Vanessa Henriques — Para não esquecer as Meninas de Guarus. E todas as outras

 

 

 

Começamos 2018 e discussões sobre o caso Meninas de Guarus ganham novo fôlego nas redes sociais. Isso porque um dos condenados no caso ganhou os noticiários nacionais por ser o deputado suplente que assumirá a vaga da deputada federal Cristiane Brasil, recém-indicada para ser a nova ministra do Trabalho do governo Temer. Desde então, inúmeras pessoas expressaram sua indignação diante do fato de muitos dos condenados terem sido soltos após a decisão da juíza Daniela Barbosa Assunpção e tiveram sua crença reforçada de que, no Brasil, a justiça está longe de ser cega.

O caso chocou todo o país por ser incrivelmente abjeto: crianças e adolescentes eram mantidos trancafiados numa casa em Guarus, obrigados a fazer programas e a consumir drogas pesadas. Mais de uma criança desapareceu e as informações que podem ser encontradas na internet sobre este detalhe do caso são parcas e imprecisas. As testemunhas apontaram que homens de prestígio de nossa cidade contribuíam com a manutenção da rede de exploração sexual infantil e pagavam para fazer sexo com as crianças que eram mantidas entorpecidas e escravizadas. Inúmeros “homens de bem”, “pais de família”, procuravam crianças para satisfazer seus desejos sexuais, colocando a satisfação de seu prazer doentio acima da dignidade da pessoa humana, dos direitos da criança humana de ser protegida das perversidades do mundo. Como podemos classificar aqueles que conseguem ter prazer violando meninas e meninos vulneráveis? Diante desse caso, me faltam palavras.

É verdade que a defesa dos condenados aponta algumas contradições no caso, que dão margem a diferentes versões sobre a história. Sejam os culpados quem forem, fato comprovado é que tamanha bestialidade ocorreu no nosso município, bem debaixo dos nossos narizes e muitas meninas e meninos tiveram suas vidas marcadas para sempre. Sejam os culpados quem forem, é justo que os detalhes opacos do caso sejam tornados transparentes para toda a sociedade. Que sejam esmiuçados, debatidos. Que as provas materiais sejam expostas; que os provados culpados não sejam esquecidos.

Como será que se sentem hoje essas crianças que foram abusadas no final da última década? Que chagas profundas carregam consigo? Tiveram filhos? Consideram-se felizes? Sentem medo? Choram quando ninguém está olhando? E quantas outras meninas e meninos estão sofrendo hoje desse mesmo mal, sem poder pedir proteção do Estado ou de um adulto confiável? Dói pensar nessas questões.

Nas últimas semanas também tivemos notícia de outras meninas e mulheres que foram mortas por homens que foram seus companheiros. Stefhani Brito, de 22 anos, foi morta em Fortaleza e teve seu corpo jogado às margens de uma lagoa. Seu ex-companheiro ainda carregou seu corpo inerte e cheio de hematomas na garupa de sua moto pela cidade. Familiares contaram que a jovem já tinha se mudado de cidade para escapar dos abusos do homem que amara. Simone Lanzoni, de 46 anos, foi morta pelo namorado dentro de casa, em Sorocaba. Sua filha escreveu um depoimento comovente nas redes sociais: “Mais uma mulher foi morta por um homem covarde com uma arma na mão. Logo ela. A minha mulher. A mãe do Lucas e do Gustavo. E ninguém teve a chance de se despedir”. Em Pernambuco, Remís Carla foi morta pelo namorado que a enterrou perto de casa e pedia ajuda nas redes sociais para que pudessem encontrá-la. Em Campos, os assassinatos de duas mulheres estão sendo investigados, tendo como principais suspeitos homens com os quais elas se relacionaram. Uma delas chamava-se Rhudylla de Macedo Lourenço, que tinha apenas 16 anos e deixou um bebê de 1 ano.

O Brasil é o quinto país com maior taxa de feminicídios do mundo. De acordo com o balanço de denúncias colhidas pelo Disque 100, canal para relatar casos de violação de direitos humanos, o Brasil somou pelo menos 175 mil casos de exploração sexual de crianças e adolescentes entre 2012 e 2016, o que representa quatro casos por hora.

Os criminosos são fruto da sociedade em que vivemos. Agem guiados por valores, noções, desejos que são socialmente compartilhados, socialmente condicionados. Existe todo um processo de aprendizagem que forma esses homens que acabam se tornando agressores, assassinos e estupradores. É preciso que consigamos desconstruir esses valores, promovendo uma “desaprendizagem” ou uma nova aprendizagem que inculque novas noções, novas maneiras de perceber as mulheres e as meninas, novas maneiras de entender o que é ser homem na sociedade em que vivemos. Não é deixando de discutir sobre esses temas com nossos jovens que iremos fazer desse mundo um lugar melhor.

Que debatamos, incansavelmente. Para não nos esquecermos das meninas de Guarus. E de todas as outras.

 

fb-share-icon0
20
Pin Share20

Este post tem 7 comentários

  1. Júlio Crespo

    É bom também não nos esquecermos que a dignidade da pessoa humana começa na concepção e independentemente de ser do sexo masculino ou feminino. Digo isso porque quem fala em feminicídio, geralmente é a favor do aborto.

