Opiniões

Com protestos, gol contra e gol roubado, Brasil bate a Croácia


 

 

Antes da bola rolar ontem, na estreia da Copa do Mundo, os mais de 60 mil torcedores presentes ao Itaquerão emocionaram todo o mundo que acompanhava pela TV a abertura da Copa da Fifa, entoando a plenos pulmões toda a primeira parte do hino nacional brasileiro, em uníssono com os 11 jogadores da seleção brasileira em campo e seu técnico Felipão. Até a presidente Dilma Rousseff, que quebrou o protocolo oficial e não discursou com medo de ser vaiada, não escondeu a emoção diante das câmeras, depois posando para elas com os dedos cruzados ao apito inicial do atrapalhado árbitro japonês Yuchi Nichimura.

Vindos da guerra mais sangrenta da Europa, desde a II Guerra Mundial, na dissolução da antiga Iugoslávia no início dos anos 1990, os croatas parecerem não se impressionar com as demonstrações do nacionalismo tupiniquim. Quem esperava uma marcação por pressão pelo Brasil no começo do jogo, viu os habilidosos meias Modric e Raktic dominaram o meio de campo, construindo as jogadas croatas e desconstruindo as brasileiras. Pelas extremas, os atacantes Perisic, pela direita, e Olic, pela esquerda, além de incomodarem no ataque, atrapalhavam a saída de bola brasileira com os laterais Daniel Alves e Marcelo.

Foi num corredor deixado pelo primeiro, em lance concluído pela infelicidade do segundo, que a Croácia abriu o placar. Raktic desarmou Daniel Alves e lançou Olic no espaço vazio às costas do brasileiro. O ponta croata avançou até cruzar da esquerda, dentro da área, para o centroavante Jelavic roçar na bola que Marcelo colocaria involuntariamente para dentro do gol de Júlio César. Em 10 minutos de jogo, era a primeira vez na história que uma Copa acabaria aberta com um gol contra.

A Croácia seguiu dominando o jogo. Aos 15 minutos, antes da noite cair, se apagou cerca de um terço das luzes do Itaquerão, estádio arranjado pelo ex-presidente Lula ao seu time de coração, o Corinthians, mas que só ontem foi testado em sua máxima capacidade. Passaram-se seis minutos de constrangimento nacional aos olhos do mundo, antes da iluminação ser novamente restabelecida.

Aos 26, Neymar, talvez nervoso com tantos imprevistos, deu uma cotovelada gratuita e desnecessária no rosto de Modric, ficando visivelmente aliviado em só receber o cartão amarelo. Mas dali em diante, começou a aparecer aquele que seria o grande nome do jogo: Oscar. Com sua condição de titular questionada por mídia e torcida, o meia ganhou duas divididas em sequência no meio de campo e serviu a Neymar, que avançou até chutar de fora da área, de perna esquerda, aos 28 minutos. A bola rasteira ainda beijou a trave, antes de morrer no canto esquerdo de Pleitkosa.

Inspirado no gol de Neymar e no esforço de Oscar que o gerou, o Brasil finalmente encaixou a marcação no campo do adversário, passando a dominar o jogo até o final do primeiro tempo. Todavia, a impressão de que o time de Felipão fosse continuar dominando o jogo após o intervalo, foi desfeita após a Croácia voltar a impor seu toque de bola no segundo tempo. Esse domínio só seria desfeito aos 23 minutos, numa jogada pela direita entre Daniel Alves e Oscar, com a bola cruzada por este para a encenação no pênalti por Fred, que o árbitro japonês assinalou caseiramente, sob os justos protestos dos jogadores croatas.

Neymar, que não tinha nada com isso, cobrou e Pleitkosa quase defendeu, mas a bola acabou entrando no canto direito do goleiro. Na tribuna de honra, a TV mostrou Dilma e a filha vibrando com o gol de virada — roubado! Por sua vez, pressionada pelo placar, a Croácia teve que partir para cima, na tentativa de buscar o empate, tornando o jogo mais franco. Aos 29 minutos, a franqueza chegou às arquibancadas do Itaquerão, que passaram a entoar como antes haviam feito com o hino nacional: “Ei, Dilma, vai tomar no c(…)!”

Oito minutos depois, com coisa mais sérias para pensar, Olic ganhou a dividida pelo alta com Júlio César, e a bola sobrou para Perisic tocar para dentro do gol, mas o juiz havia marcado falta, esta realmente existente, sobre goleiro brasileiro. Aos 40, foi a vez do craque Modric arriscar de fora da área. Júlio César teve que se espichar todo ao espalmar para fora, em seu canto direito, a bola venenosa que veio quicando no chute rasteiro. Aos 44, Perisic voltou a tentar, também num chute fora da área, que Júlio rebateu para a frente, em defesa esquisita.

No bate e rebate na sequência do lance, a bola foi ganha numa dividida por Ramires, que havia entrado no lugar de Neymar e lançou Oscar. Depois de participar dos dois primeiros gols, o meia avançou até marcar o seu num chute consciente de fora da área, usando o bico do pé direito, ao melhor estilo Romário. Três gols no placar e pontos no bolso, era fechar a conta e passar a régua.

Aos 49, quando o confuso Yuchi Nichimura soou o apito final, as arquibancadas paulistas novamente cantavam: “Ei, Dilma, vai tomar no c(…)!”. Mas qualquer questão moral acabaria flagrada em posição de impedimento ético, quando alguns minutos depois os mesmos torcedores saíram do Itaquerão cantando: “A-ha, u-hu, o juiz é nosso!”.

De gols contra e roubados, pelo menos em relação ao Brasil (na Copa), oxalá tudo tenha ficado por conta do nervosismo da estreia.

Publicado na edição impressa de hoje da Folha.

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