Wladimir não confirma, mas deixa cargo de prefeito no dia 2

 

por Aluysio Abreu Barbosa, Cláudio Nogueira, Hevertton Luna e Gabriel Torres

 

Na sua última entrevista ao Folha no Ar como prefeito de Campos, na manhã de ontem (20), Wladimir Garotinho (hoje, PP) não deu certeza. Mas o fato é que deixará o cargo em reunião marcada ao próximo dia 2, com sua equipe de governo e em sessão extraordinária da Câmara Municipal, passando o bastão da cidade ao atual vice, Frederico Paes (MDB). Embora sem admitir, Wladimir vai se desincompatibilizar para se candidatar a deputado federal em outubro, eleição que pode disputar com o pai, o ex-governador Anthony Garotinho (PP). Ele falou dessa possibilidade, da boa relação que espera manter com Frederico como prefeito, dos acertos e erros dos seus cinco anos e dois meses à frente de Campos e do novo partido, entre PL e PSD. Também analisou, com base nas pesquisas mais recentes, a eleição a presidente da República, em que apoiará Flávio Bolsonaro (PL), a governador e a senador do RJ.

 

Wladimir Garotinho no Folha no Ar de ontem (Foto: César Ferreira/Secom)

 

 

Sai ou fica prefeito? — “Eu vou tomar essa decisão definitiva após o aniversário da cidade, que é dia 28 de março. Tenho já as minhas razões, os meus motivos. Já tenho dito em outras oportunidades da necessidade de Campos voltar a ter representante forte em Brasília, que infelizmente hoje não temos, para lutar pela nossa cidade, pela nossa região. A próxima semana é a do aniversário da cidade. Tem muitas inaugurações programadas da Prefeitura.”

Retorno à Brasília — “O grupo que fica é o que eu lidero hoje. Frederico é uma pessoa muito correta. É dar sequência ao planejamento e ter alguém em Brasília, em outra instância de poder, ajudando a cidade, ajudando a destravar pautas importantes para a nossa região. Posso aqui citar, por exemplo, a lei do semiárido, aprovada por unanimidade no Congresso Nacional, por unanimidade em todas as comissões. Simplesmente houve um veto do presidente Lula, sem ele conhecer, ao meu entender, de perto a realidade. E eu não vi nenhum agente político se manifestar, ir para Brasília brigar, pedir reunião com agentes do Governo Federal. Não vi ninguém. Pelo contrário, eu vi agentes políticos e militantes do PT em Campos questionando a lei aprovada por unanimidade, que é benéfica para todo mundo. Essa é uma das razões.”

Relação com Frederico — “Eu acho que não tem motivo e não terá motivo para eu e Frederico brigarmos. Eu sou uma pessoa muito bem resolvida e decidida; e o Frederico também. Então, se houve brigas no passado (entre outros prefeitos e vices de Campos), eu e o Frederico vamos trabalhar o máximo para que não haja novamente uma ruptura no grupo. O planejamento existe, o grupo está montado e a gente vai trabalhar para que dê sequência no trabalho que vem sendo realizado. É natural que Frederico faça uma adaptação ao seu estilo de governar. Cada um tem o seu estilo. Eu tenho um estilo mais popular e ele tem um estilo mais empresarial. É diferente. E não adianta ele tentar ser parecido comigo ou eu tentar ser parecido com ele, porque isso não vai dar certo e não vai dar liga.”

“Não vou fazer sombra” — “Eu tenho dito que não vou fazer sombra para ele. Vou tocar a minha vida. Se for o caso de eu ter que sair, ele vai assumir o governo. Eu vou estar ali para, se ele precisar, auxiliar. A equipe, até onde eu sei, vai ficar praticamente a mesma. Pode fazer duas ou três mudanças pontuais de secretarias e pessoas mais próximas a ele, o que é normal também de acontecer. Acho, talvez, que para o momento que a cidade vive, cada um cumpriu a sua etapa. Eu cumpri o momento de uma cidade sem caminho, sem perspectiva. Eu tinha uma força de trabalho, uma articulação em Brasília muito grande. Eu consegui unir forças, unir a cidade com o meu estilo popular. Eu ganhei a rua e consegui refazer o planejamento.”

Futuro político de Garotinho — “Ele tem o direito de pleitear ser candidato ao que ele quiser. Mas ele já disse, durante esse processo, que ele seria candidato a estadual, a governador se alguém desse a vaga para ele. Disse que pode ser candidato ao Senado, porque ele não acredita nem que Castro e nem que Canella (pré-candidatos a senador do PL) serão candidatos. E também está dizendo que pode ser candidato a deputado federal. Então, ele está se colocando para todos os cargos. Ele tem opção, eu não tenho. Se eu sair, sou pré-candidato a deputado federal. Eu só tenho essa opção. Eu já ouvi ele falar as quatro, inclusive para mim. Apertou a minha mão uma vez que seria candidato a estadual. Então ele já falou que ele tem várias opções, mas ele tem ainda um problema de documentação (relativo à condenação na Operação Chequinho). Tomara que resolva, torço de verdade. Na verdade, (Cristiano) Zanin foi o ministro (do STF) que deu a ele uma liminar. O processo estava com a (ministra do STF) Cármen Lúcia.

Continuar prefeito — “Eu tenho que tomar uma decisão que é importante para o grupo político. Eu não estou tomando a decisão porque é melhor para Wladimir. Eu confesso que ficar prefeito para mim hoje é a melhor opção. Estou perto de casa, perto da minha família, perto dos meus amigos. Eu fui eleito para cumprir o mandato até 2028. Quando eu acabar o mandato, vou ser secretário de Estado de quem seja o próximo governador. Os dois lados já me convidaram para isso. Caso eu fique, eu seria secretário de Estado lá em 2028. Eu estou tomando a decisão. Caso eu venha mesmo a tomar essa decisão de sair para ser candidato a deputado federal pelo projeto político da cidade, da região; não é por mim.

Disputar o mesmo cargo com o pai — “Não vou entrar em polêmica. Estou fazendo aquilo que é necessário para o bem da manutenção do grupo. Se ele (Garotinho) entende diferente, ele tem o direito de entender. Eu já tentei conversar e convencê-lo algumas vezes, mas ele é difícil de ser convencido. Ele gosta de tentar convencer as pessoas. Então, vou trabalhar, olhar para frente, reunir novamente com quem tenho que reunir, com o meu grupo político, que está comigo nessa caminhada desde 2020, para tomar a melhor decisão. Caso venha a acontecer de eu disputar a mesma eleição que ele, eu lamento, mas eu vou ter que disputar e torcer para que os dois sejam eleitos.”

Convite do Republicanos — “Meu pai nunca me fez essa proposta. A proposta chegou a mim por outras pessoas. Não acho que é a solução. Eu não irei para o Republicanos porque eu tenho as minhas razões. Não tenho relação pessoal próxima com o presidente do Republicanos, que é o bispo Luiz Carlos. Na verdade, o Republicanos está usando ele (Garotinho). A chantagem é do Republicanos com o meu pai. Meu pai quer ser candidato ao Senado. Sabe o que o Republicanos diz? Você vai ser só se seu filho vier para cá.

Apoio à Flávio Bolsonaro — “O meu candidato (a presidente) é Flávio (Bolsonaro), independente da sigla partidária que eu estiver. Então preciso ir para uma sigla onde fazer isso. (Gilberto) Kassab (presidente nacional do PSD) disse que não teria problema algum (ir para o PSD e apoiar Flávio). Eu não sou um político de base ideológica. Tenho as minhas convicções, sou conservador de princípios, apesar de progressista em algumas políticas públicas. Eu sou de princípios conservadores. Eu acho que são coisas diferentes que têm se misturado muito ao longo do tempo, demais até, sem necessidade. Então, sou conservador de princípio, mas nas políticas públicas, tem várias delas que sou progressista. Não vejo dificuldade nenhuma nisso. Mas eu sou um político que gosta muito mais da entrega de resultado do que de ficar discutindo política ideológica que não leva a lugar nenhum.”

Escolha da legenda — “A sigla partidária que me oferecer as melhores condições de entregar resultado, de produzir resultado, é para onde eu tenho que ir. E por isso eu não decidi ainda para onde eu vou. Flávio é meu amigo pessoal. Ele me disse que uma das pouquíssimas campanhas que ele foi em cidade do interior foi a minha em Campos. Ele veio aqui no meu lançamento de candidatura. Falo com ele, se eu ligar ele me retorna. Eu mando mensagem, falo com o Flávio sempre. Uma vida corrida como ele tem, senador da República, pré-candidato a presidente da República. Ele me ligou há dois dias. Falo com o Kassab também, mas repito, o Flávio é o pré-candidato, ele não é o presidente do partido. Eu preciso ter uma conversa com o presidente do partido nacional, que é o Valdemar (da Costa Neto), para entender quais são as ferramentas que eu posso ter no PL para produzir resultado concreto para a minha cidade e para a minha região.

Caixa da Prefeitura — “Peguei uma cidade com exatamente R$ 11 milhões em caixa em janeiro de 2021. Desses R$ 11 milhões, apenas R$ 2,7 milhões disponíveis para pagamento de pessoal. Eu tinha uma folha R$ 80 milhões para pagar em 10 dias. Sabe quanto tem no caixa hoje se eu sair? Mais de R$ 500 milhões. A Prefeitura está organizada. Então, Frederico, caso assuma, vai ter uma Prefeitura organizada

Aplicação do PreviCampos no governo Rosinha com o Banco Master — “Tem aplicação com o Vorcaro na minha gestão? Não. E por que não tem na minha gestão? Porque eu recusei. Estou falando aqui de público pela primeira vez. Veio gente do Banco Master na Prefeitura. Sabe o que eu fiz? Vai para o Conselho (do PreviCampos), se o Conselho aprovar, faz. Se não aprovar, não faz. O Conselho reprovou e não fez. E ponto. Não adianta ninguém me cobrar nada. Eu peguei de liquidez no PreviCampos R$ 261 milhões em janeiro de 2021. Hoje, de liquidez no PreviCampos tem R$ 516 milhões. Eu dobrei em cinco anos a liquidez do PreviCampos. Quando eu assumi, o cálculo atuarial dizia que em 2027 a PreviCampos quebrava. Hoje, o cálculo atual já diz 2034. Então, o trabalho está sendo feito de maneira correta, séria e transparente.”

Transição — “Não tem uma transição formalizada. Inclusive, semana que vem, isso é normal dentro do governo, eu tenho uma reunião de acompanhamento do planejamento do ano. Onde o Frederico participa, o Controle participa, a Fazenda participa, a Procuradoria participa. A gente vai pegar o primeiro trimestre, acompanhar a previsão de arrecadação, de despesa e a receita. A questão do dia a dia da Prefeitura, você só pega no dia a dia. As ideias macro, os serviços macro, eles estão no seu fluxo. Pode ajustar, mas a transição formal não existe. Existe um grupo de pessoas que trabalha, que se dedica. O que a gente não tira nunca de foco é o planejamento e o acompanhamento da execução orçamentária, porque a receita flutua.

 

Wladimir Garotinho, ontem, no estúdio fa Folha FM 98,3 (Foto: César Ferreira/Secom)

 

Geração de empregos — “Nós estamos falando de mais de 4 mil empregos de carteira assinada na cidade de Campos por ano. Estamos falando de 4 anos, quase 16 mil empregos. Se isso não for força e não for número positivo, eu desconheço o que seja. Se você pegar os dados oficiais do Caged, ano a ano e até mês a mês, tem mês que Campos é o segundo município no estado que mais gerou emprego. Varia sempre entre os cinco no estado.”

