Divulgada ontem (31), a pesquisa do instituto Paraná foi a sétima nacional do mês de março a registrar o mesmo quadro de empate técnico ou numérico entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) em um eventual segundo turno presidencial. Mas, se todos os levantamentos registram a tendência de crescimento de Flávio, ele já aparece numericamente à frente no segundo turno de outubro na pesquisa Paraná: 45,2% a 44,1% do petista (1,1 ponto atrás, em empate técnico).
Lula atrás de Flávio no segundo turno também na AtlasIntel — A outra pesquisa de março que também registrou Flávio numericamente à frente de Lula, em mais um empate técnico, na simulação de segundo turno, foi (confira aqui) a AtlasIntel: 47,6% a 46,6% do atual presidente (exato 1 ponto atrás). Outras pesquisas de março colocaram os dois em empate exato em um eventual segundo turno presidencial, como (confira aqui) a Quaest: Lula 41% a 41% Flávio.
(Infográfico: Joseli Matias)
Flávio cresce em todas as pesquisas — O que todas as sete pesquisas de março registraram é o crescimento rápido de Flávio nas intenções de voto, desde que foi lançado pré-candidato a presidente pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em 5 de dezembro. Na pesquisa Paraná divulgada ontem o 01 perderia o segundo turno para Lula em dezembro por 44,1% a 41,0%, 3,1 pontos atrás. Em março, Flávio liderou o segundo turno por 45,2% a 44,1%, crescimento de 4,2 pontos sobre Lula em apenas três meses.
Lula lidera ao primeiro turno em empate técnico com Flávio — Como também em todas as demais seis pesquisas de março, Lula ainda lidera a corrida eleitoral ao primeiro turno na Paraná, com 41,3% de intenção, mas também em empate técnico com Flávio, que teve 37,8%, 3,5 pontos a menos. Atrás deles, vieram os ex-governadores de Goiás e de Minas, respectivamente, Ronaldo Caiado (PSD), com 3,6%, e Romeu Zema (Novo), com 3,0%; Renan Santos (Missão), com 1,2%; e o ex-ministro Aldo Rebelo (DC), com 1,1%, todos os quatro em empate técnico.
(Infográfico: Joseli Matias)
Dados da pesquisa Paraná — Com margem de erro de 2,2 pontos para mais ou menos, a pesquisa Paraná consultou presencialmente 2.080 eleitores de 26 estados e Distrito Federal, entre 25 e 28 de março. E foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-00873/2026.
Felipe Fernandes, cineasta publicitário e crítico de cinema
Amizade no fim do mundo
Por Felipe Fernandes
Quando olhamos em retrospecto para o cinema sci-fi que trata do fim do mundo por causas aparentemente naturais, percebemos que, em geral, são obras mais densas, sustentadas por aspectos científicos, dramáticos e até filosóficos sobre a iminência da finitude e tudo o que essa situação envolve.
Em “Devoradores de Estrelas”, esses elementos também estão presentes. Mas o que realmente diferencia a obra é uma leveza inesperada, um bom humor quase injustificado. Que, provavelmente por isso, funciona muito bem.
Baseado no livro de Andy Weir e com roteiro do experiente Drew Goddard, dupla responsável pela adaptação de “Perdido em Marte” (uma espécie de “filme irmão”, ainda que ali o humor não funcione com a mesma força), o longa trabalha com duas linhas narrativas. É uma escolha inteligente para a construção do personagem e da situação, além de contribuir para um ritmo mais dinâmico.
A história se inicia com Ryland acordando no espaço, sem saber quem é ou o que está acontecendo. Aos poucos, o espectador descobre junto com ele o problema em que está envolvido e completamente sozinho. Essa trama principal se intercala com flashbacks que revelam o objetivo da missão e explicam como ele foi parar ali.
A estrutura narrativa se mostra eficaz. Além de evitar a monotonia inerente ao isolamento do protagonista, permite um desenvolvimento mais aprofundado do personagem e de suas relações na Terra, algo essencial para o impacto emocional do filme.
Weir e Goddard também acertam na construção de Ryland: um cientista desacreditado pela comunidade científica por conta de uma teoria controversa, que se torna professor. E, justamente por pensar fora dos padrões, acaba recrutado para uma missão global de salvar o Sol e, consequentemente, a vida na Terra. É em uma de suas aulas que surge a apresentação do problema central, uma solução de roteiro eficiente que integra a exposição de forma orgânica à narrativa.
O filme ganha ainda mais força com a introdução de Rocky, um alienígena em situação semelhante à do protagonista. O apelido surge de sua aparência, em uma homenagem ao famoso boxeador e rapidamente os dois constroem uma amizade baseada tanto nas diferenças quanto nas inesperadas semelhanças.
Em paralelo, se desenvolve a relação entre Ryland e Eva, uma das líderes da missão, inicialmente retratada como fria e pragmática. Aos poucos, essa imagem se desconstrói, e sua conexão com o protagonista ressignifica acontecimentos importantes na reta final da história.
Um dos grandes méritos do filme é transformar conceitos científicos em elementos dramáticos envolventes. O suspense nasce da resolução de problemas científicos, o que reforça sua identidade. Essa abordagem se conecta diretamente com a relação entre Ryland e Rocky, o verdadeiro centro emocional da obra. Nada como o fim do mundo para começar uma amizade.
“Devoradores de Estrelas” é uma ficção científica que se apoia em ideias, emoções e na força das relações humanas (e não humanas), oferecendo uma experiência mais reflexiva e repleta de bom humor. Com uma atuação sólida de Ryan Gosling e uma narrativa que equilibra ciência e sensibilidade, o longa se mostra ao mesmo tempo inteligente e acessível. Um filme sobre salvar o mundo, mas, acima de tudo, sobre empatia, cooperação e aquilo que nos torna humanos.
