“A foto saiu legal” — Afilhados, filho e a América do Sul de Messi

Aos 54 anos, era a primeira vez em quatro décadas que assistiria a uma Copa do Mundo do futebol como torcedor comum. A última tinha sido em 1986, aos 14 anos. Quando passou dois dias chorando por saber que seu ídolo, Zico, seria culpabilizado pelo pênalti que perdeu no tempo normal do Brasil e França nas quartas de final.
Por amor ao futebol e a lida de jornalista que abraçaria no início da juventude, desde a Copa de 1990 passou aquela e todas as demais tendo que escrever sobre os jogos. Saber e relatar em texto: Quem marcou o gol? Como? Com que perna? De cabeça? Quem deu o passe? Como? Com que perna? Houve falha na defesa? De quem?
É um tipo de audiência hiperfocada que não permite conversa paralela ou ingestão de bebida alcoólica. Desta, se permitiria duas exceções pela data: 24 de junho, dia de João Batista, do seu aniversário e de Messi. Assim, bebeu e sofreu ao completar 18 anos no 1 a 0 da Argentina que eliminou o Brasil nas oitavas de final da Copa de 1990. Com gol de Caniggia, após jogada brilhante de Maradona, que literalmente acabou com a festa.
Como bebeu e foi mais feliz no 24 de junho de 1994, Copa seguinte, quando o Brasil e Camarões pelo segundo jogo da fase de grupos foi assistido, em meio a amigos, numa casa em Atafona que o Atlântico levaria. Anos depois dos gols de Romário, Márcio Santos e Bebeto definirem o placar. Numa campanha que marcaria a primeira conquista de uma Copa do Mundo pelo Brasil que testemunhou. Cuja final contra a Itália assistiu com seu pai.
Fora essas duas exceções, escrevendo para jornal impresso e, depois, para site e blog, Copa do Mundo era trabalho. E, mesmo que muito prazeroso, sem direito a festa ou bebedeira. Mas com direito a edição extra de jornal na Copa de 2002, no Japão e Coreia do Sul, pelos horários dos jogos entre a madrugada e início da manhã brasileiras. Em que o Brasil de Rivaldo e Ronaldo Fenômeno também seria campeão.

Na Copa seguinte, de 2006, no dia do jogo pelas quartas de final entre Brasil e França, editou a capa do jornal de alto a baixo, nos cantos opostos, com as fotos recortadas de perfil de Ronaldo e Zidane, se encarando e sorrindo, com o título “Quem vai rir hoje?”. Zidane riu por último. Mas aquela capa depois integraria o livro “As Melhores Primeiras Páginas dos Jornais Brasileiros”, da Associação Nacional de Jornais (ANJ), editado em 2010.
Naquela Copa de 2006, em que Zidane foi expulso na final após se deixar levar por uma provocação e dar uma cabeçada no peito do zagueiro Materazzi, contra a Itália e que deu a esta ao título, arriscou publicar o vaticínio no rescaldo do Mundial. Com a aposentadoria do craque francês, o maior jogador de futebol da Terra seria Messi.
Vinte anos depois, na Copa de 2026, já tinha marcado viajar a Argentina, Uruguai e Chile, entre julho e o início de agosto com o afilhado, irmão materno do seu único filho, falecido precocemente em 2023 e com quem já tinha conhecido os três países. Como não poderia cobrir profissionalmente toda a Copa, optou em vê-la como espectador normal. E se limitou a comentários episódicos em jornal, rádio, streaming e TV.
Ainda no Brasil, o 24 de junho de 2026 traria outro jogo do Brasil em Copa do Mundo. Talvez a melhor atuação de um time envelhecido, com alguns ex-jogadores em suposta atividade. Foi contra a Escócia, na terceira partida da fase de grupos. Em que Vini Jr., único craque brasileiro dessa Copa, marcou dois gols dos 3 a 0. Com Matheus Cunha completando o placar.
Também ainda estava no Brasil quando este foi eliminado por 2 a 1 pela Noruega em 5 de julho, pelas oitavas de final. Com dois gols do viking Haaland e um, de pênalti, do ex-jogador mais emblemático da sua geração fracassada. Não por falta de talento, mas de caráter, evidenciada mais uma vez na discussão patética com o goleiro norueguês.
Padrinho e afilhado desembarcaram do Rio em Buenos Aires no dia 10. No dia seguinte, assistiram ao Argentina e Suíça, pelas quartas de final, do quarto do hotel. Este, dolosamente escolhido pela proximidade com o Obelisco, no cruzamento das avenidas Corrientes e 9 de Julho, ponto nevrálgico das comemorações argentinas no futebol.

Com o empate de 1 a 1 no tempo normal, gols do argentino Mac Allister e do suíço Ndoye, padrinho e afilhado saíram para ver na rua a prorrogação, em meio à multidão hipnotizada por cada tela de TV disponível. Foi pela réstia de visão à distância de uma delas, numa calçada da Corrientes, que assistiram ao golaço do centroavante Julián Álvarez. E, mesmo antes do apito final, partiram para a comemoração no Obelisco.
Quando voltavam, encararam o mar albiceleste de gente que desaguava ao Obelisco na direção contrária, até onde a vista alcançasse pela longa e larga Corrientes. No caminho, um torcedor abraçou o jornalista de férias e gritou eufórico: “Argentina campeona, papá!” Padrinho e afilhado brasileiros se converteram. E só quando voltaram ao hotel souberam do gol final de Lautaro, já nos descontos da prorrogação.

