Arthur Soffiati — Um pulo nos anos 1950 de Jack Arnold


Um pulo nos anos de 1950
Por Arthur Soffiati
Havia muitas casas cinematográficas na década de 1950. Não seria possível visitar todas numa breve crônica. É preciso escolher uma. Escolhi a casa de Jack Arnold, nascido em 1916 e falecido em 1992. Quem assisti a um filme dele atualmente talvez conclua tratar-se de um diretor de filme B, com recursos risíveis. Luto contra o presentismo.
É preciso situá-lo em sua época. Terminada a Segunda Guerra Mundial, em 1945, a Guerra Fria travada entre Estados Unidos e União Soviética levantou três temas para o cinema: 1- uma possível nova guerra mundial, agora com armas nucleares; 2- os perigos decorrentes das pesquisas científicas, sobretudo com o átomo; e 3- perigos decorrentes de viagens espaciais. Este último camuflou muitas vezes a ameaça representada pela União Soviética, mas também perigos que poderiam decorrer da expansão espacial, que estava em curso.
Jack Arnold se destacou com filmes sobre os perigos das pesquisas científicas sem ética e o contato com ETs. Destaco três marcas particulares do cineasta, que chegou a contar com bons orçamentos e a dirigir filmes antológicos. Em “A ameaça que veio do espaço” (1953) e em “Tarântula” (1955), ele segue o padrão de muitos filmes estadunidenses da década de 1950: um evento que pode ganhar a atenção do mundo ocorre numa cidadezinha do interior.
Em “A ameaça…”, um cientista renomado vai morar numa pequena cidade do deserto do Arizona. Um belo dia, o casal presencia uma bola de fogo no céu caindo numa cratera. Seria um asteroide? O cientista descobre que se trata de uma nave espacial. Ele entre em contato com os tripulantes, que, como em “Vampiros de Almas” (1956), os ETs podem assumir a forma de homens e mulheres para não serem notados. Mas eles não pretendiam pousar na Terra. Não eram invasores. Tudo não passou de um acidente. O roteiro se baseia em história de Ray Bradbury.
Em “Tarântula”, cientistas trabalham num laboratório perdido no meio do deserto do Arizona, fazendo experiências para aumentar a oferta de alimentos a uma população terrestre que cresce em progressão geométrica. A intenção é boa, mas o resultado não. É preciso contar com o erro, que consiste na produção de um hormônio que aumenta animais e deforma humanos.
O perigo é representado por uma tarântula que escapa de jaula e ganha proporções gigantescas. Nesses dois filmes, Arnold demonstra seu amor pelo deserto e seus habitantes. O deserto não é apenas um cenário, mas também personagem. A tarântula não é má. Ela é apenas vítima da ciência. Mas precisa ser destruída. Para tanto, é necessário o uso de napalm. Nesse filme, Arnold lança o jovem Clint Eastwood.
Em “O monstro da lagoa Negra” (1954), o diretor deixa o deserto e se enfurna na Amazônia, embora tenha simulado o ambiente equatorial na Flórida. Um cientista descobre uma garra em suas escavações e busca auxilio de especialistas. Trata-se de fóssil do Devoniano, período geológico que parece ter chamado a atenção do cineasta.
Pesquisas feitas numa lagoa evitada por nativos revelam um “monstro” meio peixe, meio humano. Em todos os filmes de Arnold, há uma mocinha do tipo violão com soutien de enchimento. O mostro se apaixona por ela. O filme tem uma cena que chamou a atenção de Ingmar Bergman. O filme teve mais duas continuações com os mesmos truques, mas sem o mesmo sucesso do primeiro.
Em “O incrível homem que encolheu” (1957), considerado sua obra-prima, uma nuvem radioativa atinge um homem e provoca nele um processo de encolhimento progressivo. Sua esposa acredita que ele tenha sido devorado pelo gato da casa, mas ele está no porão procurando sobreviver. Depois de enfrentar uma aranha (mais uma vez ela) com uma agulha e de matá-la, seu encolhimento prossegue. Trata-se de um filme existencial em que um homem é lançado pelo acaso numa aventura não-humana.
Por fim, o retorno à paleontologia e ao Devoniano em “O monstro sanguinário” (1958). Um cientista trabalha com um celacanto, peixe do Devoniano. Aos poucos, vai descobrindo que contatos com resíduos do peixe provocam involução. Ele mesmo é vítima desse retrocesso evolutivo e provoca sua morte. Esse filme pode perfeitamente ser enquadrado na categoria B.
Arnold enveredou pelo faroeste, com “Balas que não erram” (1959). Na Inglaterra, dirigiu, ainda em 1959, a comédia “O rato que ruge”, com Peter Sellers em início de carreira. Na televisão, dirigiu episódios de “Perry Mason”, “Peter Gunn”, “A família Sol-Lá-Dó” e outros. Aos poucos, foi esquecido.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
Confira o trailer do clássico “O incrível homem que encolheu”:











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