Opiniões

Ocinei Trindade — A tocha, a loucura, as eleições e o complexo de Isaura

Ocinei 02-08-16

 

 

Por que apagar a tocha olímpica? Por que não aproveitar o fogo sagrado e incendiar todos os canaviais restantes de Campos e cercar a cidade em fornalha eterna, e assim, virarmos todos o pó dos deuses? Por que acreditar em todos os candidatos à Prefeitura de Campos depois de nomes vulgares e alianças tão suspeitas e mal-ajambradas (para vereador nem comento)? Por que sentir inveja dos Estados Unidos se eles têm candidatos a presidente da República tão ruins e tragicômicos como os nossos? Por que não ingressar no Estado Islâmico se todos nós de algum modo estamos aterrorizados ou aterrorizando alguém ou alguma coisa? Por que não admitir que somos escravizados e escravizantes e que nossa descendência de Isaura, a escrava heroína, não passa de um delírio literário? Falar mal de Campos ou do Brasil é uma coisa ridícula e muito feia. Admito minha ridicularidade. Ruim ser bosta. Basta ser.

Coisa de maluco sair por aí falando coisas toscas e se expondo. Deveriam censurar. Calar a voz de todos. Menos dos tiranos e déspotas, pensam os descendentes de Leôncio. Me identifico mais com Isaura, a vítima oprimida (embora tenho, e todos nós temos, algum traço do carrasco também). Em trecho de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (não confundir com Bernardo Guimarães), um personagem diz: “O que mais penso, testo e explico: todo mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece, principalmente, de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é salvação da alma”. Tem dias que baixa um jagunço sanguinário na gente que nem se sabe como vem e nem como vai. Uma pirofagia atroz dá em nós campistas. Nossos políticos órfãos ou exterminadores da nação dos goytacazes são altamente pirofágicos ou incendiários, legítimos representantes de seu povo que não sabe viver sem fuligem preta e fogo. É uma espécie de neve do inferno. Pode ser de Dante, de dantes e de sempre. Somos assim, grafou Esdras Pereira.

Falar mal de político pode ser motivo de enforcamento ou fogueira canavieira. Por isso resolvi falar bem deles neste parágrafo. Defendo Angela Merkel no governo. Qual governo? De Campos, ora, ora. Loucura, né. A Dilma quis ser Angela. O Temer também quer ser, já que não dá para ser Abraham Lincoln. Lula quer ser Papa Francisco II. Já Garotinho, talvez, queria ser Zeus, haja vista a chama sagrada vinda de Olímpia passeando pelas ruas da cidade. Rosinha não precisa querer ser ninguém. Já basta ser a primeira em tudo. Linda a nossa ex-governadora.

Quem disse que a Grécia também não é aqui? Falidos já estamos e estamos quase falando grego, pois a gente não se entende. Até Pudim e Arnaldo são aliados agora. Até Chicão e Mauro são candidatos a prefeito. Até tu, Caio, quer cair dentro da arena platônica com aval de Lupi e do PDT? Tragédia e fim dos tempos. Brizola deve estar ardendo em brasas e fúria no túmulo. Parece uma coisa russa também essas campanhas políticas daqui. Tipo assim, Vladimir Putin que não deixa de governar, mesmo quando não é eleito, não larga o osso que ferve dentro do samovar. Por isso que defendo a Angela Merkel. Talvez, alguém me sentencie: “vá para a Alemanha, caramba, suma daqui”. Mas se Maomé não vai à montanha, a Alemanha não pode vir para Campos ou Brasil? Não foi justo o placar de 7 a 1? Um pouco de rigor e austeridade não fazem mal quando existe vontade da boa e justa política (se é que isto existe).

A louca Dilma ia revolucionar na nova era Merkel tupi-guarani-goitacá estocando vento e saudando a mandioca, e matando de raiva Marina Silva e os outros ambientalistas com a solução definitiva para a crise energética. O louco Temer poderia escrever cartas melhores para a presidente. O Lula louco poderia fazer uma coalizão mais bem-sucedida para ser primeiro-ministro da Merkel. Até lá, quem sabe, o juiz Sérgio Moro chegue à presidência da ONU e o louco Donald Trump se torne o novo Nero ou Napoleão do milênio. Trump sabe incendiar tão bem quanto Garotinho (ambos são fogo, competentes comunicadores, mais que carismáticos,  legendários como Rasputin). Tudo bem, se não tem a amiga louca da Angela Merkel, pode servir a louca genial Angela Rô Rô para assumir o governo municipal, quem sabe. Fogo temos sobrando. Garotinhos também abundam e se reproduzem, graçazadeus. Viva a nova monarquia republicana do melado (chuvisco dá muito trabalho e está caríssimo, tempos de crise, poupemos)! Imperialistas: ser ou não ser? Eis a questão.

A história confirma as necessidades do povo que vez por outra carece de um rei ou de um messias. Não vou botar os judeus e nem Jesus nessa prosa, pois sabemos o que aconteceu. Mataram-no com aval romano. Líderes políticos com grandes chances de revolução e transformação também são eliminados mundo afora. Kennedy, Luther King, Malcom X, Gandhi, Allende, Jango, Chico Mendes (inexplicavelmente, Fidel Castro sobreviveu)… Garotinho também já foi messiânico e inspirador depois do período Zezé Barbosa, associado ao coronelismo e ao método “antigo de governar” em tempos de ditadura militar. Depois de Garotinho, o que temos de melhor (ou pior, dependendo do ponto de vista e de voto)?  Haja tocha para acender o fogo dos adversários que querem eliminá-lo e vice-versa! Acho ele muito odiado e invejado, apesar de admirado. Quem tem medo de Virginia Woolf e de Anthony Matheus? Salvem a poesia e a tragédia greco-moura, por favor. Parece jogo de xadrez ou novelinha das seis dos anos 1970, mas a escravidão nos persegue. Somos reféns de um jeito ou de outro, a abolição foi e é uma farsa.

Afinal, Isaura e seus filhos todos, quem irá nos libertar das garras do mal? Por que Sergio Moro e seus pares não desembarcam de suas naves poderosas por todo município, estado do Rio de Janeiro e Brasil depois que Joaquim Barbosa saiu de cena, ninguém sabe, ninguém viu? Chicotearam as melhores esperanças e nos fazem sangrar banhados em mediocridade, mentiras e falácias (Trump e Hillary não ficam atrás). Por que mentimos tanto? Aliás, por que mentimos tanto para nós mesmos quando votamos ou quando nos envolvemos com alguém se dizendo por amor? Aliás, os políticos dizem que nos amam e nós dizemos o mesmo para eles. Por que não amar a música de Dorival Caymmi que introduz com o lerê, lerê, lerê e nos associa à escravidão diária? Somos assim, grafou Esdras. Ah, o Brasil e os brasileiros! Quanta malandragem e espertezas !!!

Eu quero botar fogo na pasmaceira enlouquecidamente, purificar os corações corrompidos e cruéis. Não sei se quero votar em descendentes de Isaura arruinados como o Solar dos Ayrizes, local onde ela teria vivido. Não sei se quero me comprometer mais do que já estamos todos nós, cúmplices de arruinamentos disfarçados de melhorias pagas por milhões e bilhões visivelmente superfaturados (embora não sei se poderemos mais roubar dinheiro público como antes no futuro próximo, pois fontes andam secando, assim como os nossos rios, lagoas e nascentes).

Dilapidamos o máximo que podemos para nos satisfazer sem pensar no próximo, no amigo e no futuro. Aliás, vendemos nosso futuro e nossa alma para o demônio e nem nos importamos com isto. Lembro em uma das eleições mais acirradas de Campos, na década passada, escrevi um texto para o extinto Monitor Campista utilizando os números das siglas dos partidos, comparando-os com as cartas do tarô, promovendo um jogo de trocadilhos. O número 12 (PDT) era a carta do Enforcado, já o número 15 (PMDB) era a carta do Diabo. Atualmente, o número 22 (PR) estaria associado à carta do Louco. O número 45 (PSDB) é a carta da Regeneração. Já o 13 do PT é o número da carta da Morte. Ou seja, todos sabem jogar muito bem. E nós eleitores sabemos?

E para não dizer que não falei de coisa boa, assistam quando puderem, a entrevista da cantora Olivia Byington ao jornalista Roberto D´Ávila na Globonews ou Internet. Ela é mãe de quatro filhos, um deles vítima da síndrome de Apert, doença rara e degenerativa da cabeça e rosto. Ela acabou de escrever um livro comovente e divide a dor e a coragem de enfrentar o preconceito e a discriminação. Um exemplo de amor e humanidade que deve servir a todos nós loucos e irresponsáveis, políticos ardilosos, religiosos ardentes ou não. Não deixem a chama da vida e do respeito apagar. Não sou contra os políticos (ao contrário), nem a Tocha Olímpica em Campos, nem contra as Olimpíadas no Rio de Janeiro. Não vejo a hora de assistir a abertura e as competições dos deuses. É uma das coisas mais lindas que inventaram (apesar de ficar triste com a corrupção, mentiras, obras superfaturadas, truques e dopings desleais que roubam o pódio dos verdadeiros atletas, vencedores e heróis).  Viver livremente é bom, mas é fogo.

 

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Este post tem 7 comentários

  1. Nossa!

    Cada vez melhor!

    1. Grato, Gildo !!!

    2. Grato, Gildo !!!

  2. Arrasou de novo Ocinei….

    1. Virando cinzas,Simone !!!

  3. Preciso deixar meu registro pela grandiosidade do texto e pelo encadeamento histórico político numa mistura séria e cômica ou seria tragicômica? Parabéns e obrigada .

    1. Muito grato, Fátima! Tragicômico quase sempre: a cidade e o mundo !

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