Cruzaram a imensidão do Rio da Prata por ferry de Buenos Aires a Montevidéu no dia 14. Quando deixaram as malas no hotel e foram ao Estádio Centenário, erguido para a primeira Copa do Mundo, em 1930. Que o padrinho tinha conhecido com seu filho, irmão do afilhado, alguns anos antes. Naquele mesmo dia, veriam depois a Espanha do maestro Rodri anular a temida França de Mbappé, batida com relativa facilidade por 2 a 0.
No dia 15, pegaram o carro alugado em que o padrinho os conduziu pela estrada na imensa planície de aluvião uruguaia, maior que a goitacá na mesma proporção em que o Paraíba do Sul vira um córrego diante do Prata. Foram a Colônia de Sacramento, espécie de Paraty fluvial. E escolheram o restaurante Qué Tupé, que o padrinho também conhecera anos atrás com o filho, para assistir à outra semifinal, entre Argentina e Inglaterra.

Em jogo tenso, a Inglaterra abriu o placar com o gol do atacante Gordon, pouco antes dos 10 minutos do segundo tempo. E estacionou um daqueles típicos ônibus britânicos e vermelhos de dois andares em frente ao seu gol. Até que aos 39 de etapa final, Messi driblou dois marcadores na direita e passou a Enzo Fernández em frente à meia lua da área. Que bateu forte para quebrar a primeira janela do tal ônibus.
Após uma bola argentina na trave, um Messi de 39 anos, já nos descontos do tempo normal, correu atrás do rebote. Novamente da direita, ele novamente driblou dois marcadores. E cruzou de perna destra, a supostamente ruim de um canhoto. A trajetória milimétrica da bola encobriu o goleiro e um zagueiro antes de chegar à perfeição na cabeça de Lautaro. Que capotou o ônibus inglês e pôs a Argentina na final.
Com camisas de Messi e Maradona, padrinho e afilhado brasileiros comemoraram com os argentinos no restaurante uruguaio. Após o jogo, retornaram no carro alugado, chegando noite alta em Montevidéu. Dois dias depois voltaram de ferry a Buenos Aires. De onde tomaram avião no sábado do dia 18, véspera da final, a Bariloche.

Mais uma vez, viram o tempo normal de jogo no quarto do hotel. Em um 0 a 0 em que a Espanha controlou a posse de bola, impedindo-a de chegar a Messi como fizera com Mbappé. Após a expulsão de Enzo Fernández nos descontos, foram ver a prorrogação em meio aos milhares de argentinos reunidos diante do telão, sob o frio de 0 °C, no espaço aberto da praça do Centro Cívico da cidade, às margens do lago Nahuel Huapi.
Ao final dos 15 minutos do primeiro tempo da prorrogação, o dito popular foi confirmado: “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Ou no castelhano de espanhóis e argentinos: “La gota de agua perfora la roca no por su fuerza, sino por su constância”. Em passe de cabeça de Niko Williams dentro da área, o também atacante Fernan Torres marcou de pé direito o gol da Espanha.
No segundo tempo da prorrogação, mesmo com um homem a menos, a Argentina teve duas chances claras de empatar e levar a decisão à disputa de pênaltis. Uma com o zagueiro Senesi, dentro da pequena área. A outra com o atacante Simeone, que chutou por cima do gol, numa sobra de bola adiante da marca do pênalti.
Ao apito final, com a segunda Copa do Mundo da Espanha, padrinho e afilhado brasileiros testemunharam os aplausos de orgulho dos argentinos. Naquela praça de Bariloche talvez mais fria com a derrota justa, viram apenas um torcedor albiceleste caído em prantos. Como o padrinho por conta de Zico em 1986, 40 anos antes.
Messi disputou três finais de Copa do Mundo e ganhou uma, marcando dois gols na de 2022, quando conduziu a Argentina ao título. Por isso, fica abaixo de Pelé e apenas dele. Que disputou duas finais de Copa e levou ambas, em 1958 e 1970, marcando três gols no conjunto. Em 1962, se contundiu e desfalcou o time já no segundo jogo do Brasil, campeão pelas pernas tortas do gênio de Mané Garrincha.
O padrinho de 54 anos não viu Pelé jogar. O afilhado de 17 sequer viu o Brasil levar uma Copa. Mas ambos tiveram da América do Sul a certeza: não viram ou verão um gênio do futebol como Messi. Vê-lo diante da sua torcida, mesmo aos 39 anos, tabelou com a xará do carrasco espanhol, a brasileira Fernanda Torres, ao ser indicada ao Oscar que não levou: “A vida presta!”
Em Bariloche, o padrinho comprou um bonequinho de Messi com a Copa na mão esquerda. Com o qual tencionava presentear outro afilhado, ainda criança pequena, quando voltasse ao Brasil. Mas, refletindo sobre o que testemunhara, tomou o presente a si. De volta à casa, deu morada ao pequeno Messi diante do porta retrato na sala com a foto do filho bebê e Zico.
Outro craque, Manoel de Barros versejou da estante: “A foto saiu legal”.
Publicado hoje na Folha da Manhã.





