Transporte público — “Foi questão de ajuste interno do Governo Federal (para renovar a frota de transporte público de Campos), de fonte de financiamento. Saiu do BNDES e foi para a Caixa Econômica Federal. Quando eu vou para primeira reunião, falaram: ‘Olha só, tem uma diferença do BNDES. A carência não é mais 36 meses, são 12’. Falei, é impossível, eu não consigo pagar. A Prefeitura não consegue pagar. E aí eu podia ser irresponsável: vou pegar, vou sair em abril do ano que vem e deixo a bomba na mão do próximo. Eu vou ser irresponsável de quebrar a cidade? Temos problemas no transporte? Temos. Qual é a lógica de, neste momento, com a van do jeito que está, com os ônibus do jeito que estão, eu inaugurar os terminais?

Pagamento dos servidores — “Uma grande conquista de gestão. Pela primeira vez na história, no ano passado, Campos pagou os seus servidores com 100% de recurso próprio. Isso é uma marca de gestão importante, que não pode ser esquecida. Aí eu vou pegar tudo isso, vou jogar fora por pegar um financiamento impagável, para depois ser acusado o resto da vida que eu quebrei a cidade? Eu não vou fazer isso. Então, existe o problema de transporte? Existe. Eu planejei para executar e não consegui. É uma frustração que eu tenho, não consegui resolver o transporte, apesar de ter planejado.”

Douglas Ruas a governador — “Primeiro precisa decidir quem é o candidato. Eu não sei se Douglas é pré-candidato, de verdade. Eu tive uma conversa agora essa semana com o Douglas, levei três horas e meia conversando com ele. Só que agora o (ministro do STF Luiz) Fux deu uma decisão que mudou tudo. Eu não sei se ele (Douglas) é mais (candidato). A gente precisa decidir. Eu não posso fazer aqui projeção sem ter a definição de quem é o candidato. Se ele for, o Douglas é um excelente quadro. Ele é mais novo que eu, tem 37 anos. É um garoto do bem. Eu conheço ele, posso falar. Não tem como as pessoas acharem essa ligação com o Bacellar. Não tem mesmo. Ele é de uma cidade pobre, que é São Gonçalo. Ele e o pai dele, o prefeito Capitão Nelson, deram jeito na cidade, organizaram.”

Apoio a governador — “Eu não decidi ainda porque eu não sei se Douglas é candidato. Não sei mesmo. É possível que eu apoie Douglas. Se Douglas não for candidato, eu posso apoiar Eduardo. Aí (se os dois forem candidatos) entra a decisão partidária. Eu vou para onde? Se eu for para o PL, eu vou ter que apoiar Douglas. Se for PSD, eu vou ter que apoiar Eduardo. O quadro no Rio de Janeiro está muito indefinido. O problema é que não dá para ter certeza do que vai acontecer. Nós temos até o dia 4 para definir partido, não definir quem é candidato. Candidato só decide na convenção que é até (5 de) agosto.

“Flávio é de centro-direita” e vacinação — “Eu não sou de extrema-direita e nem acho que o Flávio é. Flávio é centro-direita. Flávio é muito mais do diálogo e equilibrado do que os posicionamentos do pai. Então, o Flávio diz que tomou vacina. Eu acho a vacina importante. A vida inteira eu tomei vacina. Acho que todos nós aqui no estúdio tomamos vacina. Então, a nossa cobertura vacinal, quando eu assumi, era 40%. Já estamos batendo quase 90% e a meta do ministério é 95%. A gente deve até o meio do ano voltar a bater meta de vacinação, coisa que a cidade não bate há 10 anos.”

Eleição a presidente — “Acho que essa eleição vai ser decidida em 5% do eleitorado do centro. Essa é a minha análise. Você tem dois polos consolidados (à esquerda e à direita) e que não vão mudar. Dificilmente um lado vai tirar voto do outro. Você tem 5% em disputa apenas. Primeiro, é quem errar menos e segundo é quem se comunicar melhor. E aí, no meu entender, o campo de Lula está errando muito. Vou dar um exemplo aqui que é até polêmico e que algumas pessoas podem me criticar por eu falar, mas é a minha opinião verdadeira. E não é nada contra, é apenas a minha opinião verdadeira. O Carnaval foi uma tragédia para Lula, aquela aula específica (‘famílias em conserva’). E também, para mim, não pega bem no ano eleitoral você fazer um desfile para o presidente da República.”

Erika Hilton cabo eleitoral de Flávio — “Erika Hilton neste momento, na posição que está (presidente da Comissão da Mulher na Câmara dos Deputados), é a maior cabo eleitoral de Flávio. Neste momento, está falando para a bolha dela e para uma bolha de esquerda que apoia a Lula, que só reforça o voto deles. Mas esses 5% que vão decidir a eleição não querem isso. Estou falando aqui abertamente, vai gerar polêmica. Eu não tenho nada contra. Eu acho que as minorias, os trans e quem quer que seja, têm que ter o seu direito de fala respeitado, tem que ser defendido, tem que ser olhados com carinho. Eu criei em Campos o Ambulatório LGBT, porque eu acho que as minorias têm que ser defendidas, protegidas, olhadas com todo carinho, com todo respeito. Mas eu acho que ela (Erika) está no local inadequado.”

Bipolaridade política — “Deixou de ser o voto em quem você gosta só. Virou o voto contra quem você odeia. Isso é muito perigoso. Para a democracia, inclusive. A gente está por uma faísca de ter um problema sério neste país. Porque você antes votava em quem você acreditava, em quem você gostava. Você pode até não concordar com o outro, mas hoje você odeia o outro. Você não está conseguindo ter conversa civilizada. Até em família.”

Favoritismo de Paes a governador — “A eleição não começou. Eduardo é favorito há muito tempo, as pesquisas davam ele com 35%, 37%, agora já passou da casa dos 40% (na pesquisa Real Time Big Data de março, variou de 42% a 46% de intenção de voto a governador em dois cenários de consulta estimulada). Na minha opinião, por falta de uma candidatura colocada. O Douglas, quando se coloca, já vai a 13% (de 11% a 13% nos mesmos dois cenários da mesma pesquisa). É uma eleição matematicamente aberta. Eduardo é um nome conhecido, quatro vezes prefeito da capital, já disputou eleição de governador duas vezes. Tem uma rede social muito forte, que hoje faz diferença. Quando ele foi candidato às outras vezes, não tinha. Eduardo pode se considerar favorito? Pode, mas a eleição está aberta. A rejeição de Douglas é muito menor do que a dele.”

“Dificilmente acaba no 1º turno” — “Você não tem candidato colocado do outro lado (de Paes a governador). A partir do momento que tiver, a gente vai ver quem é, qual é a capilaridade dele, qual partido ele está, para saber se vai ter jogo ou não. É isso que vai acontecer. Dificilmente essa eleição acaba no primeiro turno no Rio. Na espontânea ele (Paes) tem 12%. O Douglas, que entrou agora, tem 7% (soma dos 2% de Ruas, mais os 4% de Castro e o 1% de Flávio na consulta espontânea a governador). Porque na hora H, o eleitor de Flávio, no Rio, ganha de Lula. Eduardo é prefeito da capital, tem uma vantagem só na capital. A eleição presidencial não influencia na municipal. Influencia na estadual, porque é a mesma eleição.

Complexo Farol/Barra do Furado — “Tem que dar mérito a quem tem mérito, que é a iniciativa privada. O Banco Fator, um dos principais acionistas nessa nova etapa, colocou R$ 900 milhões de investimento privado. Esse é o primeiro investimento do complexo, depois virão outros, já de R$ 900 milhões. Então, é um sonho para a nossa região. Vai gerar muito emprego, emprego qualificado. Vai gerar renda, vai gerar oportunidades inúmeras. O que vai funcionar lá? Descomissionamento de plataforma, reciclagem de embarcações. A partir disso, por exemplo, você vai descomissionar uma plataforma, o que você vai fazer com o aço? Ou você vai vender para a CSN ou você pode fazer uma indústria nova, ali mesmo em Barra do Furado, para aproveitar o aço.

Eleição do Rio à direita — “A eleição no Rio está à direita. Em todos os cenários, os dois primeiros são senadores de direita. Então a eleição para o Senado está à direita e a eleição para presidente está à direita. Mais um motivo para dizer que a eleição de governador está aberta, que a direita ainda não tem nome. Ele (Paes) está com o Lula no palanque dele. Ele vai ter que dizer para o eleitor de Lula que ele é de direita. Ele tem que escolher também. Desculpa, nada contra o Eduardo não, mas ele tem que escolher. O Eduardo sempre foi um político de centro-direita, a vida inteira.”

Senado — “Acho que pode surgir um outro nome. Caso o Cláudio não possa ser candidato, o nome do PL vai ser o (ex-secretário estadual de Polícia Civil Felipe) Curi (PL) para o Senado. O Curi pode ser o candidato a governador ou até a senador. Mas se o Douglas quiser ser o candidato, vão botar no (mandato de governador) tampão alguém que vai fazer a travessia para o Douglas ser candidato. O Douglas tem que querer ser. Se o Douglas não quiser, o Curi pode ser, desde que ele também queira. Mas o que eu já ouvi de certeza é que se o Cláudio, por algum motivo, não puder ir para o Senado, quem vai é o Curi. A eleição está completamente aberta. Benedita é a candidata de esquerda mais competitiva (ao Senado). Ela é disparada a mais competitiva. Tem toda uma história. Foi governadora durante um período, foi vice do meu pai. É muito conhecida, mas tem dificuldade no interior. Ela tem voto na capital. Não sei nem se tem na região metropolitana.”

Caio Vianna — “Eu vou reforçar e continuo dizendo aqui que se Caio Vianna quisesse ser candidato a deputado estadual do grupo, ele tem a vaga. Depende dele. Eu disse isso aqui que o grupo poderia ter três candidaturas. Estou repetindo aqui, publicamente, eu não briguei com o Caio. Sequer falei com ele. Dei até uma entrevista esta semana, uma fofoca de internet. Ele, no Farol de São Thomé, nesse verão, na casa de Ruy (Crispim, aliado de Caio e secretário de Governo de Wladimir), me disse que desceria para estadual. Falei: ‘Então vamos tirar foto agora’. Ele não quis tirar: ‘Não, eu preciso falar com o Eduardo’. Isso foi em janeiro e nós já estamos em março. O tempo passa, as pessoas se movimentam, os espaços vão ficando diminutos. Então, precisa se movimentar. Mas se ele quiser, pela aliança que nós fizemos, pela história das nossas famílias que foi difícil resgatar, essa história no campo popular.

Garotinho — “Ele tem tamanho e história para disputar uma eleição ao Senado com chance de ganhar. Clarissa na eleição passada, sozinha, fez 1 milhão e 200 mil votos (a senadora). Romário se elegeu com 2,2 milhões. Então o Garotinho tem tamanho, tem história para isso. Se o Republicanos não quiser dar a vaga do Senado para ele, tem quem queira dar. Eu sei que tem partido que quer dar a vaga do Senado para ele. No PL não vai. No PSD também não vai. Vamos ser sinceros, onde eu estou conversando, não vai. Mas eu sei que tem partido que quer. É partido menor, mas é uma disputa majoritária. Acho que ele tem tamanho para isso.”

