Opiniões

Do dia da mulher de ontem, hoje e sempre

Há exatos cinco anos, a edição da Folha Dois de 8 de março de 2008 trazia em sua capa uma matéria assinada pela jornalista Dora Paula Paes, intitulada “Elas por Eles”. Sob a ótica do fotógrafo Dib Hauaji, do ambientalista e historiador Aristides Soffiati e, enquanto poeta, minha, a ideia era dar uma perspectiva do gênero oposto sobre as homenageadas do dia. Abaixo, a transcrição da parte que me coube nesse latifúndio de ontem, hoje e sempre, que é falar da mulher…

Folha – Todo poeta precisa mesmo beber em uma musa?

Aluysio – As musas originalmente são nove divindades, todas do sexo feminino, filhas da união de Mnemósine, deusa da memória, com Zeus, rei dos deuses. Das nove, apenas duas eram ligadas à poesia: Calíope, à poesia épica, e Erato, à poesia lírica. Da Grécia antiga para cá, como definiu um dos bons poetas brasileiros da atualidade, o Geraldo Carneiro: “Foram poetas pouco sensatos como Dante e Petrarca que as encarnaram (as musas) em mulheres, aventura que sempre me pareceu fadada à alegria e ao desastre”. Particularmente, acho que a “insensatez” é bem anterior à Idade Média dos enamorados de Beatrice e Laura, pois no séc. 10 a.C., enquanto os gregos ainda cantavam musas divinas, Salomão já as havia individualizado humanamente em seu “Cântico dos Cânticos”. O Geraldo, provavelmente padecendo de dor de cotovelo, diz às vezes supor que as musas deveriam ser banidas de novo para o céu. Como a pergunta trata da musa quedada à terra, fico com a sabedoria dos versos do rei de Israel: “Levanta-te, minha amiga, minha formosa, e vem!”. Se todo poeta precisa mesmo beber numa musa? Creio que sim, muito embora elas sejam o vinho, não cálice.

Folha – De que forma a poesia e as mulheres estão ligadas no paralelo das palavras?

Aluysio – Enquanto poeta, sou um cara meio chato em defender, veementemente, a necessidade do trato com a palavra. A poesia é a expressão natural da palavra. Nascida dela, a prosa é só uma necessidade vulgar do cotidiano. Como a poesia, a fêmea é o ser original. O macho é só uma necessidade pragmática da vida, um apêndice da especialização, visando acelerar a reprodução para vingar a espécie na briga de foice da evolução. A genética já provou que se pode gerar uma nova vida a partir do cruzamento das células de duas mulheres, coisa impossível entre dois homens. Da mesma maneira, não há língua no mundo nascida da prosa, apenas da poesia. E, sobretudo, quando se destina à poesia, quanto mais o escritor brinca com a palavra, lambe, cheira, mordisca, bolina, movido pela curiosidade, pela necessidade de descoberta, pelo prazer, buscando construir com ela uma intimidade de amante, mais a palavra umedece, se molda e se abre à sua intenção. Palavra, como mulher, gosta de preliminares.

Folha – Para o poeta é mais fácil lidar com a musa ou a mulher em carne e osso, com toda a complexidade do sexo feminino?

Aluysio – Nunca tive uma musa que não fosse de carne e osso. De uma maneira geral, até por ser um cara pouco criativo, não costumo escrever sobre o que não vivi. Idealizar as musas é coisa de poeta romântico do séc. 19, muito embora o maior deles, no Brasil, tenha sido o mulherengo Castro Alves. Como poeta, prefiro achar que é mais fácil lidar com as mulheres não na poesia, mas com a poesia. Como homem, o pouco que me foi dado a conhecer da mulher só fez reforçar a certeza de que, quanto maior o convívio, maior o mistério. Mas é como disse o maior poeta brasileiro vivo, o pantaneiro Manoel de Barros: “Eu preciso de mistério”.

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Este post tem 6 comentários

  1. , “ Palavra ,como mulheres ,gostam
    de preliminares…“

  2. No nosso dia vc faz uma homenagem escrota com essa foto machista!

  3. Parabéns Dora.Parabéns Aluysio.Parabens Folha da Manhã .Pauta super interessante,é sempre bom saber o que os homens pensam a nosso respeito.

  4. Aluysio,
    sua entrevista é uma bela reverência à Mulher.
    Lembrei-me do escritor francês Michel Quoist: “…Se a mulher quiser cumprir sua missão deve ser para o homem como um mistério”…
    Parabéns!

  5. Cara Maria Lamonica,

    Só posso entender a foto como machista pela perspectiva estrábica de um feminismo “puritano e stalinista”, na definição de uma feminista de talento, a escritora estadunidense Camille Paglia. Lembro de uma entrevista, em uma passagem sua pelo Brasil, há alguns anos, onde ela criticava abertamente as feministas do seu próprio país por condenarem a exposição do nu feminino até em obras de arte, como penso ser o caso da foto que vc julga “machista”. Paglia respondeu fazendo um elogio ao Brasil, pela naturalidade com que a nudez feminina, e mesmo independente de gênero, era encarada por aqui, dentro da perspectiva dionisíaca que sempre defendeu como natureza humana inexorável. Lésbica assumida, a escritora observou sobre suas detratoras: “acho que essas feministas só devem transar entre elas, o que deve ser muito chato”.

    Ao fim e ao cabo, minha cara Lamonica, se dúvida ainda habita sua mente acerca do que penso e sinto sobre a mulher, sugiro que leia o que escrevi.

    Abç e grato pela chance do debate!

    Aluysio

    P.S. A foto, até por motivo anatômico, é dissociada de escroto.

  6. Homenageando à mulher, um homem/poeta que “bebe” como ninguém sua musa…que mordiscando, lambendo, bolinando e cheirando as palavras, traduz em poesia todo mistério feminino por ele, por ora, desvendado…

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