Opiniões

Hamilton Garcia — Do socialismo cientítico ao socialismo mítico

 

 

O título principal do artigo é uma referência ao texto do revolucionário socialista russo Vladimir Lênin escrito em 1897, onde ele, à semelhança de Marx e Engels n’A Ideologia Alemã (1846), procurava situar a luta socialista nos marcos do realismo empírico (socialismo científico) ou seja, da modernidade fundada, a duras penas, nas révolutions citoyens dos séculos anteriores – em oposição ao idealismo romântico (socialismo utópico) predominante na esquerda da época.

Se no trabalho de Marx&Engels[1] o foco era o idealismo crítico da esquerda alemã, que acreditava ser possível combater “o mundo real lutando contra a ‘fraseologia’ do mundo”, numa “luta filosófica contra as sombras da realidade” — de novo em voga no séc. XXI —, no de Lênin[2] o alvo é a crítica populista ao capitalismo, que se transformara em repulsa ao desenvolvimento e apologia à comunidade rural originária russa.

Enquanto nossos autores alemães[3] refutavam seus filósofos por não terem se lembrado “de procurar a conexão da filosofia alemã com a realidade alemã, a conexão de sua crítica com o seu próprio ambiente material”, nosso russo[4] condenava os populistas por ignorarem as mudanças causadas pelo capitalismo na realidade rural da Rússia, mantendo uma visão romântica do campo e, assim, fazendo “o jogo da estagnação e de toda a sorte de asiatismos” ao comparar “sempre a realidade do capitalismo com a ficção do regime pré-capitalista”, daí concluindo pela superioridade do segundo — como, amiúde, fazemos com relação aos povos naturais e às populações vulneráveis.

O que animava a corrente realista da esquerda, desde o Manifesto Comunista (1848), era a ideia de que “(…) não é possível conseguir uma libertação real a não ser no mundo real e com meios reais; (…) não é possível abolir a escravatura sem a máquina a vapor e a mule-jenny (fiação automática), nem a servidão sem uma agricultura aperfeiçoada (…). A ‘libertação’ é um fato histórico, não um fato intelectual, e é efetuada por condições históricas, pelo nível da indústria, do comércio, da agricultura”[5].

Deriva disso que a revolução socialista só poderia ser obra de uma sociedade evoluída, onde a divisão do trabalho estivesse suficientemente avançada, o acúmulo de riqueza e cultura elevado e a forma de existência há muito tenha deixado de ser local. Do contrário, diziam nossos alemães, “só a penúria se generaliza, e (…) a miséria recomeçará a luta pelo necessário e se cairá de novo na imundície anterior”[6].

Foi precisamente a não observância desse limite real à mudança social (revolução), levando longe demais a ideia de “revolucionar o mundo existente”[7], que levou o socialismo racional ao colapso. Se na Comuna de Paris (1871), Marx apoiara os trabalhadores por se tratar de um gesto extremo numa situação extrema — sabendo da impossibilidade de qualquer socialismo naquelas condições —, Lênin, ao provar a possibilidade (e necessidade) da revolução popular na Rússia (outubro de 1917) para garantir qualquer progresso democrático ao país, creu ser possível, por isso mesmo, estender o poder popular à esfera econômica sem maiores considerações acerca da capacidade da classe trabalhadora — já em pleno taylorismo — em gerir adequadamente as modernas empresas, com as desastrosas consequências sabidas, entre elas: a guerra civil, o colapso da produção industrial e agrícola, e a consequente anomia social que levou à hipertrofia do Estado e à supressão das liberdades públicas.

Desde então, já sob o stalinismo — que foi a reação da nomenklatura soviética à tentativa de Lênin, com a NEP, de reverter a tragédia —, o racionalismo socialista foi posto a serviço da mais perversa das formas idealistas de todos os tempos: o marxismo-leninismo, uma espécie de super-Leviatã despótico à serviço da utopia comunista(!); capaz de fazer bula rasa de qualquer abordagem empírica honesta e, pior, usando, para tal, os maiores inimigos da utopia (Marx, Engels e Lênin), em nome dos quais — com o uso arbitrário e abusivo de seus textos, transformados em sagrados — se constituiu a mais fantástica máquina de narrativas fraudulentas da história, à guisa de redenção revolucionária, representada por um jornal chamado Pravda (Verdade).

