Papel de Nahim em outubro espera definição jurídica de Rosinha

Qual será o papel do presidente da Câmara de Campos, Nelson Nahim (PPL), nas eleições municipais de outubro próximo? Desde outubro passado, quando rompeu com o irmão e deputado federal, Anthony Garotinho (PR), mesmo com o aumento do número de cadeiras no Legislativo, das 17 atuais, para 25, tudo indica que Nahim terá uma disputa dura para tentar se reeleger vereador. De fato, a continuar as coisas como aparentemente estão, as dificuldades do irmão de Garotinho parecem opostas às facilidades que a esposa deste, Rosinha (PR), teria para tentar sua própria reeleição como prefeita — segundo não só indicam as pesquisas governistas, como é também sugerido por aquelas que os oposionistas prometerem e não fizeram, ou as que prometem ainda fazer, mas não garantem divulgar.

Todavia, condenada em decisão plenária do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), em 27 de maio de 2010, numa Ação de Impugnação de Mandato Eletivo (Aime), cujo recurso ainda aguarda julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e condenada também por decisão monocrática de primeira instância, a 28 de setembro de 2011, numa Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije), cujo recurso também aguarda novo julgamento do TRE, as perspectivas de Rosinha parecem mais certas no voto do eleitor campista, do que nos colegiados dos dois Tribunais. Em tese, um ou outro podem não só cassá-la uma terceira vez, como impedir sua candidatura pela Lei do Ficha Limpa, mesmo que lhe seja permitido cumprir até o final o mandato conquistado em 2008, na eleição que gerou as duas ações.

No primeiro caso, com uma nova cassação de Rosinha, ou pela Aime no TSE ou pela Aije no TRE, Nahim seria sem sombra de dúvida o maior benificiado, pois não só assumiria a Prefeitura, como poderia disputar a eleição ao cargo, sem ter concorrendo contra ele nenhum parente, como é o caso, por exemplo, de Wladimir (presidente municipal do PR), da deputada estadual Clarissa (que já se comprometeu em disputar a Prefeitura do Rio, como vice na chapa encabeçada pelo deputado federal Rodrigo Maia, na dobradinha com o DEM), ou do próprio Garotinho.

Já caso o TRE ou o TSE entendam que a prefeita não deva mais uma vez ser afastada, por estar já no término do mandato e se tratar de um ano eleitoral, mas confirmem suas condenações de inelegibilidade, a cotação de Nahim também subiria. Muito embora não pudesse se candidatar à Prefeitura, com esta ocupada pela cunhada, o apoio do presidente da Câmara passaria a pesar muito mais, sendo favorável ou contrário a uma candidatura governista alternativa, que se cogita nos bastidores, diante do impedimento de qualquer outro nome da família Garotinho, ser o caso de Geraldo Pudim, ex-secretário de Governo de Rosinha e derrotado nessa mesma disputa em 2004 e 2006.

Embora não negue nenhuma dessas possibilidades, Nahim se limitou a dizer que se encontra apenas concentrado na formação da nominata do seu PPL à eleição proporcional, na qual admite poder se coligar com o PPS do vereador Rogério Matoso ou com o PRP de Fabrício Lírio — duas legendas de oposição aos Garotinho. “Para a majoritária, tanto eu, como meu partido temos até junho, prazo para as convenções para tomar uma posição. Não há motivo para fazermos isso agora”, justificou.

No lugar de adiamento, no entanto, a estratégia de Nahim de evitar, por ora, qualquer posicionamento sobre a sucessão de Rosinha, pode ser entendida como uma maneira de ganhar tempo, pelo menos até que as questões jurídicas ainda abertas definam o quadro político real de outubro. Do mesmo modo, embora não admita publicamente nenhuma outra opção, que não a candidatura de Rosinha à reeleição, o fato de Garotinho ainda permitir a Nahim manter várias indicações no governo da esposa, indica que o presidente estadual do PR também tem seus motivos, talvez mais jurídicos que pessoais, para ainda não ter queimado todas as pontes com seu próprio irmão.

Do blues à ópera, a humanidade

Depois da empáfia machista proposta na letra de “Hoochie Coochie Man”, seja cantada por Muddy Waters (1915/83) ou Eric Clapton, o equilíbrio mais próximo à realidade de todos os homens cruza a ponte do blues à ópera, dois estilos tão distintos, embora siameses na mesma passionalidade com que expõem sentimentos em música. Do bluseiro William Dixon (1915/92) passemos, pois, à ópera “Pagliacci” (“Palhaço”) do italiano Ruggero Leoncavallo (1857/1919).

