Fabio Bottrel — O Carnaval da Vida

 

Sugestão para escutar enquanto lê: José Siqueira – Oração aos Orixás.

 

 

 

 

 “Carnaval”, de Hector Bernabo Carybe
“Carnaval”, de Hector Bernabo Carybe

 

Os poros se ouriçaram enquanto os pelos arrepiavam ao primeiro toque dos pés na avenida, as mãos dançaramcom o movimento dos braços suave como uma onda, acariciando o vento frio e solitário do carnaval fora de época. No meio do sambódromo a batida firme dos pés pobres era o grito de resistência contra o extermínio de sua cultura e consciência, queriam dobrá-la, mas jamais conseguiriam, Oyá olhará, seu coração não caberá no peito imenso que baterá nessa avenida. Um clarão do reflexo da sua fantasia vermelha lhe ofuscou os olhos, enquanto abaixava a cabeça para se concentrar ouviu a voz forte do puxador no carro de som em homenagem a seu avô Candelô…

 

***

 

18 Anos Atrás

— Garcinha, minha netinha, não corra tanto, vai machucar se cair.

— Vovô Candelô, quero muito escutar aquela música que o amigo do sinhô fez po amor. – Falei po meu vovô assim qu’elhepegô o violão na mão fazendo aqueles sons bonitos que só saem do violão quando elhe bota a mão.

— Vai vovô! Canta, canta! Que meus ôvidinhos fica igual pranta condo bate vento de tão forte que chega arrancar as folhas! – Meu vovô sorriu pa mim, todo mundo conhecia meu vovô, era o Seu Candelô, todo mundo falava do vovô como se fala d’uma pessoa muito importante, daquelas que tem inté carro gande. Teve um dia qu’elhe foi inté falar prum monte de gente que usava roupa nova e sapato de borracha, e todo mundo ficôquetopa escutarelhefalar dos papais delhe, que são meus depois-de-vô, que vieram lá de longe, de Luanda, num lhugarqu’iscuto sê Angola, mas sempre pensei que fosse argola. Sempre vejo vovô chorar condo lembra dessas coisa que num deve de sê tão boa.

— Canta vovô Candelô! Canta que meus ôvidinhos num guenta mais esperar! – Vovô mexia tão suave no violão que parecia qu’esse negócio de madeira era gente e condo abriu a boca pa cantar, ah meus ôvidinhos, que vontade d’iscutá!

— Por favor, não leve embora meu amor…

Ah, senhor…

Eu piso nessa terra com Iansã

 

Meu amor, não leve embora por favor…

Ah, senhor…

Minha cultura resiste a dor faz manhã…

 

 

***

 

Sentiu uma lágrima escorrer dos olhos ao escutar na voz do puxador os primeiros versos de amor em timbre de seu avô Candelô. A bateria esquentava atrás de si enquanto a pele tremia pela fantasia, haviam roubado do carnaval até mesmo o calor, deixando apenas esse cinza dor no peito do céu sem esplendor. Enquanto escutava a lembrança de seu avô, levantou os braços tão suaves e abriu a noite com um sorriso salgado em lágrimas preenchidas de amor, Oyá olhará, mãe do entardecer verá sua filha hoje majestade reinará,cantaria a todos o famoso sambista: tirem os sorrisos do caminho que a rainha passará com a sua dor.

Escutou o sinal tocar, era hora de desfilar, sua beleza hoje jamais terá fim. A comissão de frente enfrenta o frio abrindo o coração vazio da cidade sequestrada, Garcinha dá o primeiro passo firme balançando todo o seu corpo de belezas sublimes, era os olhos da avenida, a menina de Oyá, olhará, orixá teu pai, seu sorriso são águas de Atafona abraçando o mar…

 

***

 

5 Anos Atrás

 

O ar se soltava das bolhas sobre as espumas brancas iluminada pelas estrelas sobre a noite negra espelhada no mar de Atafona, de longe eu observava o estalar das águas, a fantasia brilhante do oceano feita pelos reflexos da lua, rainha da natureza. Ali eu via muito mais do que o olho podia, ao lado minha família corria com vestidos brancos tão brancos como se as nuvens do céu estivessem na terra, ao meu lado corria a vida, cada tela da passarela, nesse ano novo iemanjá há de se encantar, a escola criada por vovôCandelô já se consagrou merecedora. Pedimos com força por favor, seja a detentora, por favorvenha com amor.

Enquanto no terreiro eu ajudava a fazeras fantasias meu avô Candelô ao lado já não aparentava tão bem, tossia muito, tosse muito aguda, das que preocupa a gente. Ele gostava mais do jeito que eu falava quando criança, quando ainda não havia me adaptado a essa colônia mental e preservava o linguajar da tribo do vovô, ele dizia: o certo é bicicreta e não bicicleta, é pranta e não planta, esquecer as raízes de nossa língua seria perder nossa identidade e nossa história para ser igual esses bobos colonizados até na alma.Enquanto trabalhávamos ele me falava de cada peça explicando a cultura de sua tribo, cada orixá e a importância de sempre lembrá-los.

Em toda a minha existência vovô Candelô sonhou que eu conduzisse a escola como rainha de bateria, dizia desde que eu era criança a majestade minha será coroada na avenida. Eu sempre gostei da ideia, cresci olhando o sorriso de belas mulheres admiradas por todos enquanto ostentavam coroas de escolas tão belas quanto elas, dançando com os braços levantados e de movimentos tão suaves que eu percebia os olhares acompanhando cada passo e brilharem a cada sorriso delas. Era ali que o meu povo era feliz gritando Candelô na quadra imaginada por vovô, ali toda a comunidade se tornava família e quando aproximava o carnaval dávamos duro, eu desde criancinha ajudava nas fantasias e aprendia sobre a história do meu país e do meu povo cada dia mais para nunca me perder de quem sou.

Enquanto eu pregava os apetrechos na ala do navio negreiro vovô apertou o peito forte com cara de quem tinha muita dor, corri procurar ajuda enquanto gritava muito alto por socorro, logo conseguimos levá-lo para o hospital, mas ele quase não respondia mais…

 

***

Garcinha desfilava com passos firmes, sambava com a consciência erguida e via aala em sua frente representar os orixás e a religião do povo escravizado nessa terra, e enquanto passava em frente ao camarote construído com o dinheiro do povo que estava na arquibancada, viu a prefeita da cidade desbotada pelo tempo virar o rosto para as suas divindades e sua cultura, era mais uma mazela evangélica perpetuada desde os sofrimentos dos indígenas na colonização. Garcinha sentiu no peito todo o sofrimento imposto por essa gente a fim de desmantelar a sua cultura na avenida em meio a uma obra de centena de milhões retirados do seu povo, que recebeu mixarias para desfilar, ainda tinha de suportar tal desrespeito.

— Não se importe com isso, rainhaGarcinha, essa gente não merece ver nem os pés das divindades de quem construiu esse país com a vida. – Disse seu amigo que animava a escola ao lado e percebeu uma leve distração da rainha Garcinha.

A escola passou bela como ela só, passou pelas fotos no outdoor exaltando gente de fora enquanto os maiores símbolos do carnaval da cidade estavam ali na avenida. Aquele foi o último desfile de seu Candelô, na ala da velha guarda o avô de Garcinha seguia de cadeiras de rodas empurrado pelos amigos que ajudaram a erguer a escola e a construir a cultura popular manifestada naquele momento. Cantou até onde a voz deixou o seu próprio samba, sorriu sem perna bamba, vibrou como nunca e ao final a felicidade o tomou por completo, pois havia vivido para ver Garcinha se tornar rainha.

 

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