Iludem-se os que pensam que este cruel processo degenerativo do socialismo-científico, transmutado em socialismo-mítico, tenha se esgotado junto com seu mais célebre protagonista (Stálin) ou sua mais iminente criatura (PCUS). Na verdade, seu ocaso inaugurou uma nova era de mistificações na esquerda, agora não mais sob a roupagem do comunismo, mas do humanitarismo, que, aditivado pelas interpelações pós-modernas de matiz norteamericana (identidades, lugares de fala, etc.), nos levam, sem mais mediações, da razão à emoção e, dependendo do contexto, à comoção, num agir comunicativo que não só prescinde da análise histórica rigorosa e da própria ciência natural, como exige seu abandono em nome de um novo puritanismo ético, de caráter laico-utópico, muito mais amplo e persuasivo do que o comunismo.

É impossível separar o homem de sua natureza histórica e de sua história natural — natureza esta que é a base de sua própria existência —, já haviam nos ensinado os alemães[8], mas a “nova esquerda” não se contentou em suplantá-los — aniquilando, por tabela, o legado de Morgan e Darwin —, libertando também a própria ideia humanitária de qualquer determinação complexa para torná-la apanágio exclusivo de uma “vontade política” personificável.

Não é por outro motivo que complexas antinomias se transformaram em simples paradoxos na verve de lideranças prestidigitadoras, capazes de, em frases curtas e penetrantes ao nível do subconsciente, ressignificar a conexão entre economia e política de modo a possibilitar a mais ampla e discricionária liberdade da última sobre a primeira — maximizando o pecado original leninista.

“Se, ao final de meu mandato, cada brasileiro puder se alimentar três vezes ao dia, terei realizado a missão de minha vida”[9], disse LILS, a maior liderança política da esquerda desde a redemocratização, ao tomar posse, em 2002, sem maiores preocupações com o fato de que o capitalismo brasileiro havia sido capturado pela “doença holandesa” (rentismo) e que a realização deste sonho — mais do que justo, inadiável — não seria sustentável sem reformas econômicas que visassem, mais que o consumo das famílias — perspectiva de curtíssimo-prazo dos liberistas —, os investimentos produtivos capazes de criar empregos e produtos, além de reformas políticas que pusessem fim ao domínio neopatrimonial sobre o Estado, que junto com o setor financeiro se constituem em verdadeiros “devoradores de mais-valia”[10] ou, em outras palavras, parasitas dos excedentes produtivos que deveriam sustentar a economia pública e privada de todos.

 

[1] A Ideologia Alemã – crítica da filosofia alemã mais recente nos seus representantes Feuerbach, Bruno Bauer e Max Stirner e do Socialismo Alemão nos seus diferentes profetas, ed. Centauro/SP, 2006, pp. 11-12, 15.

[2] ¿A Que Herencia Renunciamos?, in. Obras Escogidas Vol.1, ed. Progreso/Moscú, 1979, passim.

[3] Op. cit. p. 15.

[4] Op. cit. pp. 96-97.

[5] A Ideologia Alemã, p. 29, grifo meu.

[6] id. p. 45, grifo meu.

[7] Id. p. 31.

[8] Id., pp. 32-33.

[9] Luís Inácio da SIlva, apud. Bernardino Furtado e Ronald Freitas, Cruzada Contra a Fome, in. <http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT432696-1659,00.html>, edição 233 de 04/11/02, em 20/07/18.

[10] Gramsci, apud. Giuseppe Vacca, Modernidades Alternativas – o século XX de Antônio Gramsci, ed. FAP-Contraponto/DF-RJ, 2016, p.190.

 

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  1. Excelente este artigo.

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