Pai contra filho a deputado federal? — “Voto ele tem e eu tenho. Eu tenho muito voto dele, porque herdei, com trabalho, com carisma, com continuidade de políticas públicas. Mas eu conquistei o meu eleitor, mais jovem, diferente um pouco do eleitor dele. O eleitor na pedra (a 98ª Zona Eleitoral de Campos, que sempre teve resistência ao garotismo, mas aderiu a Wladimir) que ele não tinha, que eu consegui capturar, consegui convencer. Agora, eu vou lamentar muito se isso acontecer. Não quero isso, não quero um confronto. Até porque a eleição sobra cotovelo para tudo quanto é lado, não quero isso. Mas vou repetir, eu tenho muito carinho pela história dele, pelo meu pai. Eu amo meu pai, alguém tem dúvida que eu amo o meu pai? Eu amo tanto que para evitar brigar às vezes eu me afasto, porque eu não quero brigar com ele. Então, por amor, a gente fica perto. Mas, às vezes, por amor, a gente se afasta, para evitar briga.”

Rumo do grupo político — “Eu estou em uma fase que eu preciso decidir e essa decisão pode mudar o rumo do grupo político para frente. Eu não posso, em meu nome ou pelo meu desejo, arriscar. Tanto que eu convoquei uma reunião, de algumas pessoas do grupo político, para sábado (hoje) à tarde. Depois lá de Barra do Furado. Dez ou 12 pessoas, não mais do que isso, para discutir qual caminho nós vamos tomar. Eu preciso decidir em grupo, porque eu não quero depois ser acusado: ‘Ah, mas você fez isso e atrapalhou todo mundo’.”

Concurso da Educação — “O concurso da Educação está suspenso por uma decisão liminar. Eu discordo da decisão e a Prefeitura está recorrendo. Por que eu discordo? Porque a Procuradoria do Município, que tem os seus advogados, seu corpo técnico, alega, e para mim de forma correta, que o edital foi baseado em uma lei específica aprovada pela Câmara de Vereadores por unanimidade. Então, não existe possibilidade de retificação de edital. O edital é baseado em uma lei aprovada pela Câmara. A Defensoria questiona a lei. Então teria que fazer uma nova lei. Quem faz a lei não é o prefeito, quem faz a lei é a Câmara. Então tem que voltar para a Câmara para se produzir uma nova lei, para se votar novamente. Não foi fácil aprovar a lei dos 10% de cota não. Você tem gente ali que é contra e eu tive que convencer. Então, Defensoria, com todo respeito, todo carinho, já tivemos outras conquistas juntos, outros acordos. Mas esse não dá para fazer acordo, porque depende de lei específica.”

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

0

Geraldo Coutinho — Campos dos Goytacazes: uma aliança necessária

 

 

Geraldo Hayen Cotinho, industrial e

Campos dos Goytacazes — Uma aliança necessária

Por Geraldo Hayen Coutinho

 

Temos percebido que as discussões a respeito do desenvolvimento, ou da falta deste, vem ganhando contornos diferentes do que se observava no passado. Diferentemente dos modelos anteriores hoje estes debates estão se ampliando de forma significativa, interessando e atraindo pessoas e grupos dos mais diversos que agregam suas diferentes experiencias profissionais e de vida, enriquecendo o debate a partir da base da nossa sociedade. Isto é muito bom e deve ser impulsionado.

São profissionais liberais, produtores rurais, industriais, empresários do comércio e serviços, estudantes, empregados, prestadores de serviço, membros da Academia, integrantes de associações, sindicatos, cooperativas, fundações. Todos trazem uma percepção de que é possível fazer mais. A sensação generalizada é que a população vem deixando de se apropriar de oportunidades que poderiam reverter a curva de empobrecimento para uma trajetória de desenvolvimento socio econômico, com um enfrentamento mais efetivo da miséria, da favelização, do desemprego e, na ponta da linha, da criminalidade. São integrantes da nossa sociedade que percebem o extraordinário potencial econômico de geração sustentável de empregos e renda. E sabem da magnitude do orçamento público municipal que, com todas as vinculações existentes, ainda assim seria possível direcionar parcela mais significativa para a promoção de projetos estruturantes.

Entendemos que o desenvolvimento decorre de ações cooperadas entre poder público, o setor produtivo e sociedade. Entretanto, nos últimos 40 anos isso não aconteceu na nossa região. Continuamos pagando um preço altíssimo em razão dos equívocos cometidos no trato desta questão. Tivemos líderes políticos que hora davam as costas para o setor produtivo, hora elegiam algum segmento como algoz com intuito de transformar em plataforma política fácil e demagógica. Tivemos parcelas da sociedade olhando para outro lado como se não lhes dissesse respeito. Enfim, expoentes da política e da sociedade caminhando sem qualquer articulação nas questões do desenvolvimento. Vivenciou-se, nestes tempos, a falta de diálogo entre as partes, prevalecendo visões econômicas superficiais ou equivocadas e muitas vezes omissões ou inércias.

O nosso quadro econômico-social até o final da década 1970 revela indicadores bem melhores do que hoje observamos, consequente de uma estrutura produtiva de base agrícola e em seu centro a agroindústria da cana de açúcar. São atividades que geram grande efeito multiplicador de empregos e renda, impulsionando indústrias serviços e comércio no seu entorno, fazendo a economia girar internamente. Mas, diferentemente deste período o setor foi o saco de pancada preferencial de quem não tinha mais o que propor. Apenas como um exemplo do que tento dizer, em passado recente chegamos ao ponto de constar no plano diretor de Campos dispositivo de erradicar a lavoura canavieira! Hoje as fragilidades da agropecuária e a baixa expressão do setor industrial retratam bem sobre as perdas resultantes da ausência de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento.

Ora, o progresso é por natureza uma obra delineada e construída no local e para os locais dele usufruírem. Não nasce em Brasília ou na capital do Rio de Janeiro, começa por um desejo local, uma disposição firme e real de levar um projeto adiante. Só assim é possível pensar conseguir o necessário apoio das esferas estaduais e federal. Daí porque a fundamental importância de participação ativa do poder público municipal. Eleger como prioridade de governo bandeiras que permitam alcançar o crescimento econômico que impacte em todas as camadas da população, que seja sustentável, digno, redutor de desigualdade. Isto não é sonho, temos exemplos para concretos para nos referenciar, basta visitar alguns municípios do vizinho ES, do semiárido nordestino, e centenas outros Brasil afora. Ressaltamos: todos esses municípios tem restrições orçamentárias; muitos com adversidades climáticas mais graves que as nossas; e poucos detendo vantagens comparativas de logística para os mercados ou de dispor de centro universitário, de destaque em tecnologia e inovação.

Entendemos que um grande projeto para o desenvolvimento só terá chances de vingar se for abraçado e compreendido como prioridade pelo chefe do executivo municipal. Entidades, empresas e Academia interagem entre si e conduzem algumas ações em conjunto, que, entretanto, necessitam ser ampliadas através de uma nova dinâmica de participação e articulações do prefeito. Estão em áreas impulsionadoras, como por exemplo, na adequação da agropecuária ao clima semiárido, assistência técnica e extensão rural, montagem de projetos em energia limpa, produção de biomassas de diversas fontes para exportação pelo Porto do Açu, estruturação de ambiente para operação de startups. No fundo visam efetivar produção regional em grau de competitividade como nenhuma outra do país face a curta distância de um porto, como estamos em relação ao do Açu.

Por outro lado, além de ações próprias de recuperação das vicinais e infraestrutura nos distritos, é essencial suas articulações para a derrubada do veto do presidente Lula à classificação climática de semiárido, e no âmbito estadual a implantação da Zona Econômica Especial do Açu, bem como alterações de normativos do INEA interferentes na produção da agropecuária, pesca em “tanque-rede” e alocação de verbas de compensação ambiental.

Neste texto falo de omissões do passado, porém é necessário fazer ressalva ao prefeito Wladimir que tem nosso reconhecimento do esforço feito em sua gestão. É natural que diante de problemas herdados do passado, pelas emergências reclamadas no presente, projetos para o futuro não recebam o selo de prioridade máxima. Hora de virar a chave. A hora de cuidar do futuro é agora

Este é o momento de firmarmos uma aliança para o progresso de Campos dos Goytacazes e região. A sociedade reclama, anseia e merece que seja aqui gerado crescimento econômico, social e ambiental, interrompendo o ciclo de aumento da pobreza de parte da população. Não há mágica a ser inventada, a receita passa pela reunião de todos e, obrigatória e necessariamente pelo comando do mandatário maior do município.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

0

Wladimir Garotinho fecha a semana do Folha no Ar nesta sexta

 

(Arte: Joseli Matias)

 

Prefeito reeleito de Campos em turno único e pré-candidato a deputado federal, Wladimir Garotinho (hoje, PP), é o convidado para fechar a semana do Folha no Ar desta sexta (20), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.

Ele responderá à pergunta que ronda seu futuro político a curto prazo: permanecerá prefeito até o fim do mandato em 2028 ou se desincompatibilizará do cargo até 4 de abril para ser pré-candidato a deputado federal, cargo que já ocupou de 2019 a 2020?

Wladimir também fará um balaço, entre acertos e erros, dos seus cinco anos e dois meses de governo em Campos. E falará do seu destino partidário entre o PL e o PSD e do seu apoio a governador do RJ, disputado (confira aqui) pelos pré-candidatos ao cargo Eduardo Paes (PSD), prefeito carioca; e Douglas Ruas (PL), deputado estadual licenciado como secretário estadual das Cidades.

Por fim, o prefeito falará do seu apoio já definido à pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL). E, com base nas pesquisas mais recentes (confira aqui e aqui), tentará projetar as urnas de 4 de outubro, daqui a exatos 6 meses e 16 dias, a presidente, governador, senador e deputados.

Quem quiser participar do Folha no Ar desta sexta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

0

Deputado Pastor Henrique Vieira no Folha no Ar desta quinta

 

(Arte: Joseli Matias)

 

Teólogo, sociólogo, historiador, pastor, professor, ator, escritor, pastor da Igreja Batista do Caminho no Rio de Janeiro, deputado federal e pré-candidato à reeleição, Henrique Vieira (Psol) é o convidado do Folha no Ar desta quinta (19), a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.

Por motivos de deslocamento físico do parlamentar do Rio a Campos, porém, sua entrevista está programada para ir ao ar das 8h às 9h da manhã.

Com tempo da entrevista excepcionalmente reduzido à metade, os temas serão apresentados em um único bloco: Estado laico, identitarismo e seus reflexos (confira aqui) entre o eleitorado brasileiro majoritariamente conservador e projeção do pleito de outubro, segundo as pesquisas mais recentes, a presidente (confira aqui), governador, senador (confira aqui) e deputados.

Quem quiser participar do Folha no Ar desta quinta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

0

Felipe Fernandes — “A Noiva!”: A subversão de Mary Shelley

 

 

 

Felipe Fernandes, cineasta publicitário e crítico de cinema

“A Noiva!”: A subversão de Mary Shelley

Por Felipe Fernandes

 

Criada em 1935, “A Noiva de Frankenstein” surge como continuação cinematográfica do sucesso “Frankenstein”, de 1931. O filme utiliza um dos acontecimentos do clássico de Mary Shelley para seguir com a trágica história da criatura, apresentando uma personagem com pouquíssimo tempo de tela, mas que deixou sua marca pelo visual marcante e pelas diversas questões envolvendo sua criação.

