O que fica do estrago de Vorcaro na pré-candidatura de Flávio?

Goste-se ou não de Lula e do PT, qualquer um com dois neurônios é obrigado a admitir: eles são profissionais em eleição. Se não, vejamos: desde a redemocratização do país e sua primeira escolha do presidente da República por voto popular, em 1989, o PT foi protagonista em todas as nove eleições. E venceu cinco delas, três com Lula.
O PT, no entanto, perdeu muito antes de aprender a ganhar. Lula foi batido no segundo turno por Fernando Collor de Mello (hoje, sem partido) em 1989. E foi atropelado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), ainda no primeiro turno, em 1994 e 1998. Só conseguiu vencer após suavizar sua imagem como “Lulinha Paz e Amor”, em 2002.
Vinte e quatro anos depois, era nesse diapasão de “paz e amor”, de “Bolsonaro vacinado”, que Flávio (PL) vinha crescendo em todas as pesquisas presidenciais. Desde que foi ungido seu sucessor pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ainda com este encarcerado na Papudinha, em 5 de dezembro de 2025.
Rapidamente, Flávio se tornou um presidenciável competitivo, evidenciando o piso alto e o poder de transferência de Jair, chegando a passar Lula numericamente nas simulações de segundo turno. Qual seria o teto de Flávio? Era o que perguntavam todos os analistas, com base nas pesquisas de janeiro a meados de abril.
No final de abril, no entanto, as pesquisas presidenciais Atlas e Nexus (confira aqui) pareciam indicar que o teto do senador tinha sido alcançado nas intenções de voto a presidente. Impressão que se reforçou, como uma leve tendência de recuperação de Lula, com a pesquisa nacional Quaest (confira aqui) divulgada na manhã de 13 de maio.
Só que, na tarde daquele mesmo dia 13, o site Intercept divulgou (confira aqui) áudio e mensagens de texto trocadas entre Flávio e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master. No qual o primeiro pedia ao segundo US$ 24 milhões, cerca de R$ 136 milhões, para concluir o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair.
Na primeira pesquisa após a revelação da conversa entre Flávio e Vorcaro, a nova Atlas (confira aqui e aqui) divulgada na última terça-feira (19) deu o tamanho do estrago. Na consulta estimulada ao primeiro turno, Flávio sangrou 5,4 pontos percentuais de intenção de voto: 39,7% de abril a 34,3% em maio — contra 47,0% do petista, 12,7 pontos à frente.
Se o que manteve seria suficiente para levá-lo ao segundo turno contra Lula, a chance de Flávio ser nele derrotado ficou mais provável. Na série Atlas, ele tinha liderança numérica em abril ao eventual segundo turno: 47,8% a 47,5% do petista. Em maio, Flávio sangrou 6 pontos na simulação: 41,8% a 48,9% do petista, 7,1 pontos à frente.

Perguntados pela Atlas de maio se souberam do áudio e mensagens vazadas entre Flávio e Vorcaro, apenas 4,4% disseram “não”, enquanto uma maioria absoluta de 95,6% dos brasileiros respondeu “sim”. Entre estes, outra maioria absoluta de 93,9% da população disse que ouviu o áudio, com apenas 6,1% que não o escutaram.

O resultado, além da queda de intenções de voto de Flávio? Hoje, os que percebem o grupo dos Bolsonaro mais ligado ao esquema de fraudes do Master são 43,3%: 15 pontos a mais que os 28,3% de abril. E, também hoje, os que veem maior ligação do grupo de Lula com o Master são 32,8%: 6,7 pontos a menos que os 39,5% de abril.

Perguntados na Atlas o que a revelação da conversa de Flávio com o ex-banqueiro retrata, a maioria de 51,7% disse que são “evidências de envolvimento direto com o escândalo do Master”. A minoria de 33,3% disse que seria “uma tentativa legítima de conseguir apoio financeiro à produção do filme”, versão do próprio Flávio.

Perguntados pela Atlas se as conversas com Vorcaro enfraqueceram à candidatura de Flávio a presidente, 45,1% acham que “enfraqueceu muito”. Que chegam a 64,1%, se somados aos 19,0% que acham que “enfraqueceu um pouco”. Outros 15,0% acham que “não afetou a candidatura”, com só 13,4% achando que “fortaleceu”.