Por Aluysio Abreu Barbosa, Cláudio Nogueira, William Passos e Gabriel Torres
Eduardo Paes (PSD), hoje, é favorito em todas as pesquisas (confira aqui) a governador do RJ sobre Douglas Ruas (PL), candidato do bolsonarismo. “Mas quem está achando que vai ser lavada está muito equivocado”. Foi a advertência feita ontem pelo cientista político Bruno Soller, diretor do instituto de pesquisa Real Time Big Data, em entrevista ao programa Folha no Ar. Ele também analisou a pré-candidatura do ex-governador Cláudio Castro (PL) e de outros nomes a senador.
No plano local, o diretor do instituto de pesquisa nacional analisou o ex-governador Anthony Garotinho (REP) a governador e a senador. E prometeu colocar o nome do político de Campos nas próximas consultas estaduais Real Time Big Data. Ao microfone da Folha FM 98,3, Bruno também analisou as dificuldades que todas as pesquisas mostram à reeleição presidencial de Lula (PT). Cuja definição projetou no embate de grandes rejeições contra Flávio Bolsonaro (PL). Com pouca chance, hoje, a uma terceira via.
Bruno Soller, cientista político, diretor do instituto de pesquisa Real Time Big Data, estrategista eleitoral e analista político da Record, Metrópoles e Estadão (Foto: Divulgação)
Taxa de conhecimento a governador e Paes no segundo turno — “A coisa mais importante que a gente tem que analisar agora é o grau de conhecimento desses candidatos. Enquanto Eduardo Paes é bem conhecido da população fluminense, o Douglas Ruas é desconhecido: 40% da população dizem não conhecê-lo suficientemente para opinar (na pesquisa Real Time Big Data de março), porque ele é um sujeito ainda absolutamente desconhecido da grande maioria da população. O que a gente tem que analisar nessa pesquisa? O Eduardo Paes tem uma fatia do eleitorado que tende a caminhar com ele. Isso está posto. Se a gente tiver um segundo turno no Rio de Janeiro, uma vaga é do Eduardo Paes. Não tem como a gente brigar com isso. Está ali. Do outro lado, existe um contingente gigante da população que não sabe o que fazer. Que está aí esperando um nome.”
Eleição imprevisível — “A gente tende a ter um enfrentamento entre o grupo dominante de poder hoje do governo do estado do Rio, que é expresso na pré-candidatura do Douglas Ruas, contra o Eduardo Paes. É uma eleição imprevisível. Mesmo com o Eduardo hoje tendo uma grande vantagem numérica nas pesquisas sobre o Douglas (46% a 13% e 42% a 11%, mais de 30 pontos de vantagem, nos dois cenários de primeiro turno da Real Time Big Data de março), há uma tendência de polarização nacional também, que pode influenciar nesse jogo.”
Importância da Baixada Fluminense — “Não à toa o Eduardo Paes foi buscar uma vice (Jane Reis, MDB, irmã do ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis) com essas características: da Baixada Fluminense e evangélica. Porque existe aí uma força eleitoral muito grande. Só que o Douglas não é da Baixada. É da região metropolitana do Rio, lá de São Gonçalo, onde o pai dele é o prefeito (Capitão Nelson, PL). Mas que também é uma cidade que repete características socioeconômicas da Baixada Fluminense. Portanto, eu acho que a eleição no Rio de Janeiro está absolutamente aberta, apesar dos índices numéricos hoje apontarem para um favoritismo muito grande do Eduardo Paes.”
Sem lavada a governador do RJ — “A tendência, repito, é de que nessa eleição o Eduardo segue como favorito, até porque o governo Cláudio Castro tem muita rejeição também (44% de desaprovação da Real Time Big Data de março). O Eduardo sai como favorito, mas quem está achando que vai ser lavada está muito equivocado. Essa eleição tende a apertar e pode ser que haja uma surpresa e um candidato ligado ao bolsonarismo, impulsionado pela força segurança pública, evangélicos e Bolsonaro, surpreenda na eleição do Rio de Janeiro.
Segundo voto ao Senado e olho em Pimental — Essa eleição para o Senado tem uma peculiaridade muito grande, que é o tal do segundo voto. Esse segundo voto ele mata qualquer instituto de pesquisa, porque é uma loucura. Se você olhar, o segundo voto tem 35% do eleitorado no primeiro cenário que fala branco, nulo ou não sabe. Ou seja, um terço das pessoas que são perguntadas não tem ainda um segundo voto. E isso muda qualquer eleição. O que me parece, pelo que a gente vê dos movimentos aqui da pesquisa, é que você tem um Rodrigo Pimentel (ex-capitão do Bope, sem partido) com uma capacidade muito grande de crescimento. É um nome que a gente tem que ficar de olho caso venha a ser candidato. Pode ter um segundo voto de muita gente, do lado da direita, do lado da esquerda, por ser um personagem que está acima dessa disputa ideológica.”
Paes pode puxar Pedro Paulo a senador — “Esse processo da escolha ao Senado Federal no Rio de Janeiro vai ser muito impactado, não tenho dúvida nenhuma, pelo jogo nacional e pelo jogo estadual, de governador. Essas duas posições vão alavancar os nomes para o Senado Federal. Você vê o Pedro Paulo (deputado federal, PSD), que ainda é um desconhecido da grande maioria da população. Ele tem alguma penetração no eleitorado e pode ser impulsionado por uma candidatura do (seu aliado) Eduardo Paes. O Eduardo pode puxá-lo, caso faça uma campanha “Olha, quem vota Eduardo Paes para governador, vota no Pedro Paulo para o Senado”.
