Quando a busca é o outro

 

“Pois que, eu essência, não habito
Vossa arquitetura imerecida;
Meu Deus e meu conflito”

(carlos drummond de andrade)

 

sétimo selo

há os dias em que busco Deus
há aqueles em que topo o dedão
e O chamo de filho da puta
mas guardo na cômoda, por utopia
um pequeno grão de mostarda
e o amor da carpintaria

eu, quase sempre distante
como filho criado por outros
numa ilha sem fé no mar
e às vezes, meu Deus, tão seu íntimo
agarrado como uma criança
a quem a salvou de se afogar

minha imagem e semelhança?
falho demais para meu Deus
— teria mais em conta um gorila
ou a árvore que o aproxima do céu

caminho em sua vida
abençoado por sua sorte
encontro marcado com a morte
delirando chorar como hamlet
na certeza química dos anjos
nas dúvidas de antonius block

campos, 11/12/06

 

Entre o filho e também médico, Luís Otávio Enes, e o colega Luiz Carlos Sell, Dr. Pedrinho, o “médico do século” (foto de Mariana Ricci)
Entre o filho e também médico, Luís Otávio Enes, e o colega Luiz Carlos Sell, Dr. Pedrinho, o “médico do século” (foto de Mariana Ricci)

 

“O país não descoberto, de cujos confins/ Jamais voltou nenhum viajante”. Pela boca do príncipe Hamlet, em meio ao conhecido monólogo do “Ser ou não ser” (Ato III, cena 1), é assim que o dramaturgo William Shakespeare define a morte.

Desde o início do séc. 17, quando a mais famosa tragédia foi escrita, muito se tem debatido sobre o paradoxo da definição, proferida pelo atormentado príncipe num momento da peça em que ele já tivera contato com o fantasma do pai. Por óbvio, como “jamais voltou nenhum viajante”, após o espectro do rei surgir no mundo dos vivos para revelar ao filho homônimo que fora assassinado?

Da arte à vida que a imita, quem de fato já encarou a morte, e pode voltar com sua lembrança, não guarda dúvida sobre o divisado pelos olhos que transcendem à própria cara. Passa-se a integrar uma categoria diferente de gente — nem melhor, nem pior, mas diferente. Distinto à grande maioria dos que vivem, só a partir do renascimento se dá a gênese do sobrevivente, “viajante” sorteado com bilhete de ida e volta à fronteira do tal “país não descoberto”.

Todos que lá estiveram guardam suas cicatrizes. Não necessariamente visíveis em plano físico, embora sempre tangíveis diante de um igual em experiência.

Há pouco mais de seis anos, logo depois que comecei a namorar Lívia, minha esposa, conheci seu pai, Pedro Otávio Enes Barreto, Dr. Pedrinho dos amigos, vovô Pedinho da pequena Maria Eduarda. Se de cara distingui nele um igual, não demorou muito para que descobrisse se tratar de um tipo ainda mais especial de sobrevivente.

Do meu encontro com a morte, aos 19 anos, ficaram um buraco no lugar de testa e um apego radical a determinados valores pessoais, aos quais me agarrei para continuar vivo e busquei manter a despeito de qualquer necessidade de simpatia ou aceitação. Por sua vez, em Pedrinho, com apenas 16 anos, embora as consequências físicas tenham sido piores, aquelas operadas em seu caráter foram melhores, muito melhores.

Após mais de um ano integralmente submetido ao mais árduo trabalho de fisioterapia para tornar a andar, Pedrinho voltou a fazê-lo com limitações motoras. Diante delas, no lugar de se bastar em conceitos abstratos e ensimesmados, soube comungar sua própria luta pela vida numa peleja real por qualquer outra. Se a medicina e sua força de vontade o fizeram caminhar novamente, ele iria usar ambas, como as duas pernas, para fazer o mesmo por quem pudesse.

Quando o conheci, Pedrinho já era um dos clínicos gerais e geriatras mais conceituados de Campos. Ainda assim, acumulava seu concorrido consultório particular com a função de médico público municipal, professor da Faculdade de Medicina e diretor clínico do Hospital Manoel Cartucho. E, mesmo andando com o auxílio da surrada e inseparável muleta, nunca buscou esta em ninguém para deixar de cumprir sozinho os afazeres diários, guiando o próprio carro entre tantas frentes de trabalho e sua casa, da qual saía quase sempre de manhã cedo, para só regressar tarde da noite.

