Poesia, Teatro, Vídeo e Música do Pontal ao Cantinho

Poeta multi-mídia e camarada em armas como autor e ator do espetáculo “Pontal”, feito também com poemas meus, da Adriana Medeiros e do Antonio Roberto Kapi, que assina a direção da peça, o incansável Artur Gomes enviou e-mail, convidando para oficina de cine-vídeo-teatro, entre 15h e 18h, seguida de uma mostra de cine-vídeo-poesia, às 21h. Tudo acontece na próxima quarta-feira, dia 8, no Cantinho do Poeta, à rua Cardoso de Melo, nº 42.

Dentro do projeto “Quartas Culturais”, organizado pelo ator Yve Carvalho, o Cantinho foi palco primeiro para um sarau, com inauguração dos retratos do Artur, da Adriana e deste blogueiro, abrindo a galeria dos poetas locais, no último dia 24. Já no dia 1º, foi a vez da reencenação de “Pontal”, grande sucesso de público no último verão de Atafona, interpretado por Artur, Yve e Sidney Navarro.

Na mostra da próxima quarta, será exibido em telão um vídeo de 15 minutos e 40 segundos intitulado “Uma viagem do Pontal ao Cantinho do Poeta”, dirigido pelo Artur. Com imagens do Pontal, no encontro do rio Paraíba do Sul com o oceano Atlântico, e do ensaio de “Pontal” para sua mais recente apresentação, no Cantinho, o vídeo traz, na trilha sonora, duas músicas do saudoso Luizz Ribeiro, do último CD da banda Avyadores do Brazil: o blues rasgado “O Anjo é Cruel”, e o rock “Dá Licença, Que Eu Vou Beijar o Céu”.

Abaixo, o vídeo que já rolando no YouTube, com o ensaio no Cantinho, em torno do barco cenográfico “Sonho de Ícaro”, com Yve e Sidney interpretando três poemas meus: “elenismo”, “aurora” e “estiagem”. Para quem quiser ler, além de ouvir, segue também a transcrição dos versos…

 

 

 

elenismo

 

onde começa a planície

à margem direita da foz

reflete à míngua um egeu

de sede da sua língua

 

maresia dos corpos jogados

oxida entre dedos de dédalo

o cheiro dela que esvai

e volta à memória em marés

 

pelo sol imolado na praia

do sacrifício por afrodite

nos meus criem o credo

daqueles olhos oblíquos

 

atafona, 07/06/08

 

 

aurora

(p/ dora)

 

dia desses, madrugada alta

insone, acordei a mulher

para matar saudades do adolescente

ébrio, na beira da praia, à espera do sol,

que buscava ouvir o mar chiando ao parir brasa

 

acompanhado, reconstituí a cena

tendo como elemento novo, além da mulher,

a barricada baixa de nuvens no final do horizonte

deflorada lentamente pelos dedos róseos do poeta

 

ela olhou e disse que as nuvens pareciam algodão doce

pensei e a mim lembraram ilha grande

que quando avistada da ilha seguinte

vê-se não ilha, mas continente;

imaginei após a amurada interna do forte

dos que querem manter como está

e já saem à guerra vencidos;

recordaram-me também a serra do imbé

fazendo fundos com a planície dos extintos

lhe dando vértebras;

ou ainda a conseqüência do recife

no qual convergissem todas as ondas do atlântico

açoitando a pedra e espalhando espuma

como o cheiro do quarto no amor

 

o sol nasceu entre nuvens e metáforas

contemplei-o até a cegueira

beijei a mulher e me despedi de homero

que fez do ouro seu anel de noivado

e saiu comendo algodão doce

 

atafona, 15/04/2000

 

 

estiagem

 

depois da chuva são moscas

mosquitos obstinados à caça de sangue

depois da chuva são poças

cheiro de terra, ciclo de rastros

depois da chuva são sapos

corte a amantes dentro do mato

depois da chuva são cantos

folhas mais leves prenhes de pássaros

depois da chuva são vidas

formas moldadas no meio da lama

depois da chuva são gotas

pendendo em extinção da borda da telha

depois da chuva são cores

reflexos de luz na umidade do ar

 

depois da chuva?

a gratidão é verde depois da chuva

 

atafona, 05/12/2000

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Este post tem 3 comentários

  1. LINDO! LINDO mesmo o poema ATAFONA,o cheiro eu senti lendo ,de verdade Aluysio.A verve de poeta que descreve o real e imaginário fez um retrato do PONTAL na minha mente.Parabéns por este momento de prazer que me proporcionou!!!! Newtinho.

  2. Natália

    É pouca qualquer parabenizãção, para direcionamentos que visem dar maior visibilidade para o que é, sem dúvida, o maior cartão postal da região…
    A amada Atafona…

  3. Aluysio

    Caro Newtinho,

    Um poema, parceiro, só pertence ao autor enquanto ele o escreve. Depois é de quem, como vc, o lê…

    Abraço e grato pela colaboração!

    Aluysio

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