Na voz do tenor espanhol Placido Domingo, a ária que conclui o primeiro ato da ópera é a minha preferida entre todas, como era coincidentemente também a do meu avô paterno, Domingos Barbosa, o “Capitão”, ele próprio um tenor amador, que infelizente não cheguei a conhecer. Em “Vesti la Giubba”, Canio, o chefe de meia idada da trupe de atores, após descobrir que sua jovem esposa (Nedda) o traíra, é obrigado a deixar os sentimentos momentaneamente de lado, para se maquiar e dar vida ao palhaço que seu público espera ansioso do outro lado das cortinas.

Nessa contradição entre a mais profunda angústia pessoal e a necessidade de fazer rir, antítese realçada pela capacidade dramática do grande tenor (e ator), o dó de peito vem ecoado desde o início dos tempos por tudo aquilo que nos faz homens.

Abaixo, a tradução em português de “Vesti la Giubba” e sua comovente interpretação por Placido Domingo, xará em nome e tom de voz do meu avô…

Vesti La Giubba

Recitar,
enquanto tomado pelo delírio
não sei mais aquilo que digo
e aquilo que faço.

Todavia é necessário. Esforça-te! Vai!
És tu talvez um homem?
Ah! ah! ah! ah! ah!
Tu és Palhaço.

Veste o casaco
e a cara enfarinha.
O povo paga
e quer rir aqui.

E se Arlequim
te rouba a Colombina,
ri Palhaço
e cada um aplaudirá.

Muda em piadas
o espasmo e o choro,
numa careta o soluço
e a dor.

Ah! Ri Palhaço,
sobre o teu amor partido.
Ri da dor
que te envenena o coração!

Calcinhas, blues e rock and roll

Um meeiro negro e pobre do Mississipi, que migrou para Chicago e lá descobriu que o violão acústico, perfeito para ecoar seu lamento nas amplidões silenciosas do meio rual, não era mais suficiente para fazer prevalecer sua música em meio ao caos sonoro de um grande centro urbano, levando-o a amplificar o blues com uma guitarra elétrica. Esse foi Muddy Waters (1915/83), cujo verso “pedras que rolam, não criam limo”, da música “Catfish Blues” (literalmente “Blues do Bagre”), seria depois usado por alguns garotos brancos da Inglaterra para batizar sua banda, uma tal de Rolling Stones.

A música mais famosa do repertório de Muddy, “Hoochie Coochie Man”, curiosamente não é dele, embora escrita para ele por outra lenda do blues egressa do Mississipi: Willie Dixon (1915/92). Nela, na descrição do fascínio sobre as mulheres que o mestre bluseiro exercia, já estão todos os elementos que mais tarde um outro negro, Chuck Berry, descoberto por Muddy, misturaria ao country para fundar o rock and roll — e os garotos brancos como Elvis (1935/77) ficarem com o crédito.

A diferença, como gostava de definir Dixon, muito antes do nosso Wando (1945/2012), é relativamente simples: “A primeira vez que uma moça tirou a calcinha e a jogou no palco, foi por causa de um sujeito que cantava blues, mas quando as brancas também começaram a fazê-lo, virou rock and roll”.

Para conhecer essa rica gênese da música que mudaria o mundo entre os anos 50 e 70 (no Brasil, notadamente nos 80), uma boa dica é se assistir ao filme “Cadillac Records”, de Darnell Martin, que conta um pouco da história de Muddy, Dixon, Berry, entre outras lendas como Little Walter (1930/68), Howllin’ Wolf (1910/76) e Etta James (1938/2012), todos reunidos no período áureo da Chess Records. Para quem assina a Sky, as próximas exibições estão programadas para às 14h50 do dia 14 e às 9h30 do dia 24, sempre no canal 77 e, em HD, no 277.

Abaixo, a tradução em português e a execução por Muddy Waters, em seu auge, da música que Willie Dixon fez para descrevê-lo, sempre viva no repertório dos grandes mestres atuais do gênero, como Eric Clapton, que a entoou em um dos pontos altos da sua última apresentação no Rio, na HSBC Arena, em outubro passado…

 

(Eu Sou Seu) Homem Hoochie Coochie

A cigana disse à minha mãe
Antes de eu nascer
Eu tenho um garoto vindo
Ele vai ser um filha da mãe
Ele vai fazer garotas bonitas
Pular e atirar
Então o mundo quer saber
sobre o que é isso tudo
Mas você sabe que eu sou ele
Todo mundo sabe que eu sou ele
Bem você sabe que eu sou o homem hoochie choochie
Todo mundo sabe que eu sou ele