Passado quase um século, a atriz, roteirista e diretora Maggie Gyllenhaal resgata a personagem e busca subverter tudo o que conhecemos sobre ela, ao adicionar temas bastante atuais em uma releitura estilizada. Que mistura diversas referências na tentativa de dar à personagem o destaque que ela nunca teve.

O filme abre com Mary Shelley em uma espécie de limbo e, a partir dele, ela passa a narrar a verdadeira história da Noiva, que, em tese, sempre foi a história que ela quis contar em sua obra literária. A trama se passa na Chicago dos anos 30, curiosamente o mesmo período em que os filmes da Universal foram lançados, mas principalmente um momento que reforça a mistura de estética gótica com noir que o filme explora ao longo da narrativa.

Repleto de homenagens (principalmente às mulheres), o filme parte de uma premissa muito parecida com a produção de 1935. No entanto, ao contrário daquele, em que acompanhamos a busca do monstro de Frankenstein por uma noiva, aqui vemos as consequências do nascimento da nova criatura, que, sem memórias anteriores à sua morte, aceita em um primeiro momento a condição que lhe é imposta. Aos poucos, porém, ela retoma sua personalidade por meio de suas atitudes e resgata sua verdadeira natureza.

O filme trabalha a rebeldia por meio de uma estética alternativa e de personagens que desafiam o papel que a sociedade tenta impor a eles. Para isso, mistura diferentes gêneros, horror, comédia e musical, culminando em um filme policial que parece um pastiche de Bonnie and Clyde. Alguns dos melhores momentos acontecem justamente quando o filme se permite ser mais fantasioso.

Frankenstein (que aqui ganha o nome de seu criador) é apresentado como um homem solitário, com um lado mais humano, melancólico e complexo. Em sua solidão, ele desenvolve um apreço pelo cinema, interagindo com os filmes e imaginando-se naquele mundo de espetáculo onde tudo parece ser belo e perfeito. Nesse sentido, é interessante como ele cria e narra para a Noiva um falso passado que eles nunca tiveram, construindo a narrativa de uma vida que sempre desejou, mas que, devido à sua aparência, nunca pôde viver.

A cena do musical pode parecer estranha em um primeiro momento, mas a bela coreografia (impossível não lembrar de Thriller) e a direção de Gyllenhaal fazem dela o ponto alto da narrativa. É justamente nesse momento que ocorre o ponto de ruptura. Até ali, Frankenstein era o protagonista do filme; a partir daí, a história se torna mais violenta e a Noiva assume o centro da narrativa.

A Noiva passa a ser uma mulher que não se lembra de seu passado, mas está disposta a escrever sua própria história. Nem mesmo a morte foi capaz de destruir sua personalidade, e ela segue em busca de sua identidade, de seus desejos e de sua liberdade.

A jornada do casal pelos Estados Unidos, deixando um rastro de violência em uma sociedade que não apenas não os respeita, mas também abusa da mulher, acaba criando uma espécie de fascínio entre outras mulheres (principalmente as marginalizadas) que iniciam uma espécie de revolução armada feminina. Trata-se de uma subtrama mal construída, que tenta estabelecer uma crítica social, mas acaba se tornando confusa e frágil em um longa já repleto de elementos. Com isso, desperdiça a oportunidade de explorar de forma mais profunda as reais consequências de uma personagem tão deslocada dentro do período histórico em que a trama se passa.

“A Noiva!” é, portanto, uma releitura moderna e ousada do mito criado por Mary Shelley em Frankenstein. Em vez de repetir a história tradicional do monstro e sua companheira, o filme transforma a narrativa em algo mais político, estilizado e centrado na autonomia feminina. Utiliza a clássica história de monstros para falar sobre identidade, liberdade e sobre quem tem o direito de decidir o próprio destino. O resultado é um filme estiloso, provocador e um tanto bagunçado, que por vezes se perde na mistura de tantos elementos, mas que tenta dar um novo significado ao mito de Frankenstein ao mudar o foco para a versão feminina do personagem.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Confira o trailer do filme:

 

0

Erros de Trump no Irã favorecem a Campos de Frederico

 

Donald Trump e Frederico Paes (Montagem: Joseli Matias)

 

Guerra, tática e estratégia

No séc. 18, o general prussiano (alemão) Carl von Clausewitz fundamentou, em seu livro “Da Guerra”, a teoria militar. Na qual definiu a guerra como “a política por outros meios”. Como também conceituou as diferenças entre tática, que tem foco no imediato da batalha atual; e estratégia, cujo foco é o objetivo geral da campanha.

 

Tática de “valente” e nenhuma estratégia

Comandante em chefe do maior poder militar já visto na Terra, Donald Trump repete na guerra o que o fez chegar aonde chegou na política. É a tática do “valente” de pátio de escola do ensino fundamental. Que, errático, revela a ausência de pensamento estratégico das ações militares dos EUA, em parceria com Israel, contra o Irã.

 

A tática do Irã

Sem capacidade bélica para enfrentar verticalmente EUA e Israel, o Irã revelou sua tática: horizontalizar o conflito, levando-o com mísseis e drones a países vizinhos do Oriente Médio. Sobretudo aqueles que têm bases militares dos EUA. E joga parado ao fechar o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo consumido no mundo.

 

A estratégia do Irã

A estratégia do Irã é vencer os gigantes militares EUA e Israel pelo cansaço, com a escalada do preço do barril do petróleo nas bombas de combustível do planeta. Enquanto Trump se deslumbrou com a captura do ex-líder venezuelano Nicolás Maduro em 3 de janeiro, e achou que teria no Irã outra Venezuela.

 

Trump aprende diferença

A colonização espanhola da Venezuela, como a portuguesa no Brasil, começou no séc. 16. Como a independência das duas ex-colônias se deu nas primeiras décadas do séc. 19. A unificação dos povos medos e persas sob Ciro, o Grande, se deu em 550 a.C. Trump, no comando de outra ex-colônia na América, começa a aprender a diferença.

 

Não um país, uma civilização

EUA e Israel não enfrentam no Irã um país, mas uma civilização: a persa, islâmica desde o séc. 7, de língua e etnia não árabes. Moldado desde a Antiguidade no enfrentamento a gregos e romanos, o Irã enfrentou em guerra o vizinho Iraque, apoiado pelos EUA nos tempos em que estes tinham o ditador Saddam Hussein como aliado, de 1980 a 1988.

 

Desde 2,5 mil anos atrás

Se EUA e Israel mataram o ex-líder do Irã Ali Khamenei desde 28 de janeiro, isso não mudou nada, diferentemente da Venezuela, na estrutura de poder iraniano. Mesmo aqueles que antes protestavam contra o regime dos aiatolás parecem reconhecer que, agora, o inimigo comum é o poder estrangeiro invasor. É assim há mais de 2,5 mil anos.

 

Trump abandonado por Europa e China

Com sua tática de “valente” de pátio escolar e nenhuma estratégia, Trump vê agora os EUA abandonados em sua aventura no Irã pelos parceiros europeus da Otan. Assim como pela China, a quem Trump pediu ajuda para tentar abrir o Estreito de Ormuz. Ao que Pequim respondeu com um silêncio muito eloquente geopoliticamente.

 

Estratégia eleitoral de Israel

Neutralizar o Irã, que não reconhece o Estado de Israel, interessa a este. Cujo controverso primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, que estava com o mandato a perigo, pode ser beneficiado pela guerra nas eleições ao Knesset (Parlamento de Israel) em 27 de outubro, quatro dias após o provável segundo turno presidencial do Brasil.

 

Irã racha base Maga de Trump

Só que atacar o Irã pouco ou nada interessa aos EUA e seus eleitores. Aos quais Trump pediu votos a presidente em 2025 prometendo deixar o país fora de guerras evitáveis. No próprio movimento Maga (“Make America Great Again”, “Faça a América Grande de Novo”) descontentes passaram a chamá-lo de Miga (“Make Israel Great Again”).

 

Trump acuado em várias frentes

Se já vinha perdendo popularidade por seu envolvimento na rede de pedofilia do ex-amigo Jeffrey Epstein e pelo assassinato de estadunidenses natos pela sua milícia anti-imigração do ICE, Trump tende a ser afetado não só por colocar os interesses de Israel sobre os dos EUA. Mas pelo preço subindo nas bombas de diesel e gasolina do país.

 

Bem diferente da Venezuela

Abandonado por aliados externos e internos, Trump vive o dilema: matou rapidamente o líder do Irã. Que, diferentemente da Venezuela, ignorou as ameaças do invasor e elegeu o filho de Ali, Mojtaba Khamenei, novo líder do país. Cuja organização, através da Guarda Revolucionária, é descentralizada e tem a insubmissão como regra.

 

Preço eleitoral para Trump

Diferente de Netanyahu, Trump não tem dividendos eleitorais no Irã. E o preço tende a ser cobrado nas midterms (eleições parlamentares do meio de mandato presidencial) de 3 de novembro. Quando os estadunidenses elegerão todas as 435 cadeiras da Câmara de Representantes (deputados federais) e 35 das 100 cadeiras do Senado.

 

Donald “Lame Duck”?

Se perder a maioria legislativa após já ter sido barrado pela Suprema Corte conservadora dos EUA em seus tarifaços, Trump pode ter a segunda metade do seu último mandato de presidente no que os estadunidenses chamam de “Lame Duck” (“pato manco”). Lá ou aqui, seria uma piada pronta a alguém batizado Donald.

 

Lucro a Campos e petrorrentistas?

A Campos e demais municípios petrorrentistas da região, a falta de estratégia de Trump no Irã tende a se refletir favoravelmente na arrecadação de royalties e participações especiais (PEs) do petróleo. O preço do barril Brent já acumula valorização de 40% nos últimos 18 dias de conflito, ficando ontem (17) entre 100 e 102 dólares.

 

Após Wladimir com Putin, Frederico

A estratégia milenar de resistência do Irã, estrangulando no presente o escoamento de petróleo no Estreito de Ormuz, é favorável aos municípios petrorrentistas do NF. Como Wladimir foi favorecido pelo xará Putin, na invasão da Rússia à Ucrânia em 2022, Frederico Paes deve assumir como prefeito de Campos com royalties em alta.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

0

Arthur Soffiati — Erros e acertos da série “Os dinossauros”

 

 

Arthur Soffiati, historiador, professor, escritor, ambientalista e crítico de cinema

Os dinossauros

Por Arthur Soffiati

 

O ótimo filme de ficção “Jurassik park” (1993), misturando drama com pitadas cômicas, foi seguido de mais cinco filmes meio desastrados. Filmes que pareciam arrancar roteiros estapafúrdios em busca do sucesso do primeiro. Agora, Steve Spielberg, presente como diretor dos dois primeiros e produtor em todos os seis filmes, lança, como produtor executivo, “Os dinossauros” (disponível na Netflix), um documentário com quatro episódios sobre a era Mesozoica, em que os dinossauros se destacaram. Terão mesmo dominando completamente? Os quatro episódios constituem a primeira temporada, mas, tendo sido abordados o Triássico, o Jurássico e o Cretáceo, os três períodos do Mesozoico, haverá mais o que contar?

