Fabio Bottrel — A chuva que transforma as palavras em poesia

 

Sugestão para escutar: Vinicius de Moraes – Samba da Bênção

 

 

 

 

“A noite estrelada” (1889), óleo sobre tela, de Vincent Van Gogh

 

 

Sexta-feira, 19 de maio, a torrente chuva na planície goitacá transforma sua imensidão tão finita quanto a parede cinza de um quarto. Fez-se do dia a noite, do calor o frio, o clamor se fez ausente de amor. Lá fora chovem parágrafos, eu aqui com as minhas palavras tentando acertar a coesão entre um e outro, tão certo que a história vai muito além de letras encaixadas em sequência exata. Diluindo as consequências de ter amadurecido tal qual o pensamento de Vinicius: um samba sem tristeza é como amar uma mulher só pela beleza, imaginando como a vida seria fácil se todo o sentido estivesse apenas nos belos lábios, semântica da existência abreviada em um parágrafo.

Talvez chovesse em 1969, quando a sombra desceu e Carlos Drummond de Andrade escreveu:

 

“É noite. Sinto que é noite

não porque a sombra descesse

(bem me importa a face negra)

mas porque dentro de mim,

no fundo de mim, o grito

se calou, fez-se desânimo.

Sinto que nós somos noite,

que palpitamos no escuro

e em noite nos dissolvemos.

Sinto que é noite no vento,

noite nas águas, na pedra.

E que adianta uma lâmpada?

E que adianta uma voz?

É noite no meu amigo.

É noite no submarino.

É noite na roça grande.

É noite, não é morte, é noite

de sono espesso e sem praia.

Não é dor, nem paz, é noite,

é perfeitamente a noite.

 

Mas salve, olhar de alegria!

E salve, dia que surge!

Os corpos saltam do sono,

o mundo se recompõe.

Que gozo na bicicleta!

Existir: seja como for.

A fraterna entrega do pão.

Amar: mesmo nas canções.

De novo andar: as distâncias,

as cores, posse das ruas.

Tudo que à noite perdemos

se nos confia outra vez.

Obrigado, coisas fiéis!

Saber que ainda há florestas,

sinos, palavras; que a terra

prossegue seu giro, e o tempo

não murchou; não nos diluímos.

Chupar o gosto do dia!

Clara manhã, obrigado,

o essencial é viver!”

 

Sábado, 20 de maio, o dia amanheceu e trouxe o gosto do sol a se tornar o tempero mais bonito d’alma outrora posta. É dia na planície, na brisa que traz o tempo, é dia de deixar a razão e pensar, coração.

 

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Este post tem um comentário

  1. Sandra Maria Teixeira dos Santos

    Muito lindo .Show.Belo garimpo

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