Manuela Cordeiro – Freedom fries: a liberdade fast food das redes sociais

Quis sair da zona de conforto poética e também acadêmica para escrever uma pretensa crônica abordando assuntos pertinentes no momento. Há apenas um dia de assumir o governo da maior potência mundial, assistimos com uma boa dose incredulidade Donald Trump se tornar presidente dos Estados Unidos. Mais uma das barbáries que procuramos (re)significar nesses dias. Os recentes massacres nos presídios federais, incluindo Roraima, são de outra ordem, mas podem ser incluídos na lista do que procuramos digerir nesses primeiros dias de 2017. Na medida em que essa notícia foi ganhando repercussão nacional, procurei notar qual era a reação das pessoas no sudeste ao ouvir falar no estado do extremo norte do país. Pude perceber algumas constatações – Boa Vista não é capital do Acre, o constante questionamento sobre qual lugar Roraima está localizado no mapa e, particularmente para mim, estranhei a pronúncia com “a” anasalado, já aqui no norte se fala “Roráima”.
Nos dias seguintes, recebi em uma das redes sociais de três diferentes amigos uma mensagem que começou a circular por conta da atenção voltada ao estado. Trata-se de uma opinião pessoal (assim vem propriamente assinada, diga-se de passagem) de uma recém contratada, à época, servidora pública a respeito de sua chegada e estabelecimento em Roraima. Esses mesmos amigos quiseram saber a minha reação sobre tal “textão”, como se diz desses comentários longos que invadem a internet, geralmente com bastante assertividade do autor.
Teria muitas observações a serem feitas, mas me aterei a pelo menos duas principais. Logo no início do “textão”, a servidora pública explica que o mais difícil que tem por aqui é encontrar um roraimense, emendando com essa constatação que falta uma “identidade com a terra”. Ora, sem levar em conta a população indígena, sendo que se trata do estado do país com a maior proporção desta (segundo o Atlas Brasil do IBGE de 2016, mais de oitenta por cento da população indígena de Roraima vive em áreas demarcadas), mas somente a zona ‘nobre’, desprezando os ‘bairros’ – parte mais recente da cidade ou periferia, certamente só encontrará outros servidores públicos como quem escreve o texto, que vem de inúmeras partes do Brasil. Mas isso não é suficiente para concluir que falte uma identidade com a terra – seja cearense, maranhense, gaúcho ou carioca, muitos e muitas, inclusive servidores públicos, já adotaram o estado de Roraima como a sua casa. Em termos de construção de uma identidade local, há inclusive um movimento cultural chamado Roraimeira que foi iniciado em 1984 por músicos e poetas locais que se inspiram em três matrizes – a cultura indígena, a proximidade com os países caribenhos (Guiana e Venezuelana) e também a presença maciça nordestina.
Seguindo adiante, há uma afirmação de que setenta por cento do estado é coberto por áreas indígenas, restando “apenas 30%, descontando rios e as terras improdutivas que são muitas” para a agricultura e as cidades. De fato, as terras indígenas cobrem boa parte do estado, mas somam pouco mais de quarenta por cento da área e, ainda assim, existem muitas terras que podem ser denominadas produtivas localizadas em antigos projetos de colonização, assentamentos de reforma agrárias e áreas privadas. Além disso, o clima do norte do estado é similar ao cerrado, por estarmos numa área de transição entre a floresta ombrófila densa e o lavrado, isto é, a savana. Inclusive por isso o cultivo de soja vem ganhando força, sobretudo, na área de Boa Vista e outros municípios localizados na porção norte de Roraima. Aliás, ontem o ministro da Justiça Alexandre de Moraes publicou uma portaria que altera o sistema de demarcação de terras indígenas no país, em vigor desde a década de 1990. Com esta medida, o ministério da Justiça passa a poder rever todo o processo de demarcação realizado pela FUNAI, fragilizando o trabalho técnico realizado pela Fundação, para dizer o mínimo. Então, os reducionismos não tem muito espaço – nem tanto à terra improdutiva e muito menos a “muita terra pra pouca gente”.
O título dessa curta crônica se refere a uma frase que ouvi no seriado Mr. Robot. Trata-se de uma série que aborda uma sociedade hackativista que procura desmontar o sistema de bancos, órgãos federais e outras importantes instituições do mundo ocidental. Freedom fries pode ser explicado como uma mistura do item mais comum da comida fast food americana – as batatas fritas (french fries em inglês) e a liberdade, um dos itens mais comuns, e diga-se de passagem, celebrados no estilo de vida americano. As redes sociais possibilitam a divulgação de vozes que antes não eram ouvidas, inclusive de “áreas remotas”, como o extremo norte do país. Mas, ao mesmo tempo, garante a liberdade do quase anonimato e o não debate de ideias que, com a rápida disseminação, podem se tornar “verdade” seja pelo desconhecimento ou pela repetição. Liberdade de expressão, sim, mas com menos gordura no texto, por favor.

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