São 165 milhões de anos tratados com a mais aprimorada tecnologia. A pesquisa foi intensiva e o material mereceu a melhor computação gráfica. Examinada cientificamente, a era coloca o tiranossauro rex em seu devido lugar. Ele só aparece no fim do Mesozoico e não trava mais a célebre luta com o estegossauro (que já estava extinto) ou com o tríceratops. Ele era astuto, como várias outras espécies, e atacava de surpresa, sem lutas titânicas. O mais interessante é que, no contexto geral de dinossauros, o tiranossauro é mais uma espécie.

O primeiro episódio começa após a crise do Permo-Triássico, a mais destruidora da história da Terra. Cerca de 90% das espécies foram extintas. Os répteis antigos desapareceram, mas algumas espécies sobreviveram. Elas darão origem aos dinossauros. Caberia um tratamento dessa crise, ainda que mínimo.

No todo, o que chama a atenção não são as espécies, seu sucesso em se acasalar ou não, sua alimentação omnívora, herbívora ou carnívora. O que mais se destaca para o observador atento são os cenários. Aquilo que vemos como pano de fundo dos animais, como acontece ainda hoje, inclusive para humanos. Na história da Terra, o cenário é, na verdade, o principal personagem. Ele não está parado. Transforma-se de forma avassaladora. Aquecimento e resfriamento do planeta, chuvas intensas que duram um milhão de anos, gases tóxicos desprendidos do subsolo, avanço e recuo dos mares, fratura e afastamento dos continentes. Um animal tem medo e sente dor. Mas o cenário, tornado ator, é insensível. Ele destrói e cria novos ambientes, ensejando a extinção e a constituição de espécies.

Outro aspecto a ser observado é a concepção de história. Comumente, fala-se que um evento mudou completamente o rumo da história como se já conhecêssemos seu percurso. Em relação ao nosso sistema solar, à Terra e a todas as formas de vida, podemos afirmar que existe um princípio e um fim. Não sabemos o que acontece no meio. O que acontecer integrará a história, e não a mudará. Parece também que o enfoque da série está muito centrado no hemisfério norte, como a valorizar o papel dos Estados Unidos, que só se constituirá milhões de anos depois. A maior espécie de dino foi o argentinossauro, encontrado no atual território da Argentina. Ele não merece a mínima referência no documentário.

Por fim, o asteroide que colide com a Terra e sela o fim dos grandes dinossauros. A vida continuou, apesar do baque. O documentário mostra que as aves são os dinossauros do nosso tempo, mas, em momento algum, esclarece a diferença entre dinossauros e outros répteis. O brontossauro e o tiranossauro rex foram dinossauros, mas o pterossauro e o mosassauro não. Continuamos aguardando essa diferenciação e espera-se que um próximo documentário enfoque o Paleozoico, a era em que os organismos pluricelulares se desenvolveram e que teve o mais trágico final da história da Terra.

 

Publicado na Folha da Manhã.

 

Confira o trailer da série:

 

0

Alcimar das Chagas Ribeiro — Debate econômico sobre o RJ

 

(Foto: Divulgação)

 

Alcimar das Chagas Ribeiro, economista, professor da Uenf e diretor do Núcleo de Pesquisas Econômicas dirigido para o Estado do Rio de Janeiro (Nuperj)

Contribuições para o debate econômico sobre o estado do Rio de Janeiro

Por Alcimar das Chagas Ribeiro

 

O estado do Rio de Janeiro com suas contradições econômicas precisa estar no centro do debate orientado para o norteamento das possíveis alternativas de mudanças estratégicas, visando a sua recondução ao status que lhe é devido.

Inicialmente, um recorte da análise conjuntural pode ser útil na formulação de um diagnóstico mais expressivo da real dinâmica econômica interna e da sua capacidade de fixação de riqueza. Os dados recentes definem um sistema econômico muito dependente das atividades petrolíferas de natureza finita e sem o necessário comprometimento geracional. Evidencia-se o predomínio do fundamento extrativista.

O estado tem o quarto maior PIB per capita, entre as unidades da federação, com um valor de R$73.052,55 superando a média nacional em 35,5% em 2023, segundo dados do IBGE. A atividade petrolífera exerce papel preponderante na formação da mesma riqueza. Segundo dados da ANP de 2025, o estado atingiu a média de produção mensal de petróleo e equivalente de 4.174.189,39 barris/dia, representando 85,34% da produção nacional.

Importante observar que o estado esteve no centro do processo da produção de petróleo off-shore, através da bacia de Campos, desde o final dos anos 1990, cuja trajetória ascendente chegou em 2010 com uma produção equivalente a 85% da produção nacional. A partir desse ponto teve início o processo de declínio gradativo da produção, atualmente representando menos de 20% do total nacional.

Entretanto a sorte não abandou o Rio de Janeiro que com a descoberta da Bacia de Santos em 2007, cuja abrangência se espraia do Rio de Janeiro a Santa Catariana, novamente colocou o estado na rota das grandes produções petrolíferas do país.

A evidência é corroborada pelas indenizações de Royalties que somaram R$16.029.174.888,21 em benefício do estado, equivalentes a 75,85% do total das remunerações realizadas no país em 2025, enquanto que as participações especiais fruto da produtividade da bacia injetaram mais R$7.519.799.369,46 no orçamento estadual no mesmo ano.

Diante do quadro de robusta formação de riqueza no estado, os resultados oriundos da aplicação desses mesmos recursos são extremamente tímidos. Em 2025, a produção industrial geral no estado cresceu 5,1% com base no ano anterior. O crescimento foi puxado pela produção da indústria extrativa que cresceu 8,9%, seguido pela indústria de transformação com crescimento de 0,9% no mesmo período. Neste grupo, os setores com as maiores taxas de contribuição foram: fabricação de máquinas e equipamentos com crescimento de 23,6%; fabricação de outros equipamentos de transporte, exceto veículos automotores com crescimento de 16,8%; manutenção, reparação e instalação de maquinas e equipamentos com crescimento de 13,1% e fabricação de produtos alimentícios com crescimento de 6,4% no ano. Já os setores tradicionais de confecção de artigos do vestuário e acessórios e fabricação de bebidas regrediram 9,2% e 5,3%, consecutivamente, no mesmo período.

O setor comercial apresentou um nível de volume de vendas em queda de 1,3% em 2025 com base em 2024, enquanto o setor de serviços apresentou um índice de volume positivo com crescimento acumulado de 1,7% no ano, puxado pelo grupo de atividades de transporte, serviços auxiliares ao transporte e correio com crescimento de 10,4% e serviços prestados as famílias com crescimento de 2,4% no ano.

Complementarmente, os vínculos ativos registraram 4,7 milhões de empregos formais no estado em 2024, com importante concentração nas atividades de serviços no nível de 47,25%, seguido da administração pública no nível de 18,48% e do comércio com participação de 17,55% do total. Não podemos deixar de observar que parte expressiva do setor de serviços opera com baixo padrão tecnológico e baixo rendimento salarial. Por outro lado, a segunda maior expressão em termos de emprego formal é a administração pública com uma participação relativa maior que a atividade comercial.

As contradições avançam quando observamos que a indústria de transformação absorveu somente 8,8% do emprego formal no estado e a agropecuária 0,6% do total.

O contexto traçado nos permite afirmar, sem margem de erro, que o problema do Rio de Janeiro está longe de ser a falta de receita para dar conta de seus gastos. A aceitação dessa hipótese pressupõe fechar os olhos para a ineficiente gestão fiscal, cujo custeio não guarda coerência com as receitas, além da falta de comprometimento em relação a formulação de um efetivo planejamento estratégico voltado para as necessárias transformações estruturais.

O necessário planejamento de longo prazo assume responsabilidade com a integração territorial, identificando e orientando a combinação dos recursos tangíveis e intangíveis a partir do conhecimento cientifico. Estamos falando de uma política de estado e não de governo, onde as instituições devem ter um papel preponderante no processo de governança.

O fortalecimento institucional e o reconhecimento do importante papel do empreendedorismo estão no centro do problema. A expectativa de receita aumentada é função da introdução de uma estrutura consistente de negócios novos e/ou antigo, amparados no conhecimento cientifico com capacidade de eliminar os reais gargalos relacionados a escala, gestão, tecnologia, mercado, etc.

É urgente a necessidade de equilíbrio no jogo de poder da sociedade fluminense para que possa ocorrer a ascensão das organizações não governamentais. O equilíbrio de forças tende a criar condições favoráveis para as unidades produtivas que realmente geram e fixam riqueza. A descentralização de poder incentiva e protege inciativas empreendedoras capazes de alavancar o desenvolvimento econômico no território. Este estágio representa a condição de êxito de uma sociedade que substitui o retrógado perfil extrativista pelo perfil de uma sociedade inclusiva. Nesta, as distorções econômicas e sociais são minoradas em benefício de uma sociedade mais justa, menos desigual.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

0

A 6 meses da urna, Paes lidera a governador e Castro a senador

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Na última quarta-feira (11), finalmente foi divulgada uma pesquisa de instituto de credibilidade a governador e senador do RJ, a primeira deste ano eleitoral de 2026. A governador, a Real Time Big Data confirmou (confira aqui) a vantagem do prefeito carioca Eduardo Paes (PSD) na disputa, que variou de 42% a 46% de intenção de voto em dois cenários estimulados (com a apresentação dos nomes dos candidatos) ao primeiro turno de 4 de outubro, daqui a exatos 6 meses e 21 dias.

Douglas Ruas no primeiro turno — Além de Paes, o único nome a pontuar com dois dígitos de intenção nos mesmos dois cenários de primeiro turno foi Douglas Ruas (PL), deputado estadual licenciado como secretário das Cidades do governo Cláudio Castro. Pré-candidato do bolsonarismo a governador, Ruas variou de 11% a 13%. Ou seja, a vantagem de Paes hoje sobre ele variou de 31 a 33 pontos.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Paes e Ruas no segundo turno — Na simulação de segundo turno do Big Data, Paes bateria Ruas por exatos 51% a 19%. São 32 pontos de vantagem a governador do atual prefeito carioca. Outros 19% de eleitores não souberam responder, com 11% que disseram que votarão nulo ou branco.

Rejeição — Índice negativo considerado fundamental à definição do segundo turno, por fixar o teto de crescimento dos dois candidatos que o disputam, a rejeição tem o ex-governador Wilson Witzel (DC) na liderança: 52% dos fluminenses não votariam nele a governador. Ele foi seguido por Paes, com 39%; pelo ex-presidente da Alerj André Ceciliano (PT), com 38%; pelo vereador carioca Wilson Siri (Psol), com 26%; e Ruas, com 23%, ou 16 pontos a menos de rejeição que Paes. O que, em tese, pode ser uma vantagem ao pré-candidato do PL na disputa de um eventual segundo turno.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Eleição matematicamente aberta — Na pesquisa espontânea Big Data, onde o eleitor fala da própria cabeça em quem pretende votar, revelando a intenção de voto consolidada, Paes foi o único a pontuar com dois dígitos: 12%. Ruas ficou em 3º lugar, com 2%, mas tem chance de absorver os 4% de Castro, que é pré-candidato ao Senado e o apoia. De qualquer maneira, os 64% que dizem ainda não saber em quem votarão revelam uma eleição ainda completamente aberta.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Pesquisa também em Campos — Divulgada na quarta, a pesquisa Real Time Big Data ouviu 2.000 eleitores de 53 dos 92 municípios fluminenses, inclusive de Campos, entre os dias 9 e 10 de março. Com margem de erro de 2 pontos para mais ou menos, foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo RJ-04191/2026.