Na Atlas de maio, 47,4% dos brasileiros disseram que têm mais medo da eleição de Flávio a presidente. São 2 pontos a mais que os 45,4% de abril. Já os que, em maio, têm mais medo da reeleição de Lula são 40,5%. São 6,8 pontos a menos que os 47,3% de abril. E 6,9 pontos a menos que o medo de Flávio em maio.

Quem observa o processo eleitoral brasileiro com um mínimo de isenção e conhecimento, sabe que há muito mais gente atolada até as narinas na lama do Master. Dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União/AP); aos caciques do PT da Bahia: Rui Costa, ex-ministro da Casa Civil de Lula, e o senador Jaques Wagner.
O escritório de advocacia da mulher de Moraes tinha contrato de R$ 129 milhões com o Master. Toffoli teve parte do resort de sua família adquirido por R$ 35 milhões de um fundo ligado ao Master. Alcolumbre tem um ex-tesoureiro de campanha responsável pela aplicação de R$ 400 milhões do Amapá Previdência (Amprev) no Master.
Quanto aos petistas Costa e Wagner, ambos estão metidos do CredCesta, cartão de crédito consignado dos servidores da Bahia operado pelo Master. Em montantes que passaram de R$ 104,8 mil em 2022 a R$ 2,75 milhões em 2024. E foi o líder do governo no Senado que pediu e conseguiu para Guido Mantega, ex-ministro de Lula e Dilma, uma boquinha como consultor do Master, com honorários de R$ 1 milhão/mês.
Tudo isso posto, a bola da vez no escândalo do Master é Flávio. Mas se sua conversa por mensagens com Vorcaro foi em 16 de novembro de 2025, por que só foram vazadas pelo site Intercept em 13 de maio de 2026, quase seis meses depois? É preciso lembrar que o prazo para desincompatibilização venceu em 4 de abril?
Todos os celulares de Vorcaro apreendidos estão com a Polícia Federal (PF). Que, no mundo real, sempre vai estar sujeita à ingerência do Governo Federal de turno. Goste-se ou deteste-se os Bolsonaro, vazar a conversa de Flávio quando o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (REP), venceu o prazo de desincompatibilização no cargo e não pode mais ser candidato a presidente, não parece coincidência de tempo.
Presos ao séc. 20 da CLT e do Brasil industrial do ABC Paulista, Lula e o PT podem ter envelhecido mal no séc. 21 de trabalho marcado pela pejotização e a informalidade dos aplicativos. Mas ainda são profissionais em eleições presidenciais. Na bola e, se necessário, fora dela. Com a possibilidade de uma sacola cheia delas ainda pela frente.
Flávio sabia o que tinha falado com Vorcaro, que os celulares deste estavam sendo periciados pela PF e que o chefe de turno desta é o PT. Por isso reagiu como um amador à revelação das conversas. E paga nas pesquisas o preço do seu despreparo. Muito embora nada garanta que o prejuízo se acentuará, estabilizará ou reverterá.
Acossados pelo crescimento de Flávio em todas as pesquisas de dezembro a abril, os lulopetistas ganharam um refresco em maio. Alguns, que chegaram a aderir entre 2025 e 2026 ao mesmo negacionismo bolsonarista das pesquisas em 2022, até já reativaram o modo delírio. Para voltar a bravatear uma remota reeleição de Lula em turno único.
Apesar do estrago real em Flávio registrado na pesquisa Atlas, ela também deixou um pé no mais provável. No universo dos 49,1% dos brasileiros que deram votos válidos a Jair Bolsonaro no segundo turno presidencial de 2022, a expressiva maioria de 84,2% acha, em maio de 2026, que Flávio deveria manter sua pré-candidatura a presidente.

Em 2018, Bolsonaro só venceu o segundo turno, contra Fernando Haddad como preposto de um Lula preso, porque era pedra e o PT vidraça. Esta, hoje, é a condição do filho 01 de Jair.
Se, até o final de abril, a pergunta era qual seria o teto de Flávio, após 13 de maio, ela mudou: qual é o piso do herdeiro do bolsonarismo? Com a indagação em apenso: alguém mais da oposição pode atingi-lo?
Publicado hoje na Folha da Manhã.




