Castro favorito a senador — “Caso Cláudio seja o candidato, ele surge como favorito (ao Senado). De resto, é todo mundo muito igual. E a política vai fazer com que mais alguém vire favorito ou não no processo eleitoral. O jogo é muito aberto para o Senado, quando a gente pensa que 62% do eleitorado não decidiu ainda em quem votar para governador, que dirá para senador.”
Pacificação (confira aqui) de Garotinho e Wladimir — “Não os conheço, mas torço pessoalmente para que o Anthony Garotinho e o Wladimir, como pai e filho, não estejam nunca separados. Isso eu acho que é importante como questão humana, acima de qualquer coisa. É pai e filho. Isso é um exemplo para o resto do mundo, do Brasil. Todos são figuras políticas importantes e tomara que estejam sempre juntos e que as diferenças de opinião não façam com que eles estejam atritados. Pessoalmente torço para isso.
Rejeição de Garotinho — “Do ponto de vista da análise política, qual é o desafio do Anthony Garotinho? É superar uma rejeição. Não tem a dúvida de que ele tem intenção de voto. É um sujeito que tem um conhecimento do estado inteiro do Rio de Janeiro. Ele não precisa se apresentar para as pessoas, mas ele precisa romper uma barreira hoje, que é uma barreira de rejeição, que ficou em função de diversas denúncias que o envolveram durante todo esse processo. Durante todo o período que se teve e que foi criando uma camada de rejeição de parte da população em relação a ele. Isso fez com que ele tivesse algumas derrotas amargas na política, acho que talvez a maior delas foi não ter sido eleito nas últimas eleições (a vereador do Rio de Janeiro, em 2024), não só no cargo majoritário (em 2014, a governador, não foi ao segundo turno). Acho que isso foi uma derrota pessoal para ele.”
Garotinho a governador? — “O desafio dele é se mostrar competitivo para um segundo turno. Não me parece que uma eleição no Rio de Janeiro se decida em um turno só. E para você ser competitivo no segundo turno, precisa ter 50% mais um. Você precisa ter maioria. Então, o Anthony Garotinho precisa, e talvez em uma candidatura dessas agora, de teste (a governador-tampão, com regras a serem definidas pelo Supremo Tribunal Federal no dia 8) em uma eleição fora de tempo que a gente chama, ele possa testar um pouco dessa rejeição. Tentar diminuir essa rejeição para virar competitivo. A pouca opção, vamos dizer assim, com os nomes postos, sem empolgar tanto o eleitorado, ele talvez seja uma alternativa.”
Por que Garotinho ficou fora da pesquisa Real Time Big Data de março a governador e senador? — Acho que é um nome que tem que ser considerado. A partir do momento que ele coloca o seu nome. No ano passado, chegamos a testá-lo para governo, mas com um certo recuo dele de candidaturas majoritárias a gente deixou de testar. O Republicanos tinha no nome do (ex-prefeito do Rio) Marcelo Crivella o nome principal para uma disputa ao Senado. Mas acredito que em uma próxima pesquisa a gente vá fazer. Eu acho que é fundamental. Inclusive, alertar aqui: é bom que a nossa conversa fique agravada, para eu botar a nossa estatística, quando ela for montar o formulário, ela lembrar que a gente tem que colocar também o nome do Anthony Garotinho como um possível candidato ao Senado ou até mesmo ao Palácio da Guanabara.”
PSD lança (confira aqui) Ronaldo Caiado a presidente — “Quando você lança um Caiado, que já foi candidato a presidente em 1989, as pessoas enxergam ele dentro de uma raia dessa polarização (da direita). O PSD ficou com três pré-candidatos a presidente da República, sem ter nenhum por seis meses. Se o PSD tivesse, lá atrás, definido um nome, trabalhado esse nome, talvez hoje a gente estivesse discutindo um nome de terceira via na cabeça das pessoas. Mas o Caiado vai tentar se construir nisso. Vai ter um pouco mais de dificuldade pela trajetória dele. Ele é visto como alguém dentro de um bloco. Pode ser que se construa? Pode. Tem espaço.”
Governo Lula rejeitado pela população — “Nós estamos vivendo um governo Lula (desaprovado por mais de 50% dos brasileiros em todas as sete pesquisas nacionais de março) que é rejeitado pela população. A gente só tem espaço para discutir a alternativa porque o governo vigente não entrega o que a população espera. Porque se o governo estiver entregando, não tem para ninguém, o Lula está reeleito. Mas não está entregando. Este é o problema do Brasil hoje. As pessoas votaram no Lula na eleição passada com a expectativa de que a vida pudesse voltar aos patamares de quando ele foi presidente lá atrás. E isso não aconteceu.”
“Povo não come PIB” — “Não adianta o discurso do governo ser; “Olha, pleno emprego, o Brasil avança”. Eu vou lembrar uma frase de uma petista famosa, a Maria da Conceição Tavares, que faleceu recentemente, economista e filiada ao PT. Ela dizia: “O povo não come PIB”. Ela dizia isso para criticar o (então governo) Fernando Henrique. Vamos dar essa mesma frase para criticar o Lula. O povo não come PIB. As pessoas querem saber. No final do mês, tem o dinheiro no bolso ou não tem o dinheiro no bolso? Minha vida melhorou ou não melhorou? As pessoas estão insatisfeitas e é isso que está acontecendo com o governo Lula.”