Análise do especialista — “A Real Time Big Data de março de 2026 confirma a liderança de Eduardo Paes, mesmo com o nome de Douglas Ruas já apresentado e concorrendo com outros candidatos. Quando aparece, André Ceciliano (PT) empata tecnicamente com Douglas Ruas na 2ª colocação. No cenário de segundo turno a vantagem de Paes é de 32 pontos. Por outro lado, o ainda atual prefeito carioca tem rejeição maior e desconhecimento menor do eleitorado, o que poderá levar a redução da vantagem de Paes daqui até a urna de outubro deste ano. Outro detalhe que merece atenção e que tende a favorecer Ruas é o fato da segurança pública, de maneira isolada, ser a prioridade do eleitor fluminense para o próximo governador”, resumiu William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE.

 

CLÁUDIO CASTRO LIDERA CORRIDA A SENADOR

 

Mesmo com a possibilidade de ficar fora do páreo eleitoral de 4 de outubro, se for condenado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no caso Ceperj, o atual governador Cláudio Castro (PL) lidera a corrida por uma das duas cadeiras ao Senado pelo RJ. Foi o que revelou a pesquisa Real Time Big Data (confira aqui) divulgada na quarta, onde Castro variou de 23% a 24% nos dois cenários a senador.

Castro lidera a senador, seguido de Crivella, Pimentel e Benedita — Com margem de erro de 2 pontos para mais ou menos, Castro liderou com relativa folga a pesquisa Biga Data a senador. No cenário 1, ele foi seguido, 8 pontos atrás, pelo deputado federal Marcelo Crivella (REP), com 15%. Este, em empate técnico com o ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel (sem partido) e a deputada federal Benedita da Silva (PT), com 12% cada.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Primeiro e segundo voto a senador — No cenário 1 às duas cadeiras ao Senado em disputa, a Big Data fez também as perguntas: “Quem seria o seu primeiro voto? E o segundo voto?” No primeiro voto, Castro liderou com 33%, seguido à distância por Crivella e Benedita, com 15% cada; estes dois últimos em empate técnico com Pimentel, com 12%. No segundo voto, em empate técnico, Crivella liderou numericamente, com 15%, seguido de Castro e Pimentel, com 12% cada.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Castro lidera a senador, seguido de Pimentel, Benedita e Pedro Paulo — No cenário 2 da Big Data ao Senado pelo RJ, sem Crivella, Castro teve 10 pontos de vantagem sobre o 2º colocado. Que foi Pimentel, com 14% de intenção de voto, em empate técnico na margem de erro com Benedita, com 12%, e o deputado federal Pedro Paulo (PSD), com 10%,  aliado de Paes, líder na mesma pesquisa a governador.

Primeiro e segundo voto a senador — No cenário 2 às duas cadeiras ao Senado em disputa, a Big Data também fez as perguntas: “Quem seria o seu primeiro voto? E o segundo voto?” No primeiro voto, Castro liderou com 36%, seguido à distância por Benedita, com 16%, e Pimentel com 13%; estes dois últimos em empate técnico. No segundo voto, Pimentel liderou numericamente, com 15%, mas em empate técnico com Pedro Paulo, com 12%, e Castro, com 11%.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Trabalho como governador aprovado e desaprovado por 44% — Castro parece liderar a corrida por uma das duas cadeiras ao Senado, que os fluminenses elegerão em outubro, a partir da aprovação ao seu trabalho como governador. Que tem a aprovação de 44% da população, embora outros exatos 44%, no lado oposto, desaprovem o trabalho do atual chefe do Executivo estadual, com outros 12% não souberam opinar.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Análise do especialista — “A Real Time Big Data também testou a intenção de voto ao Senado fluminense, que contará com duas cadeiras. Considerado um governador ótimo ou bom por 26% do eleitorado entrevistado, e regular por 42%, Cláudio Castro está consolidado como 1ª opção, com os nomes de Marcelo Crivella, Rodrigo Pimentel e Benedita da Silva se alternando como 2ª opção. Outros nomes testados ao Senado foram o de Pedro Paulo, Márcio Canella e Otoni de Paula. Cabe considerar que novos fatos políticos e jurídicos, daqui até a urna de outubro, podem alterar as opções do eleitorado na eleição às duas cadeiras do Senado”, resumiu William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

0

Promotor Victor Queiroz de São Paulo a Campos ao Rio

 

Um garoto da cidade de São Paulo que gostava de esporte e, no final dos anos 1980, pensou em fazer educação física, foi desaconselhado pelo pai e acabou cursando Direito na USP. Onde foi calouro de dois veteranos do curso: Alexandre de Moras e Dias Toffoli. Aprovado em concurso para o Ministério Público do RJ em 1996, começou a atuar em municípios do interior fluminense, conheceu a esposa em Itaperuna, mas se fixou com a família em Campos, onde passou os últimos 20 anos. E teve passagens marcantes nas operações Telhado de Vidro e Chequinho, como no caso Meninas de Guarus. Promotor de Justiça respeitado e querido na comarca, Victor Queiroz está de mudança à cidade do Rio, onde assumirá (confira aqui e aqui) a 7ª Promotoria de Família no próximo mês. Ontem (13), em entrevista ao Folha no Ar, ele falou da vida, carreira, Ministério Público e Judiciário.

 

Promotor de Justiça Victor Queiroz

 

Antes do Direito — “Na verdade, eu não tinha exatamente nenhum desses propósitos. A única coisa que eu sabia quando era menino, lá atrás, quando era moleque, lá em São Paulo, é que eu tinha que estudar e trabalhar, seguindo o exemplo dos meus pais. E não fazia ideia de que um dia eu viesse a estudar Direito. Era um menino que gostava de jogar bola, de correr, de praticar atividade física e virei para o meu pai e falei assim: ‘Pai, vou fazer vestibular para educação física’. Ele virou e falou: ‘Victor, eu nunca interferi na sua vida, acho uma profissão digna a educação física, mas acho que não vai encaixar com você, pelo que te conheço’. Eu falei “O que você me sugere?”. Ele falou: “Ah, vai estudar administração, vai estudar Direito.”

Entrada na USP — “Ouvindo meu sábio pai, e percebendo que o time de handebal do meu colégio estava todo indo para a Faculdade de Direito da USP, eu falei: “É com eles que eu tenho que ficar, quero continuar jogando com eles”. Então eu fiz vestibular para Direito na USP por isso. Era uma forma de me manter com a minha turma. Eu não fazia muita ideia, não tenho tradição jurídica na família, nada disso. Era uma época era muito diferente, nós estamos falando do final da década de 80. E ali fui me encantando pelo Direito, também pelas atividades na Associação Atlética Acadêmica 11 de Agosto, da Faculdade de Direito da USP. Mas também não tinha ideia de seguir carreira no Ministério Público.”

Ministério Público — “Surgiu o concurso do Ministério Público do Rio de Janeiro. Me inscrevi, muito jovem, com toda energia, me preparando bem, sem muita responsabilidade além dessa e tive a felicidade de ser aprovado no concurso. Eu tomei posse, minha turma tomou posse, em maio de 1996 e aí não tinha jeito. Se é para fazer, vamos fazer bem feito. Hoje minha vida não tem sentido sem o Ministério Público. Aprendi a ser promotor de Justiça, tenho aprendido a cada dia. No início rodei muito, principalmente pela região Sul Fluminense, até porque era mais perto de São Paulo e eu podia visitar meus pais, minha família. Daí fui para Itaperuna, em 1997. Em Itaperuna, em 1998, eu conheci minha esposa, nos casamos e nasceu nossa primeira filha, Maria Vitória, em 1999. E aí, a vida seguiu no MP e fui para outras comarcas. Trabalhei em São Francisco, Cambuci, Miracema e acabei vindo para Campos. E desde então estamos aqui, a nossa família se situou aqui.”

Ida para a capital — “Já fazendo quase 30 anos de Ministério Público entendi que o caminho seria mudar um pouco os ares, tentar novos objetivos e uma das opções era trabalhar na capital. Evidente, como eu sou promotor de Família já há muito tempo, me sentiria mais à vontade trabalhando em uma Promotoria de Família da capital. Concorri a uma que estava vaga e, pela minha antiguidade, que não é pouca, consegui essa remoção. É um órgão disputado. Não é uma promoção, só fazendo um pequeno adendo. É uma remoção no mesmo nível da carreira, só muda o aspecto territorial e a matéria um pouquinho.”

Rio de Janeiro — “Quando cheguei ao Rio, me lembro que foi na entrevista antes de tomar posse como promotor de Justiça, um dos procuradores me perguntou: ‘Você veio de São Paulo, que é um lugar diferente. Você está preparado para trabalhar no interior do Rio de Janeiro, em que os municípios têm uma estrutura mais precária e etcétera?’. Eu me surpreendi com aquela pergunta e a resposta que eu dei foi a seguinte: “Doutor, até hoje a vida foi muito generosa comigo. Eu tenho uma excelente formação de família, pude estudar em bons colégios, fiz uma universidade pública. Então, eu acho que se for isso que o senhor está falando, é hora de eu retribuir. É hora de eu dar a minha contribuição diante de tudo que me foi depositado como investimento’. Foi natural para mim. Hoje em dia, me sinto muito mais à vontade no Rio do que em São Paulo.”

Operação Telhado de Vidro — “Na época da operação Telhado de Vidro (que teve como alvo o governo Alexandre Mocaiber em Campos), em 2007, por aí, eu estava na Promotoria de Investigação Penal. E trabalhei em uma questão em paralelo à Telhado de Vidro. Aquilo foi um momento muito marcante, porque vislumbrou-se ali uma série de irregularidades na administração pública. Foi dispensa de licitação em obras emergenciais e aquilo demandava uma operação de busca e apreensão de documentos na Prefeitura e tal, que tinha que ser feito, independentemente de responsabilidades, até para gente compreender o que era. Tudo funcionou bem, o mecanismo judicial e do Ministério Público funcionaram muito bem naquele momento. E aquele foi um momento marcante do meu trabalho.

Caso Meninas de Guarus — Teve também a situação, óbvio, das Meninas de Guarus (prostituição de meninas e adolescente, desvendado entre 2008 e 2009, em que nomes conhecidos da cidade foram condenados à prisão), não preciso dizer. Quem é da época, sabe. Apesar de eu ter atuado só pontualmente na deflagração da ação penal e na realização de audiências lá no plenário do júri, no fórum, foi também bem desafiador.

Marcelo Lessa — “Várias passagens com o nosso querido e eterno colega Marcelo Lessa Bastos, tanto em Itaperuna quanto em Campos. Nós talvez apresentássemos personalidades um pouco distintas, mas nos dávamos muito bem. Acho que a gente se complementava um pouco nesse aspecto e eu tenho muita honra de poder ter trabalhado e aprendido com o Marcelo. E ele brincava comigo, falava assim: ‘Victor, quando tiver uma coisa assim muito rumorosa aqui, eu vou te chamar para você fazer um contrapeso. Que aí o trabalho pode sair mais ponderado’. Só não sei se ele estava querendo dizer que eu era devagar, e ele muito acelerado. Mas enfim, a gente se entendia muito bem. Nem sempre concordava, mas eu posso dizer que foi também muito marcante trabalhar e aprender com ele, sobretudo.”