  2. Vanessa Henriques

    Júlio Crespo, quem fala em feminicídio é também a lei Nº 13.104, de 9 de março de 2015. A lei trata de um tipo específico de homicídio que tem como motivação menosprezo ou discriminação à condição de mulher, geralmente praticado por parceiros ou ex-parceiros da vítima. Deixo aqui o vídeo da palestra da juíza Adriana Melo no Café Filosófico do Instituto CPFL como material didático sobre o tema:

    https://www.youtube.com/watch?v=KO8PyqQc5FQ

    Sobre a questão do aborto, que não é o assunto debatido pelo texto, mas sim a violência covarde que foi perpetrada contra meninas e meninos da nossa cidade (tema sobre o qual o Sr. não teve interesse em comentar), a noção de que a dignidade da pessoa humana começa na concepção não é compartilhada pelo Estado brasileiro. No Brasil, o aborto é descriminalizado em caso de estupro, de risco de morte da mãe e de fetos anencefálicos. Nos três casos, compreende-se que a dignidade a ser protegida é a da mulher que carrega o feto. Além disso, a compreensão de diversos países considerados “desenvolvidos” é que o aborto deve ser permitido até as 12 primeiras semanas de gestação.

  3. Genildo

    Parabéns mais uma vez pela matéria. A sociedade passou a viver da expectativa de que o tempo apaga da memória do povo fatos como esses, um absurdo!!! Quando o crime envolve pessoas bem-quistas a tendência é minimizar a dimensão do fato em si, porém vidas de crianças e adolescentes ficarão marcadas para sempre, muitos se condoem com as famílias dos abusadores, mas quem assistiu essas crianças com psicólogos e psiquiatras? Porque esses marcas não são extintas com o tempo, esses 14 estrupadores cometeram crimes hediondos, quantas juízes se disseram impossibilitados de julga-los? Porque? Porque são vários crimes, estupro, cativeiro, drogas e outros…
    vejam quem são os políticos que assumem cadeiras no Brasil onde deveriam sentar pessoas honradas, de moral da ilibada, referência na sociedade, ainda bem que a Rede Social hoje em plena atividade não deixa mais esses tipos de crimes cair no esquecimento, que bom que ainda temos bloguistas que por mais que doa, não omite os fatos, tenho pena dos familiares dessas crianças assim como dos estupradores, de um lado dor de um pai, mãe e irmãos que choram pelos abusos, de outro, familiares que choram envergonhados por aqueles que não os honraram como maridos, país e irmãos.

  4. Genildo

    Digo: “estupradores”

  5. Júlio Crespo

    É compartilhada pelo Estado brasileiro sim. O direito à vida é um direito natural, absoluto e inalienável, e está previsto na constituição brasileira. E a vida e sua dignidade começam na concepção, como já é pacificado no meio científico, apesar do lobby e da agenda abortistas serem fortemente financiados por fundações internacionais e com isso comprarem a opinião de muitos “cientistas” mercenários. Isso para não falar de juízes dos nossos tribunais superiores, em sua grande maioria comprometidos com essa agenda. Tomar a regra (no caso a constituição brasileira) por suas exceções é um erro primário, e não merece comentários. Agora citar o exemplo onde essa agenda é amplamente aplicada, como argumento, chega a ser patético. Só escrevi aqui para mostrar a total incoerência de quem defende a dignidade humana das meninas de Guarus, mas somente depois das 12 primeiras semanas de gestação. Como se antes disso ela não existisse.

    1. Vanessa Henriques

      Júlio Crespo, tente argumentar em blogs e redes sociais, no geral, se abstendo de adjetivos como “patético” para caracterizar os argumentos de outros debatedores. Esse tipo de adjetivação geralmente é utilizado por quem, de fato, não tem bons argumentos. Respeito é bom e todo mundo gosta.

      A dignidade da vida é defendida na constituição. Mas gostaria que o senhor mostrasse onde está escrito, na constituição, que esta vida que merece dignidade começa na concepção. A noção de que a vida deve ser defendida impreterivelmente desde a concepção está longe de ser ponto pacífico. Na sua opinião, quem discorda dessa noção ou é comprado ou é mau caráter. Discordamos completamente.

      Por fim, não existe qualquer contradição entre defender crianças violadas e defender que mulheres (com risco de morte, estupradas e grávidas de fetos anencéfalos) tenham o direito de abortar, tal como já é permitido pelo estado brasileiro.

      Se a obsessão pelo tema “aborto” não atrapalhar, fique ainda à vontade para tecer comentários sobre exploração sexual infantil e feminicídios, estes sim temas levantados no texto.

      Obrigada.

  6. Júlio Crespo

    A minha “obsessão” é pela vida desde a concepção até a morte natural. Não sou seletivo quanto a quantidade (idade) ou a qualidade (masculina, feminina, saudável, doente, mutilada, desprovida de algum orgão etc). Uma vida humana é sempre uma vida humana, não importando o tempo ou estado dela. Até porque nunca saberemos quanto tempo ela vai durar e se o seu estado irá permanecer o mesmo ou se modificará. Por isso uma vida nunca poderá ter mais valor ou importância que outra vida. A vida de um feto de um mês de idade tem tanta dignidade quanto a vida das meninas de Guarus ou quanto a vida de um idoso com câncer terminal. A vida humana e a sua consequente dignidade deve ser respeitada e defendida incondicionalmente, independentemente da sua duração, do seu estado de saúde, do seu sexo etc. A vida é um direito natural, que independe da vontade dos seres humanos e das diversas legislações por eles produzidas. Quem segue qualquer agenda ideológica para defender a dignidade da vida humana, cairá sempre em contradição, como você está caindo. E quem defende incondicionalmente um valor inegociável como é a vida humana, nunca cairá em contradição. Eu condeno totalmente qualquer abuso e violência contra a dignidade e a vida das meninas de Guarus, diferente de você que pensa que a dignidade e a vida humana é só uma questão legal que pode variar conforme o país ou uma época dada.

Deixe um comentário