Diversidade da sociedade se une em defesa da Uenf

 

Humberto Nobre, Jefferson Mahães de Azevedo, Fernando José Coutinho Aguiar, Marcos Breda, Frederico Paes, Hernán Mamani, Elizabeth Landim, Inês Ururahy de Souza, Joilson Barcelos, Ronaldo Nascimento, Gustavo Chagas, Heitor Antonio da Silva, Gisele Teixeira de Almeida, José Luiz Lobo Escocard, Tito Inojosa, Vitor Menezes, Edilbert Pellegreni, Rafanele Alves e João Waked

 

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa e Daniela Abreu

 

Num país fragmentado desde a campanha das eleições presidenciais de 2014, passando pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), pelas reformas trabalhista e previdenciária do governo Michel Temer (PMDB) no Congresso Nacional, e pelas entranhas do Brasil ainda vivo expostas diariamente na operação Lava Jato, difícil encontrar algo que ainda una, sobre aquilo que separa — muitas vezes passionalmente. Se os campistas não são exceção, uma causa comum e recente pareceu caminhar contra essa turbulenta corrente de polarização: a luta pela sobrevivência da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), sem verba de manutenção, de R$ 2 milhões/mês, desde outubro de 2015.

Vítima da crise financeira sem precedentes do Estado do Rio de Janeiro, a defesa da principal instituição de ensino superior de Campos e região tem unido classes, ideologias e interesses antagônicos. E essa mobilização parece estar dando resultados. Depois de ser cobrado sobre a situação da Uenf em entrevista (aqui) de duas páginas na Folha do último domingo (30), cinco dias depois, na sexta (05), o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) prometeu (aqui) regularizar de abril em diante o pagamento dos servidores e estudantes bolsistas das universidades estaduais. E se comprometeu a pagar os atrasados assim que for aprovada no Congresso a ajuda da União aos Estados.

Longe do ideal, é um avanço em relação a todas as posições anteriores do governo fluminense. Mas as lideranças de Campos, dos mais distintos setores, estão atentas para cobrar as promessas e além delas:

— Ainda que vivamos um momento crítico da história de nosso país, que moremos num dos Estados mais afetados pela atual crise, é ainda assim assustador que a primeira vítima seja a Educação.  A Uenf representa uma incomensurável conquista do Norte e Noroeste Fluminense no caminho da construção dessa sociedade que queremos e já deu prova disso, em especial, mas não só, pela formação de nossos jovens. Dante Alighieri disse que “no inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”. É por isso que a luta pela Uenf é um dever que cabe a todo cidadão — convocou o presidente da OAB-Campos, Humberto Nobre.

Reitor de outra instituição de ensino público considerada fundamental para Campos e região, o do Instituto Federal Fluminense (IFF), Jefferson Manhães de Azevedo, se solidarizou com a luta das universidades estaduais fluminenses:

— Estamos vivendo um momento muito delicado no nosso país, especialmente no Estado. É muito preocupante quando nós temos ameaçadas instituições tão prestigiosas como a Uerj, A Uezo e a Uenf, instituições comprometidas com a pesquisa, com a extensão, com a formação de lideranças, e que têm profissionais qualificados para ajudar a superarmos a crise. O futuro do Estado, com certeza, passa pela Educação, pela Ciência e pela Tecnologia, vindas dessas instituições. Nos colocamos solidários à luta da Uenf, que também é a nossa luta, por uma Educação pública, de qualidade e acessível a todas as pessoas.

O setor produtivo também está na luta pela manutenção da Uenf. Neste sentido, quem se posicionou foi o presidente da Federação das Indústrias do Estado Rio de Janeiro (Firjan) no Norte Fluminense (NF), Fernando José Coutinho Aguiar:

— A Uenf nasceu comprometida com o desenvolvimento regional e é dispensável reafirmar sua importância. A atual situação das universidades estaduais reflete a queda de arrecadação do Rio, cujo esvaziamento econômico tem provocado um forte desequilíbrio fiscal. Precisamos reativar a atividade econômica para que as empresas passem a gerar mais recursos para manutenção das universidades e custeio do Estado. Temos de resolver as questões na esfera jurídica e avançar nas políticas de desenvolvimento do Rio de Janeiro. E a Uenf é parte importante disso.

De empregadores a empregados, a luta de classes faz pausa quando o assunto é Uenf. Representando os trabalhadores do setor economicamente mais importante da região, o coordenador do Sindipetro no NF, Marcos Breda, pregou a mobilização:

— A Uenf é um daqueles exemplos do que de melhor o poder público pode fazer: investimento sério em setor estratégico, essencial para a soberania de um povo, em Ciência, Educação e Tecnologia. Nós, petroleiros e petroleiras, que também lutamos para preservar outro patrimônio nacional, a Petrobras, somos solidários à luta dessa universidade que é motivo de orgulho para o País. Nascida das manifestações regionais e concretizada pelas mãos de humanistas como Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, a Uenf pode contar conosco para contribuir na mobilização da sociedade em sua defesa.

Substituída pela extração do petróleo como principal atividade econômica da região, a indústria do açúcar e o álcool também se colocou na linha de defesa. Para o presidente do sindicato da Indústria Sucroenergética do Estado do Rio de Janeiro (Siserj), Frederico Paes:

— A Uenf é um patrimônio que está sendo destruído por quem deveria zelar pelo seu desenvolvimento. Chegou estar entre as melhores universidades do país vive o completo abandono. A instituição que nas últimas duas décadas formou milhares de profissionais, desenvolveu pesquisas que contribuíram para avanços em diversas áreas, foi um sonho de Darcy Ribeiro e dos campistas, hoje está à própria sorte. Laboratórios abandonados, falta de segurança, não pagamento dos profissionais entre outras mazelas. Lamentável saber que toda uma história sonhada e construída está virando um pesadelo. Temos que acordar!

Diretor de outra importante instituição de ensino público superior de Campos, o diretor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Hernán Armando Mamani analisou:

— A crise da Uenf é mesma que nos afeta a todos. É uma crise econômica, política e moral.  Não é uma crise da instituição universitária, enquanto instância livre e democrática produtora difusora de conhecimento, nem é propriamente resultado de agruras econômicas. O abandono da Universidade à sua própria sorte, das políticas de financiamento e o ataque aos profissionais experientes em política científica é um aspecto de algo mais amplo e mais grave. É  o ataque à própria noção de público como instância coletiva e superior às conveniências e interesses parciais. A  crise política é uma moral, dado que não sabemos mais com estar juntos.

Das universidades públicas às privadas, quem também fechou posição foi a vice diretora do Isecena, Elizabeth Landim:

— Pensamos que qualquer diminuição da ciência, educação e conhecimento é um malefício enorme à sociedade. Afinal, são ferramentas que precisamos multiplicar. A Uenf cumpre este papel com êxito, fazendo da pesquisa e do ensino uma extensão para a comunidade. Nós, como representantes de instituição de ensino, vemos com muita tristeza e pesar essa falta de valorização, de aporte financeiro e de estrutura por parte do Governo do Estado. Precisamos estar unidos nesta luta em prol da sobrevivência da Uenf, de forma que a instituição possa garantir seu lugar de destaque na sociedade.

A posição se assemelha ao protesto e a conclamação por reação, propostos por Inês Ururahy, reitora do Centro Universitário Fluminense (Uniflu):

— Embora saibamos das graves dificuldades financeiras do Estado do Rio, decorrentes de má gestão e desvio do dinheiro público, o Uniflu repudia seus efeitos sobre a Uenf, que é imprescindível a Campos e região. Estamos solidários aos professores, pesquisadores, funcionários e alunos da Uenf e colocamo-nos de pé, em veemente protesto. Conclamamos uma imediata, amplíssima, profunda mobilização articulada de toda a sociedade, e não apenas do meio universitário, para que esse descalabro tenha um fim e que seja feito um pacto imediato entre todos os poderes públicos e sociedade civil envolvidos.

E não vem só do meio universitário a disposição de lutar pela manutenção da Uenf. Presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Campos, Joilson Barcelos chamou à luta:

— Desde de que se acentuou a crise na Uenf, temos colocado esse problema no topo da pauta na CDL. Recebemos o reitor em uma de nossas reuniões de diretoria e nos colocamos à disposição, nos comprometendo com a luta para salvar a universidade. Não pode haver um retrocesso. Se Campos perder a Uenf perde com certeza o que ela tem de mais importante. Não vamos deixar isso acontecer. Esse é um compromisso de toda a atividade econômica da região, não só do comércio, mas da indústria, pecuária, agricultura e tudo mais. A luta é de todos!

Em outra prova da suplantação dos interesses de classe pela causa comum, a defesa da Uenf não foi muito diferente da assumida pelo presidente do sindicato dos Empregados do Comércio, Ronaldo Nascimento:

— O Sindicato dos Empregados no Comércio de Campos, através de sua diretoria e associados, está solidário com o justo movimento em defesa da Uenf. É lamentável que a universidade construída no sonho de Darcy Ribeiro esteja praticamente abandonada. Aliás, de modo geral, a Educação não tem recebido o devido apoio das autoridades. A classe comerciária de Campos faz coro com todos que pedem providências urgentes para o estado de pré-falência desse importante estabelecimento de ensino.

Prova viva da importância da Uenf na formação dos quadros da região, o diretor do Isepam, Gustavo Chagas, testemunhou:

— A chegada da Uenf à cidade foi a realização de um sonho de muitos jovens da região. Eu sou ex-aluno, e tenho uma forte ligação com a esta importante instituição, reconhecida nacionalmente como um das melhores do país. É lamentável a situação da Uenf e demais instituições de ensino superior do Estado, com seus servidores com os salários atrasados e sem estrutura mínima para funcionar. É necessário que todos que acreditam no papel da Uenf no desenvolvimento regional lutem para sua continuidade. O projeto de inovação da Uenf, que me encantou há alguns anos, não pode terminar!

Mas não é preciso ter passado pelas salas de aulas da Uenf para reconhecer sua importância acadêmica. Nem para engrossar o discurso contra o Governo do RJ por conta do descaso com a instituição de ensino. Reitor da Uni-Redentor, Heitor Antonio da Silva foi duro:

— Não se trata de uma crise na Uenf, e sim no Governo do Estado do Rio. A universidade em questão teve, até recentemente, uma excelente gestão. Seu corpo docente é de qualidade significativa e seus cursos igualmente bem focados. O programa de pós-graduação, sobretudo os mestrados e doutorados são de suma importância ao desenvolvimento acadêmico e profissional da região, formador de professores para todas as outras IES (Instituições de Ensino Superior) da região e do país. O que temos é um grande grupo de vítimas dos desmandos, da corrupção, da roubalheira e da falta de escrúpulos dos mandatários deste Estado.

Independente do diagnóstico, a convocação a entrar no ringue pela Uenf parece ser a mesma no meio universitário goitacá. Para Giselle Teixeira de Almeida, diretora da Universidade Salgado de Oliveira (Universo):

— A perspectiva de encerramento das atividades da Uenf representa um retrocesso generalizado para o Estado do Rio, com perdas lastimáveis para toda sociedade, comprometendo seriamente o futuro da nossa cidade e de toda região. Todos nós educadores e todos aqueles que tiveram suas vidas transformadas pela educação temos a obrigação moral de nos solidarizarmos e não permitir que isso de fato se concretize. Não defender e lutar por esta causa é perder por WO.

Do setor acadêmico ao produtivo, a disposição de buscar alternativas à sobrevivência da Uenf é a mesma. Na visão do presidente da Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic), José Luiz Lobo Escocard:

— A Uenf vive uma situação atípica, pois jamais vi algo parecido nos últimos anos. Entretanto cabe salientar que por mais que seus corpos docente e discente queiram fazer manifestações em prol da universidade, a sociedade sozinha não tem condições de arcar com os custos e a da sua manutenção. É preciso que a sociedade civil organizada e a comunida-

de procurem alternativas junto aos poderes legalmente constituídos para diminuir esse problema e fazer com que a Uenf volte a funcionar de forma ple-

na, para o bem do desenvolvimento regional, papel que sempre cumpriu de forma eficaz.

Do comércio e indústria ao campo, a importância da Uenf é salientada. De acordo com o presidente da Associação Fluminense dos Plantadores de Cana (Aflucan), Tito Inojosa:

— Somos uma região com vocação agrícola e a Uenf muito contribuiu com pesquisas para o setor. Lamentamos a falta de investimentos na universidade, na formação de pesquisadores e desenvolvimento dos trabalhos que vinham sendo realizados nas últimas duas décadas. O descaso não é apenas com a Educação, mas também com toda a equipe de pesquisadores, bolsistas, alunos e funcionários que atuam no campus e não recebem seus salários.

Ciente do papel que sociedade e imprensa locais tiveram no nascimento da Uenf, como demonstram agora na luta por sua sobrevivência, quem também opinou foi o presidente da Associação de Imprensa Campista (AIC), Vitor Menezes:

— A Uenf é resultado de décadas de lutas da sociedade pela sua implantação, com papel destacado de instituições como a antiga Faculdade de Filosofia de Campos, atual Uniflu, e da imprensa campista. Agora, quando a negligência com a gestão dos recursos públicos no Estado a coloca sob sério risco de desativação, novamente o Norte Fluminense se ergue em sua defesa. A Associação de Imprensa Campista é testemunha desta história e se soma às vozes que bradam pela continuidade dos excelentes serviços prestados pela nossa universidade.

Recém eleito como diretor da Faculdade de Medicina de Campos (FMC), Edilbert Pellegrini também deu seu diagnóstico sobre a importância da Uenf:

— A FMC está sensibilizada com a situação atualmente enfrentada pela Uenf e toda a sua comunidade acadêmica. Desde sua fundação, ela é parceira da nossa Instituição de Ensino Superior (IES), no campo das pesquisas que objetivam melhorias da nossa comunidade. Manifestamos nosso desejo que os gestores estaduais se empenhem para a normalização da situação financeira da instituição para garantir a manutenção dos financiamentos em curso e futuros. O brilho acadêmico conquistado pela Uenf não pode ser ofuscado no cenário nacional e internacional.

Categoria bastante ativa em Campos, como no resto do Brasil, na luta por seus direitos, os bancários compraram a briga da Uenf como sua. Foi o que garantiu o presidente eleito do sindicato dos Bancários de Campos e região, Rafanele Alves:

— Defender a Uenf é preservar a capacidade de produção de conhecimento do nosso Estado. Mesmo em situação de total precariedade, seus estudantes, corpo técnico, docentes e o seu reitor não desistem. Precisamos apoiá-los. Precisamos apoiar a nossa região. A Uenf lançou o Norte Fluminense no cenário nacional e internacional de excelência em ensino, pesquisa e extensão, promovendo com as comunidades uma integração de grandes resultados. Nossa Uenf é nossa identidade. Não podemos permitir que essa identidade se perca.

Representante de uma das áreas de comércio mais tradicionais de Campos, o presidente da Associação dos Comerciantes e Amigos da Rua João Pessoa (Carjopa), João Waked Filho também entrou na luta para a manutenção da Uenf como uma conquista da cidade:

— O quadro terrível que apresenta administrativa e economicamente o Estado, tem reflexos alarmantes na Uenf. Sabemos quão necessária é a reforma administrativa do nosso Estado, mas preservar a Uenf é crucial à região, principalmente quando sabemos que quando a crise passar, precisaremos mais que nunca da mão de obra que a universidade produz; qualificada e de alto nível. Manter uma formação profissional do nível da Uenf é garantir o futuro de novas gerações. E para isso a sociedade campista tem que lutar! Não podemos passar à frente o estigma da “cidade que já teve”.

 

Página 5 da edição de hoje (07) da Folha

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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Este post tem 2 comentários

  1. JOSÉ LUIS VIANNA DA CRUZ

    Parabéns, Alysio e Folha. Interessantíssimo o processo de crescimento e adensamento da adesão à luta pela UENF. Aos poucos, é como se a UENF fosse adquirindo a dimensão real que, sem a crise, passaria despercebida. A UENF ficou mais conhecida, a identidade regional em seu torno ficou mais sólida, a sua própria identidade assumiu contorno mais nítidos, e sua responsabilidade regional cresceu também. Portanto, a UENF tornou-se mais nossa depois de iniciada a luta. Com o sucesso da luta, nem nós nem a UENF seremos mais os mesmos! Cresceu nossa responsabilidade com relação à sua manutenção, assim como a dela em relação à região. Ganhamos todos. E, a forma como você, Aluysio e a Folha assumiram essa luta me fez me lembrar do seu pai.

    1. Aluysio Abreu Barbosa

      Caro Zé Luis,

      Concordo que a crise fez a Uenf crescer aos olhos da comunidade. E é humano valorizar mais aquilo que estamos no risco de perder. Dentro deste contexto, penso que a Folha cumpriu seu papel de porta voz da comunidade. E lembrar meu pai, mais que pelo mesmo nome e ofício, é honra. Na jurisprudência do último dos juízes e primeiro profeta da antiga Israel: “Honrarei aos que me honram” (1 Samuel 2:30).

      Abç fraterno e mt obrigado pela lembrança!

      Aluysio

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