Lições da Operação Chequinho (contra compra de voto no final do governo Rosinha em Campos, em 2016) e do caso Meninas de Guarus — “Do ponto de vista profissional, acho que a lição que elas deixam é a seguinte: o trabalho da polícia, do Ministério Público, do Judiciário, dos advogados, da Defensoria Pública, enfim, de todos os operadores do Direito, tem que ser um trabalho legítimo. Os fins não podem justificar os meios, os meios têm que ser legítimos. Isso eu sabia, sempre soube, mas pude verificar em determinados momentos nessas operações que, às vezes, surgiam informações que não surgiam por meios que a lei admitia. Então a gente não podia usar isso. E tudo bem, ótimo, vamos aperfeiçoar, vamos sempre buscar os meios legítimos. O compromisso tem que ser esse, o compromisso sempre foi esse, independentemente dos resultados. Vamos garantir o direito de defesa, garantir o devido processo legal, vamos pedir medidas rigorosas quando elas têm que ser rigorosas, independentemente de quem sejam eventualmente os investigados, o poder que eles tenham.”

“População não pode silenciar” — “Extrapolando aí o exercício profissional como cidadão campista, que hoje eu sou, acho que o legado é esse mesmo, de não se contentar e não silenciar diante de absurdos, diante de injustiças, de ilegalidades, e buscar noticiar o que de fato é irregular. Para que a sociedade possa evoluir, aprimorar. Para que, do ponto de vista civilizacional, nós estejamos cada vez mais evoluídos. Tem eleição esse ano, então que isso fique de lição. Para o cidadão comum não cair mais no risco de aceitar corrupção eleitoral, para que não se aceite mais com naturalidade eventos que impliquem abuso de crianças e adolescentes, que impliquem corrupção.”

Críticas de Garotinho à Operação Chequinho — “Ao longo de 30 anos de Ministério Público, dificilmente vi alguém acusado de um crime grave, pura, simplesmente admiti-lo. Compreendo e respeito, mas discordo frontalmente do que disse o ex-governador (que a Operação Chequinho teria sido um conluio entre Ministério Público e imprensa para eleger Rafael Diniz prefeito). Respeito, mas discordo porque sei que naquilo em que eu pude contribuir na operação, tudo foi legítimo.”

Cobranças da população — “Se as pessoas reclamam ‘cadê o Ministério Público?’, é sinal de que é uma referência positiva. De alguma forma é uma esperança de solução de um problema. Quando se reclama a atuação do Ministério Público é porque alguma coisa não vai bem em outra área. O Ministério Público não tem solução para tudo. A missão constitucional está muito clara ali. Deve ser o defensor da ordem democrática e, sobretudo, defender os interesses sociais, coletivos e individuais indisponíveis. De forma independente, como deve ser e é. E aí a população chega ao Ministério Público pelos canais de comunicação. No caso do Rio de Janeiro, onde 99,9% das pessoas têm a internet na sua realidade, o site do MP funciona muito bem por meio da ouvidoria para receber essas notícias.”

Nunes Marques na presidência do TSE — “Por mais que o presidente sirva para coordenar os trabalhos, direcionar os trabalhos, indicar algumas prioridades, os tribunais em geral, inclusive o TSE, trabalham em sistema colegiado. As decisões são coletivas, são de vários ministros e ministras. Então, independentemente das características de cada um, o resultado da atuação vai ser a soma do entendimento de todos os ministros. Em especial na área eleitoral, mas como em matéria de Justiça em geral, faço uma comparação com o jogo de futebol: o juiz ou os juízes, os bandeirinhas, eles não têm que ser protagonistas de nada. Quando o juiz, lá no jogo de futebol, começa a ser muito protagonista, começa aparecer demais, tem alguma coisa errada. É o sintoma de que alguma coisa não está funcionando bem.”

Protagonismo do Judiciário — “Isso não me agrada porque essa atividade judicial tem que ser impessoal. A esperança não pode ser depositada em uma pessoa. Ela tem que ser depositada nos freios e contrapesos que ajudam a fazer com que esse sistema rode de maneira adequada, legítima. Então, especialmente em matéria eleitoral, eu acho que o Judiciário e o sistema de Justiça não devem ser protagonistas. O Judiciário está ali para coibir abusos e não para tomar iniciativas que, na verdade, são dos atores políticos e dos eleitores, ou sociedade em geral.”

Calouro de Moraes e Toffoli na USP — “Na verdade, quando os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli estavam se formando, eu estava entrando no curso de graduação em Direito na USP. Não tive convivência pessoal. Eles foram meus veteranos, fui calouro deles. Acho que houve ali uma coincidência de um ano só. Meu primeiro ano de faculdade correspondeu ao quinto ano de faculdade deles. Eles certamente estavam ligados aos estudos, que não permitiam essas atividades recreativas da recepção aos calouros.”

Moraes e Toffoli citados no caso Master — “Eu não sei qual é a realidade dos fatos, não tenho acesso às investigações, se é que elas existem, aos processos, e não me interessa, e eu nem poderia falar sobre isso. Mas, pensando genericamente, é muito ruim para o Estado Democrático de Direito que o Judiciário seja protagonista e que, principalmente, as pessoas que compõem o Judiciário sejam protagonistas desse ou daquele caso. É necessário que o Judiciário atue? Sim. E quando é necessário, isso é um sintoma de que algo vai mal na sociedade, porque essa é a função do Judiciário. É dirimir esses conflitos. No caso do Supremo Tribunal Federal, dar a interpretação correta da Constituição em casos de conflitos.”

Voto ao Senado para impeachment de ministros do STF — “As pessoas podem votar em quem elas quiserem. Não é essa a questão. Mas ter como motivação combater o Supremo Tribunal Federal, que não tem nada a ver com a atividade do Congresso Nacional e do Executivo, realmente começa a ser uma anomalia para os nossos padrões normais. Mas, por isso, a necessidade de compostura, de pouca intenção de aparecer deve ditar a conduta de quem ocupa cargo no Judiciário. Eu não estou dizendo que as pessoas não cumpram esse dever, não é isso, mas esse deve ser um princípio. Esse comedimento, essa conduta reservada, isso deve ser regra para quem ocupa algum cargo no Judiciário ou no sistema de Justiça em geral.”

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã.

 

Confira no vídeo abaixo a íntegra da entrevista do promotor Victor Queiroz ao Folha no Ar da manhã da última sexta:

 

 

0

Promotor Victor Queiroz fecha a semana do Folha no Ar nesta 6ª

 

(Arte: Joseli Matias)

 

Promotor de Justiça, Victor Queiroz é o convidado para fechar a semana do Folha no Ar, ao vivo, a partir das 7h da manhã, nesta sexta (13), na Folha FM 98,3.

Ele falará da sua experiência profissional e pessoal, da formação em Direito na USP em 1993, na sua São Paulo natal, ao ingresso no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) em 1996, onde passou por outros municípios do Norte Fluminense antes dos últimos 20 anos atuando em Campos, onde formou família.

Victor também falará da sua próxima experiência no MPRJ, agora na cidade do Rio de Janeiro, onde assumirá (confira aqui) no próximo mês a 7ª Promotoria de Justiça, transferência à capital cobiçada por seus pares. E do que levará de Campos na sua nova missão profissional.

Por fim, Victor analisará preparação do MPRJ para a fiscalização das eleições de 4 de outubro de 2026 nos 92 municípios fluminenses. E, dentro dos limites impostos por sua função, falará sobre a crise do liquidado Banco Master envolvendo dois ministros do STF, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.

Quem quiser participar do Folha no Ar desta sexta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

1

Moraes, Toffoli e STF na crise do Master sob oito análises

 

Esta semana começou, na manhã de segunda-feira (9), com o escritório de advocacia Barci de Moraes, da esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, a sra. Viviane Barci de Moraes, e de dois dos três filhos do casal, admitindo em nota pública (confira aqui) o contrato com o liquidado Banco Master. Ao valor inusitado de R$ 3,6 milhões/mês.

A admissão ocorreu exatamente três meses, ou um quarto de um ano, após a jornalista Malu Gaspar, de O Globo, ter revelado (confira aqui ou aqui) a existência do contrato em 9 de dezembro. Que estava no celular, apreendido pela Polícia Federal (PF), do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master. Foi durante a sua primeira prisão, enquanto tentava fugir do país, em 17 de novembro.

A nota do escritório da mulher e dos filhos de Moraes, não veio no dia 9 por acaso. Foi na segunda-feira seguinte à jornalista Malu Gaspar também tornar público na sexta anterior (6) as mensagens trocadas (confira aqui ou aqui) entre Vorcaro e Moraes no mesmo dia 17 em que o primeiro seria preso. Numa delas, o então banqueiro indaga ao ministro do STF: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”

Na mesma manhã de segunda, o blog Opiniões, o portal Folha1 e o jornal Folha da Manhã se dedicaram a estudar o caso mais profundamente, a partir de fontes nacionais de credibilidade. No objetivo de estabelecer a cronologia dos fatos (confira aqui), inclusive a semelhança destes, na exposição da contradição presente, quando comparados a fatos e reações do passado recente.

Para além da formação essencialmente generalista do jornalista, se buscou na sequência a opinião sobre o escândalo do Master, envolvendo o também ministro do STF Dias Toffoli, não só de juristas da comarca goitacá, mas também de outros especialistas em ciência humanas irmãs do Direito. E com eles, na quarta (11), o blog e jornal formaram (confira aqui) um mosaico de 12 análises.

Nessa dúzia de análises, algumas se estenderam e tiveram que ser editadas, por conta do limite de espaço do impresso, como uma outra não conseguiu ser enviada até o dead line da edição. Dada a gravidade dos fatos, na maior crise moral dos 135 anos de História do STF, hoje (12) aproveitaremos na íntegra, no espaço mais elástico do blog, algumas dessas opiniões mais extensas.

Abaixo, as análises do advogado criminalista Felipe Drumond, professor na pós-graduação do instituto de Direito da PUC-Rio; do sociólogo Roberto Dutra, professor da Uenf; do juiz de Direito aposentado Elias Sader Neto; do cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf; do advogado criminalista Roberto Corrêa; do advogado Roberto Landes, professor da Ucam; do cientista político George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos; e do advogado Gabriel Rangel, doutorando em Direito na UFF:

 

Felipe Drumond, Roberto Dutra, Elias Pedro Sader Neto e Hamilton Garcia; Roberto Corrêa, Roberto Landes, George Gomes Coutinho e Gabriel Rangel (Montagem: Joseli Matias)

 

Felipe Drumond, advogado — “O STF experimenta uma das mais, se não a mais, sérias crises institucionais da sua recente história democrática. Nesse contexto, há muito a atuação do ministro Moraes em processos criminais de repercussão tem sido marcada por atropelo às regras e às garantias que devem pautar o devido processo legal. Esse autoritarismo judicial, entretanto, não é prática isolada, mas tem sido avalizada pela grande maioria dos ministros da Corte. O Supremo, como Corte Constitucional indispensável à democracia, precisa de proteção institucional. Todavia, isso não pode se confundir com medidas antirrepublicanas de acobertamento descabido de seus integrantes. O zelo por sua integridade deve ser legitimado pela proteção às garantias fundamentais e à independência da magistratura, que jamais será alcançada se influenciada ou regida por interesses privados ou políticos. Cada vez mais, a proteção à independência do Tribunal demanda uma providência que deveria vir de dentro para fora, por iniciativa dos seus próprios integrantes”

 

Roberto Dutra, sociólogo — “Do ponto de vista sociológico, os fatos já conhecidos sobre as relações entre Vorcaro e Moraes, tanto diretamente como por meio do escritório de advocacia comandado por sua esposa e filhos, evidenciam pelo menos algumas teses centrais sobre a relação entre o sistema jurídico e sociedade no Brasil: 1) as intensas e íntimas relações pessoais entre elites jurídicas e financeiras fazem parte de um padrão de corrupção por classe social institucionalizada informalmente em muitos de nossos tribunais, incluindo o STF; 2) juízes e outros atores do sistema jurídico constituem hoje o estrato social com menor nível de controle da esfera estatal, representando o maior obstáculo à formação de um estado efetivamente republicano. Que alguns destes atores sejam tratados como ‘heróis da luta anticorrupção’ (Moro) ou ‘heróis da defesa da democracia’ (Moraes) constitui o autoengano tragicômico sobre este estado de coisas disfuncional e anticonstitucional que nos assola.”

 

Elias Sader Neto, juiz de Direito aposentado — “O STF não pode ser confundido com seus ministros. Ainda assim, a raiz do problema não está na má ou boa índole dos ministros, mas na forma de composição do STF, que se tornou imprópria, diante da mudança paradigmática operada pelo neoconstitucionalismo e pelo pós-positivismo, os quais ensejaram a exacerbação do ativismo judicial.

Esse novo modo de se operar o Direito é mais ruinoso do que o poder conferido ao presidente da República de nomear ministro do STF seu advogado ou compadre.

Há pouco tempo, a atividade do juiz se limitava a aplicar a lei ao caso concreto. Cabia ao legislador, eleito pelo povo, positivar o direito vigente; ao Juiz, apenas aplicá-lo, sem margem para decidir conforme suas preferências pessoais. Hoje não é assim. Após os princípios assumirem força de lei, os ministros passaram a utilizar a Lei e a própria Constituição à la carte, bastando fundamentação aparentemente coerente, mesmo fajuta ou contrária aos precedentes.

O STF jamais cumprirá sua função enquanto for aceitável um ministro julgar quem o nomeou para o cargo, de modo vitalício. É falsa a democracia quando a vontade dos representantes do povo é rotineiramente substituída pela opção de ministros soberanos, não eleitos.”

 

Hamilton Garcia, cientista político — “A crise pela qual passa o STF é a ‘crônica de uma morte anunciada’. Ela começa em 2019 quando, em meio às vituperações de Bolsonaro contra o sistema democrático. Dias Toffoli, então presidente do STF, abre, de ofício, um inquérito visando intimidar a imprensa e os agentes públicos que, por obrigação funcional, expuseram suas sensíveis relações com empresários metidos em corrupção e detectaram movimentações financeiras estranhas nas contas bancárias de sua esposa e da do ministro Gilmar Mendes. Mesmo sendo retrucado pela PGR, a empreitada foi em frente atropelando o Direito e as liberdades sob o álibi do ‘combate ao fascismo’, em paralelo ao avanço da operação abafa contra a Lava Jato, na qual se uniram bolsonaristas e lulistas, abrindo caminho para a criminalização da extrema-direita.

Hoje, numa conjuntura em que o álibi perdeu força, as coisas se complicaram depois que vieram à tona as implicações de Toffoli, de novo, e Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro. Sete anos depois do ‘inquérito do fim do mundo’, em meio ao revival da corrupção no Lula 3, parece que a mídia e nossa cidadania leniente acordaram.”

 

Roberto Corrêa, advogado — “Como advogado criminalista, entendo que o caso ultrapassa a esfera penal comum e ingressa numa zona de grave crise institucional. A prisão preventiva de Daniel Vorcaro foi decretada pelo ministro André Mendonça no âmbito de investigação sobre supostas fraudes e tentativa de obstrução, o que por si só já revela a seriedade do fato.

Somam-se a isso a confirmação pública do contrato milionário entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, com uma justificativa rasa e sem embasamento para honorários tão voluptuosos.

No processo penal, não há condenação antes do trânsito em julgado, contudo, no plano republicano, a exigência é mais severa, um ministro do STF e sua instituição como um todo não podem deixar dúvidas sobre sua independência e transparência perante a população.

Se os fatos forem minimizados, o dano maior não recairá apenas sobre os investigados, mas sobre a confiança pública, que já não é alta, no próprio sistema de Justiça. Podendo gerar uma grande crise de legitimidade institucional. Nesse cenário, decisões judiciais deixam de ser vistas como expressão da lei e passam a ser recebidas com desconfiança, descrédito e polarização, o que corrói a autoridade das instituições e enfraquece o próprio Estado de Direito.

Em cenário assim, a resposta correta não é blindagem política nem disputa de narrativas, mas apuração rigorosa, controle institucional e afastamento de qualquer autoridade cuja permanência projete suspeita sobre a lisura do processo.”

 

Roberto Landes, advogado — “O STF ganhou muito protagonismo a partir do fenômeno da constitucionalização do Direito, exercendo o papel de guardião da Constituição. Como consequência, o Supremo passou a ser o agente responsável pela última palavra em todos os assuntos que afetam a vida moderna, das agendas tributárias às agendas criminais, das agendas políticas às agendas educacionais, ou seja, todas as pautas que afetam a vida do cidadão e do Estado são diretamente influenciadas pelo STF, o que transformou a Corte em um importante pilar do Estado Democrático de Direito; se não, o principal!

Diante disso é grave a troca de mensagens entre ministro e um empresário, réu em um processo que tramita na Corte, cujo assunto indica ser exatamente informações a respeito de tal processo. Mas ainda há outra pitada de gravidade: o escritório que representa o empresário é de propriedade da família do ministro. Ainda que esse escritório não atue no STF, a imparcialidade do julgador está totalmente comprometida.

Esse acontecimento escancara uma fratura séria de um importante pilar que sustenta o Estado Democrático Brasileiro e a resposta precisa ser dura e enérgica, sob pena de fazer sucumbir toda a estrutura.

A saída? Um pedido de exoneração partindo do ministro? Um impeachment por parte do Senado?  Ou empurrar a sujeira para baixo do tapete e esperar a poeira baixar?

Seja qual for a saída adotada, ao meu sentir, trata-se do fato mais grave já ocorrido no ambiente judicial nacional e escancarou uma coisa que todos da comunidade jurídica sempre ‘ouviram dizer’: que alguns ministros se utilizaram da Corte para beneficiar escritórios com quem tem alguma relação. Lamentável!”

 

George Gomes Coutinho, cientista político — “Antes de qualquer coisa, é fundamental reafirmar os princípios que balizam o Estado de Direito dentro das premissas da ética da responsabilidade, aquela que está sempre tentando funcionar como dique, quase sempre inútil, diante da ética das convicções. Causa-me espécie que, em um ecossistema de opinião pública no qual comunicações foram disseminadas e têm sido seletivamente citadas, um jurista brasileiro, mesmo que no inferno das boas intenções, defenda publicamente o impeachment ou a renúncia voluntária de um ministro da Suprema Corte neste país.

É fundamental, então, que sejam explicitados objetivamente os crimes cometidos pelo ministro e a materialidade inequívoca dos mesmos. Daí julgamento, dentro das regras e nos fóruns adequados.

Dito isso, creio que, na discussão pública contemporânea, perde-se mais uma vez a oportunidade de discutir o funcionamento estrutural de instituições e setores da sociedade, em prol da individualização do debate. De maneira geral neste momento, e aqui se desperdiça a possibilidade de fechar gargalos importantes e persistentes em nossa sociedade, há tanto um modus operandi oculto, presente no Judiciário e no setor financeiro, quanto a tendência de ignorarmos as motivações dos agentes envolvidos em suas atuações em ambos os sistemas.

Ou seja, mais uma vez, há muito barulho que talvez satanize determinados agentes individuais, como se estes fossem vindos de outra galáxia, dotados da missão de subverter probos homens, regras e instituições de boa-fé. Ou será que seria preciso lembrar que elites econômicas e elites políticas ou do Judiciário se frequentam e nem sempre para fins lícitos? Será mesmo necessário recordar que parte das elites econômicas vê como parte do jogo adular e comprar elites de outros sistemas, como tática que amplia processos de enriquecimento individual ou empresarial? Sem dúvida, a magnitude dos valores é assombrosa. Mas é preciso lembrar que a falta de freios e contrapesos proporcionados pela burocracia pública, controles dos quais a própria Faria Lima foge como o diabo da cruz, também é parte do problema causado pelos próprios agentes.

Para finalizar, parte de nossas elites econômicas, políticas e jurídicas gera fatos que são, sim, estarrecedores. E são muitos, diversos, que se utilizam de um funcionamento estrutural que lhes é propício para tal. É assim há décadas, algo já descrito por um certo membro do clã Odebrecht. O problema da individualização é a conveniência do momento, que acaba sendo determinante.”

 

Gabriel Rangel, advogado — “O que vejo hoje não é um erro de percurso, mas uma espécie de eutanásia institucional orquestrada pela tríade PGR-Senado-STF. A insegurança jurídica atual nasce de um desenho de blindagem estratégica: sob a batuta intelectual do Gilmar Mendes, a PGR foi convertida em um órgão de contenção. Isso permitiu que o STF exercesse uma hipertrofia de competências sem o contrapeso real do dominus litis (‘dono da causa’). É a ‘Pax Gilmariana’: um sistema onde os freios e contrapesos só funcionam para proteger o status quo de cúpula.

Nesse vácuo de controle, o jornalismo investigativo virou o nosso único ‘promotor de fato’. Quando provas desse vulto surgem nas redações antes de qualquer autuação, o sistema de justiça confessa sua incapacidade de autorregulação. A transparência hoje é puramente reativa, forçada pelo vazamento, porque a instituição perdeu o pudor da ‘aparência de imparcialidade’.

Essa pulsão por CPIs ou impeachment é, no fundo, o sintoma clínico do colapso dos filtros técnicos. Quando a PGR abdica de sua função para garantir uma ‘estabilidade de gabineteְ’, ela empurra o controle para o espetáculo político. No silêncio da técnica, resta apenas a gramática do trauma: o impeachment vira o único recurso em um sistema que atrofiou propositalmente seus mecanismos ordinários de controle.

Diante deste contexto, vislumbro que o sistema tentará a ‘normalização da anomalia’. Veremos a PGR e o STF convergirem para a tese da ‘barbárie do vazamento’, tentando transformar a prova documental em violação de privacidade. No entanto, a saída de Toffoli e a chegada de André Mendonça na relatoria mudam o vetor. Se o Senado não chegar aos 41 votos para o impeachment, e hoje a conta ainda não fecha, o sistema oferecerá a ‘PEC da Toga’, limitação de mandatos e decisões monocráticas, como uma espécie de ‘acordo de paz’ para evitar a degola de um ministro. A bem da verdade, é a política entregando um anel para salvar os dedos, enquanto a técnica jurídica segue sacrificada no altar da personificação do poder.”

 

1