Arthur Soffiati — O bom e o mau ET no “Dia D” de Spielberg


O bom e o mau ET
Arthur Soffiati
No cinema, o extraterrestre pode ser mau ou bom. Ele pegou pesado em quase toda a década de 1950. Naquele tempo, o ET podia ser usado como metáfora para a União Soviética.
Os Ets invadiram a Terra em “A guerra dos mundos” do escritor inglês H.G. Wells, no final do século XIX. Narrando partes desse livro numa emissora de rádio, Orson Welles causou pânico nos Estados Unidos. Em 1953, o livro ganhou as telas do cinema. Muitos foram os filmes sobre invasão de Ets e poucos aqueles em que os visitantes espaciais são amigos.
Em 1951, apareceu um ET advertindo a humanidade sobre o perigo de uma nova guerra com armas nucleares em “O dia em que a Terra parou”. Ele voltou advertindo sobre os perigos da crise ambiental em 2008. Ainda em 1953, Jack Arnold lançou “A ameaça que veio do espaço”, em que Ets pacíficos precisam fazer um pouso forçado na Terra para reparos em sua nave, mas são recebidos com hostilidade pelos terráqueos.
Filmes mais atuais se dividem. Spielberg voltou a filmar “Guerra dos mundos”, com Ets hostis. E a franquia de “Alien, o 8º passageiro” não só nos causa pavor como nos leva a odiar os Ets. Diga-se o mesmo de “Um lugar silencioso”, com aqueles invasores sinistros que não enxergam, mas tem audição apurada, atacando qualquer emissor de som.
Num balanço geral de filmes sobre Ets, conclui-se que eles têm sido mais inimigos do que amigos. Tirando “Guerra dos mundos”, Steven Spielberg tem se mostrado simpático aos Ets, como demonstrou em “E.T. – O extraterrestre” e “Contatos imediatos de terceiro grau”. É certo que um visitante extraterrestre simboliza o outro, o qual, apesar de muito estranho em aparência, pode ser pacífico.
O cineasta de “Tubarão” volta, já idoso e experiente, a lançar um documentário equilibrado sobre dinossauros, embora com algumas incorreções. Volta também aos Ets com “Dia D” (2026). O bonequinho d’“O Globo” aplaude o filme de pé, o que estimula um cinéfilo experiente, como, por exemplo, Quentin Tarantino, a assisti-lo.
No filme, o velho Spielberg traz a sua marca registrada. Do ponto de vista cinematográfico, a fotografia se mostra excelente, com luzes, sombras, superposição de imagens, travelings, closes e efeitos especiais. O desempenho dos atores e atrizes também revela o exigente diretor na retaguarda.
Já não tive a mesma impressão do roteiro. Pareceu-me uma história mirabolante e exagerada sobre Ets detectados, capturados e até torturados pelo governo norte-americano. Durante todo o filme, sabe-se que o roteiro versa sobre Ets. No entanto, a paranormalidade e a bilocação estão em primeiro plano. Ação até demais com cenas estonteantes que tocam o espetacular dos filmes de aventura.
A mensagem é: “OS Ets vêm em paz fazer contato com os terráqueos e são maltratados por eles”. Tirando os excessos e a velha infantilidade de Spielberg, o filme fala dos diferentes, dos estrangeiros, dos imigrantes que entram nos Estados Unidos e são logo perseguidos pelo ICE. Mas, ao mesmo tempo, fala do diferente que causa estranheza e repúdio no mundo todo, já que a atriz principal, em rede de televisão, dirige-se à população humana do planeta.
Tudo começou em 1947, ano em que teve início a Guerra Fria, com a Doutrina Truman, e foi criada, nos Estados Unidos, a Agência Central de Inteligência (CIA). A partir de então, o chamado complexo industrial-militar se fortaleceu. Talvez esse seja o ponto de referência de Spielberg. Mas que cada um faça a sua leitura. A minha não é ao pé da letra.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
Confira o trailer do filme:























