Feliz Natal!

The Kid1

 

 

 

 

 

 

O guardador de rebanhos VIII

Por Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

 

Num meio dia de fim de primavera

Tive um sonho como uma fotografia

Vi Jesus Cristo descer à terra,

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

 

Tinha fugido do céu,

Era nosso demais para fingir

De segunda pessoa da Trindade.

No céu era tudo falso, tudo em desacordo

Com flores e árvores e pedras,

No céu tinha que estar sempre sério

E de vez em quando de se tornar outra vez homem

 

E subir para a cruz, e estar sempre a morrer

Com uma coroa toda à roda de espinhos

E os pés espetados por um prego com cabeça,

E até com um trapo à roda da cintura

Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe

Como as outras crianças.

O seu pai era duas pessoas —

Um velho chamado José, que era carpinteiro,

E que não era pai dele;

E o outro pai era uma pomba estúpida,

A única pomba feia do mundo

Porque não era do mundo nem era pomba.

E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

 

Não era mulher: era uma mala

Em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que ele, que só nascera da mãe,

E nunca tivera pai para amar com respeito,

Pregasse a bondade e a justiça!

 

Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três,

Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

 

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E serve de modelo às outras.

Depois fugiu para o sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz no braço direito,

Chapinha nas poças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedras nos burros,

Rouba as frutas dos pomares

E foge a chorar e a gritar dos cães.

E, porque sabe que elas não gostam

E que toda a gente acha graça,

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias.

 

A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as cousas,

Aponta-me todas as cousas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.

 

Diz-me muito mal de Deus,

Diz que ele é um velho estúpido e doente,

Sempre a escarrar no chão

E a dizer indecências.

A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia,

E o Espírito Santo coça-se com o bico

E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.

 

Diz-me que Deus não percebe nada

Das coisas que criou —

“Se é que as criou, do que duvido” —

“Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,

mas os seres não cantam nada,

se cantassem seriam cantores.

Os seres existem e mais nada,

E por isso se chamam seres”.

E depois, cansado de dizer mal de Deus,

O Menino Jesus adormece nos meus braços

E eu levo-o ao colo para casa.

………………………………………………………………..

 

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina

É esta minha quotidiana vida de poeta,

E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,

E que o meu mínimo olhar

Me enche de sensação,

E o mais pequeno som, seja do que for,

Parece falar comigo.

 

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.

 

A Criança Eterna acompanha-me sempre.

A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.

O meu ouvido atento alegremente a todos os sons

São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro,

Mas vivemos juntos a dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda.

 

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas

No degrau da porta de casa,

Graves como convém a um deus e a um poeta,

E como se cada pedra

Fosse todo o universo

E fosse por isso um grande perigo para ela

Deixá-la cair no chão.

 

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível.

Ri dos reis e dos que não são reis,

E tem pena de ouvir falar das guerras,

E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos-mares.

Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade

 

Que uma flor tem ao florescer

E que anda com a luz do sol

A variar os montes e os vales,

E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o

Levo-o ao colo para dentro de casa

E deito-o, despindo-o lentamente

E como seguindo um ritual muito limpo

E todo materno até ele estar nu.

 

Ele dorme dentro da minha alma

E às vezes acorda de noite

E brinca com os meus sonhos,

Vira uns de pernas para o ar,

Põe uns em cima dos outros

E bate as palmas sozinho

Sorrindo para o meu sono.

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Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu no colo

E leva-me para dentro da tua casa.

Despe o meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

…………………………………………………………………………

 

Esta é a história do meu Menino Jesus,

Por que razão que se perceba

Não há de ser ela mais verdadeira

Que tudo quanto os filósofos pensam

E tudo quanto as religiões ensinam?

 

Lisboa, 08/03/1914

 

 

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Para quem quiser (e souber) ler, a verdade do aumento do IPTU escrita na lei de Rosinha

IPTU

 

 

“Estudamos um valor que, ao mesmo tempo, proporcionasse a necessária melhoria da arrecadação do imposto e tivesse um impacto econômico-financeiro suportável para o contribuinte. Esse limite foi fixado em um reajuste máximo de 50% sobre o valor do terreno e 25% sobre o valor da edificação. Os reflexos dessa atualização parcial no valor venal refletiu em uma correção média de 31,73% do IPTU”. A confissão detalhada do aumento do Imposto Predial e Territorial Urbano que será pago pelo campista em 2015 está no próprio projeto de lei 0133/2014, enviado pela prefeita Rosinha Garotinho (PR)  e aprovado na sessão do dia 16, graças ao voto de 18 dos 20 vereadores governistas — Paulo Hirano (PR) estava de licença e Jorge Magal (PR) se absteve.

Baseado no próprio projeto de aumento do IPTU de Rosinha no qual votou contra — junto com os colegas de oposição Rafael Diniz (PPS), Fred Machado (PSD), Nildo Cardoso (PMDB) e José Carlos (PSDC) — o vereador Marcão (PT) foi taxativo:

— Que a verdade seja dita! Quando se aumenta o valor venal dos imóveis, aumentamos também o valor do IPTU, mesmo que não haja aumento da alíquota. Está no Artigo 10 da Lei que aumenta o IPTU: “A base de cálculo do IPTU, é o valor venal do Imóvel”. Aumentou o IPTU, sim! Esta é a verdade! Está na Lei da Rosinha, para quem quiser e souber ler!

Pressionado pela reação popular amplamente negativa contra aumento do IPTU, na noite de segunda-feira o vereador Alexandre Tadeu (PRB), que faz sucesso como apresentador local da rede Record, enviou por e-mail sua versão dos fatos, onde tentou negar o aumento pelo qual votou a favor:

— O que houve foi a correção do valor venal dos imóveis, valor junto ao cadastro da Prefeitura. E somente imóveis em locais com valorização comercial acima de 100% tiveram seus valores corrigidos. Ou seja, somente os imóveis situados em área nobre da cidade. Mesmo os imóveis localizados em bairros que receberam investimentos como água, luz, saneamento e calçamento não foram incluídos. A alíquota do IPTU permanece a mesma. Da mesma forma que votei contra o aumento da taxa de iluminação pública, jamais votaria a favor do aumento do IPTU. A verdade será vista quando os carnês chegarem. Tô contigo!

Ao abusar do eufemismo para falar do aumento real de 31,7% no IPTU que aprovou, Tadeu disse a verdade sobre sua votação contrária, junto com a oposição e o colega de partido Dayvison Miranda, aos 31,5% de reajuste na taxa de iluminação pública aprovado na mesma sessão pelo “rolo compressor” de Rosinha. Quanto ao IPTU, no entanto, Marcão ressalvou:

— Tadeu está certo! A verdade, que já é vista em dezembro por toda a população, doerá no bolso do cidadão em março, quando começarem a chegar os carnês do novo IPTU.

 

Publicado hoje na Folha

 

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Acic convoca você para audiência contra aumento do IPTU e taxa de iluminação

Acic contra IPTU

Postado aqui, na democracia irrefreável das redes sociais

Atualização às 5h59 de 23/12: Aqui, o jornalista Rodrigo Gonçalves trouxe mais informações sobre o reajuste de mais de 31% no IPTU e na taxa de iluminação pública de Campos, a partir de uma reunião sigilosa da prefeita Rosinha Garotinho (PR), ontem, com representantes da CDL e da Carjopa, mas não da Acic, que convoca você para sua audiência pública no próximo dia 6.

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Com Saúde, Esporte, Cultura e Turismo, Pezão define seu secretariado

Pezão

 

O governador Luiz Fernando Pezão já definiu seu secretariado para o próximo mandato. Hoje, Pezão anunciou os futuros secretários de Saúde, Felipe Peixoto; Esporte, Lazer e Juventude, Marco Antônio Cabral; Cultura, Eva Doris Rosental, e Turismo, Nilo Sérgio, além do coordenador executivo de Infraestrutura e Integração Governamental, Hudson Braga, e o diretor executivo da Câmara Metropolitana, Vicente Loureiro, e confirmou Leonardo Espíndola na Casa Civil.

Neste fim de semana, foram anunciados Arolde de Oliveira (Trabalho e Renda), Paulo Melo (Governo), Bernardo Rossi (Habitação), José Luiz Nanci (Envelhecimento Saudável e Qualidade de Vida), José Luiz Anchite (Desenvolvimento Regional, Abastecimento e Pesca), Christino Áureo (Agricultura e Pecuária) e Antonio Neto (Educação).

Também estão confirmados Lucia Léa (Procuradoria Geral do Estado), coronel Sérgio Simões (Defesa Civil), coronel César Rubens de Carvalho (Administração Penitenciária), Felipe Pereira (Prevenção à Dependência Química), Gustavo Tutuca (Ciência e Tecnologia), Teresa Cosentino (Assistência Social e Direitos Humanos), José Iran Peixoto Jr (Obras), Claudia Uchôa (Planejamento), André Correa (Ambiente), Carlos Roberto Osório (Transportes), Cidinha Campos (Proteção e Defesa do Consumidor), Julio Bueno (Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços), Sérgio Ruy Barbosa (Fazenda) e José Mariano Beltrame (Segurança Pública).

 

Da assessoria

 

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Por favor, Rosinha — Como salvar o Mercado de Campos da sua prefeita?

Mercado de Campos

 

 

Arquiteto Victor Aquino
Arquiteto Victor Aquino

Por Victor Aquino

 

EU HOJE ESTOU TRISTE.

A nossa cidade não merece isso.

Uma cidade sem memória vira uma cidade sem passado.

Estou triste porque estão querendo emparedar o Mercado Municipal. Estou pedindo humildemente a nossa Prefeita que reveja este ato de se emparedar o nosso mercado.

Ela foi feliz quando escolheu o grande e competente arquiteto Cláudio Valadares para projetar o novo Shopping Popular e a ampliação do Mercado Municipal mas foi infeliz de se escolher esta área para tal finalidade.

Existe nos arquivos da prefeitura um projeto belíssimo de revitalização daquela área (conforme consta foto em anexo) .

Com o aumento do número de veículos , há muitos anos este local ficou péssimo para tal finalidade.

Vamos mostrar a nova geração a beleza arquitetônica deste prédio e dar uma finalidade cultural que é tão carente em nossa cidade.

Vamos colocar nele galerias de arte, atelieres diversos de artistas locais , livrarias , cafés. Poderemos ter também uma praça de alimentação com bares e restaurantes. Enfim. Vamos escolher outro terreno e erguer um novo Mercado com o Shopping Popular e estacionamento e SALVAR ESTE LINDO EXEMPLAR ARQUITETÔNICO DA NOSSA CIDADE.

 

Publicado aqui, na democracia irrefreável das redes sociais

 

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O bem que um juiz e um promotor podem fazer a um país

As investigações dos crimes contra a administração pública espalharam-se como fogo, desnudando a compra e venda de votos e as relações de políticos e o crime organizado

 

Juiz Sérgio Moro
Juiz Sérgio Moro

 

Jornalista e escritor Elio Gaspari
Jornalista e escritor Elio Gaspari

Há dez anos, o juiz Moro disse tudo

Por Elio Gaspari

 

O juiz Sérgio Moro, que conduz o processo das petrorroubalheiras, fala pouco e não polemiza para fora. O que ele está fazendo, todo mundo sabe. O que ele quer fazer, e como quer fazer, parece uma questão aberta. Em 2004, Moro publicou um artigo intitulado “Considerações sobre a Operação Mani Pulite” na revista CEJ, do Conselho da Justiça Federal. Está tudo lá.

A Operação Mãos Limpas italiana foi uma das maiores faxinas ocorridas na Europa. Começou em 1992, com a investigação de um gatuno banal. A magistratura, o Ministério Público e a polícia puxaram os fios da meada, investigaram seis mil pessoas e expediram três mil mandados de prisão. Caíram na rede 872 empresários (muitos deles ligados à petroleira estatal) e 438 parlamentares.

O serviço provocou a queda e o exílio voluntário do primeiro-ministro Bettino Craxi. Ele dissera o seguinte: “Todo mundo sabe que a maior parte do financiamento da política é irregular ou ilegal” (Craxi morreu anos depois, na Tunísia). A faxina destruiu a mística dos dois grandes partidos do país, o Socialista e a Democracia Cristã. Eles dominavam a Itália desde o fim da Segunda Guerra. Passados dois anos, minguaram. O PS teve 2,2% dos votos, e a DC, 11,1%.

A corrupção política italiana assemelhava-se bastante à brasileira na amplitude, na naturalidade com que era praticada e até mesmo na aura protetora e fatalista que parecia torná-la invulnerável.

No seu artigo, Moro mostra como a implosão da máquina de políticos, administradores e empresários levou à “deslegitimação” de um sistema corrupto: “As investigações judiciais dos crimes contra a administração pública espalharam-se como fogo selvagem, desnudando inclusive a compra e venda de votos e as relações orgânicas entre certos políticos e o crime organizado”.

 

O Moro de 2004 diz mais:

• “É ingenuidade pensar que processos criminais eficazes contra figuras poderosas, como autoridades governamentais ou empresários, possam ser conduzidos normalmente, sem reações. Um Judiciário independente, tanto de pressões externas como internas, é condição necessária para suportar ações dessa espécie. Entretanto, a opinião pública, como ilustra o exemplo italiano, é também essencial para o êxito da ação judicial”.

 

• Os juízes:

“Uma nova geração dos assim chamados ‘giudici ragazzini’ (jovens juízes), sem qualquer senso de deferência em relação ao poder político (e, ao invés, consciente do nível de aliança entre os políticos e o crime organizado), iniciou uma série de investigações sobre a má conduta administrativa e política”.

 

• A rua:

“Assim como a educação de massa abriu o caminho às universidades para as classes baixas, o ciclo de protesto do final da década de 60 influenciou as atitudes políticas de uma geração”.