Crescimento e rejeição de Flávio — “A sorte do Lula é que a escolha prioritária da oposição é de um nome que tem muita rejeição também, que é um Bolsonaro. Vocês aqui do Rio sabem quem é Flávio Bolsonaro porque ele é senador daqui. Qualquer nome que fosse um Bolsonaro estaria na posição que ele está hoje. Não é só pelo que representa politicamente, representa no nome o que é o bolsonarismo. Então o Flávio está crescendo dentro de uma raia que está posta na sociedade e que teve 49% dos votos na eleição passada, no segundo turno. Então o bolsonarismo existe, ele está presente, ele vai crescer, o Flávio vai crescer.”
Disputa de rejeições — “A discussão que a gente vai ter daqui para frente, caso uma terceira via não se consolide, vai ser novamente uma disputa de rejeições. O Felipe Nunes, meu colega da Quaest, fez um livro em que ele fala sobre a calcificação do voto. Eu iria mais além do que uma calcificação do voto. A gente tem hoje isso de pertencimento social. Tem gente que não é Bolsonaro, mas ela quer ser Bolsonaro porque a turma dela é Bolsonaro. Tem gente que não é Lula, mas ela vira Lula porque toda a turma dela é Lula. Nós estamos vivendo um momento de pertencimento. Que é mais ainda do que calcificação, porque calcificação é pedra que, se bater, uma hora ela quebra. Não é isso. É pertencimento.”
“Escolher, de novo, o menos pior”? — “Posso estar muito equivocado, mas pelo que eu tenho visto, não acredito que a gente vai ter uma ruptura, ainda mais sendo uma terceira via (Caiado ou Romeu Zema, do Novo) dentro de um espectro ideológico (da direita). Acho que a gente caminha novamente para uma polarização e nós vamos ter que escolher, de novo, entre o menos pior. O que é muito ruim para a sociedade brasileira. Vai ser uma disputa, de novo, entre dois polos que neste momento ainda estão mais negativados do que estiveram em 2022. Porque nós estamos vindo de uma década de que a vida não melhora. Uma década em que a gente teve quatro presidentes da República, Dilma, Temer, Bolsonaro e Lula. E a vida das pessoas não melhorou.”
Dificuldades do governo Lula — Ao mesmo tempo em que você tem esse crescimento de Flávio e essa consolidação dentro do bolsonarismo, do Flávio, você tem do outro lado três movimentos que vão fazendo o Governo Federal piorar na visão pública. O primeiro deles, em janeiro, um monte de conta para pagar e a lógica de que é um governo que só aumentou o imposto das pessoas. Número dois, escândalos de corrupção do tamanho do mundo. Caso Master e caso INSS. Um envolvendo o filho do presidente e o outro envolvendo o Supremo Tribunal Federal, que para a maioria das pessoas está mancomunado com o poder vigente. Então isso acaba influenciando o Lula. E a terceira coisa, e que é muito importante. Vamos lembrar que nós tivemos, na Marquês de Sapucaí, um desfile em que o presidente Lula foi homenageado por uma escola, a Acadêmicos de Niterói. E ali não foi só uma homenagem ao Lula, foi um ataque, em parte, a uma porção da população brasileira, que é cada vez mais crescente, que é a evangélica. O Lula, depois daquele ato, nos nossos trackings (monitoramentos em tempo real), perdeu de 9% a 11% de apoio entre os evangélicos.”
Nível de rejeição — “(Na pesquisa Nexus divulgada na segunda-feira) 48% das pessoas rejeitam o Flávio Bolsonaro e 49% rejeitam o Lula. Isso significa que 51% do eleitorado poderia votar no Lula e 52% do eleitorado poderia votar no Flávio. Ou seja, no limite do limite, eles podem ganhar uma eleição. Qual é o problema do Lula? O Lula está hoje sentado na cadeira e ele é o responsável pela situação política brasileira. É ele. A caneta está na mão dele. Então, o julgamento se dá mais em cima dele do que qualquer outra pessoa. Esse é o grande drama do Lula.”
Erika Hilton, deputada trans presidente da Comissão das Mulheres na Câmara Federal — “É uma forte cabo eleitoral do Flávio. Inclusive porque o eleitor do Lula, a massa que vota no Lula, é conservadora. O eleitor do Lula não é ideológico. A gente tem que parar com isso. O voto ideológico é muito pequeno. A esquerda UFRJ, a esquerda USP, ela é muito pequena no Brasil. O voto do Lula é um voto popular, das camadas mais baixas da população, e que é conservadora. É onde está o maior índice de pessoas que rejeitam o casamento entre pessoas do mesmo sexo, que rejeitam o aborto. E esse eleitor não vota no Lula pelas pautas progressistas do PT.”
O pai ex-governador Anthony Garotinho (REP) e o filho anda prefeito de Campos, Wladimir Garotinho (PL), estão mais perto do acordo político para as eleições de outubro. Garotinho deve se candidatar a senador e Wladimir a deputado federal. O plano foi traçado ontem (30), na casa mais famosa da Lapa campista, em reunião que durou das 10h da manhã às 13h.
Livre da condenação da operação Chequinho (confira aqui) pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin na noite da última sexta-feira (27), Garotinho pode disputar o mandato de governador-tampão do RJ, caso o STF defina a disputa (confira aqui) por eleição direta. O que seria um teste da sua força, de uma eleição majoritária (a governador-tampão) para outra (a senador em outubro).
Em 1º de fevereiro, em entrevista exclusiva ao blog Opiniões e à Folha, Garotinho já tinha aventado (confira aqui) a possibilidade de concorrer ao Senado Federal:
— O Republicanos me sondou para ser candidato a senador. Poderia ser Clarissa, que foi muito bem votada a senadora em 2022. Mas ela foi para a iniciativa privada, onde está muito bem. Se eu concorresse a senador, poderia ser uma forma de evitar o confronto direto com Wladimir (os dois na disputa pelo mandato à Câmara dos Deputados).
