Artigo do domingo — O outro que somos

Seja em versão impressa ou virtual, jornalismo é sempre trabalho coletivo. Não por outro motivo, neste domingo no qual ainda não habito, mas para o qual escrevo, para espargir as trevas envolvidas na denúncia de censura à peça “Bonitinha, mas Ordinária”, de Nelson Rodrigues (1912/80), que seria encenada em 10 de agosto no Trianon, por conta de alegadas razões de ordem pessoal e religiosa da prefeita Rosinha Matheus (PR), segundo denunciou em mídia local e nacional o diretor Luís Fernando Perinei, do grupo teatral carioca “Oito de Paus”, nada mais producente do que buscar o olhar do outro.

Quando verdadeiros, é o que o pretendem o jornalismo e a arte, como foi o que fizeram os artistas de Campos na manifestação da última quinta-feira, dia 11, mobilizados na democracia irrefreável das redes sociais, para ecoar as palavras de Nelson em protesto contra qualquer tipo de censura, na democracia ancestral das praças. Como sentenciou o poeta estadunidense Walt Whitman (1819/92), criador do verso livre, sem rima ou métrica, e pai de todo o Modernismo: “I believe in you my soul… the other I am” (“Acredito em você, minha alma… O outro que sou”).

Como na ágora da Antiga Grécia, da qual Nelson tanto bebeu, berço e conceito imutável da democracia, no coro entre os atores e a plateia, passemos a palavra para:

Talita Barros, jornalista e pesquisadora da obra de Nelson:

“Acho, sinceramente, que em nosso atual contexto nacional de protestos contra todo tipo de absurdo praticado pelos políticos, não é admissível que em Campos a atual gestão caminhe debochadamente ao encastelamento. Já foram quatro cancelamentos na programação cultural da cidade, três deles só esta semana. Houve uma centralização no setor cultural. Mas por onde andará Patrícia Cordeiro, presidente da Fundação Cultural Jornalista Osvaldo Lima (FCJOL), que agora centraliza todos os outros órgãos, para falar SATISFATORIAMENTE sobre o assunto e também para explicar o funcionamento desse novo organograma da prefeitura? É preciso que esteja disponível para além da rádio Diário. Não é um político ou gestor público quem deve escolher onde e quando falar à sociedade. Nós, cidadãos, é quem temos o DIREITO de definir, de colocar o pau na mesa. Os artistas ontem (na quinta) protestaram e onde está o Poder Público para ouvir essas vozes da rua? Tá certo que o grupo era pequeno. E daí? Em tempos de pós-modernidade, viva as minorias! Desrespeito e desmando é o que denominam a política em Campos… Ah, e aturar jornalista puxa-saco é FODA!”

Artur Gomes, poeta e ator:

“Aqui em canibália city me chega a notícia de que em campos ex-dos goytacazes e agora dos cordeiros evangélicos, a peça de teatro de Nelson Rodrigues — ‘Bonitinha, mas Ordinária’ — foi proibida de ser exibida no Teatro Trianon, por ordem da presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Patrícia Cordeiro.

“O esdrúxulo da estória, é que a peça, já estava na grade de programação do referido teatro para ser encenada no dia 10 de agosto. Segundo o superintendente da Fundação Trianon, Sr. João Vicente Alvarenga, a motivação da censura não seria por questões religiosas, e sim por falta da documentação necessária para a sua encenação, o que não convence nem a Cristo.

“É bom lembrar que a maioria das ditaduras, sempre tiveram em sua retaguarda, e quase sempre ainda tem, algum segmento religioso, e em Campos isso não é diferente, muito pelo contrário, lá o governo municipal é totalmente apoiado pela igrejas evangélicas, estando a ele integrado vários bispos e pastores.

“É bom lembrar que a ditadura militar teve ao seu lado o segmento mais reacionário da igreja católica, a TFP.

