Opiniões

Orávio de Campos — O Mulato de Morro do Coco

 

 

 

Estamos passando por este espaço (ou ciberespaço?), a propósito do sesquicentenário de Nilo Procópio Peçanha, nascido em 1867 na zona rural de Morro do Coco, sendo até hoje o maior dos políticos nascido no âmago das terras Goytacazes, para lembrar, aos mais esquecidos, que este importante vulto da história nacional, perdeu as eleições para Presidência da República em 1922, sendo derrotado, inclusive em sua terra natal, por um mineiro chamado Artur Bernardes (1875-1955).

Poderia usar a filosofia cristã, para explicar (como se fosse explicável) que ninguém é profeta em sua própria terra. E com Nilo, político hábil no dizer do historiador Gilberto Freire, não foi diferente, porque, por questões meramente politiqueiras, não conseguir impor-se com o discurso reformista do Partido Republicano Fluminense no embate contra a decantada política café-com-leite, que alternava o poder entre os representantes de Minas Gerais e de São Paulo.

Naquele tempo, por força da Constituição de 1891, a primeira da República recém-implantada com o golpe militar contra Pedro II, só se admitia o voto para os homens maiores de 21 anos de idade, com exceção dos analfabetos, religiosos e militares, mas a maioria, não obrigada, não comparecia às urnas tornando as campanhas cada vez mais difíceis, considerando, ainda, os currais eleitorais de propriedade dos republicanos oligárquicos espalhados por todo país.

Mesmo assim, Nilo Peçanha conseguiu 317.714 votos contra 466.877 de Artur Bernardes, provando que o eixo Minas Gerais e São Paulo agiu com maior esperteza na captação dos sufrágios. Todavia, a derrota do republicano fluminense não foi em vão, pois sepultou, de vez, o contexto café-com-leite, esterroado com a Revolução de 1930. Mas causou-lhe, ele que tinha feito um excelente governo durante os 17 meses que substituiu, como vice-presidente, o pranteado Afonso Penna, uma grande decepção, tanto que veio a falecer, com 57 anos de idade, no dia 31 de março de 1924.

Em Campos dos Goytacazes, os republicanos fluminenses perderam, pois havia por aqui, como ainda há, um resquício pernicioso da aristocracia rural, substituída após o golpe de 1889, pelos barões e coronéis do açúcar e do café, que mandavam e desmandavam nos diferentes cenários políticos e econômicos. Chegaram ao ponto de sugerir no projeto de espraiamento urbano de Campos, na primeira metade do século passado, o nome de Artur Bernardes para a principal perimetral da cidade.

A perimetral começou no governo Alexandre Mocaiber e ganhou sua conclusão, até a avenida Alberto Lamego, em frente à Uenf, no Governo Rosinha Garotinho. Bernardes, político de Minas Gerais, nunca veio a Campos e sua presença no espaço público, desconfia-se, é apenas para lembrar que ele ganhou a eleição de 22 em cima do conterrâneo, Nilo Peçanha, que passou desta para a vida dos espíritos, no Rio de Janeiro, sendo sepultado no Cemitério de São João Batista.

A classe dominante planiciana, cheia de inveja, através das mídias, se referia a Nilo Peçanha como “O Mulato de Morro do Coco”. Mostrando todo seu poder, e ainda mostra, quando se trata de entender que nem todos os políticos vocacionados desta urbe nascem/nasceram em seus berços de ouro. O olhar discricionário, com ranço provincial, continua focalizado nas suas expressões mais indignas e nem se importam que deverão responder por esses equívocos perante a história.

Começamos, enquanto Presidente do Coppam a conversar com o Dr. Edson Batista, presidente da Câmara, que se mostrou bastante interessado, para a mudança do nome da perimetral. Muitos campistas, neocolonialistas ou não, são mais merecedores desse encômio do que o trêfego político Artur Bernardes, que nada tem a ver com “esta planície de luz e madrigais”, no dizer das palavras amantes de Azevedo Cruz.

 

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Este post tem um comentário

  1. Depois de seu artigo, compreendo melhor a histórica implicância, a indiferença e o esquecimento do poder campista com o 12º distrito, Morro do Côco. E lembremos também: lá nasceu Theotônio Ferreira de Araújo Filho, governador do Estado do Rio.
    Mesmo assim, continuamos esquecidos. Obrigado por nos ajudar a sermos lembrados.

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