A possibilidade de Garotinho e Wladmir concorrerem em outubro pelo mesmo voto ao mesmo cargo de deputado federal ainda não está de todo descartada. Mas ficou, pelo menos, mais distante depois da reunião de ontem na Lapa. Da qual também participaram o ainda presidente da Codemca, Thiago Virgílio (Podemos), o ainda chefe de gabinete de Wladimir, Thiago Ferrugem (PL), e o vereador Juninho Virgílio (Podemos).
Hoje (30) foi divulgada a nova pesquisa presidencial Nexus de março. Nela, Lula (PT) lidera numericamente, mas em empate técnico com Flávio Bolsonaro (PL), o cenário hoje mais provável de primeiro turno: 41% do presidente a 38% do senador. E com um empate exato entre os dois na simulação de 2º turno: Lula 46% a 46% Flávio.
(Infográfico: Joseli Matias)
Nexus, Atlas e Quaest: Lula e Flávio empatados no segundo turno — A Nexus fez sua primeira rodada de pesquisa, sem comparação possível com anteriores pelo mesmo instituto. Mas seu resultado, com pequenas alterações numéricas, é muito semelhante à tendência revelada por outras pesquisas recentes. Em março, a AtlasIntel projetou um empate técnico no segundo turno: Flávio 47,6% a 46,6% Lula. No mesmo mês a Quaest trouxe outro empate exato ao segundo turno: Lula 41% a 41% Flávio.
Dados e metodologias das três pesquisas — A Nexus consultou 2.006 eleitores de 27 a 29 de março, com margem de erro de 2 pontos para mais ou menos, com registro BR-07875/2026 no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A AtlasIntel consultou digitalmente 5.028 eleitores de 18 e 23 de março, com margem de erro de 1 ponto para mais ou menos e registro BR-04227/2026. A Quaest consultou presencialmente 2.004 eleitores de 6 a 9 de março, com margem de erro de 2 pontos para mais ou menos e registro BR-05809/2026.
Tendência de crescimento de Flávio na Atlas e Quaest — Com formas de consulta e metodologias diferentes, de três institutos diferentes, o cenário é muito parecido. Mas como, diferente da Nexus, a AtlasIntel e Quaest fizeram em março apenas mais uma de uma série histórica de pesquisas, é possível constatar por elas que, de dezembro a março, a tendência de crescimento de Flávio chegou dois dígitos de intenção de voto, enquanto Lula apenas oscilou no mesmo período.
(Infográfico: Joseli Matias)
Depois de Lula e Flávio no primeiro turno — No cenário 1 de primeiro turno presidencial da Nexus, hoje o mais provável, atrás de Lula (41%) em empate técnico na margem de erro com Flávio (38%, 3 pontos a menos) vieram o ex-governador de Minas Gerais e atual de Goiás, que deve renunciar hoje, respectivamente, Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), com 4% cada. Os dois ficaram em empate técnico com Renan Santos, presidenciável do Missão, com 2%.
Mais dois cenários de primeiro turno — Em outras duas simulações de primeiro turno da Nexus, Lula ficou no empate exato com Flávio no cenário 2, ambos com 39%. Mas com a troca Caiado como candidato pelo governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), que hoje admitiu que o colega de Goiás será o presidenciável do PSD. No cenário 3, sem Leite ou Caiado, que hoje se lançará pré-candidato a presidente, Lula teve 42%, em outro empate técnico com Flávio, que teve 39% (3 pontos a menos).
(Infográfico: Joseli Matias)
Lula à frente de Zema e Caiado, mas nem tanto, no segundo turno — Nas simulações de segundo turno da Nexus, se ficou no empate exato contra Flávio (46% a 46%), Lula derrotaria Zema por 46% a 40% (6 pontos de vantagem, ou 2 pontos acima do limite da margem de erro) e Caiado por 46% a 41% (5 pontos de vantagem, ou apenas 1 ponto acima do limite da margem de erro).
(Infográfico: Joseli Matias)
Lula e Flávio lideram também rejeição — Índice considerado fundamental à definição do segundo turno, porque fixa o teto de crescimento dos dois candidatos que passarem pelo primeiro turno, a rejeição na pesquisa Nexus foi liderada por Lula: 49% dos brasileiros não votariam nele de jeito nenhum. Ele ficou em outro empate técnico e quase numérico com Flávio, com 48% de rejeição.
(Infográfico: Joseli Matias)
Os demais na rejeição — O índice negativo seguiu com o ex-ministro Aldo Rebelo (DC), com 32%; Zema e Caiado, com 31% de rejeição cada; e Renan, com 30%. Os quatro ficaram em empate técnico na margem de erro, mas têm rejeições consideravelmente menores que as de Lula e Flávio.
Maioria desaprova o Lula 3 — Os obstáculos à reeleição de Lula parecem residir na desaprovação ao seu governo pela maioria dos brasileiros. Na Nexus o Lula 3 foi desaprovado por 51% dos eleitores e aprovado por 45%. Na AtlasIntel, o atual Governo Federal foi desaprovado por 54% da população e aprovado por 46%. Na Quaest, foi desaprovado por 51% e aprovada por 44%. Novamente, são cenários muito semelhantes nas três pesquisas de março.
(Infográfico: Joseli Matias)
William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE
Análise do especialista — “Realizada por telefone, com 2.006 eleitores, e margem de erro de 2 pontos mais ou para menos, a pesquisa Nexus apontou para o empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro no primeiro turno e numérico no segundo turno entre os dois. Que também empatam tecnicamente na rejeição: 49% a Lula e 48% a Flávio. A Nexus também indicou 51% de desaprovação popular ao governo Lula”, resumiu William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE.