Eu tenho um osso preto de gato
Eu tenho um mojo também
Eu tenho o conkeroo do Johnny
Eu vou mexer com você
Eu vou pegar suas garotas
Leve-me pela minha mãe
Então o mundo irá saber
O homem hoochie coochie
Mas você sabe que eu sou ele
Todo mundo sabe que eu sou ele
Oh você sabe que eu sou o homem hoochie coochie
Todos sabem que eu sou ele

Na sétima hora
No sétimo dia
No sétimo mês
Os sete médicos disseram
Ele nasceu por boa sorte
E que você verá
Eu tenho setecentos doláres
Não mexa comigo
Mas você sabe que eu sou ele
Todo mundo sabe que eu sou ele
Bem você sabe que eu sou o homem hoochie coochie
Todo mundo sabe que eu sou ele

 

 

 

Clarissa: “Oposição em Campos não faz nem cosquinha!”

Clarissa
Foto de Mariana Ricci

“A oposição de Campos não faz nem cosquinha!”. Quem garantiu isso hoje foi a deputada estadual Clarissa Garotinho (PR), também pré-candidata a vice-prefeita na chapa encabeçada pelo deputado federal Rodrigo Maia (DEM), na disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro. Em Campos, ela procurou a Folha, na tarde de hoje, onde deu uma entrevista ao jornalista Thiago Andrade. Nela, depois de considerar certa a reeleição da sua mãe como prefeita, ainda no primeiro turno, soltou a pérola sobre as supostas limitações liliputianas da oposição campista.

A etrevista, na íntegra, será publicada amanhã, na versão impressa da Folha…

As mulheres, no seu dia, por Bukowski

Hoje, dia internacional da mulher, minha lembrança ao gênero oposto nesta nossa pretensiosa espécie de macacos sem rabo, com polegar opositor e pouco pêlo, se dá da única maneira que conheço: como homem! Neste sentido, para definir o pouco que sei e o muito que sinto em relação às mulheres, minha irrelevante escolha recaiu sobre os versos do escritor nascido na Alemanha e criado nos bares e becos dos EUA, sobretudo de Los Angeles, Charles Bukowski (1920/94), beberrão invereterado, maldito na vida e na obra, não por acaso também conhecido pela alcunha de “Velho Safado”.

Quem quiser saber um pouco mais de sua vida, além da leitura da sua obra em verso e prosa, quase sempre autobiográgica, uma boa e rápida dica é se assitir ao filme “Barfly – Condenados pelo Vício”, de 1987, do diretor francês Barbet Schroeder, com o também maldito (e excelente) ator Mickey Rourke interpretando a personagem central, inspirada em Bukowski, no roteiro por ele escrito. Agora, para se saber dos seus sentimentos sobre as mulheres, neste dia a elas dedicado, o melhor mesmo é ler o seu…

 

 

Bukowiski deitado e soterrado de amor às mulheres
Bukowski deitado e soterrado de amor às mulheres

 

 

Um poema de amor

todas as mulheres

todos os beijos delas as

formas variadas como amam e

falam e carecem.

suas orelhas elas todas têm

orelhas e

gargantas e vestidos

e sapatos e

automóveis e ex-

maridos.

principalmente

as mulheres são muito

quentes elas me lembram a

torrada amanteigada com a manteiga

derretida

nela.

há uma aparência

no olho: elas foram

tomadas, foram

enganadas. não sei mesmo o que

fazer por

elas.

sou

um bom cozinheiro, um bom

ouvinte

mas nunca aprendi a

dançar — eu estava ocupado

com coisas maiores.

mas gostei das camas variadas

lá delas

fumar um cigarro

olhando pro teto. não fui nocivo nem

desonesto. só um

aprendiz.

sei que todas têm pés e cruzam

descalças pelo assoalho

enquanto observo suas tímidas bundas na

penumbra. sei que gostam de mim algumas até

me amam

mas eu amo só umas

poucas.

algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;

outras falam mansamente da

infância e pais e

paisagens; algumas são quase

malucas mas nenhuma delas é

desprovida de sentido; algumas amam

bem, outras nem

tanto; as melhores no sexo nem sempre

são as melhores em

outras coisas; todas têm limites como eu tenho

limites e nos aprendemos

rapidamente.

todas as mulheres todas as

mulheres todos os

quartos de dormir

os tapetes as

fotos as

cortinas, tudo mais ou menos

como uma igreja só

raramente se ouve

uma risada.

essas orelhas esses

braços esses

cotovelos esses olhos

olhando, o afeto e a

carência me

sustentaram, me

sustentaram.