A medicina pública, na qual diz ter se dado sua verdadeira formação profissional, não teria exercício exclusivo no cargo conquistado mediante concurso. Também na prática privada, nunca se furtou em atender quem não pudesse pagar pela atenção de um profissional do seu nível. A muitos pacientes carentes, chegou por incontáveis vezes a fornecer acesso aos remédios que receitava, por meio de amostras grátis recebidas dos laboratórios.

Mesmo com a labuta incessante pela vida alheia, não se furtou em viver intensamente a sua própria. Amigo de primeira hora e necessidade de todos seus muitos amigos, nunca deixou de cultivá-los ou construir novos, em torno da mesa da sua casa, indiscriminadamente aberta a todos, ou nas dos restaurantes, bares e botequins. Afinal, como o poetinha Vinícius de Moraes, Pedrinho também “nunca viu uma boa amizade nascer em leiteria”.

A humanização que pregou à exaustão no exercício da medicina, sobretudo em sua atividade no magistério, era só uma extensão de todas as demais relações mantidas com seus semelhantes.

Por todos estes motivos e outros também, Pedrinho recebeu ontem o título de médico do ano pela Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia. Num auditório que o recebeu com palmas e ao final o ovacionou de pé, a entrega foi precedida pela fala de três colegas: Leonardo Bacelar, Makhoul Moussallém e Luiz Carlos Sell.

O primeiro deu o testemunho do pavor de uma paciente, ao saber, numa necessidade eventual, que não seria atendida por Pedrinho. Já o último fez a pertinente lembrança a Luiza Helena, minha sogra, para ressaltar que nenhum guerreiro lutaria com tanta coragem, diante de tantas dificuldades, se não tivesse ao lado uma camarada em armas da mesma têmpera.

Todavia, na minha opinião, partiu de Makhoul a definição mais precisa daquilo que todos que estavam ali, sentiam e sentem em relação ao homenageado da noite de terça. Antes de fechar sua fala com a aparência de superlativo, ao afirmar que Pedrinho não é o médico do ano, mas do século, o orador egresso de uma raça milenar endossou que sempre quando se vê diante de alguma dificuldade na vida e pensa em esmorecer, ministra para si mesmo a cura ao se mirar no exemplo do ex-paciente, ex-aluno e colega de lida.

Numa dessas coincidências da vida, daquelas que Nietzsche dizia não haver enquanto coincidências, Makhoul foi o neurologista que salvou a vida de Pedrinho e, anos depois, a minha. Se poucos, como nós dois, tiveram a sorte de ir e voltar, menos ainda, como ele, são os que dedicaram esse retorno à missão de adiar a inexorável partida daqueles que o cercam.

Pedrinho ensinou meu filho, a quem ele e Luiza adotaram como neto, a jogar xadrez. Ícaro já era fascinado pelo jogo desde que assistimos juntos a “O Sétimo Selo”, clássico do cinema de Ingmar Bergman, no qual o cavaleiro medieval Antonius Block, na pele do ator Max Von Sydow, assim que retorna das Cruzadas na Terra Santa para uma Europa arrasada pela peste, encontra a Morte, a quem propõe uma partida de xadrez, visando mais tempo à busca dos questionamentos existenciais aos quais, como Hamlet, dedicou sua vida sem achar respostas.

Com a modéstia do plebeu a humanizar uma alma das mais nobres, a busca de Pedrinho, após seu encontro com a morte, teve resposta pronta a indagações menos pretensiosas. Seu jogo, a partir dali, passou a ser estender a mão a quem estava do outro lado deste tabuleiro de nós todos e simplesmente precisava de ajuda.

Meio pai e meio irmão, meu e de outros tantos, é o melhor homem que já conheci.

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Este post tem 13 comentários

  1. Felipe Cunha

    Esse é o nosso querido Tio Pedrinho! Parabéns pela homenagem, tio, você merece só por ser o homem que é, a medicina é quem lhe deve a honra de sê-la… Um beijo grande e saiba que mesmo estando morando aqui em Resende, estou com meu coração aí na sua casa torcendo muito para você vencer mais uma vez, como colocou Aluysinho, outra partida de xadrez! Falo em meu nome e de seus sobrinhos do coração, Julliana, Caê, Aldo Neto, Sandro, Paulo André, Raquel e Caroline. Queremos passar muito mais tempo ao seu lado, viu? Dê um beijo em Livinha, Luiz Otávio, Pedrinho Henrique e claro, tia Luiza, essa sua fiel escudeira de sempre, maravilhosa! Ah, não esqueça da tia Eneida, heim? Minha eterna professora…

  2. juliano schebella e fabiola galiazzi

    CONDORAMOS COM TODAS PALAVRAS DO ALUYSIO, E AINDA MAIS
    QUE A FALAREMOS PESSOALMENTE………………………….

