Felipe Fernandes — “Michael”: A reconstrução do mito


A reconstrução do mito
Por Felipe Fernandes
“Michael” é um filme que atingiu todas as minhas expectativas e isso não necessariamente é algo positivo. Trata-se de uma cinebiografia chapa-branca que usa a relação de Michael com o pai como foco dramático e recorta sua trajetória desde o início dos Jackson 5 até sua emancipação definitiva, já no auge da carreira solo (não por acaso, o filme se chama apenas Michael).
A relação entre o protagonista e o pai é praticamente o único conflito da narrativa. Fora isso, Michael surge como alguém dotado de um dom divino: tudo o que toca vira ouro, tudo o que faz dá certo. O resultado é um filme dramaticamente vazio. Fica a sensação de que o pai era muito pior na vida real. Ainda que seja retratado como o vilão, tudo parece suavizado, afinal, trata-se do pai de boa parte dos produtores do filme.
A obra insere diversos “easter eggs” (se é que posso chamar assim): o vitiligo, o incômodo com o nariz, e referências a Peter Pan, mencionadas em várias ocasiões. Isso culmina em uma cena constrangedora, em que vemos um Peter Pan muito semelhante à imagem do protagonista no fim da vida (período que não é abordado no filme).
Outro problema recorrente nesse tipo de cinebiografia, que também aparece aqui, são as cenas que tentam explorar o processo criativo do artista. São momentos em que o personagem tem sucessivas epifanias, numa tentativa de justificar sua genialidade, quase como se fosse fruto de um sopro divino, algo que o próprio protagonista chega a mencionar em uma determinada cena.
De positivo, destacam-se as atuações dos dois atores que interpretam o protagonista. Tanto o jovem Juliano Valdi, que interpreta Michael ainda criança, quanto o estreante Jaafar Jackson (sobrinho de Michael), que dá vida ao personagem em sua fase adulta, ambos têm muito carisma. E Jaafar é um achado, não só pela semelhança física, mas ele praticamente incorpora o protagonista.
As cenas musicais (e são muitas) também se sobressaem, conseguindo elevar o filme e reproduzir (dentro do possível), o que era Michael Jackson no palco. No geral, entre bons momentos e algumas sequências bastante constrangedoras (a peruca de Miles Teller é inacreditável), o filme se constrói como uma costura de cenas dramáticas que tentam dar conta da trajetória do biografado, mas principalmente funcionam como ponte entre uma música e outra, afinal, os grandes sucessos precisam estar presentes.
É uma produção de alto valor técnico, mas pobre do ponto de vista dramático. É um filme que quer celebrar, não investigar. E talvez o maior problema seja esse. Michael Jackson é uma figura tão complexa, contraditória e culturalmente gigantesca que uma abordagem “segura” inevitavelmente parece insuficiente para dar conta da magnitude do artista.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
Confira o trailer do filme:























