Jack Dempsey — A vida e a morte do cão que me guiou à vida

Era o início da manhã de 14 de maio de 2023. Passara em claro aquela madrugada depois que Ícaro Barbosa, meu único filho, morreu na noite anterior, com apenas 23 anos. Buscava, mas não tinha forças para reagir à mais indizível das dores humanas. E voltar ao IML, onde seu corpo estava, para dali providenciar seu velório e enterro.
Já havia tido a experiência da quase morte duas vezes. Mas aquele foi e será, sem dúvida, o ponto crucial da minha vida. Sem companhia humana no apartamento, olhei ao american bully Jack Dempsey, rebatizado com o nome do campeão mundial de boxe peso-pesado entre 1919 e 1926, pelo mesmo porte atarracado e musculoso.
Com os olhos, Dempsey comungava minha dor, por alguém que também amava e que o amou. E que quando cheguei ao apartamento no final da noite anterior, após ver o corpo do meu filho e acariciar seus cabelos dentro de um saco plástico preto dos Bombeiros, disse-lhe, com sua aparente compreensão: “Nosso menino morreu!”
Todavia, Dempsey também me dizia naquele início de manhã seguinte, pelos mesmos olhos cúmplices e por sua expressão corporal, que precisava sair para passear e fazer suas necessidades. Era a vida que continuava sob o sol, em seus aspectos mais comezinhos, após a queda de Ícaro.
Compreendi. E arrancando força física para dar, literalmente, cada passo, como um maratonista ao final da prova, saí para passear com ele, antes de subir, tomar banho e seguir à via crúcis do IML, do velório e sepultamento de Ícaro. O que, com uma clareza que cega a tudo mais ao redor, se não fosse por aquele cão a me guiar da morte à vida, eu não teria conseguido.
Sem hoje parecer por acaso, cheguei a Dempsey por Ícaro. De uma relação altamente tóxica deste, aquele cão foi a única coisa boa que saiu. O ex-cunhado da pessoa com a qual meu filho se relacionava tinha um canil dedicado à raça american bully. No qual Dempsey, com pouco mais de um ano e outro nome, era um dos reprodutores.
Incapaz de manter o canil após a pandemia da Covid e sabendo por meu filho que eu tinha experiência em criar molossos, raças de cães fortes, de nariz mais curto, com patas, cabeça e boca largas (que os antigos romanos chamavam “pugnace”, “lutador”), seu primeiro criador, sabendo que o cão seria bem cuidado, me fez sua doação.

Era o fim de tarde de 31 de maio de 2021, quando eu, Ícaro e seu irmão Aquiles, meu afilhado, fomos buscar o novo cão para levá-lo à minha casa em Atafona. Onde já habitavam dois rottweilers machos, Bismarck, que cumpre até hoje sua função de guarda da casa, e Manfred, que era de Ícaro e faleceu pouco depois dele.
Em tese, rebatizado Dempsey, o cão seria de Aquiles e ficaria na praia. Tentei socializá-lo com Bismarck e Manfred, o que deu certo no início. Até que uma noite, comigo sozinho em Atafona, parei de escrever um texto e saí ao quintal, em direção aos latidos e rosnados fortes de dois molossos se engalfinhando. Eram Bismarck e Dempsey.
Com muito custo, após extenuantes 20 minutos de tentativas infrutíferas, no escuro da luta jurada de morte a cada nova mordida feroz entre dois cães pretos e muito fortes, consegui passar a coleira em Dempsey. E o arrastei pela guia até prendê-la em um gancho de rede da varanda. Após, voltei-me para Bismarck, apliquei-lhe um mata-leão com o resto das minhas forças, deitando-me com ele ao chão.
E ficamos os três, respirando profunda e sofregamente, como os dois pugilistas no último round do filme “Rocky, um lutador” (1976). Fôlego refeito, constatei os danos numa das patas de Bismarck e sobre quase toda a cabeça de Dempsey, mascada como um chiclete por um cachorro bem maior e 15 kg mais pesado.
Por sorte, tinha anti-inflamatório e antibiótico em casa. Que ministrados logo após limpar as feridas na cabeça de Dempsey com antisséptico, fez com que a sua aparência de couve-flor começasse a desaparecer já a partir da manhã seguinte. Mas foi gerada ali a certeza: Bismarck e Dempsey não poderiam mais conviver no mesmo ambiente.
Como estava de férias, na noite daquele evento quase fatídico, que deixou Dempsey pelo resto da vida com cicatrizes de luta no rosto como o campeão de boxe que o rebatizou, passei a tentar criá-lo não mais como cão de quintal, mas de dentro de casa. Nova rotina à qual, de maneira impressionante, ele se adaptou desde o primeiro dia.

Quando voltei das férias em Atafona para Campos, trouxe Dempsey comigo. E nunca mais nos separamos, salvo quando eu viajava, do convívio diário. Já tinha criado 17 outros cães antes dele, mas todos com vida de quintal.
Tive um buldogue inglês, que, em tese, era de Ícaro: Moe. A quem permitia vida de casa quando eu estava em Atafona. Mas que passava o resto do tempo no canil, ou solto sozinho no quintal, para evitar outras pelejas de morte que ele teve com Rommel, meu primeiro cão e rottweiler, entre os anos 1990 e 2000. E que foi o ser vivo, incluindo os humanos, com quem tive mais cumplicidade. Dizíamos nos olhando.
Tempos depois, tive convívio com outro cão de casa, o buldogue francês Zidane. Ao qual presenteei Ícaro na adolescência, em 2015. E que ele, de fato, criou. Mas quase sempre quando ia a Atafona, com Ícaro e Aquiles ou sem eles, levava Zizou. Que foi, a exemplo de Rommel comigo, o ser vivo do qual meu filho foi (confira aqui) mais cúmplice. E de cuja morte, em 2021, Ícaro faleceu dois anos depois sem nunca se recuperar inteiramente.

Em tempo integral, Dempsey foi meu primeiro cão de dentro de casa. O que gera uma relação mais profunda, pelo convívio íntimo diário, do que com um cão de quintal. Casei e, mais do que pretendia, me separei quatro vezes. E, sem desdouro a essas quatro mulheres, pois por todas mantenho carinho e admiração, nenhuma deixou a casa tão vazia quanto ela está desde a última quinta-feira (9).

Em junho do ano passado, Dempsey apareceu com um inchaço na cauda que não cedeu com anti-inflamatório. E que o ultrassom e o raio x indicaram ser tumoral. Como perdi meu pai e um ex-sogro querido por câncer, aprendi que o tempo é fundamental no seu combate. Amputada a cauda, confirmada a malignidade do tumor em biópsia, passamos às seis sessões mensais de quimioterapia prescritas pela oncologista.
Após três sessões, na metade do tratamento previsto, repetidos o ultrassom e o raio x, nenhum sinal de metástase. O que nos encheu de esperança. Mas após a sexta sessão final, refeitos os mesmos exames após o carnaval, a metástase apareceu já tomando os dois pulmões de Dempsey, com um grande tumor no direito.
No dia 27 de fevereiro, uma sexta-feira, quatro dias depois de sair o laudo do raio x, pelo qual até um leigo como eu entendia a gravidade capital do caso, a oncologista finalmente nos atendeu. Ela disse que estimava sua sobrevida em dois meses e que o câncer dele teria mesmo pouca chance de ceder com a quimioterapia.

Ao que lhe pedi que refizesse a frase, pois foi oposta à que me disse antes de iniciar o tratamento. A R$ 800,00 por sessão (R$ 600,00 da quimio + R$ 200,00 de hemograma) no total de R$ 4.800,00. Fora os valores de cada consulta oncológica, R$350,00 cada, sem dar recibo por nenhum, e os gastos com todos os remédios prescritos.
No que deixo o alerta sobre essa lucrativa indústria pet aos criadores de cães. Sobretudo aos muitos que transformam os seus em indivíduos neuróticos, sem nenhum controle, pela arrogância estúpida de tratá-los como um bebê humano. Melhor fariam, aos cães, se tentassem reproduzir suas carências patológicas em um bebê reborn.
Até por respeito às diferenças, um cão tem que ser tratado como o que de fato é: um lobo domesticado, mas geneticamente o mesmo animal. É um predador carnívoro, muito inteligente, de bando e cuja sociologia hieraquirzada em torno de um líder, que, se não houver, será ele próprio, demanda controle por mão humana tão amiga quanto responsável e firme.
O fato é que, a despeito do contraste da expectativa passada antes e depois da quimioterapia, a projeção final da oncologista retraçou os planos humanos. E por isso interrompi minhas férias, que cheguei a anunciar (confira aqui) em 20 de fevereiro, três dias antes de o laudo do raio x revelar a metástase avançada nos pulmões de Dempsey.
Com sua necessidade diária de cuidado pessoal, remédios e alimentação especial, hiperproteica, e sem possibilidade de viajar, cancelei as férias e voltei ao trabalho desde 25 de fevereiro. Foi entre o laudo capital do raio x e a consulta final com a oncologista, até para ocupar a mente com alguma outra coisa.

A partir de pesquisa e consulta com amigos das biomédicas, decidi que cuidaria de Dempsey com todo o carinho, até quando ele não sofresse desnecessariamente. Após seu último final de semana em Atafona, ele parecia bem, dentro do seu quadro terminal, até o domingo passado (5). Mas acordou na segunda (6) com muita dificuldade para respirar, diuturnamente, mesmo dormindo, e também para caminhar.
Como o quadro não se alterou, nem um minuto, nos três dias seguintes, usei o exemplo da vida e da poesia de Antonio Cicero. Que, diagnosticado com Alzheimer e com o avançar da doença, foi para a Suíça, onde a eutanásia, ou morte assistida e indolor, é legalizada. E lá fez sua digna passagem em 23 de outubro de 2024.
“Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.”

Na tarde de quinta, após combinar com outra veterinária, mais solícita e empática, com experiência em eutanásia, voltamos a Atafona, Dempsey, eu, Aquiles e Rosemary, secretária do lar e minha amiga há 25 anos. Demos com ele seu último passeio na praia, lento e sem a guia, entre a foz do Paraíba, o Atlântico e suas ruínas humanas. Em que, no caminho de volta, ele mostrou cansaço à beira da impossibilidade pulmonar.
Pela manhã, tinha pedido previamente a Alex, meu caseiro em Atafona e filho mais velho de Rosemary, para abrir uma cova funda, ao lado de duas casuarinas, no corredor direito da área de lazer da casa. No chão desta, enquanto rolava no som a versão de Oração de São Francisco de Assis por Fagner, foram ministrados a Dempsey, via venal, três seringas de anestésico, para tirar-lhe qualquer dor ou consciência, e depois duas ampolas de cloreto de potássio, que pararam seu coração de forma imediata.
Durante todo o processo relativamente rápido e absolutamente indolor, Dempsey ficou deitado no mesmo chão de ardósia verde em que sempre adorou se esparramar. Sentei ao seu lado esquerdo. Com a mão direita fazia os carinhos atrás das orelhas, como entre o nariz e os olhos, que ele amava de paixão, enquanto tinha a canhota sob seu queixo e garganta, para sentir sua pulsação.

Antes de a primeira seringa de anestésico fazer efeito, disse ao seu ouvido que tinha cumprido o que lhe prometera, desde que seu câncer foi descoberto: ir ao seu lado aonde quer que fosse, com limite apenas na irreversibilidade do seu sofrimento. Pedi também que cuidasse de Ícaro e que não desse outro sacode no abusado buldoguinho Zidane, como ele fez, anos atrás, naquela mesma área de lazer.
Depois ele apagou e fechou os olhos. Senti seu último batimento cardíaco com a mão esquerda. Aquiles, eu e Alex, todos chorando, o levamos à cova, em que o terceiro ajeitou seu corpo ao fundo com carinho. Joguei a primeira pá de areia e Alex completou o sepultamento. Depois do qual, Rosemary e eu dissemos algumas palavras: resumidas na certeza de que lhe devotamos todo o carinho e cuidados possíveis.

Enquanto eu e Rose verbalizávamos nossa despedida, rolava “Hard Times”, de Ray Charles, na voz e guitarra de Eric Clapton. Que Dempsey ouviu tantas vezes comigo na praia, só eu e ele, ou em companhia de outras pessoas. Com as quais, apesar do porte físico de lutador, era docilíssimo, sobretudo com crianças. Mesmo quando as conhecia pela primeira vez, tinha as orelhas puxadas e era feito por elas de “cavalo”.
Seu lado lutador, que o batizou, estampado em seu torso musculoso e do qual levava cicatrizes na face como todo velho pugilista, era restrito a disputas territoriais com outros machos da mesma espécie. Como ocorre com todo o lobo, incluindo os domesticados pelo homem nos últimos 30 mil anos.
Enquanto pensava nisso e na única humanização que presta a cães, que é transformá-los em sujeitos de Direito, a partir do que os quatro adolescentes burgueses que torturaram e mataram o cão Orelha em Santa Catarina, no início do ano, mereciam o Degase e não a Disney, Clapton cantava e tocava o blues em réquiem a Dempsey:
“Yeah, Lord, who knows better than I?
Yeah Lord, yeah
One of these days there’ll be no more sorrow
When I pass away and no more hard times”
“Sim, Deus, quem sabe melhor do que eu?
Sim, Deus, sim
Um dia desses não haverá mais tristeza
Quando eu morrer e não houver mais tempos difíceis”.
Meus tempos foram menos difíceis nos últimos quase cinco anos ao lado de Dempsey. Mesmo não sendo exatamente um católico romano, na devoção que tenho a Francesco di Assisi, santo dos animais, a oração deste, com quem tive uma experiência mística na Úmbria de 2010, foi encarnada em cão para mim 13 anos depois, no momento mais difícil da vida de qualquer ser humano:
“Onde houver desespero, que eu leve a esperança
Onde houver tristeza, que eu leve alegria
Onde houver trevas, que eu leve a luz”.
























Falecido precocemente, aos 30 anos, em um trágico acidente com o avião de pequeno porte que pilotava, na última sexta-feira (3), no Rio Grande do Sul, em que morreram também os outros três ocupantes, Nélio Maria Batista Pessanha (confira