De onde veio o crescimento de Flávio sobre Lula? E por quê?

De onde veio o crescimento de Flávio sobre Lula?
“Ao mesmo tempo em que você tem esse crescimento de Flávio e essa consolidação dentro do bolsonarismo, você tem do outro lado três movimentos que vão fazendo o Governo Federal piorar na visão pública.” Foi o que diagnosticou (confira aqui), em entrevista ao Folha no Ar da última terça-feira (31), o cientista político Bruno Soller.
Estrategista eleitoral, comentarista político de veículos de mídia nacionais como Metrópoles, Estadão e Record, ele é também diretor do instituto de pesquisa Real Time Big Data, entre os mais conceituados do país. E seguiu enumerando esses movimentos negativos ao Lula 3, refletidos em todas as pesquisas presidenciais até aqui:
— O primeiro deles, em janeiro, um monte de conta para pagar e a lógica de que é um governo que só aumentou o imposto das pessoas. Número dois, escândalos de corrupção do tamanho do mundo: caso Master e caso INSS. Um envolvendo o filho do presidente e o outro envolvendo o STF, que para a maioria das pessoas está mancomunado com o poder vigente — disse Bruno à Folha FM 98,3. Ele seguiu:
— E a terceira coisa, que é muito importante. Vamos lembrar que nós tivemos, na Marquês de Sapucaí, um desfile em que o presidente Lula foi homenageado por uma escola, a Acadêmicos de Niterói (confira aqui, aqui e aqui seus efeitos imediatos nas pesquisas presidenciais de fevereiro). E ali não foi só uma homenagem ao Lula, foi um ataque, em parte, a uma porção da população brasileira cada vez mais crescente, que é a evangélica. O Lula, depois daquele ato, nos nossos trackings (monitoramentos em tempo real), perdeu de 9% a 11% de apoio entre os evangélicos.

Na quarta-feira de 1º de abril, quem também escreveu (confira aqui) sobre os movimentos negativos do Lula 3 foi o grande jornalista Elio Gaspari. Referência não só do jornalismo brasileiro, é o autor da obra definitiva, dividida em cinco livros e muito acima de qualquer historiador tupiniquim, sobre a nossa última ditadura militar (1964/1985):
— Lula resolveu culpar os endividados pelo endividamento da população. Nas suas palavras: “Tudo a gente vai comprando. É R$ 50 ali, R$ 30, R$ 40. Parece que não é nada. Mas quando chega no final do mês, a somatória dessa quantidade de pouquinhos vira grande. E a gente começa a ficar zangado. ‘Trabalhei o mês inteiro, recebi meu salário e não sobrou nada’. Aí quem vocês xingam? O governo” — transcreveu Gaspari em sua coluna de quarta. Que seguiu em sua análise:
— Culpar a população por um problema é a marca dos governantes tontos. E Lula não está tonto porque o endividamento das famílias aumentou. O que o leva a culpar o povo são as pesquisas. Segundo a pesquisa AtlasIntel (de março, confira aqui), a desaprovação do governo chegou a 54% e além disso, uma simulação do segundo turno da eleição mostrou-o tecnicamente empatado com Flávio Bolsonaro. O presidente tem 46,6% das intenções de voto e Bolsonaro II ficou com 47,6%. Diferindo de seu pai, que aproveitava qualquer oportunidade para fazer campanha, seu filho está jogando parado.
Citada pelo Gaspari, a AtlasIntel é só uma das sete pesquisas presidenciais (confira as demais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) realizadas em março. Feitas por institutos diferentes, com metodologias diferentes, todas apontam como tendência inequívoca o crescimento de Flávio, enquanto Lula patina no teto, oscilando para baixo, desde 2025. O filho 01 do ex-presidente também terá que bater no teto de intenções de voto. Mas quando? E de quanto seria?
Com base na AtlasIntel, o teto não só de Flávio, mas da oposição no primeiro turno, poderia ser esses 54% que hoje desaprovam o Lula 3. Mas isso não é conta exata, pois sempre há eleitores que, mesmo desaprovando o governo de turno em tentativa de reeleição, não veem nome melhor ou menos pior nas opções de oposição. Confira no infográfico abaixo:

O maior desafio de Lula não está no primeiro turno, onde ainda lidera numericamente, mesmo que já em empate técnico com Flávio na margem de erro das pesquisas. Mas no provável segundo turno, onde ficou numericamente atrás de Flávio, embora também em empate técnico. Não só na AtlasIntel, divulgada em 25 de março, mas também na pesquisa do instituto Paraná, divulgada na terça (31). Confira nos dois infográficos abaixo:


As simulações de segundo turno das pesquisas AtlasIntel (Flávio 47,6% x 46,6% Lula) e Paraná (Flávio 45,2% x 44,1% Lula) não são o pior problema à reeleição do atual presidente. Mas o fato de que, no cruzamento da Paraná com outra pesquisa de março, a Quaest, divulgada no último dia 11, Lula não merece ser reeleito a uma maioria dos brasileiros que cresce nos últimos dois meses.
Na série Quaest, Lula não merece ser reeleito em março para 59% dos eleitores. São 3 pontos a mais que os 56% que achavam o mesmo em janeiro. Na série Paraná, Lula não merece ser reeleito em março para 53,3% dos brasileiros. São 2,3 pontos a mais que os 51% que achavam o mesmo em janeiro. Esse ponto em elevação, hoje entre 53,3% e 59% dos que hoje acham que Lula não merece ser reeleito, é o teto da oposição. Confira no infográfico abaixo:

É certo que, a partir de amanhã (5), dia seguinte ao limite de desincompatibilização, quando cessar de vez o medo de enfrentar um Tarcísio de Freitas (REP) a presidente com apoio dos Bolsonaro, o marqueteiro de Lula, Sidônio Palmeira abrirá com mais força a caixa de ferramentas contra o telhado de vidro de Flávio. De rachadinhas, parentes de milicianos como assessores e evolução patrimonial incompatível aos vencimentos.
Mas o dano já está feito. Não só com o desfile carnavalesco de 16 de fevereiro em homenagem a Lula e em ataque os evangélicos, como o da ala “famílias em conserva”. A pesquisa Quaest de março revelou de onde saiu a maioria das intenções de voto a Flávio, de dezembro, quando foi lançado pré-candidato a presidente pelo pai, a março.

A Quaest divide o eleitor brasileiro ideologicamente em três grupos quase iguais em tamanho: 33% de esquerda (19% de lulistas + 14% não lulistas), 33% de direita (21% não bolsonaristas + 12% bolsonaristas) e 32% de independentes. Estes são o centro, que migrou a Bolsonaro em 2018 e a Lula em 2022, elegendo ambos presidentes.
Nesse voto de centro, em um segundo turno com Lula (confira aqui), Flávio cresceu 9 pontos dos 23% que tinha em dezembro aos 32% de março. No mesmo eleitor independente e no mesmo cenário de segundo turno, Lula caiu 10 pontos dos 37% de dezembro aos 27% de março. Foi do centro que saíram os dois dígitos do crescimento de Flávio nos três últimos meses. Confira no infográfico abaixo:

Esse é o estrago identitário já causado a Lula não só pela alegoria debochada das “famílias em conserva”, como pelos ataques abertamente misóginos da deputada trans Erika Hilton (Psol/SP). Que, ao tomar posse como presidente da comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara Federal, tentou reduzir agressivamente, aos berros, mulheres biológicas de oposição a… “pessoas que gestam”.
— Erika Hilton é uma forte cabo eleitoral do Flávio. A massa que vota no Lula é conservadora, não é ideológica. A gente tem que parar com isso. A esquerda UFRJ, USP, UFF é muito pequena no Brasil. O voto do Lula é popular, das camadas mais baixas da população, que é conservadora. É onde está o maior índice de pessoas que rejeitam o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o aborto — constatou o cientista político Bruno Soller, diretor do instituto Real Time Big Data, no Folha no Ar da última terça.
Publicado hoje na Folha da Manhã.






















