Nelson Lellis — Lula entre aprovação de governo e a urna


Para além da rejeição: Por que a desaprovação do governo não tira votos de Lula?
Por Nelson Lellis
“Existem três tipos de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas.”
(Atribuída ao ex-primeiro ministro britânico Benjamin Disraeli)
O governo Lula III enfrentaria um cenário de alerta na opinião pública? Um levantamento do instituto Gerp, divulgado no último dia 9 de junho, aponta que 52% dos eleitores desaprovam a atual gestão federal, enquanto 40% a aprovam. A pesquisa, que ouviu 2.000 brasileiros entre os dias 2 e 5 de junho de 2026, mostra ainda que 45% avaliam o governo como “ruim” ou “péssimo”, ante 33% que o consideram “ótimo” ou “bom”.
Contudo, é sempre importante ter cautela na leitura isolada desses números. O instituto Gerp possui um histórico de adotar metodologias que frequentemente destoam de empresas consideradas o padrão-ouro do mercado demoscópico (estudo da opinião pública) brasileiro, como o Datafolha e o Ipec (antigo Ibope), ou de institutos modernos, como a Quaest. Como costumam alertar cientistas políticos, como Felipe Nunes, as disparidades na coleta da amostra, a exemplo do modelo de entrevistas e dos recortes de estratificação social, podem provocar distorções nos resultados. No caso do Gerp e de institutos de porte semelhante, é comum que os resultados apresentem um viés mais desfavorável a governos de centro-esquerda e mais otimista para o campo conservador, quando comparados à média dos agregadores de pesquisas.
Há ainda outro elemento importante, trazido por Patrick Charaudeau, ao afirmar no livro A conquista da opinião pública, que “a opinião não é o eleitorado”. Para ele, as pesquisas capturam um estado momentâneo e reativo, impulsionado pelos estímulos midiáticos e pelo calor dos acontecimentos recentes. Expressar insatisfação em uma pesquisa é um ato discursivo que pode ser interpretado fora de algumas questões práticas da realidade. O ato de votar, por outro lado, exige do cidadão um cálculo estratégico, a ponderação de rejeições e a escolha entre projetos reais de poder. Confundir o retrato momentâneo da opinião pública com o comportamento definitivo do eleitorado seria um erro, pois o cidadão que hoje desaprova o governo pode, diante das urnas, optar por ele em função da rejeição a um adversário.
Ainda assim, para além das ressalvas metodológicas e dos números absolutos da pesquisa, dados cruzados de outros institutos mais consolidados, como Quaest e AtlasIntel, confirmam que a cristalização de uma rejeição elevada não é um fenômeno isolado. Trata-se do reflexo de insatisfações concretas em áreas sensíveis para o eleitorado médio. Elenco algumas abaixo.
O principal vetor de desgaste governamental segue sendo a economia. Embora os indicadores macroeconômicos oficiais, como a taxa de desemprego, apresentem estabilidade, há uma forte descolagem em relação à percepção real da população. A sensação de encarecimento do custo de vida, aliada a salários corroídos e à precarização do trabalho, atinge diretamente o poder de compra das famílias. Para muitos brasileiros, os resultados econômicos anunciados por Brasília ainda não se traduziram em alívio financeiro no fim do mês.
Paralelamente à pauta econômica, a segurança pública e o combate à corrupção despontam como pontos vulneráveis da administração petista. O governo tem enfrentado graves dificuldades para emplacar uma agenda positiva na área de segurança, um tema que historicamente expõe limitações ao campo da esquerda. A sensação de insegurança urbana e as reações negativas a posicionamentos do governo em debates, como a descriminalização de entorpecentes para uso pessoal, acabam por afastar o eleitor de centro e os chamados “independentes”.
Por outro lado, quando a lente de análise passa da avaliação administrativa para a disputa eleitoral, o quadro ganha novos contornos. Uma nova pesquisa analisada pelo diretor da Quaest, publicada (confira aqui) em meados de junho, revela que Lula chega a este momento de pré-campanha com duas vantagens estratégicas sobre Flávio Bolsonaro: possui um voto mais consolidado e enfrenta uma rejeição menor. Segundo os dados apresentados, 75% dos eleitores de Lula afirmam que sua decisão de voto é definitiva, enquanto entre os apoiadores de Flávio esse índice é de 68%. Isso indica que o presidente conta com uma base eleitoral mais estável e menos suscetível a mudanças.
Outro fator determinante envolve a rejeição pessoal dos candidatos. A pesquisa Quaest aponta que 48% dos entrevistados dizem que não votariam em Lula de jeito nenhum, enquanto a rejeição a Flávio alcança 54%. Em uma eleição polarizada, essa diferença de 6 pontos percentuais pode ser decisiva, já que a rejeição elevada costuma limitar o potencial de crescimento de um candidato fora de sua bolha.
Esses números ajudam a explicar por que Lula tem conseguido ampliar sua vantagem. Na pesquisa BTG/Nexus, o presidente aparece (confira aqui) com 42% das intenções de voto, contra 33% de Flávio, no primeiro turno. Em um eventual segundo turno, o petista venceria por 49% a 43%. Essa combinação criaria um cenário confortável: enquanto Lula foca em manter sua base mobilizada, a oposição enfrenta o desafio de reduzir as resistências. Esse desafio fica ainda mais evidente ao observarmos os recortes demográficos recentes. De acordo com o detalhamento da Quaest divulgado nesta semana pelo G1, Flávio tem perdido tração em estratos que extrapolam o núcleo lulista, o que ajuda a explicar a vantagem do atual presidente. O senador viu seu apoio recuar consideravelmente entre mulheres, jovens de 16 a 34 anos e eleitores evangélicos, um grupo historicamente alinhado ao bolsonarismo. Além disso, Flávio apresentou quedas no Sudeste e no agregado Centro-Oeste/Norte, sugerindo uma perda de força entre os chamados eleitores independentes, como destacou (confira aqui) o blog Opiniões no Folha1.
Diante do termômetro das ruas e dos levantamentos de opinião, o governo entra no segundo semestre de 2026 com o desafio administrativo de recalibrar sua comunicação, adotar um tom mais conciliador e entregar medidas econômicas de impacto palpável para as classes médias e baixas. Contudo, a conclusão dos números é direta: apesar das críticas à gestão, Lula se aproxima da campanha com um eleitorado mais fiel e uma barreira de rejeição menor do que a enfrentada pelo bolsonarismo, provando que, no xadrez político, a resiliência eleitoral tem falado mais alto que o desgaste de governo.


