  3. juliano schebella e fabiola galiazzi

    CONCORDAMOS COM TODAS PALAVRAS DO ALUYSIO, E AINDA MAIS
    QUE A FALAREMOS PESSOALMENTE………………………….

  4. Livinha

    Querido Aluysio,
    É com enorme satisfação que vejo e sinto a sua amizade por essa familia, que hoje também é sua, e principalmente por papai.
    Você foi muito feliz na analogia que fez com o xadrez, pois foi esse jogo cheio de tecnicas e desafios que ajudou a construir o nosso Dr. Pedrinho.
    Obrigada pelo carinho de sempre, pela dedicação e parceria.

  5. Oswaldo

    Campos dos Goytacazes, esta bela maior cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro, não deveria apenas se destacar por ser a primeira cidade da América Latina a fornecer energia elétrica a população, nem por, atualmente, ser considerada um excelente polo universitário. Ao meu ver, Campos deveria se destacar nacionamelmente também por revelar jornalista de CAPACIDADE ímpar no país.
    Um exemplo disso é o texto acima, do ilustre jornalista e editor da Folha da Manhã, Aluysio Abreu Barbosa. Trata-se de um texto literário e folclórico, com grande destreza e minúcia nas palavras. Com todos esses predicados,porém, gostaria de saber mais como foi a noite do evento? Será que tem algum jornalista aí que possa me dizer?

  6. Sandra Stoduto

    Concordo que a melhor definição sobre Dr Pedro foi a de Dr Makhoul que é o homem mais inteligente que conheci;os dois exercem a medicina de uma maneira SIMPLS,LIMPA.O sorriso de Dr Pedro é cativante, ao receber os seus pacientes, alem de muitos outros predicados.Soube aproveitar de uma forma brilhante uma segunda chance.Parabens ao Aluysio,ao Sell ,ao Makhoul, ao Leonardo,ao Almir,à SOCIEDADE ,aos colegas enfim todos que participaram da homenagem, pela escolha

  7. Darleci Muylaert

    Pedrinho ,num sei se vc se lembra de mim ? sou esposa de seu amigo Sebastião(Tião) que morou na rua do Crespo lembra? filho de D.julia e SR.Esmeraldo !!!qta saudades sinto de vcs, qta falta vc me faz aqui no RIO ,ñ vou mais a medico desde q sai dai ha 15 anos atras ,,,, essa homenagem que estão fazendo a vc é gratificante só que pra nóis vc é muito mais !!!! como MEDICO e como PESSOA, de um forte abraço em Luiza essa pessoa tbm de mta garra sua companheira guerreira e pra vc meu MEDICO de longos anos PARABÉNSSSSSSSSSS SEMPREEEEEE abraço sua sempre cliente
    DARLECI MUYLAERT E SEBASTIÃO PIMENTEL

  8. Aluysio

    Livinha,

    Em relação ao que sinto pelo seu pai, a constatação que me cabe é a de estar casado com uma irmã. E o sentimento tem descrição precisa nos Cânticos de Salomão: “Já entrei no meu jardim, minha irmã, minha esposa” (Cantares 5:1).

    Bj grande!

    Aluysio

  9. Pedro Otavio

    Darleci, logico que me lembro de vocês, muito obrigada pelo carinho e atenção. um abraço. Pedro Otavio

  10. Pedro Otávio

    Aproveito o espaço para agradecer todas as manifestaçoes de carinho, em especial a Aluysio pelo belo texto.Um grande abraço.

  11. Sônia Sampaio

    Aluysio, parabéns pela homenagem prestada ao seu amigo, Dr Pedro Otávio. Ele é e sempre será meu médico, amigo… Você foi iluminado, de uma sensibilidade enorme, descreveu realmente o grande homem PEDRO OTAVIO.

  12. Vania Cruz

    Aluysinho, cheguei tarde para “te” falar o que muitos já expressaram: lindo texto, emocionante e verdadeiro. Parabéns duplo; primeiro para o homenageado,Dr. Pedro Otávio e, depois, para você que carrega no sangue a poesia ímpar de seus pais. Abraços.

  13. Sandra

    Aluysio Filho,texto digno de um promissor jornalista,DNA vc tem,está em excelente fase,aproveite-a.

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