Cientista político, estrategista eleitoral, analista político do Metrópoles, Estadão e Record, e diretor do instituto de pesquisa Real Time Big Data, Bruno Soller é o convidado do Folha no Ar deste terça (31), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.
Ele falará da importância das pesquisas no processo eleitoral brasileiro. E, com base nas mais recentes (confira aqui), tentará projetar a eleição a governador e das duas cadeiras a senador do RJ. E que influência sobre ela pode ter eleição a governador-tampão do estado, com regras ainda indefinidas (confira aqui) no Supremo Tribunal Federal (STF).
Bruno também analisará a polarização nacional entre Lula e os Bolsonaros. E, também a partir das pesquisas mais recentes (confira aqui, aqui, aqui e aqui), tentará projetar a eleição a presidente da República em outubro.
Quem quiser participar do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebooke no YouTube.
Em algum lugar soava repetidamente um alerta. Era uma buzina ao longe. Aquele som repetitivo invadia minha mente com a imagem de um carrinho azul cheio de doces. Pela janela, vi o homem, já distante, a empurrar o carrinho de madeira, exatamente como imaginei. Nesse instante, fui completamente movida pelo impulso de sair e correr até os doces daquele relicário azul. Desci as escadas aos pulos, abri portas, portões e cheguei à rua.
Certamente, o moço já havia dobrado a esquina. Mesmo assim, não desisti. Corri o quanto podia e quanto mais me afastava de casa, mais me aproximava da buzina. Gritei de várias formas. Ele me ouviu, parou e aguardou. Eu já podia andar, então, com calma até chegar a mais importante das conquistas, mesmo que de um desejo sem explicação.
Olhei o mostruário de vidro e lembrei, enfim, que nunca havia comido nenhum daqueles doces. Não conhecia nada ali. É verdade! Durante toda a infância, observei, em silêncio, o passar do moço, o carrinho e os doces. Se experimentei, acho possível que não tenha gostado. Lembro de algodão doce ser bom; maçã do amor, uma decepção; mas não conheço os doces do carrinho que passava diariamente pela minha casa quando menina.
Agora, isolada há tantos dias, alguma coisa pensou por mim — talvez a criança. Constrangida, perguntei o que era cada doce e fui, gentilmente, apresentada. Escolhi uma cocada bonita e convidativa. Ele limpou as mãos em álcool em gel que carregava em um frasco de plástico e meu coração disparou. Lembrei o motivo de estar isolada. Uma grande crise, pandemia, germes, vírus, mortes, estar na rua, comprar alimento de mão a mão, ansiedade. Mas, me apeguei àquelas mãos pretas que zelavam pela venda, que zelavam por mim. Comprei o doce.
Voltei caminhando sem pressa. Ao chegar à casa, uma tempestade avassaladora desmoronou no céu, sem avisos, sem ameaças. Havia acabado de entrar, me abrigar sob meu teto e a água, do lado de fora, caiu com tanta força que parecia capaz de ferir o que tocasse e quebrar o que fosse frágil.
Na poltrona da sala, com vista para a janela, olhava as árvores, o vento, a chuva. Como uma criança, mordiscava meu doce. Fui envolvida pelo sabor açucarado da própria vida que ansiava. Mas, e o vendedor? E seu carrinho, seu álcool, seus doces de coco, goiaba, amendoim? Seguiram na rua, castigados pela mesma chuva que me entretinha. Comi a cocada pensando na mão que não segurei entre as minhas e me senti sob a chuva também. Teria um pouco de mim seguido com o carrinho de doces?
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O vendedor passou novamente pela minha casa dias depois. A buzina do carrinho azul, agora, me torturava. Aquele homem seguia com seu ritual, seus doces, seu álcool em gel e a esperança de que fosse o suficiente para sobreviver à pandemia. Com as ruas esvaziadas, provavelmente, venderia muito menos do que gostaria ou precisava, mas seguia. O chamado repetitivo do doce carrinho azul, agora, me afligia e me confrontava. Afinal, como é não ter opções?
Flávio Bolsonaro assinou na última terça-feira (24), em Brasília, a filiação de Wladimir Garotinho ao PL, pelo qual deve concorrer a deputado federal e vai coordenar a campanha presdiencial do senador no Norte Fluminense
Flávio filia Wladmir ao PL
Ainda prefeito de Campos, cargo do qual se desincompatibilizará no dia 2, para se candidatar a deputado federal, Wladimir Garotinho definiu (confira aqui) seu destino partidário: o PL. O próprio senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato a presidente assinou na última terça-feira (24), em Brasília, a ficha de filiação do político de Campos à legenda.
Disputado entre PL e PSD
Wladimir só deve anunciar oficialmente sua filiação ao PL no próximo dia 29, seguinte à ao aniversário de Campos. Como o blog Opiniões havia anunciado (confira aqui) no último dia 2, Wladimir tinha sua filiação disputada entre o PL dos Bolsonaros e o PSD de Gilberto Kassab e do ex-prefeito carioca e pré-candidato a governador Eduardo Paes.
Coordenação de Flávio no NF
Mesmo antes de definir o PL como seu destino após o PP, pelo qual se reelegeu prefeito de Campos em turno único, em 2022, Wladimir já tinha fechado seu apoio a Flávio a presidente em outubro de 2026. E que vai coordenar a campanha do presidenciável no Norte Fluminense.
E se Lula ganhar? (I)
Em tendência de crescimento na casa de dois dígitos em todas as pesquisas (confira aqui, aqui e aqui), de dezembro, quando foi lançado pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a março, Flávio é hoje, de longe, o candidato de oposição mais competitivo contra Lula (PT). Mas, Wladimir pode ganhar caso se eleja deputado pelo PL, mesmo que Flávio perca.