“É incrível isso acontecer em nossos dias, numa terra onde nasceram figuras ilustres da arte, cultura e política nacional tais como Wilson Batista, José Cândido de Carvalho, Nilo Peçanha, José do Patrocínio e Benta Pereira.

“Não é à toa que o ator Tonico Pereira, que nasceu em Campos, costuma frisar que Campos não é uma cidade, porque cidade é uma outra coisa”.

Leniéverson Azeredo, jornalista e ativista católico:

“‘A religião deve ser questão de fundo individual, nunca permear os interesses e os espaços públicos, até porque a sociedade é composta por indivíduos ateus, budistas, católicos, islâmicos, umbandistas, e todos merecem respeito’.

“Vou aproveitar esse comentário para dizer uma coisa interessante, muitos estão aproveitando o fato, que eu concordo ser um absurdo, para criar uma campanha contra pessoas que tem fé e evangelizam nas ruas, nas praças, nos estádios, etc. Religião não é algo de foro individual, é de foro coletivo, onde as pessoas, através do artigo 5º da Constituição Federal tem o direito inalienável de externar. Muitos aqui estão confundindo estado laico, com estado ateu. O Brasil foi fundado por cristãos portugueses, Campos dos Goytacazes teve sua história fortemente ligada a religiosidade, e mais, tanto Campos, quanto o resto do Brasil, são formados por cristãos. Bom, como eu disse, a censura é equivocada, a Fundação Teatro Trianon é gerida por alguém sem perfil técnico e acho que tinha de ser trocada. Creio que isso deve ser feito, mas, como eu disse acima, tem de ser tomar cuidado para que a discussão não culmine num debate anticristão”.

Adriano Moura, professor, poeta e dramaturgo:

“O que há em Campos é mais que perseguição a Nelson Rodrigues ou a qualquer outro tipo de arte. É estupidez mesmo; é gente burra, despreparada, insensível, cafona, ignorante que, por ser ‘amiguinho’ de A ou B, é indicada para administrar setores aos quais desconhece. Gente incompetente demais para tomar a atitude correta. Gente ‘careta e covarde’ que só sabe servir de mico de circo pra quem está no poder. Desde 1989 que a cidade vive nessa indigência, na dança das cadeiras dos poderes que insistem em permanecer na República do Chuvisco. Não adianta, caros senhores. Enquanto alimentarmos com nossos votos esses ‘zumbis’ viveremos nessa indigência. A sorte deles é que estupidez não paga imposto. E se pagasse dariam um jeito de sonegar”.


Publicado hoje, na edição impressa da Folha.

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Este post tem 4 comentários

  1. Gildo

    Senhores,
    o problema é que quem tá julgando é a criteriosa Patricia Cordeiro que por ser amiga da prefeita e viver em sua casa, se acha no direito de sem noção nenhuma de teatro barrar Nelson Rodrigues.
    Pq não consultaram Maria Helena Gomes?
    A toda poderosa toma as decisões e quem manda é ela pois ela se acha dona do dinheiro da FCJOL.
    Vcs acreditam que só a Banda Massa, que é do marido dela que é contratado para as inaugurações da prefeita?
    Pois é ela está com muito poder e por conta disso vive nos pisando.
    O MP tinha que investigar.

  2. carlinhos j.carioca

    O Adriano Moura disse tudo,a mais pura verdade sem rodeios!!!A patricia faz parte do grupo de paus mandados e só!

  3. Augusto

    Existe na cidade um grande número de pessoas que repudiam a Patrícia, principalmente dentro da classe artística, e a cada dia cresce mais o descontentamento com ela. Enquanto isso o marido dela que é músico, está adorando o trabalho da “patroa”, afinal de contas a Banda Massa, onde ele “toca”, é sucesso total na família e na Prefeitura de Campos. Acredito até que ele deu para todos tomar, (trecho excluído pela moeração), daí então ninguém na prefeitura está esquentando a cabeça com a “performance” da Patrícia no seu cargo.

  4. santos

    Xô uruca! Pessoas despreparadas não podem ocupar lugares chaves,ainda mais comprometidas

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