
Em contrapartida, como uma observadora comum, mas arguta, ressalvou ao blogueiro, o tiro pode sair pela culatra, não na eleição majoritária, mas na proporcional, já que a tendência natural do eleitor é guardar o que há de comum nas placas, a prefeita, não seus muitos candidatos a vereador, transformados em meros acessórios de campanha. O principal, para o grupo de Garotinho, é manter o poder e o controle sobre o orçamento bilionário de Campos. Quem vier acompanhando Rosinha, na Câmara, que venha. Quem não conseguir, pouco ou nenhuma falta fará. Sempre vai existir outro para ocupar seu lugar.
Escrita pelo poeta beatnik (da geração do pós-II Guerra e pré-hippie) Eben Ahbez, “Nature Boy” se tornou um standard da música popular dos EUA no piano e voz aveludados de Nat King Cole. É uma das tantas músicas legadas pelo meu pai como repertório de cabeceira.
Ouvimos a canção juntos, pela última vez, na voz que Rodrigo Santoro emprestou ao polêmico craque Heleno, do qual ele tanto já me havia falado, no filme homônimo que o que levei para assistir num cinema de poucos meses atrás. Na tela, Heleno canta na rádio para saudar o filho que nasce. Curiosamente, mas não por acaso, o menino descrito na sua letra singela (no original e na tradução abaixo) me traz a lembrança vívida daquilo que nunca morreu, ou morrerá, no velho Aluysio…
Nature boy
There was a boy
A very strange enchanted boy
They say he wandered very far, very far
Over land and sea
A litte shy and sad fo eye
But very wise was he
And then onde day
A magic day he passed my way
And while we spoke of many things
Fools and kings
This he said to me
“The greatest thing you’ll ever learn
Is just to love and be loved in return”
Garoto Natural
Havia um menino
Um menino muito estranho e encantado
Dizem que ele vagava muito longe, muito longe
Sobre terra e no mar
Um pouco tímido e triste para os olhos
Mas muito sábio ele era
E então um dia
Um dia mágico ele passou no meu caminho
E enquanto nós falamos de muitas coisas
Tolos e reis
Isso ele me disse:
“A melhor coisa que você aprenderá
É amar e em troca amado ser”
Como ator, meu pai considerava Fábio Júnior até razoável. Quanto aos seus dotes musicais, no entanto, o crítico era lacônico: “Não existe!”. Sobre toda a obra do compositor, Aluysio guardava apenas uma admirada exceção, que, não sem emoção, ora divido aqui…
“Está vendo o horizonte? Se você olhar bem, vai enxergar a África bem lá no final! Foi de lá que veio o homem, meu filho! Foi lá que tudo começou!”. À beira mar, onde o dublê de jornalista e pescador gostava de passar os finais de semana de sol com sua família, era o que dizia aquele pai, mais ou menos com a idade que tenho hoje, àquela criança que um dia fui.
Mais que qualquer outra coisa, mais que seus testemunhos de criança nos tempos da II Guerra Mundial, das molecagens do menino criado em Guarus, da rebeldia do adolescente expulso do Liceu para acabar interno em Pádua, mais que as estórias do boleiro campeão pelos juvenis do Rio Branco no enfrentamento direto contra o Americano de Amarildo (depois Bi-Campeão do Mundo pelo Brasil, no Chile, em 1962), mais que as inconfidências do mulherengo inveterado, que o gosto pela música, pela literatura, pelo cinema, pelos esportes, mais do que qualquer lição de jornalismo, nenhuma semeadura do meu pai vicejou tanto em mim quanto aquela “África” a ser buscada no final do horizonte, a origem de todos nós naquela imensidão de quando o Atlântico se espraia diante da nossa própria pequeneza neste mundo.
Durante muito tempo, aquilo se transformou numa obsessão. Criança e adolescente, sempre quando à beira mar, fitava o horizonte até os olhos doerem, ou serem lentamente tomados pela cegueira enquanto o sol se punha mansamente às minhas costas. Posteriormente, o hábito acabou convertido em preocupação para aquele que o incutiu em mim, depois que passei, na juventude, a pegar o carro, a esmo, em qualquer madrugada ávida de imensidão, para guiar sozinho na Campos-Atafona, só para ver o sol brotar de dentro do mar, até que o astro amigo dos poetas Rimbaud e Maiakóvski me cegasse em seu nascimento, como antes também fazia em sua morte.
Foi mais ou menos nessa época em que tive a última pescaria com meu pai, lá para os lados de Iquipari, bem antes destes tempos do Porto do Açu. Estávamos eu, Aluysio e o Rafael Abud, hoje médico. No auge do nosso vigor físico, jovens homens bem maiores e mais fortes que o pequenino e já cinquentão Barbosa, eu e Rafael nos orgulhávamos das nossas varas de fibra japonesa e dos nossos molinetes de última geração. Mas a empolgação só durou até o momento do primeiro arremesso.
Eu e Rafael avançávamos na água quase até o pescoço para arremessar nossas linhas uns 100, 150 metros mar adentro. Papai pouco molhava os pés para lançar suas iscas depois da arrebentação das ondas, com sua vara simples de bambu e sua inseparável carretilha Penn, na qual chegava a queimar o dedo para não deixar que fossem embora todos seus 250 metros de linha. Depois de nos humilhar, sem grande esforço, o velho pescador só olhava para a gente e ria.
Seja para buscar a África ou o peixe, meu pai me ensinou a olhar a imensidão sempre de frente. Foi dessa maneira, de cabeça em pé, com uma coragem física e uma serenidade que nunca vi em nenhum outro homem, que ele lutou pela própria vida, até o fim, como os peixes que mais admirava fisgar; como o marlim capturado pelo velho Santiago, enquanto sonhava com leões brincando nas praias da África, na prosa em que Hemingway legou, de pai para filho, tantas lições de jornalismo, de vida e de mar.
Tentei lutar ao seu lado. Nos últimos dois meses, pouco me dediquei a qualquer outra coisa. Mas não consegui fazer o que meu pai um dia fez por mim; não consegui salvar sua vida. Meu arremesso, em todos os sentidos, sempre foi mais curto que o dele.
Todavia, com a idade madura e minha própria paternidade, aprendi que mais importante do que conseguir enxergar a África, é buscá-la, sempre, ao final do horizonte de todo dia. Afinal, como um jornalista e pescador revelou certa vez a uma criança, é de lá que nós todos viemos. É lá, do outro lado do oceano, que meu pai me espera.