E se Lula ganhar? (II)
O PL já é hoje o partido de maior bancada da Câmara Federal (105 cadeiras) e no Senado (15 cadeiras). E nenhum analista imparcial projeta que não possa ampliar ainda mais essa força em outubro, à parte o resultado presidencial. Na oposição ou na situação, se elegendo novamente deputado, Wladimir teria influência garantida.
Quando se pensa em família, a primeira imagem que vem à mente costuma ser a dos laços de sangue. Mas será que a biologia é suficiente para definir quem é pai ou mãe? A própria Bíblia oferece, a propósito, um exemplo poderoso: José, o carpinteiro, que assumiu o papel de pai de Jesus sem ser seu genitor biológico. Ele cuidou, protegeu e educou, mostrando que a verdadeira paternidade se constrói no cotidiano, não apenas no vínculo biológico.
Esse exemplo antigo ilumina um debate atual: a parentalidade — ou filiação — socioafetiva. O Direito brasileiro já reconhece que vínculos de afeto podem ter o mesmo peso que vínculos biológicos. Em outras palavras, quem cria e ama pode ser considerado pai ou mãe perante a lei, e isso não se confunde com adoção, em que essa relação prévia de afeto e cuidado se afigura irrelevante, entre outras diferenças. É um avanço que valoriza histórias reais de famílias diversas, que se repetem cada vez mais no dia a dia forense, em respeito à realidade dos fatos.
Cuida-se da funcionalização da paternidade e da maternidade, que se solidifica com o passar do tempo, por meio do cuidado e do afeto, e não apenas do liame sanguíneo. Quem se diz pai ou mãe só deve merecer esses títulos se cumprir os respectivos deveres e exercê-los na prática, em função dos interesses familiares e, em especial, dos filhos de sangue e do afeto.
Já houve tempo em que as pessoas eram filhas oficiais do casamento e não dos pais. Basta ver o original do Código Civil de 1916, que neste tópico vigorou até o fim da década de 40 do século passado, e segundo o qual os filhos havidos fora do casamento não podiam ser reconhecidos como tais.
Mas as coisas mudaram ao longo do tempo, para prestígio do afeto e do cuidado como princípios informadores das famílias atuais e, por conseguinte, para reconhecer-se o seu valor como fonte das relações de parentesco.
Em meu trabalho como promotor de Justiça atuante em Varas de Família, já presenciei casos em que o pai de sangue, e que figurava como tal no registro de nascimento da criança, se recusava a cumprir seus deveres parentais, e, ao mesmo tempo, em que o pai socioafetivo — muitas vezes o padrasto — buscava com vigor a assunção desses deveres, colocando-os em prática. Ou em que crianças e adolescentes manifestavam repúdio ao pai ou à mãe biológicos e registrais — notadamente os omissos —, paralelamente ao ardente desejo de verem reconhecidos como sua mãe e seu pai aqueles que os criaram como se filhos fossem.
Aliás, em ações negatórias de paternidade é comum e benfazejo ver o Ministério Público questionando a existência de liame socioafetivo, independentemente do resultado do exame de DNA, já que o parentesco criado pelo laço da socioafetividade não pode ser objeto de pura e simples renúncia.
Até mesmo casos de avós de sangue que de fato sempre se comportavam como autênticos pais de seus netos já pude acompanhar.
Por vezes o que se vê é apenas a legítima pretensão de inclusão do sobrenome do pai ou da mãe socioafetivos no nome do filho, sem o reconhecimento da filiação, mas como sinal social dos relevantes laços familiares que ligam pais, mães e filhos do afeto e do cuidado, independentemente dos vínculos de sangue. São inúmeros, enfim, os exemplos que a prodigalidade das relações familiares produz no dia a dia.
Também o Supremo Tribunal Federal, na fixação do tema 622, já decidiu que as filiações biológica e afetiva podem coexistir, gerando os mesmos efeitos jurídicos, com base nos princípios da afetividade e do melhor interesse da criança. Ainda que isso implique o reconhecimento formal e cada vez mais corriqueiro da chamada multiparentalidade.
Todavia, o tema também suscita polêmicas.
De um lado, há quem veja na socioafetividade um marco civilizatório. Afinal, quantas crianças encontram em padrastos, madrastas ou avós o verdadeiro sentido de família? José, na narrativa bíblica, não precisava de um exame de DNA para ser chamado de pai. Sua presença e dedicação bastaram. Por que não aplicar esse mesmo raciocínio às famílias contemporâneas?
Do outro lado, surgem dilemas que não podem ser ignorados. A multiparentalidade, por exemplo, permite que uma criança tenha mais de um pai ou mãe reconhecidos. Isso fortalece a rede de proteção, mas também complica questões como guarda, pensão e herança. O Poder Judiciário se vê diante de situações inéditas, sem parâmetros normativos claros e específicos, e cada decisão abre precedentes que podem gerar insegurança jurídica.
Há ainda o risco da banalização. Se qualquer relação de proximidade puder ser convertida em filiação socioafetiva, corre-se o perigo de transformar um instituto pensado para proteger as relações familiares em instrumento de disputa ou conveniência meramente patrimonial. Veja-se, nesse sentido, a hipótese do ajuizamento de ação de alimentos em face de pessoa abastada, sob o não comprovado argumento da existência de verdadeira parentalidade socioafetiva e com interesse meramente econômico.
A socioafetividade que tem o condão de gerar o reconhecimento do parentesco é essencial e um tanto subjetiva — diversamente do vínculo sanguíneo, que é objetivo —, mas precisa ser comprovada com responsabilidade, sob pena de fragilizar-se o próprio conceito de família.
