Paula Vigneron — Entre quatro paredes

 

Atafona, 16/07/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, aurora de 16/07/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

— Há quanto tempo você está trancada neste quarto?

— Oito anos.

— Por vontade própria?

— Sim.

— Tem algum motivo específico?

— Não.

— Fale mais sobre você. Ou prefere que eu pergunte?

— Não fará diferença.

— O que você guarda dentro da caixa?

— Lembranças.

— Posso vê-las?

— Não. Está vazia.

— Onde estão as lembranças?

— Eu preferi apagá-las.

— Por que não as guardou?

— Por que ninguém me guardou?

— Rebater com perguntas. Não funciona comigo.

— Não era para funcionar.

— Quer falar algo? Em que posso ajudá-la?

— Em nada. Procure se ajudar.

— O que são essas frases na parede?

— Eu.

— Você?

— Meus gritos sufocados que ninguém quis ouvir.

— Você tentou dizer?

— Sempre tentei, mas não deu certo.

— Quer falar para mim?

— Você pode ler.

— Eu prefiro te ouvir.

— A leitura é sempre mais prazerosa. Acredite. Li a minha vida toda e me poupei de escutar coisas insatisfatórias.

— Ler é uma ótima opção. Ajudou você?

— Me ajudou a entender mais do que precisava e menos do que gostaria.

— Não é possível entender tudo.

— Não é possível entender nada.

— Vamos dar uma volta?

— Me dê um motivo para isso.

— Vamos observar. Você pode tirar novas conclusões sobre o mundo.

— O tempo passa e coisas mudam, mas minhas conclusões sobre o mundo serão as mesmas.

— Você levou quanto tempo para escrever nas paredes?

— Eu ainda não terminei. E não sei quando terminarei. É uma eterna construção. É a minha saída quando o silêncio me sufoca.

— Por que não experimenta conversar com sua família?

— Porque ela nunca experimentou me ouvir. Não havia tempo para isso.

— Eu posso te ouvir.

— Tarde demais, doutor. Eu não sei mais falar. Não sei empregar as palavras certas fora da minha escrita.

— Eu escuto suas confusões e ajudo você a entendê-las.

— Se eu não as entendo, lamento, mas não será você quem as entenderá.

— Posso te surpreender.

— Ah, não. Eu nem consigo me lembrar da última pessoa que conseguiu me surpreender. Desculpe desapontá-lo.

— E esses CDs? São seus?

— Meus companheiros de melancolia. Se anseio por uma voz, recorro a eles.

— Não sente falta de uma voz amiga?

— Eles são as vozes amigas das quais você fala.

— Por que caneta preta?

— Porque as palavras saem envoltas em um misto de sensações que, para mim, é escuro e impenetrável.

— Suas roupas combinam com a escuridão das paredes.

— Minhas roupas são o reflexo do meu interior.

— É frio aí dentro?

— Muito.

— Nem a luz do sol, quando passa pelo vidro, te aquece?

— Não. Estou afastada dos raios. O frio também é impenetrável.

— Não pensa em voltar ao mundo real?

— Eu estou no mundo real.

— Não. Você está fugindo dele.

— O que é o mundo real?

— É a vida que te espera ali, na saída do quarto.

— Nada me espera. E acredito que você saiba que nada te espera. Nada espera ninguém.

— Você é jovem e tem uma vida toda pela frente. Como acredita que não há esperança?

— Devido às minhas experiências. Repetitivas, vazias e cansativas.

— Mas você tem muitas coisas para viver.

— Não sei. Quem me garante, doutor?

— Pela lógica da vida.

— A vida não tem lógica. Acho que, no fundo, você sabe disso.

— Permita-se viver coisas novas.

— Seu discurso vai de encontro ao que você realmente pensa. É visível a falta de emoção quando fala. Você quer me salvar, mas sabe que, para isso, tem que se entender.

Suspiros invadiram o ambiente.

— Vá, doutor. Pegue a caneta e use a minha parede para dizer suas verdades. Para expressar o que ninguém soube ouvir.

 

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Este post tem um comentário

  1. Sérgio Provisano

    Verdades, Mentiras e desilusões… Desalentos, frustrações, enfim, a Vida, como é a Vida, normalmente, Paula Vigneron. A gente finge, na maior parte das vezes que é feliz, mas no fundo não somos não, somos, sei lá, nem alegres nem triste e muitas das vezes nem Poeta, mas isso tudo par dizer que amei cada palavra que li e nem poderia ser diferente…

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