“Talvez a lição mais importante de todo o episódio seja a de que a ação judicial contra a corrupção só se mostra eficaz com o apoio da democracia. É esta quem define os limites e as possibilidades da ação judicial. Enquanto ela contar com o apoio da opinião pública, tem condições de avançar e apresentar bons resultados”.

 

• As malas:

“A corrupção envolve quem paga e quem recebe. Se eles se calarem, não vamos descobrir, jamais”.

 

• As confissões:

“A estratégia de investigação adotada desde o início do inquérito submetia os suspeitos à pressão de tomar decisão quanto a confessar, espalhando a suspeita de que outros já teriam confessado e levantando a perspectiva de permanência na prisão pelo menos pelo período da custódia preventiva no caso da manutenção do silêncio ou, vice-versa, de soltura imediata no caso de uma confissão”.

 

• A imprensa:

“As prisões, confissões e a publicidade conferida às informações obtidas geraram um círculo virtuoso, consistindo na única explicação possível para a magnitude dos resultados obtidos pela Operação Mani Pulite”.

 

• Serviço: O artigo de Moro está na rede. Não tem juridiquês.

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

 

delações Lava-Jato

 

Entrevista com Deltan Dallagnol, procurador da Lava-Jato

O procurador fez o 1º termo escrito de delação do Brasil, em 2003, com Alberto Youssef. Ao Globo, disse que as colaborações usam “uma sardinha para pegar um tubarão”.

 

Procurador Deltan Dallagnol (foto de Giuliano Gomes)
Procurador Deltan Dallagnol (foto de Giuliano Gomes)

 

Por Leticia Fernandes

O Globo — Houve mudança no Judiciário brasileiro com relação ao papel da colaboração premiada em investigações de grande repercussão?

Deltan Dallagnol — O que existiu foi a alteração legislativa, que consagrou uma prática que já existia desde 2004. O primeiro acordo de colaboração escrito e dividido em cláusulas da História do Brasil foi feito exatamente com o (doleiro) Alberto Youssef, em dezembro de 2003, pela então força-tarefa do caso Banestado, em que participamos alguns dos procuradores da Lava-Jato. Foram 17 acordos. Na época, eles (os réus) transferiram para os cofres públicos, como indenização, aproximadamente R$ 30 milhões. Esse valor não foi alcançado em ações criminais propostas em que não houve acordo de colaboração. Ou seja, nossa experiência já mostrava que (a delação) é um ótimo caminho de investigação, que encurta custos judiciais e promove retorno aos cofres públicos.

 

O Globo — Teriam chegado aos resultados se não fosse por meio da colaboração?

Deltan — A gente não teria chegado aos resultados alcançados no caso da força-tarefa anterior, do Banestado, nem nesse caso da Lava-Jato, sem as colaborações. Não tenho dúvidas. Elas alavancaram a investigação.

 

O Globo — Como foi feito o primeiro acordo com Alberto Youssef?

Deltan — Em quase 100% dos casos, a defesa propõe ao MP. Não vamos atrás da pessoa para buscar acordos. Não é só uma técnica de investigação, mas uma escolha da defesa. Quando foi feito o primeiro acordo (do caso Banestado), decidimos fazer na forma de cláusulas. Se você for ver, a situação (do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa) está bem amarrada. Se ele mentir, perde todos os benefícios, e a gente continua podendo usar as provas que ele nos forneceu. Ou seja, acaba sendo um acordo bem mais favorável à sociedade. A gente está numa situação de vulnerabilidade, fazendo acordo com uma pessoa que cometeu um crime. Então precisamos amarrar o acordo para que o interesse da sociedade fique garantido. Dos 12 acordos da Lava-Jato, 10 foram feitos com pessoas soltas.

 

O Globo — Houve preocupação na hora em que Youssef quis fazer um novo acordo? Ele violou o primeiro…

Deltan — Com certeza. Era uma preocupação do procurador-geral da República. Esse acordo só seria feito se fosse muito benéfico para a sociedade. E uma coisa que está no acordo do Costa é uma previsão que já existia antes: a de que, se a pessoa voltar a cometer crime, perde todos os benefícios, tanto que, quando vimos que o Youssef continuava cometendo crimes, o processamos.

 

O Globo — Antes da nova legislação, as partes ficavam inseguras ao fazer o acordo?

Deltan — O que a gente fez para diminuir a área de insegurança foi exatamente esse acordo escrito. A lei anterior não previa isso. Dizia só que a pessoa ia colaborar e receber um benefício. Para garantir, foi a força-tarefa do Banestado, em 2003, que começou a fazer o acordo em cláusulas, uma prática inovadora. Em 2013, foi promulgada a lei de combate ao crime organizado, a primeira legislação a prever o instrumento escrito de colaboração. Antes, existia a prática disseminada de aceitar colaboração sem acordo e dar um benefício em razão disso.

 

O Globo — Como costuraram as negociações para fazer tantos acordos? Como vocês têm trabalhado nesse caso?

Deltan — Um dos princípios que a gente segue é o de que você não vai fazer a colaboração para trocar um peixe grande por um peixe pequeno. Você faz a colaboração para trocar um peixe pequeno por um peixe grande ou para trocar um peixe por muitos peixes. Esse é um princípio de utilidade social. Quando você pega uma sardinha, você pode comer essa sardinha, ou usá-la como isca para pegar um tubarão. Esse e outros vários princípios, usados pela experiência americana e italiana, são utilizados para a gente guiar nossa conduta. Se não tivéssemos feito os acordos de colaboração, provavelmente não teríamos revelado esse esquema de corrupção bilionário na Petrobras. Nós ainda estaríamos processando crimes envolvendo poucos milhões.

 

O Globo — Há mais acordos que podem ser firmados no desenrolar da Lava-Jato?

Deltan — Sempre existe. Muitas pessoas nos procuram para fazer acordo, mas, na maior parte dos casos, não fazemos porque entendemos que eles não atenderiam ao interesse público. Só vamos fazer acordo quando preenchidos alguns pressupostos: reconhecimento de culpa, ressarcimento do dano, ainda que parcial, e fornecimento de informações e provas sobre crimes de que a gente não dispunha. Essas denúncias feitas agora só foram possíveis por causa da colaboração feita com o Augusto Mendonça, o Júlio Camargo e com a empresa Setal. Sem essas colaborações, não conseguiríamos ter alcançado um conjunto de outras empresas que praticaram crimes de elevada gravidade. É um instrumento muito precioso nesse contexto de crimes de alta complexidade.

 

O Globo — No caso da Lava-Jato, a delação partiu dos investigados? Há um diálogo com o colaborador sobre as cláusulas do acordo?

Deltan — Em todos os casos, a iniciativa partiu da defesa. Há um diálogo, mas não vamos deixar a sociedade desprotegida. Claro que é possível discutir, mas tem um núcleo duro de cláusulas em que não mexemos. A cláusula de que, se o réu mentir ou omitir fatos, é causa de rescisão, por exemplo. Ela consta em todos os acordos. A gente não abre mão disso.

 

O Globo — Por que ainda há tanta resistência entre advogados? Eles dizem que o recurso obriga o réu a abrir mão do seu direito de defesa.

Deltan — O réu abre mão voluntariamente do exercício desse direito para ganhar um benefício. O benefício fica condicionado ao não exercício dos recursos. Por causa da colaboração, vamos pedir uma redução da pena, e o prazo prescricional do crime depende do quanto da pena é aplicada. Se esse prazo for ultrapassado, o processo penal inteiro é cancelado. Quando você concorda com a redução da pena, você está aumentando as chances de prescrição daquele caso. Então, não faz sentido a gente fazer um acordo de colaboração e, ao mesmo tempo, permitir ao réu recorrer e conseguir uma total impunidade. É uma decorrência lógica.

 

O Globo — Também se diz que o uso da delação supre a incapacidade de investigação do MP.

Deltan — O primeiro acordo só foi fechado porque a gente tinha provas muito sólidas em relação àquela pessoa (Paulo Roberto Costa), tanto que ela recorreu ao acordo. Vamos investigar tudo e todas as situações, mas não podemos recusar os instrumentos de investigação da lei. Hoje, temos várias circunstâncias que impedem o avanço das investigações. Há crimes cuja descoberta é muito difícil, como lavagem de dinheiro, quando normalmente o dinheiro passa por outros países, e é difícil conseguir a cooperação de paraísos fiscais. E a corrupção, em que, se você não quebrar o pacto de silêncio entre corrompido e corruptor, não consegue trazer a público o que aconteceu.

 

Publicado aqui na globo.com

 

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Das bananas ao chuvisco, a última semana do mundo a Campos

Ponto final

 

 

Noticiário da semana

A semana que se encerra teve seus noticiários bem definidos. Em Campos, o que dominou foi a reação popular e das entidades da sociedade civil organizada contra o aumento de mais de 31% no IPTU e taxa de iluminação pública, impostos pela prefeita Rosinha Garotinho (PR) e os vereadores do seu “rolo compressor”, na sessão da Câmara de terça. As exceções  governistas na defesa do bolso do contribuinte foram Jorge Magal (PR), que se absteve nas duas votações, e os vereadores do PRB Alexandre Tadeu e Dayvison Miranda, que votaram contra o reajuste da taxa de iluminação.

 

No Brasil

No Brasil, se o Petrolão tem dominado o noticiário desde o primeiro turno da eleição presidencial, mesmo que no segundo a presidente Dilma Rousseff (PT) tenha sido reeleita, a maior novidade da semana veio com a revelação na sexta, feita pelo jornal O Estado de S.Paulo, da lista de 28 políticos que teriam se beneficiado dos bilhões desviados da estatal. Segundo seu ex-diretor Paulo Roberto Costa delatou ao Ministério Público Federal (MPF), o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) e o senador Lindberg Farias (PT) estariam entre eles. Os dois, como fizeram todos os demais acusados, negaram qualquer envolvimento.

 

No mundo

No mundo, o monopólio das atenções ficou por conta do anúncio de reaproximação entre EUA e Cuba, feito na quarta pelo presidente Barack Obama. Depois de um primeiro mandato politicamente tímido, embora tenha recolocado a economia da maior potência do mundo nos trilhos, Obama aproveitou o descompromisso eleitoral do último mandato para pôr em prática toda sua agenda progressista represada. Após enfrentar poderosos interesses em ações executivas ousadas a favor da saúde pública e dos imigrantes ilegais dos EUA, seu primeiro mandatário negro cedeu à interseção do Papa Francisco para celebrar a missa de corpo presente de um dos últimos anacronismos da Guerra Fria (1945/89).

 

A liberdade da opressão

Bem verdade que anacrônica também é a última ditadura comunista das Américas em Cuba, assim como a simpatia acéfala que lhe devotam no Brasil e no mundo as carpideiras do Muro de Berlim, quedado já há 25 anos pelas mãos do povo alemão. Mas diferente da força bruta que cria os mártires, o contraste físico e natural gerado na aproximação, como foi o caso em Berlim, é a maneira mais inteligente de expor à impossibilidade quem oprime em nome da liberdade, assim como os idiotas que lhe dão crédito, no gozo da liberdade de outro regime. Além de acelerar as mudanças na Cuba dos irmãos Castro, Obama consegue na mesma tacada geopolítica isolar ainda mais a Venezuela chavista de Nicólas Maduro.

 

Bananas e chuvisco

Se é o petróleo que sustenta a Venezuela e seu chavismo bolivariano típico de “República de Bananas”, por tudo que os escândalos em série a partir do Petrolão têm revelado (e ainda revelarão), a coisa não parece ser muito diferente no Brasil tomado de assalto pelo lulopetismo há 12 anos. E com evidências diárias de uma Prefeitura falida, mas de orçamento bilionário às custas dos royalties do petróleo, quem poderá conhecer a realidade de Campos e enxergar um quadro diferente na “República do Chuvisco”?

 

Poderia ser pior

Como chegar ao poder pelo voto, num estado democrático de direito, é tão legítimo quanto o juízo da opinião pública ou de um magistrado, resta esperar que as instituições com obrigação constitucional de investigar cumpram o seu papel. Se ao campista com alguma consciência crítica, o sentimento estadual e federal é o da mais sincera inveja do Ministério Público do Paraná, onde as investigações avançam a cada dia sobre o Petrolão, resta o consolo de que poderia ser pior.

 

Poderia ser melhor

Felizmente, decisões recentes como a do juiz Ralph Manhães de Azevedo, da 1ª vara Cível de Campos (aqui), no caso das 25 famílias humildes abandonadas pela Prefeitura, em meio a escombros, na comunidade da Margem da Linha, ou a da desembargadora Georgia de Carvalho Lima (aqui), da 20ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio (TJ-RJ), que ratificou a decisão da 2ª Vara Cível de Campos e determinou que o governo Rosinha Garotinho (PR) convoque os concursados do Plano de Saúde da Família (PSF), servem para provar que ainda não somos uma Venezuela ou uma Cuba. O fato de ambas as ações terem sido movidas pela Defensoria Pública, não por nenhum promotor ou procurador, é que confunde.

 

 

Publicado hoje na coluna Ponto Final, da Folha da Manhã

 

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Mercado de Campos — Caráter criminoso permite provocação ao Ministério Público?

Mercado

 

 

 

Jornalista, presidente da Associação de Imprensa Campista (AIC) e representante desta no Conselho de Proteção do Patrimônio Municipal (Coppam), Vitor Menezes
Jornalista, presidente da Associação de Imprensa Campista (AIC) e representante desta no Conselho de Proteção do Patrimônio Municipal (Coppam), Vitor Menezes

Um crime bem arquitetado

Por Vitor Menezes

 

O caso do Mercado Municipal de Campos dos Goytacazes, que teve projeto para o seu entorno aprovado, nesta semana, pelo Coppam (Conselho de Preservação do Patrimônio Arquitetônico do Município), poderia ser listado como apenas mais um em uma cidade que despreza a sua riqueza histórica e cultural. No entanto, por sua imponência, impacto social e centralidade, ele assume uma relevância especial.

O resultado, até o momento, dos debates que se deram nos últimos meses, desde quando o Shopping Popular foi removido para que ocorressem “reformas”, é o de que a Prefeitura de Campos insiste em executar uma obra que manterá o prédio histórico espremido entre estruturas que o encobrirão, como se o campista tivesse vergonha de ter um dos mercados mais belos e antigos do Brasil, inaugurado em 1921.

O oposto disso, como podem pensar alguns, não seria necessariamente excluir os permissionários — camelôs e feirantes — do local. Sabe-se da relação afetiva e das imposições econômicas que os levam, e até mesmo aos lojistas do entorno, a defenderem o adensamento popular naquela pequena quadra, o que é compreensível. No entanto, o chocante foi não ter sido apresentada uma só solução criativa que explorasse um raio mais amplo do entorno, possivelmente no sentido da Rua Benta Pereira, fazendo com que o chamado complexo do Mercado se tornasse ainda maior, confortável, seguro e atraente.

Optou-se pela visão limitada da cultura do puxadinho, que tem a sua beleza e inventividade quando fruto da criatividade popular para enfrentar a escassez de espaço e de recursos, mas que se revela indesculpável quando verificada em grandes empreendimentos, especialmente naqueles feitos pelo poder público e em relação aos quais se espera uma responsabilidade maior com o futuro.

O resultado será mais um crime contra a história de Campos, a se somar aos solares que agonizam, ao antigo Trianon que se foi e ao assassinato do Monitor Campista. E o desserviço se estende ao aspecto de fazer toda uma população acreditar, por meio do mau exemplo, que esta opção é a acertada, que negar a beleza, desprezar a memória e edificar prédios sem alma a parcos metros de monumentos históricos é normal, é necessário, é “progresso”.

Registre-se que aqui não se discute o mérito técnico do projeto apresentado ao Coppam pelo arquiteto Cláudio Valadares, que apenas, como profissional, precisou se ater ao espaço definido pelo “cliente” para a obra. Fruto de um amadurecimento do debate nas redes sociais, e até mesmo no próprio Conselho, é até possível reconhecer um grande número de melhorias em relação às intenções do início do ano para o local.

Neste sentido, trata-se até de um crime bem arquitetado. Mas isso não retira o seu caráter criminoso, o que permite que o assunto seja objeto de provocação no Ministério Público, em razão de o projeto ferir acintosamente a proteção do entorno de um bem tombado.

O atual governo de Campos aprofunda, com esta decisão, as consequências de opções históricas infelizes sobre o local, tomadas pelo governo Raul Linhares, quando ergueu uma enorme cobertura metálica para abrigar a feira livre e encobriu um lado do Mercado, e pelo primeiro governo Anthony Garotinho, quando ergueu estrutura semelhante para criar o Shopping Popular. Para estes dois momentos ainda poderia haver a desculpa de que a consciência de preservação histórica não estava consolidada, tanto sob o ponto de vista cultural quanto da legislação. Hoje, no entanto, o cenário é diferente. Atualmente, as escolhas poderiam ser muito melhores. E não tardará para que as novas gerações paguem o preço de mais este erro.

 

Publicado hoje na Folha

 

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Peregrino sai atirando e revela crise no PR do Rio

Peregrino e Garotinho

 

 

Por Marcelo Remigio

RIO – Terceiro maior partido na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ao lado PSD, e segundo em número de cadeiras na bancada fluminense na Câmara dos Deputados, o PR enfrenta sua maior crise no estado. Desde a derrota do deputado federal (PR) e ex-governador Anthony Garotinho ao Palácio Guanabara — não conseguiu garantir nem mesmo a participação no segundo turno das eleições deste ano —, integrantes da executiva estadual, parte dos parlamentares e um grupo expressivo da militância não se entendem. O ex-secretário-geral da legenda, Fernando Peregrino, que deixou o partido este mês, já anuncia para o início de janeiro um ato simbólico de desfiliação em massa de descontentes com o atual diretório regional.

Além de uma debandada coletiva do partido, os descontentes da legenda ameaçam cair nos braços do governador do Rio e adversário político de Garotinho, Luiz Fernando Pezão (PMDB). O apoio de parte da bancada do PR ao peemedebista enfraqueceria a oposição na Assembleia e a influência do ex-governador na casa. Há ainda a formação de um grupo independente no partido, que não pretende seguir as decisões da executiva, não necessariamente apoiando o governo de Pezão.

Os desentendimentos no PR de Garotinho — presidente regional — se arrastam desde a eleição municipal, em 2012, quando o partido fez dobradinha com o DEM no Rio. A legenda indicou a deputada estadual Clarissa Garotinho, filha do ex-governador, para vice na chapa do deputado Rodrigo Maia à prefeitura carioca. A escolha não agradou Peregrino, que tinha como desejo a disputa pelo município, mas acabou concorrendo à Câmara Municipal. Ele não conseguiu uma cadeira de vereador.

A disputa interna pelo controle do partido e divergências nas decisões da legenda levaram a um novo embate entre a família Garotinho e Peregrino. Mais uma vez Clarissa foi o pivô dos desentendimentos. Peregrino acusa o partido de ter colocado toda a sua estrutura em favor da campanha de Clarissa a deputada federal, preterindo os demais candidatos. A meta da família é cacifar a parlamentar para a disputa pela prefeitura do Rio em 2016. Peregrino concorreu a uma vaga de deputado federal, mas não conseguiu ser eleito.

 

DECISÕES SERIAM FAMILIARES

A deputada do PR — que foi eleita para a Câmara com a segunda maior votação do estado — teria, de acordo com Peregrino, impedido dobradinhas eleitorais e até prejudicado a campanha do pai ao governo do estado:

— Ao impor ao partido que toda a estrutura eleitoral fosse usada em favor de sua campanha, ela acabou prejudicando Garotinho. Muitas vezes ele foi para a rua sem qualquer apoio. Cabos eleitorais e a pouca militância eram usados por ela. A derrota não veio só de embates externos com ‘Pezões’ ou ‘Crivellas’. Fiz esse alerta — reclama Peregrino, que aponta a autoconfiança como outro motivo para a derrota do deputado. — O PR deixou de ter decisões ideológicas para ser um partido de decisões familiares. Cumpri meu papel, defendi eles (família Garotinho), fui leal. Mas saturei. Trabalhistas históricos que acompanham Garotinho não têm mais voz, desrespeitaram o histórico político do grupo — acusa o ex-secretário geral.

O PR tem hoje na bancada federal fluminense seis cadeiras, o mesmo número que o PSD. O PMDB soma oito parlamentares. Dos seis, quatro parlamentares acompanham Garotinho nas decisões e dois são independentes — também não dependem da transferência de votos para se elegerem. Já na Assembleia Legislativa, o PR possui sete deputados, atrás apenas do PMDB, com 15 parlamentares, e o PSD, com oito. Pelo menos cinco parlamentares têm se mantido fiéis ao ex-governador.

— Mas a influência de Garotinho tende a diminuir. Ele deixará de ter mandato, não possui mais a caneta de governador. A casa de Garotinho começou a cair. Já Clarissa é uma adversária dentro do próprio partido, disputa votos com os próprios colegas. Isso só atrapalha o partido — explica um deputado estadual.

Durante as eleições deste ano, Clarissa e Peregrino seguiram caminhos diferentes na campanha. Como se fossem filiados da partidos diferentes, promoviam reuniões em separado. De acordo com interlocutores de Clarissa, Peregrino teria até impedido a participação do grupo de Clarissa na condução do plano de governo de Garotinho. O ex-secretário geral, que foi um dos coordenadores da campanha do PR, também não teria cumprido agendas de rua para pedir votos para o ex-goverN ador.

As disputas internas no PR tem respingado até no apoio da bancada à eleição do futuro presidente da Assembleia Legislativa. O grupo de Clarissa defenderia o apoio a um novo mandato do atual presidente Paulo Melo (PMDB), apesar de adversário político de Garotinho. Já os descontentes querem apoiar a volta do deputado eleito Jorge Picciani (PMDB) ao cargo. A família Garotinho rejeitaria Picciani em função de seu filho, o deputado estadual reeleito Rafael Picciani, ser um nome para a disputa da prefeitura do Rio.

 

CLARISSA EVITA EMBATE

No centro da crise enfrentada pelo PR no Rio, a deputada Clarissa não quis comentar as críticas feitas por Peregrino e a possibilidade de o partido minguar com desfiliações prometidas para janeiro:

— Por todo o respeito que tenho pelo Peregrino e por tudo que ele fez por meus pais, prefiro não falar sobre essa questão. Peregrino sempre foi leal à minha família, foi um bom secretário no governo da minha mãe (Rosinha) e nunca abandonou meus pais quando foi preciso.

Garotinho também não comenta a postura de Peregrino e os estragos provocados pelas desfiliações no PR.

 

Publicado aqui na globo.com 

 

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