O exemplo bíblico de José ensina que ser pai é assumir responsabilidades, mesmo sem vínculo biológico, em função dos legítimos interesses familiares. Mas o Direito precisa encontrar equilíbrio: reconhecer o afeto sem abrir brechas para abusos. A socioafetividade não pode ser apenas uma assinatura em cartório ou uma vazia alegação para a conquista de interesses meramente econômicos; deve ser, antes de tudo, vivida, demonstrada e comprovada.
No fim das contas, a pergunta que fica é direta: o que se pretende é um modelo de família baseado apenas na biologia, ou é aceitável que o afeto e a convivência tenham igual valor? O exemplo bíblico de José já mostrou há dois mil anos que o amor pode ser mais forte do que o sangue. Cabe a cada um decidir se a sociedade está pronta para transformar essa lição em regra jurídica e social.
Senador e pré-candidato a presidente em tendência de crescimento nas pesquisas, Flávio Bolsonaro assinou na última terça-feira a ficha de filiação de Wladimir ao PL
Ainda prefeito de Campos, cargo do qual se desincompatibilizará (confira aqui) no dia 2, e pré-candidato a deputado federal, Wladimir Garotinho definiu seu destino partidário: o PL. O próprio senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato a presidente em tendência de crescimento (confira aqui, aqui e aqui) em todas as pesquisas, assinou na última terça-feira (24), em Brasília (confira aqui), a ficha de filiação do político de Campos à legenda.
Wladimir, no entanto, só deve anunciar oficialmente sua filiação ao PL no próximo dia 29, seguinte à data de aniversário de Campos dos Goytacazes. Como o blog havia anunciado no último dia 2 (confira aqui), Wladimir tinha sua filiação disputada entre o PL dos Bolsonaros e o PSD de Gilberto Kassab. Mas, mesmo antes de definir o PL como seu destino após o PP, pelo qual se reelegeu prefeito de Campos em 2022, ele já tinha fechado seu apoio a Flávio a presidente em 2026.
Deputado estadual licenciado, pré-candidato à reeleição e secretário estadual de Habitação, Bruno Dauaire (União) é o convidado para fechar a semana do Folha no Ar nesta sexta (27), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele analisará, entre erros e acertos, o saldo dos seus três mandatos consecutivos na Alerj e de São João da Barra sob sete mandatos consecutivos do carlismo na Prefeitura.
Advogado por formação, Bruno também analisará a condenação do escândalo do Ceperj (confira aqui) pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a renúncia do ex-governador Cláudio Castro (PL) e a cassação do deputado Alerj Rodrigo Bacellar (União). Como tentará projetar regras (confira aqui) e o resultado da eleição a governador-tampão do RJ e (confira aqui) do novo presidente da Alerj.
Por fim, com base nas pesquisas mais recentes (confira aqui, aqui, aqui e aqui), o secretário tentará também projetar as eleições diretas de outubro a presidente da República, governador e das duas cadeiras ao Senado do RJ. Como também analisará as pré-candidaturas da região, como a sua, a deputado federal e estadual.
Quem quiser participar do Folha no Ar desta sexta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebooke no YouTube.
Chuck Norris enfrenta Bruce Lee no Coliseu de Roma, na cena final de “O voo do dragão”
Arthur Soffiati, historiador, professor, escritor, ambientalista e crítico de cinema
O adversário do dragão
Por Arthur Soffiati
Fui saber mais sobre a vida de Chuck Norris com sua morte, aos 86 anos. Não esperei que a morte de um lutador e ator sem muito destaque merecesse tantas homenagens. Norris começou sua carreira cinematográfica em “O voo do dragão”, filme roteirizado e dirigido por Bruce Lee. Ele só entra no final para travar uma luta de dez minutos com Lee, que já estava consagrado como lutador de boxe chinês contando com apenas três filmes.
Quentin Tarantino escreveu que, no início dos anos de 1970, só um artista ameaçava Clint Eastwood e Charles Bronson. Era um chinês de Hong-Kong de nome Bruce Lee. Mas ele morreu muito jovem, com uma pequena filmografia.
É num desses filmes que Chuck Norris inicia sua carreira. “O voo do dragão” conta a história de um chinês matuto que vivia na área rural de Hong Kong e vai a Roma ajudar o tio e a prima, donos de um restaurante ameaçado por uma gangue. Tang Lung é o nome do personagem. Ele é capiau e desengonçado. Parece não entender o que está acontecendo. Estranha a cidade de Fellini e de Mário Bava. Identifica-se com os pobres quando vê os monumentos históricos da cidade. Mas declara que demoliria tudo para construir prédios novos e ganhar dinheiro. É bronco.
Em meio a lutas, Tang Lung vai se tornando adulto. Derrota o grupo de mafiosos para, no final, enfrentar Colt (Norris) numa luta muito bem coreografada pelo próprio Lee. O palco foi o Coliseu de Roma. Suponho que Bruce tenha escolhido o lugar da luta e colocado um gatinho como espectador. Ambiente muito bem preparado para a luta das lutas.
Norris era bem mais corpulento e forte que Bruce, mas ele foi escolhido como adversário para valorizar a vitória do dragão. Norris tinha o corpo duro. Bruce era um malabarista. Na prática, essa luta seria inviável. Claro que, com seus miados conhecidos, ao lado do gatinho, o dragão vence o grande campeão, que esteve no Rio de Janeiro e perdeu uma luta para um praticamente de jiu-jitsu.
Daí em diante, Norris protagonizou vários filmes. Creio ter assistido a alguns, mas não lembro.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
Abaixo, a cena completa da lendária luta cinematográfica entre Chuck Norris e Bruce Lee, no Coliseu de Roma: