Lula anuncia Couto governador até outubro em manobra do STF

 

No último sábado (23), na inauguração da nova sede do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde da Fiocruz, na cidade do Rio, Ricardo Couto foi publicamente definido por Lula, por meio dos ministros Flávio Dino e Cristiano Zanin no STF, como governador do RJ até as eleições de outubro

 

 

Lula admite manobra por Couto no RJ

Talvez empolgado com as revelações dos contatos próximos entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, Lula disse no sábado, no Rio, diante do desembargador e governador interino do RJ Ricardo Couto: “A Justiça tomou uma decisão que hoje acho correta, de colocar você como governador interino até as eleições”.

 

STF pró-Lula x Constituição do RJ

Em 15 de abril (confira aqui) e 13 de maio (confira aqui), a coluna alertou sobre a intenção de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ligados a Lula de manter Couto governador até outubro. Para evitar que o presidente eleito da Alerj, Douglas Ruas (PL), assuma como governador-tampão, como reza o Art. 141 da Constituição Estadual do RJ.

 

Ruas para em Dino e Zanin

Ruas é o pré-candidato bolsonarista a governador. Que, contra o amplo favoritismo do ex-prefeito carioca Eduardo Paes (PSD) nas pesquisas, teria mais chance se concorresse ao Palácio Guanabara já nele. Mas a definição da eleição a governador-tampão está parada no STF por decisões dos ministros Flávio Dino e Cristiano Zanin.

 

Motivo eleitoral da manobra do STF

Dino é ex-ministro da Justiça de Lula. Zanin é ex-advogado pessoal de Lula. Para tentar se reeleger em 2026, Lula precisa tentar diminuir a vantagem que Bolsonaro teve sobre ele (56,53% a 43,47%) no segundo turno presidencial de 2022 dentro do RJ. Que abriga o terceiro maior colégio eleitoral do país. No qual Lula teria um palaque com Paes.

 

O legítimo e o ilegítimo

É legítimo querer um gestor testado como Paes governador do RJ. É legítimo supor que Couto trabalha para sanear o RJ. É legítimo achar que o grupo do ex-governador Cláudio Castro (PL), alvo de ações da Polícia Federal, é suspeito. Mas é ilegítimo, sobretudo por parte do STF, agir politicamente no RJ como admitiu publicamente Lula.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

0

“Taxa das blusinhas” na recuperação de Lula contra Flávio

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Tendências de Lula e Flávio

Outras consultas da Nexus de maio (confira aqui) indicaram a tendência de recuperação de Lula e de queda de Flávio. À pergunta sobre quem deveria ser eleito presidente em 2026, o atual foi a resposta de 39%, 2 pontos acima dos 37% de abril. Flávio ou algum outro nome indicado por Jair Bolsonaro (PL) foi a opção de 34%, 3 pontos abaixo dos 37% de abril.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Percepção da economia

Perguntados pela Nexus de maio qual a percepção sobre a economia do país e a sua própria, 48% acham ruim ou péssima. Mas são 3 pontos a menos que os 51% de abril. Os que acham regular oscilaram 1 ponto para cima: de 32% a 33%. E os que acham ótima ou boa oscilaram 2 pontos para cima: de 16% em abril a 18% em maio

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Lula x Bolsonaro na economia

Na comparação da situação econômica em relação ao governo anterior, os que achavam um pouco ou muito pior, hoje, são 40%. Mas em tendência de queda: eram 46% em março e 42% em abril. Os que acham um pouco ou muito melhor, hoje, são 42%. Mas em tendência de alta: eram 37% em março e 39% em abril.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

“Taxa das blusinhas”

Essa tendência de melhora dos aspectos econômicas decorre de medidas do governo Lula. Que acabou com a “taxa das blusinhas” em 12 de maio. Na Nexus do mesmo mês, 71% dos brasileiros souberam, 73% acharam que o Lula 3 agiu certo e 50% admitiram fazer compras em sites internacionais nos últimos 12 meses.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

“Taxa das blusinhas” no voto

A Nexus de maio cruzou esses números relativos à “taxa das blusinhas” com a intenção de voto em um eventual segundo turno presidencial. Entre a maioria expressiva dos 73% dos brasileiros que acham que o atual Governo Federal agiu certo, uma maioria de 53% disse que votará em Lula, com Flávio como opção para uma minoria de 39%.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Após Vorcaro, Flávio segue competitivo

Flávio não foi ferido de morte pelas revelações da sua relação com Vorcaro. Lula melhorou alguns índices por isso e por iniciativas próprias de governo. Mesmo assim, o senador segue o nome mais competitivo da oposição a presidente: numericamente atrás, mas ainda em empate técnico com o petista no eventual segundo turno.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

0

Pleito a presidente, governador e senador no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Joseli Matias)

 

Geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE e analista estatístico do Núcleo de Pesquisa Econômica do Estado do Rio de Janeiro (Nuperj) da Uenf, William Passos é o convidado do Folha no Ar desta quarta (27), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3.

Ele analisará o impacto nas pesquisas presidenciais (confira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) após a revelação do áudio e mensagens trocadas (confira aqui) entre o ex-banqueiro e atual presidiário Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, e Flávio Bolsonaro (PL). Bem como a revelação posterior deste de um encontro pessoal (confira aqui) com Vorcaro, após sua primeira prisão e já usando tornozeleira eletrônica.

William também analisará a eleição a governador do RJ, com base nas pesquisas mais recentes (confira aqui), mas também na ação de ministros (confira aqui e aqui) do Supremo Tribunal Federal (STF) e do (confira aqui) presidente Lula (PT) para manter o desembargador Ricardo Couto no cargo de governador fluminense até outubro.

Por fim, com base as pesquisas (confira aqui), mas também das ações da Polícia Federal (PF) contra (confira aquiaqui e aqui) o ex-governador Cláudio Castro (PL), o estatístico tentará projetar a disputa pelas duas cadeiras ao Senado que o estado elegerá em 4 de outubro, daqui a exatos 4 meses e 9 dias.

Quem quiser participar do Folha no Ar desta quarta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

0

Nexus: Após Vorcaro, Lula tem melhoras, mas Flávio se sustenta

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Após a divulgação no dia 13 do áudio (confira aqui e aqui) entre Flávio Bolsonaro (PL) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, Lula (PT) não cresceu nos dois cenários de consulta estimulada ao primeiro turno. Mas aumentou sua vantagem na simulação do segundo turno contra Flávio, hoje de 4 pontos: 47% a 43%, empate técnico no limite da margem de erro.

 

 

Dados da pesquisa — Foi o que revelou a pesquisa presidencial Nexus divulgada hoje (25) e feita por telefone com 2.045 eleitores de todo o Brasil, entre 22 e 24 de maio. Com margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou menos, ela foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-04193/2026.

Lula cresce vantagem sobre Flávio ao segundo turno — Na Nexus de abril, a diferença de Lula para Flávio ao segundo turno era de apenas 1 ponto: 46% a 45%. Já em relação ao primeiro turno, Lula (41% a 40%) e Flávio (36% a 35%) oscilaram entre abril e maio 1 ponto para baixo no cenário 1. No qual quem oscilou para cima, dentro da margem de erro, foi Ronaldo Caiado (PSD): de 3% a 5%.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Espontânea: Lula cresce e Flávio se mantém — Na consulta espontânea Nexus, em que o eleitor fala da própria cabeça em que vai votar, revelando a intenção de voto consolidada, Lula cresceu 3 pontos de abril a maio: 33% a 36%. Por sua vez, Flávio tinha e manteve 26% no mesmo período. As consultas estimuladas e espontânea ao primeiro turno revelam a resiliência do bolsonarismo.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Flávio lidera rejeição em empate técnico com Lula — Na rejeição, que define o segundo turno por fixar o teto de crescimento dos dois candidatos que passam pelo primeiro turno, Flávio passou a liderar numericamente: de 48% em abril a 50% de maio, oscilou 2 pontos para cima. Ele ficou em empate técnico com Lula, que oscilou 1 ponto para baixo: de 48% aos atuais 47% (3 pontos a menos).

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

De março a abril, Lula 3 diminui reprovação — Considerado um dos principais obstáculos à reeleição de Lula, a desaprovação popular ao seu governo vem diminuindo na série Nexus: 51% em março, 49% em abril e 48% em maio. A reprovação caiu 3 pontos nos últimos dois meses. No mesmo período, a aprovação oscilou 2 pontos para cima: 45% em março, 46% em abril e 47% em maio.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE

Análise do especialista (I) — “Na comparação entre as pesquisas de abril e maio da Nexus, a desaprovação ao governo Lula oscilou 1 ponto, de 49% para 48%. Da mesma forma, mas em sentido inverso, a aprovação oscilou de 46% para 47%”, resumiu William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE.

Análise do especialista (II) — “Nos dois cenários estimulados de primeiro turno, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro oscilaram dentro da margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou menos. Já no cenário de segundo turno contra Flávio, na comparação com a pesquisa de abril, Lula ampliou a vantagem de 1 para 4 pontos”, concluiu William.

 

0

Atuação da Justiça e eleições no Folha no Ar desta terça

 

(Arte: Joseli Matias)

 

Advogados eleitorais, Elisa Abud e José Paes Neto são os convidados do Folha no Ar desta terça (26), ao vivo, a partir da 7h da manhã, na Folha FM 98,3.

Eles analisarão o julgamento da eleição a governador-tampão do RJ, parada no Supremo Tribunal Federal (STF) em favor (confira aqui e aqui) da manutenção do desembargador Ricardo Couto interinamente no cargo até o pleito de outubro, movimento publicamente assumido (confira aqui) pelo presidente Lula (PT) no último sábado (23).

Elisa e José Paes também analisarão a pendência restante (confira aqui) do ex-governador e pré-candidato a governador Anthony Garotinho (REP) no Tribunal Regional Eleitoral fluminense (TRE-RJ), a expectativa da atuação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob a presidência do ministro Nunes Marques, indicado ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e da Justiça Eleitoral no pleito de outubro.

Por fim, com base nas pesquisas mais recentes, os dois juristas tentarão projetar as próximas eleições a presidente da República (confira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), a governador (confira aqui) e senadores (confira aqui) do RJ, além de deputado federal e estadual de Campos e região.

Quem quiser participar do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

0

Lívia Nunes — Menino calado

 

 

Lívia Nunes, jornalista e escritora

Menino calado

Por Lívia Nunes

 

O céu do meio-dia queimava. Sentada em um dos bancos mais altos e próximos à entrada do ônibus, eu assistia pela janela à vida cotidiana de qualquer pessoa que me entretivesse. Observava trejeitos, conversas e, ouso dizer, escutava até pensamentos.

Do lado de fora, sentados no ponto de ônibus, um casal chamou minha atenção. Jovens, de uniforme escolar. Dezesseis anos, talvez menos. A menina parecia falar mais; o menino apenas ouvia. Cada um olhava para uma direção diferente e, ainda assim, era como se os olhares se cruzassem em X. Como se encontrassem um ponto comum na intersecção dos campos de visão.

O ônibus permanecia parado na estação, marcando os minutos de descanso do motorista, enquanto passageiros entravam apressados desde a abertura das portas, como se ainda houvesse coletes salva-vidas pelos quais lutar. Um assento vazio, um espaço menos abafado, qualquer vantagem para os percursos longos justificava pequenos atos de sobrevivência cotidiana.

Os primeiros a entrar, como eu, ocupavam seus lugares com certa aura de nobreza. Ao meio-dia, eu voltava para casa, assim como estudantes que, menos cansados pela idade, preferiam gastar os últimos minutos do lado de fora antes de correrem para o ônibus no instante derradeiro, pularem pela porta e seguirem viagem pendurados, se fosse preciso. Para eles, dez minutos a mais de conversa valiam mais do que um assento vazio. Eu tinha sido aquela menina um dia.

Mas o menino não falava. Ela dizia alguma coisa, sorria timidamente para o chão, depois o olhava de relance, buscando confirmação de que ainda era escutada. Ele respondia apenas com um movimento lento de cabeça. Preguiçoso. Econômico.  Ela falava; ele ouvia. Ela sorria; ele ignorava. Ela procurava seus olhos; ele lhe devolvia somente um aceno breve, símbolo mínimo de presença.

Curiosa, tentei imaginar o assunto. Não escutava sequer resquício da voz deles. O vidro do ônibus, o burburinho de dezenas de conversas e a timidez adolescente — que leva a boca para perto do peito e faz o rosto baixar enquanto se fala — tornavam impossível qualquer tentativa de compreensão. Tentei ler seus lábios. Inútil. Ele não a ouvia e, infelizmente, eu também não.

Sentia o cheiro do sol quente. O ônibus, cheio além do imaginável, transformava todos ali em figuras simples e insignificantes dentro dos próprios rituais diários. Voltar para casa cedo ou chegar ao trabalho sem atraso bastava como recompensa para enfrentar a via crucis cotidiana. Para tantos, o flagelo, os corpos imprensados, os toques detestáveis e o calor não culminavam em redenção depois de um, nem dois ou três dias. Lá fora, porém, a menina ainda falava.

O ônibus ameaçou sair. O rapaz finalmente se agitou. Era ele quem embarcaria; ela apenas o acompanhava. O motorista anunciou a partida em voz estrondosa. O menino pegou rapidamente a mochila e tentou se levantar, mas ela foi mais incisiva: tocou-lhe a perna, impedindo-o de sair ainda.

— Responde!

Entendi perfeitamente.

Dessa vez, ela ergueu o rosto com coragem suficiente para abandonar a timidez:

— Quer namorar comigo?

A frase atravessou nitidamente o vidro, o calor, o ruído e chegou inteira até mim. O menino permaneceu em silêncio por milésimos de segundos incrivelmente longos. Depois balançou a cabeça positivamente antes de deixar escapar, quase constrangido:

— Quero.

Olhou para a mochila em uma das mãos, para menina ao seu lado. Em seguida reparou na lataria decadente do transporte público, percebendo que, realmente, perderia aquela condução.

O ônibus foi embora sem o rapaz.

Mas o menino partia naquele instante.

 

2

O que fica do estrago de Vorcaro na pré-candidatura de Flávio?

 

Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro

 

Goste-se ou não de Lula e do PT, qualquer um com dois neurônios é obrigado a admitir: eles são profissionais em eleição. Se não, vejamos: desde a redemocratização do país e sua primeira escolha do presidente da República por voto popular, em 1989, o PT foi protagonista em todas as nove eleições. E venceu cinco delas, três com Lula.

O PT, no entanto, perdeu muito antes de aprender a ganhar. Lula foi batido no segundo turno por Fernando Collor de Mello (hoje, sem partido) em 1989. E foi atropelado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), ainda no primeiro turno, em 1994 e 1998. Só conseguiu vencer após suavizar sua imagem como “Lulinha Paz e Amor”, em 2002.

Vinte e quatro anos depois, era nesse diapasão de “paz e amor”, de “Bolsonaro vacinado”, que Flávio (PL) vinha crescendo em todas as pesquisas presidenciais. Desde que foi ungido seu sucessor pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ainda com este encarcerado na Papudinha, em 5 de dezembro de 2025.

Rapidamente, Flávio se tornou um presidenciável competitivo, evidenciando o piso alto e o poder de transferência de Jair, chegando a passar Lula numericamente nas simulações de segundo turno. Qual seria o teto de Flávio? Era o que perguntavam todos os analistas, com base nas pesquisas de janeiro a meados de abril.

No final de abril, no entanto, as pesquisas presidenciais Atlas e Nexus (confira aqui) pareciam indicar que o teto do senador tinha sido alcançado nas intenções de voto a presidente. Impressão que se reforçou, como uma leve tendência de recuperação de Lula, com a pesquisa nacional Quaest (confira aqui) divulgada na manhã de 13 de maio.

Só que, na tarde daquele mesmo dia 13, o site Intercept divulgou (confira aqui) áudio e mensagens de texto trocadas entre Flávio e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master. No qual o primeiro pedia ao segundo US$ 24 milhões, cerca de R$ 136 milhões, para concluir o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair.

Na primeira pesquisa após a revelação da conversa entre Flávio e Vorcaro, a nova Atlas (confira aqui e aqui) divulgada na última terça-feira (19) deu o tamanho do estrago. Na consulta estimulada ao primeiro turno, Flávio sangrou 5,4 pontos percentuais de intenção de voto: 39,7% de abril a 34,3% em maio — contra 47,0% do petista, 12,7 pontos à frente.

Se o que manteve seria suficiente para levá-lo ao segundo turno contra Lula, a chance de Flávio ser nele derrotado ficou mais provável. Na série Atlas, ele tinha liderança numérica em abril ao eventual segundo turno: 47,8% a 47,5% do petista. Em maio, Flávio sangrou 6 pontos na simulação: 41,8% a 48,9% do petista, 7,1 pontos à frente.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Perguntados pela Atlas de maio se souberam do áudio e mensagens vazadas entre Flávio e Vorcaro, apenas 4,4% disseram “não”, enquanto uma maioria absoluta de 95,6% dos brasileiros respondeu “sim”. Entre estes, outra maioria absoluta de 93,9% da população disse que ouviu o áudio, com apenas 6,1% que não o escutaram.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

O resultado, além da queda de intenções de voto de Flávio? Hoje, os que percebem o grupo dos Bolsonaro mais ligado ao esquema de fraudes do Master são 43,3%: 15 pontos a mais que os 28,3% de abril. E, também hoje, os que veem maior ligação do grupo de Lula com o Master são 32,8%: 6,7 pontos a menos que os 39,5% de abril.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Perguntados na Atlas o que a revelação da conversa de Flávio com o ex-banqueiro retrata, a maioria de 51,7% disse que são “evidências de envolvimento direto com o escândalo do Master”. A minoria de 33,3% disse que seria “uma tentativa legítima de conseguir apoio financeiro à produção do filme”, versão do próprio Flávio.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Perguntados pela Atlas se as conversas com Vorcaro enfraqueceram à candidatura de Flávio a presidente, 45,1% acham que “enfraqueceu muito”. Que chegam a 64,1%, se somados aos 19,0% que acham que “enfraqueceu um pouco”. Outros 15,0% acham que “não afetou a candidatura”, com só 13,4% achando que “fortaleceu”.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Na Atlas de maio, 47,4% dos brasileiros disseram que têm mais medo da eleição de Flávio a presidente. São 2 pontos a mais que os 45,4% de abril. Já os que, em maio, têm mais medo da reeleição de Lula são 40,5%. São 6,8 pontos a menos que os 47,3% de abril. E 6,9 pontos a menos que o medo de Flávio em maio.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Quem observa o processo eleitoral brasileiro com um mínimo de isenção e conhecimento, sabe que há muito mais gente atolada até as narinas na lama do Master. Dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União/AP); aos caciques do PT da Bahia: Rui Costa, ex-ministro da Casa Civil de Lula, e o senador Jaques Wagner.

O escritório de advocacia da mulher de Moraes tinha contrato de R$ 129 milhões com o Master. Toffoli teve parte do resort de sua família adquirido por R$ 35 milhões de um fundo ligado ao Master. Alcolumbre tem um ex-tesoureiro de campanha responsável pela aplicação de R$ 400 milhões do Amapá Previdência (Amprev) no Master.

Quanto aos petistas Costa e Wagner, ambos estão metidos do CredCesta, cartão de crédito consignado dos servidores da Bahia operado pelo Master. Em montantes que passaram de R$ 104,8 mil em 2022 a R$ 2,75 milhões em 2024. E foi o líder do governo no Senado que pediu e conseguiu para Guido Mantega, ex-ministro de Lula e Dilma, uma boquinha como consultor do Master, com honorários de R$ 1 milhão/mês.

Tudo isso posto, a bola da vez no escândalo do Master é Flávio. Mas se sua conversa por mensagens com Vorcaro foi em 16 de novembro de 2025, por que só foram vazadas pelo site Intercept em 13 de maio de 2026, quase seis meses depois? É preciso lembrar que o prazo para desincompatibilização venceu em 4 de abril?

Todos os celulares de Vorcaro apreendidos estão com a Polícia Federal (PF). Que, no mundo real, sempre vai estar sujeita à ingerência do Governo Federal de turno. Goste-se ou deteste-se os Bolsonaro, vazar a conversa de Flávio quando o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (REP), venceu o prazo de desincompatibilização no cargo e não pode mais ser candidato a presidente, não parece coincidência de tempo.

Presos ao séc. 20 da CLT e do Brasil industrial do ABC Paulista, Lula e o PT podem ter envelhecido mal no séc. 21 de trabalho marcado pela pejotização e a informalidade dos aplicativos. Mas ainda são profissionais em eleições presidenciais. Na bola e, se necessário, fora dela. Com a possibilidade de uma sacola cheia delas ainda pela frente.

Flávio sabia o que tinha falado com Vorcaro, que os celulares deste estavam sendo periciados pela PF e que o chefe de turno desta é o PT. Por isso reagiu como um amador à revelação das conversas. E paga nas pesquisas o preço do seu despreparo. Muito embora nada garanta que o prejuízo se acentuará, estabilizará ou reverterá.

Acossados pelo crescimento de Flávio em todas as pesquisas de dezembro a abril, os lulopetistas ganharam um refresco em maio. Alguns, que chegaram a aderir entre 2025 e 2026 ao mesmo negacionismo bolsonarista das pesquisas em 2022, até já reativaram o modo delírio. Para voltar a bravatear uma remota reeleição de Lula em turno único.

Apesar do estrago real em Flávio registrado na pesquisa Atlas, ela também deixou um pé no mais provável. No universo dos 49,1% dos brasileiros que deram votos válidos a Jair Bolsonaro no segundo turno presidencial de 2022, a expressiva maioria de 84,2% acha, em maio de 2026, que Flávio deveria manter sua pré-candidatura a presidente.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Em 2018, Bolsonaro só venceu o segundo turno, contra Fernando Haddad como preposto de um Lula preso, porque era pedra e o PT vidraça. Esta, hoje, é a condição do filho 01 de Jair.

Se, até o final de abril, a pergunta era qual seria o teto de Flávio, após 13 de maio, ela mudou: qual é o piso do herdeiro do bolsonarismo? Com a indagação em apenso: alguém mais da oposição pode atingi-lo?

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

0

Presidente da Ompetro, Frederico fala de rebocador em defesa dos royalties

 

Frederico Paes e o rebocador encalhado em Macaé na última terça-feira (Montagem: Joseli Matias)

 

“A situação envolvendo embarcações encalhadas em nosso litoral, seja em Macaé, em Campos ou em qualquer município produtor, mostra de forma muito concreta que a atividade do petróleo gera impactos permanentes e exige estrutura, monitoramento e capacidade de resposta do poder público. Os royalties existem justamente para compensar esses territórios pelos riscos e  responsabilidades que assumem diariamente”. Foi o que disse sobre o caso do rebocador encalhado na Praia do Campista, em Macaé, no último dia 15 (confira aqui), o presidente da Organização dos Municípios Produtores de Petróleo (Ompetro), Frederico Paes (MDB), também prefeito de Campos.

— Como presidente da Ompetro, defendo a manutenção do atual modelo de distribuição. Esses recursos não são um privilégio. São uma compensação legítima para municípios que sustentam uma parte importante da produção nacional de petróleo e que precisam investir continuamente em infraestrutura, meio ambiente, saúde e serviços públicos — continuou Frederico.

— Retirar ou reduzir esses recursos é comprometer a capacidade dessas cidades de continuar cuidando das pessoas e enfrentando desafios que decorrem diretamente dessa atividade econômica tão estratégica para o Brasil — completou o presidente da Ompetro.

O prefeito de Macaé, Welberth Rezende (Cidadania), e o presidente do Legislativo daquele município, Alan Mansur (PSB), também se manifestaram (confira aqui e aqui) sobre o caso, cobrando providências à Marinha do Brasil. O rebocador pertence à empresa norueguesa DOF, que prestava serviços a Petrobras, quando teria batido e encalhado num banco de rochas submersas não sinalizadas.

 

0

Atlas: Bolsonaros mais envolvidos com o Master para 43,3%

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

O estrago de Vorcaro na pré-candidatura de Flávio a presidente foi feito. Hoje, os que percebem o grupo dos Bolsonaro mais ligado ao esquema de fraudes do Master são 43,3%: 15 pontos a mais que os 28,3% de abril. Em maio, os que veem maior ligação do grupo de Lula com o Master são 32,8%: 6,7 pontos a menos que os 39,5% de abril.

 

 

Maioria de 95,6% dos brasileiros soube do áudio, 93,9% ouviram — Perguntados pela Atlas de maio se souberam do áudio e mensagens vazadas entre Flávio e Vorcaro, apenas 4,4% disseram “não”, enquanto uma maioria absoluta de 95,6% dos brasileiros respondeu “sim”. Entre estes, outra maioria absoluta de 93,9% da população disse que ouviu o áudio, com apenas 6,1% que não o escutaram.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

“Evidências de Flávio com o Master” a 51,7% — Perguntados pela Atlas o que a revelação da conversa do presidenciável com o ex-banqueiro retrata, a maioria de 51,7% disse que são “evidências de envolvimento direto de Flávio com o escândalo do Master”. A minoria de 33,3% disse que seria “uma tentativa legítima de conseguir apoio financeiro à produção do filme”, versão de Flávio.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Vorcaro “enfraqueceu muito” Flávio a 45,1% — Perguntados pela Atlas se as conversas com Vorcaro enfraqueceram à candidatura de Flávio a presidente, 45,1% acham que “enfraqueceu muito”. Que chegam a 64,1%, se somados aos 19,0% que acham que “enfraqueceu um pouco”. Outros 15,0% acham que “não afetou a candidatura”, com só 13,4% achando que “fortaleceu”.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Entre eleitores de Bolsonaro, 84,2% querem Flávio candidato — Entre os bolsonaristas, o estrago na Atlas foi menor. Nesse universo dos 49,10% dos votos válidos a Jair Bolsonaro no segundo turno presidencial de 2022, a expressiva maioria de 84,2% acha, em maio de 2026, que Flávio deveria manter sua pré-candidatura a presidente. A minoria de 12,6% acha que ele deveria apoiar outro nome.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Mais medo de Flávio a 47,4%, de Lula a 40,5% — No universo total dos eleitores, o estrago de Vorcaro é maior. Na Atlas de maio, 47,4% dos brasileiros tem mais medo da eleição de Flávio a presidente, 2 pontos a mais que os 45,4% de abril. Já os que, em maio, tem mais medo da reeleição de Lula são 40,5%, ou 6,8 pontos a menos que os 47,3% de abril. E 6,9 pontos a menos que Flávio em maio.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Feita através de consulta digital com 5.032 eleitores de todo o Brasil, entre os dias 13 (da revelação das conversas entre Flávio e Vorcaro pelo site Intercept) e 18 (ontem) de maio, tem margem de erro de 1 ponto para mais ou menos. E foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-06939/2026.

 

0

Atlas: Após Vorcaro, Flávio sangra 5,4 e 6 pontos contra Lula

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Após a divulgação, no último dia 13, do áudio e mensagens de textos trocados (confira aqui) com Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, Flávio Bolsonaro (PL) teve queda real na corrida presidencial. Na pesquisa Atlas divulgada hoje (19), de abril (confira aqui) a maio, Flávio perdeu 5,4 pontos de intenção de voto (de 39,7% a 34,3%) no cenário de primeiro turno e 6 pontos (de 47,8% a 41,8%) no de segundo turno contra Lula (PT).

 

 

Flávio cai e Lula lidera ao primeiro turno — Para além da margem de erro de 1 ponto para mais ou menos da pesquisa, Lula liderou os três cenários de primeiro turno da Atlas com seu nome. Com Flávio como principal adversário, o atual presidente ampliou sua vantagem de 6,9 pontos de intenção em abril (46,6% a 39,7%) para 12,7 pontos em maio: 47% do petista a 34,3%.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Flávio cai e Lula lidera ao segundo turno — Já em um eventual segundo turno, também para além da margem de erro, Lula também liderou todos os cinco cenários da Atlas com seu nome. Contra Flávio, ele saiu da desvantagem numérica de 0,3 ponto em abril (47,8% do senador a 47,5%) para a vantagem de 7,1 pontos em maio: 48,9% do petista a 41,8%.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Lula melhora, mas maioria ainda desaprova governo — Após a divulgação, há uma semana, do pedido de Flávio a Vorcaro, em 16 de novembro de 2025, de R$ 134 milhões para conclusão do filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Lula perdeu 1,7 ponto de reprovação ao seu governo: dos 53% de abril à ainda maioria de 51,3% dos brasileiros que desaprova em maio.

 

(Infográfico: Joseli Matias)

 

Flávio não gera crescimento real de aprovação ao Lula 3 — A queda de intenções de voto de Flávio ao primeiro e segundo turno, no entanto, não se reproduziu na aprovação dos eleitores ao Lula 3. Que, na série de pesquisas Atlas, oscilou só 0,4 ponto para cima no período: de 47,0% de abril a 47,4% em maio.

Flávio e Lula lideram rejeição em empate técnico — Sob o efeito Vorcaro, Flávio passou a liderar numericamente a rejeição, índice negativo fundamental à definição do segundo turno: 52% em maio, 2,2 pontos a mais que os 49,8% de abril. Lula, em maio, teve 50,6% de rejeição. É um empate técnico com Flávio, mas o petista oscilou 0,4 ponto para baixo em relação aos 51% que tinha em abril.

 

 

Dados da pesquisa — Feita através de consulta digital com 5.032 eleitores de todo o Brasil, entre os dias 13 (da revelação das conversas entre Flávio e Vorcaro pelo site Intercept) e 18 (ontem) de maio, tem margem de erro de 1 ponto para mais ou menos. E foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-06939/2026.

William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE

Primeiro turno sob análise do especialista — “Na Atlas de maio, feita após a divulgação das conversas com Daniel Vorcaro, em três cenários de primeiro turno, Lula abriu vantagem de 12,7 pontos para Flávio, 23,6 pontos para Michelle Bolsonaro (PL) e 29,7 pontos para Romeu Zema (PL)”, resumiu William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE.

Segundo turno sob análise do especialista — “Nos cenários de segundo turno, mesmo com rejeição tecnicamente empatada com Flávio, Lula abre 7,1 pontos contra seu adversário mais competitivo. Como abriu 9,0 pontos sobre Ronaldo Caiado (PSD), 10,2 pontos contra Zema e 19,4 pontos contra Renan Santos (Missão)”, concluiu William.

 

0

Eraldo Leite pela Folha da Manhã na convocação de Ancelotti

 

O treinador italiano Carlo Ancelotti convocou hoje Neymar entre os 26 jogadores da Seleção Brasileira que levará para a Copa do Mundo

 

Jornalista e radialista Eraldo Leite cadastrado pela Folha da Manhã na convocação do Brasil de Ancelotti à Copa do Mundo

Neymar foi convocado por Carlo Ancelotti para disputar a sua quarta copa do mundo. O anúncio foi feito durante megaevento realizado no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, com a presença de 700 jornalistas — inclusive de 14 outros países — e cerca de mil convidados, entre dirigentes do futebol brasileiro, artistas e políticos em geral. Dentre os 26 escolhidos pelo primeiro técnico estrangeiro que vai dirigir a seleção numa copa do mundo estão duas jovens promessas — Endrick e Rayan — e o veterano goleiro Weverton, que nunca tinha sido convocado antes por Ancelotti. Os 26 jogadores são:

Goleiros: Alisson, Ederson e Weverton;

Laterais: Wesley, Ibañez, Alex Sandro e Douglas Santos;

Zagueiros: Marquinhos, Gabriel Magalhães, Danilo, Bremer e Léo Pereira;

Meiocampistas: Casemiro, Bruno Guimarães, Fabinho, Danilo e Lucas Paquetá.

Atacantes: Neymar, Raphinha, Vinícius Jr, Matheus Cunha, Luiz Henrique, Gabriel Martinelli, Rayan, Endrick e Igor Thiago.

Os 26 convocados por Ancelotti para o Brasil na Copa

 

Ancelotti disse que não existe seleção perfeita e a dele também não é. Mas quer fazer deste time o mais resiliente, condição que ele acredita ser fundamental para ganhar o título mundial. Sobre como vai aproveitar Neymar na seleção ele foi claro: como atacante mais centralizado.

O Brasil fará dois amistosos antes da estreia na Copa: dia 31 de maio no Maracanã, contra o Panamá e dia 6 de junho em Cleveland, contra o Egito, duas seleções que também vão disputar a Copa.

 

0

Campista Álvaro Vieira Pinto em Jornada na UFF nesta terça

 

 

Na próxima terça-feira, dia 19, na UFF-Campos, das 9h às 21h, será realizada a Jornada Álvaro Pereira Pinto. Serão três mesas de palestras e debates. A primeira, marcada para começar às 9h30, terá como tema “A Campos do início do século XX — sua importância da República Velha ao Estado Novo”, com Márcia Carneiro, professora de história da UFF como palestrante. E a terceira, programada para se iniciar às 16h30, trará como tema “Campos, Rio de Janeiro, Brasil: a questão do desenvolvimento”, com os palestrantes Daniel Kosinski e Roberto Rosendo, professores de economia, respectivamente, da Uerj e UFF.

Mas o assunto que batiza e motiva a Jornada será tratado na segunda mesa, com o tema “Álvaro Vieira Pinto — aspectos de sua filosofia”, marcada para começar às 14h e que terá como palestrantes Leonardo Maia e André Vinícius Dias Senra, professores de filosofia, respectivamente, da UFRJ e IFRJ, além de também organizadores da Jornada. Mais conhecido como filósofo e por sua obra centrada no pensamento nacional-desenvolvimentista do Brasil, o polímata Vieira Pinto é campista, embora pouco conhecido dos seus conterrâneos. Para saber um pouco mais da sua vida, sua obra e da importância desta ao mundo atual, onde começa a ser resgatada, a Folha bateu um papo por e-mail com o professor Leonardo Maia.

 

Leonardo Maia, professor de filosofia da UFRJ

 

Folha da Manhã — Como tomou contato com o pensamento do polímata campista Álvaro Vieira Pinto? E o que o levou a promover a Jornada, no próximo dia 19, na UFF-Campos, sobre a obra dele, junto do André Vinícius Dias Senra?

Leonardo Maia — Meu contato com o pensamento de AVP é, relativamente, recente. Durante a pandemia, com a retomada das atividades letivas na universidade, inicialmente de forma remota, eu me decidi a estudar, sobretudo, autores/as nacionais. Inicialmente, Darcy Ribeiro e, com ele, Anísio Teixeira. Junto a esses dois, outros nomes, como Paulo Freire, Florestan Fernandes, entre outros. E, nesse conjunto de novas leituras ou releituras, surgiu o nome do AVP que, a rigor, eu mal conhecia até então. Foi uma grande surpresa, e muito positiva, seja pela variedade dos temas, a densidade da obra e a sua inesperada profundidade filosófica. Mas, em particular, a vocação para o Brasil e para as suas questões, um traço certamente geracional, mas que, em AVP, ganha dimensões especialmente filosóficas, como antropológicas, ontológicas, fenomenológicas etc. Chamou a minha atenção, ainda, o fato de que, sendo um pensador fluminense, pouco se ouvia falar dele por aqui, salvo pelo esforço da Editora Contraponto que, naquele momento, já havia relançado alguns de seus principais títulos. A reaproximação com o André Senra, que eu conhecera quando do meu doutorado na PUC-Rio, se deu logo em seguida, com a participação nossa em um evento sobre AVP, e em um grupo de whatsapp que foi formado em torno a esse encontro. A verdade é que, já há algum tempo, pelo menos dois anos, ambos temos pensado em fazer um evento aqui no Rio, em homenagem e em celebração ao AVP, e também ao ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros criado em 1955 e fechado em 1964, período em que foi o grande de formulador do pensamento nacional-desenvolvimentista no Brasil), onde ele atuou, antes da sua cassação, e consequente saída do país, após o golpe militar de 1964. A opção de começarmos essa empreitada pela cidade de Campos, mais do que necessária, pareceu-nos até óbvia: foi, com efeito, onde tudo começou, também para ele, Vieira Pinto. Havia que iniciarmos o evento aqui, deu certo e assim será. Cumpre acrescentar que houve uma acolhida muito favorável à nossa ideia por parte de colegas professores e professoras daqui da cidade. Cabe um agradecimento especial a todos eles.

 

Folha — Embora tenha gozado de prestígio na vida acadêmica brasileira e internacional do seu tempo, Vieira Pinto padeceu de esquecimento até reedição de parte da sua obra em tempo recente. Nem em Campos, onde nasceu, ele é muito conhecido. A que credita parte desse “esquecimento” e o processo de resgate do seu pensamento?

Leonardo — Acredito que aqui se misturam três ou quatro situações. Infelizmente, o nosso país é muito mais habituado a esquecer do que a lembrar, é useiro e vezeiro nisso. O AVP, como tantos outros, não foi exceção. Na verdade, desse instituto de pesquisas que foi o mais importante, na área das humanidades, da história carioca e fluminense, o ISEB, boa parte dos seus integrantes, ainda hoje se encontra profundamente esquecida, ou relegada a uma pesquisa marginal. Foi assim também, para ficar em um exemplo maior, com outro nome fundamental: Guerreiro Ramos (sociólogo e deputado federal cassado em 1964). Amigo, depois adversário cruento de AVP, Ramos foi igualmente ‘redescoberto’, em anos recentes; outros nomes do ISEB, seguem porém, eclipsados. Um segundo aspecto foi, evidentemente, a perseguição que foi imposta a AVP pela ditadura de 1964. O ISEB foi fechado, AVP foi proibido de lecionar, a sua obra teve a circulação proibida ou grandemente restrita e, no auge de suas atividades científicas, ele precisou deixar o país. Três, mesmo tendo voltado ao Brasil durante a vigência, ainda, do golpe, AVP, todavia proibido de lecionar, se encapsulou. Viveu de traduções, assinadas sob pseudônimo, ao passo que escrevia, em paralelo, no retiro de seu apartamento, uma obra monumental, em completo segredo. Enfim, o exílio que muitos experimentaram fora, ele vivenciou aqui dentro mesmo do país. Um quarto ponto, ainda pouco enfrentado pelos estudos em curso sobre AVP, é o da continuidade desse exílio, mesmo advindo o processo da redemocratização. Entre 1979 e 1987, quando falece, AVP não teve aparições públicas relevantes nem rotineiras. Tampouco se empenhou em republicar a obra pretérita, ou encontrar editora para aquela então em preparação, o que só aconteceu quase 20 anos depois de sua morte. Se a ditadura o proscreveu, a democracia não o recuperou para o exercício da vida pública. O exílio foi mais fundo, nele, do que já nos foi dado compreender. Em todo caso, essa experiência decerto o redimensionou profundamente. E, finalmente, um quinto ponto, a má vontade da academia e das universidades brasileiras com o pensamento nacional antecedente ao golpe de 1964, em particular, o de matiz trabalhista, ou nacionalista. Essa linhagem foi claramente preterida, em benefício de outras escolas, ou mesmo modismos, internos e estrangeiros. No fundo, não havia já talvez muito sentido em se estudar em chave própria o Brasil, se esse fora perdido, se o país saíra amplamente derrotado, no saldo geral do período autoritário.

 

Folha — Formado em medicina, chegando a exercer a profissão, assim como de laboratorista, Vieira Pinto também cursou matemática e física, antes de enveredar pela filosofia. O pensamento nacional-desenvolvimentista que ele elaborou reflete essa gama variada de formação e conhecimento?

Leonardo — A tentação, talvez, seja a de asssentir sem restrições à direção proposta pela pergunta. A “polimatia” de AVP é, decerto, a condição erudita necessária para a produção de uma obra complexa como a sua. Necessária, porém não, talvez, suficiente. Com efeito, o elemento “complexo” é, em AVP, esse de um conhecimento muito vasto, amplo. Por outro lado, o eixo “simples” é o de um problema único, quase exclusivo: o Brasil e seus destinos. Ou, se preferirmos, como se dizia mais comumente nos seus anos de ISEB, a “questão nacional”. A nosso ver, AVP faz convergir toda a sua gama de saberes, o seu arsenal de formação, para essa resolução tópica. Que tem, possivelmente, três fases: a primeira, mais explicitamente nacional-desenvolvimentista, e que vai de 1956, ano de sua entrada no Instituto, até o início da década de 60; nesses anos anteriores ao golpe, AVP e o seu pensamento nacional se radicalizam, e para muitos, ele se decidiria, efetivamente, por uma alternativa socialista para o país. Uma terceira fase, pós-golpe miitar, teria a ver, mais exatamente, com as condições de inserção do país em um mundo “técnico”, “tecnológico”. E aí, a questão possivelmente volte a ser mais conceitual e filosófica, do que propriamente ideológica ou política. O mundo, seja ele capitalista ou socialista, é já francamente o mundo da técnica. Colocar-se fora dele é assujeitar-se, subalternizar-se, na ordem geopolítica internacional. É evidente que há escolhas capitais a serem feitas nesse processo de hegemonia tecnológica, e a anterior “filosofia do desenvolvimento”, dos anos de ISEB, se transmuta assim, numa nova “filosofia do mundo técnico”, ou ainda, em uma “filosofia social da ciência”. Porém, acima de tudo, cumpre responder, desde a perspectiva nacional, a essa questão fundamental do nosso tempo. Assim, a seu modo, AVP talvez tenha afinal se tornado um pensador “não-alinhado”, nos moldes da Iugoslávia de Tito (país que se fragmentou nos primeiros anos da década de 1990, mas que se manteve independente tanto dos EUA quanto da hoje extinta União Soviética durante a Guerra Fria, entre 1947 e 1991), onde passou o seu primeiro ano de exílio.

 

Folha – O que destacaria na obra do polímata campista à realidade do Brasil de hoje, num ano de mais uma eleição presidencial e parlamentar até aqui bipolarizada entre duas visões aparentemente antagônicas de país e mundo?

Leonardo — O próprio exemplo de AVP é muito inspirador, nesse sentido. Ele se descobre, com efeito, um pensador, ao se redescobrir brasileiro, e se (re)encontrar com o seu país, enquanto “questão para o pensamento”. Assim se fez, sempre, a grande filosofia. Sócrates e Platão em Atenas (ou contra ela); Maquiavel em Florença, os Illuministas no período absolutista francês etc. O que seria um país que não se escrutina? Que país é esse? Sob muitos aspectos, o Brasil de AVP, do ISEB, e de sua geração, é um país perdido, um Brasil que perdemos. Ou seja, um país pensado, propositivo, inventivo e inaugural. Em busca do enfrentamento independente, autônomo e soberano, das suas questões intrínsecas. Nesse caso, o nacionalismo atual parece oco, de fancaria, uma virtude ocasional, até eleitoreira. Enfim, um oportunismo a mais. Planejamento, desenvolvimento, crescimento econômico, e todo um léxico de palavras organizativas e projetivas deram lugar, em nosso século, a projetos de circunstância, no fundo não mais que eleitorais. E, vencida a eleição, governa-se segundo uma ordem do dia, enfrentando os temas que se apresentam, conforme as manchetes dos jornais da manhã ou, já agora, segundo o que se mostra mais efervescente nas redes sociais. Como não há, via de regra, antecipações nem projeções, não se deveria chamar isso de governo. Assim, a rigor, não há quem diga ou saiba para onde está indo o país, ou onde ele estará, dentro de 10 ou 20 anos. O que AVP e seus parceiros no ISEB buscavam era o exato oposto: uma ideia de Brasil. É por essa razão, e essa razão apenas, porém incontornável, que o pensamento de Vieira Pinto retorna. Seu compromisso inamovível de propor uma ontologia ao país, um ser próprio ao Brasil, hoje já não pareceria, possivelmente, um protocolo tão distante. Se o momento nos empurra fortemente para trás, só o pensamento, agora como antes, pode de novo nos levar à frente. Desenvolvimento, sociedade, técnica, transformação, revolução. Em que essas palavras teriam perdido vigor, viço? Assim também, com esse extraordinário pensamento que se serviu delas, do início ao fim.

 

0