No berrante do gado, Cristo, religião e arte saem pela porta dos fundos

 

Vida real de Fauzi e Sininho renderiam filmes bem melhores que o fraquíssimo “A Primeira Tentação de Cristo” (Arte: Brasil 247)

 

De férias, tive tempo para assistir ao especial de Natal “A Primeira Tentação de Cristo” (2019), dirigido por Rodrigo Van Der Put, da produtora de comédia Porta dos Fundos para a Netflix. Por sugerir uma relação homossexual de Jesus, causaria muita polêmica se a obra de ficção fosse encenada como peça desde o tempo em que o cristianismo foi adotado como religião oficial do Império Romano, por Teodósio, em 380 d.C. E causou tanto quanto agora, nos tempos pós-modernos do streaming, onde o berrante do algoritmo das redes sociais conduz — e opõe — pessoas como gado. Não no sentido bíblico.

Exemplo de comédia inteligente sobre a gênese do cristianismo: “A Vida de Brian”, de 1979

O filme brasileiro, na verdade um curta, é muito, muito fraco. Nem por milagre se aproxima do genial “A Vida de Brian” (1979), do grupo de humor inglês Monty Python e dirigido por Terry Jones, também considerado blasfemo, mesmo que sua sátira seja mais à cegueira acrítica da religião e ao contexto histórico e social de Cristo, do que ao próprio. Há no cinema a tradição — ou maldição? — de que qualquer ator não decola na carreira após interpretar Jesus. E o monocórdio protagonista Gregório Duvivier, dândi da esquerda lulopetista, nem precisava dessa desculpa. Como Schwarzenegger, diz “eu te amo” e “eu te odeio” com os mesmos tom de voz e cara. Só não tem o carisma do ex-fisiculturista austríaco.

Desde o início dos tempos, a arte a religião são as maneiras de ligar o homem ao Mistério. Nesta função, mesmo com seus muitos pecados capitais ao longo da História, o cristianismo tem serviços prestados à humanidade. Ao usar sua figura central em um “especial de Natal”, mesmo em obra de ficção, o Porta dos Fundos foi o mais utilitarista — e capitalista! — possível. Na busca de evidência e lucro passou por cima de dogmas religiosos alheios. Que deveriam merecer tanto respeito quanto o negro, a loura, o gordo, o magro, o anão, o português ou o judeu — como foi Jesus — que não aceitem ser alvo de piadas depreciativas dentro do mesmo estado laico. Aliás, o tratamento estereotipado que os homossexuais recebem no filme não mereceria protestos da militância LGBT, se Cristo não fosse um deles?

 

 

Nada disso justifica o crime praticado pelo lançamento de coquetéis molotov contra a produtora Porta dos Fundos, no Rio, na madrugada da véspera de Natal (24). Único suspeito identificado entre os cinco que participaram da ação criminosa, o economista e empresário Eduardo Fauzi Richard Cerquize está foragido da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Já nesta condição, ele gravou e veiculou um vídeo pelas redes sociais no dia 1º. Nele não admitiu seu crime. Mas usou de discurso religioso e acusou de “criminosos” os humoristas Gregório Duvivier e Fábio Porchart, do Porta dos Fundos.

 

 

 

“A Última Tentação de Cristo”, obra de Kazantzákis adaptada ao cinema por Scorsese

Recém-expulso da Frente Integralista Brasileira, filiado ao PSL, com mais de 20 passagens criminais, suspeito de ligação com as milícias que exploram estacionamentos ilegais no Centro do Rio e leitor do astrólogo Olavo de Carvalho, Fauzi seria o bolsonarista perfeito. Não fossem dois curiosos detalhes. O primeiro é que o arquétipo do porra-louca de direita chegou a ser preso em 2013. Foi quando teve sua liberdade publicamente defendida em vídeo pela produtora Elisa Quadros, a “Sininho” das Jornadas de Junho, quando se tornou arquétipo nacional da porra-louca de esquerda. O segundo dado curioso é que Fauzi não foi achado porque viajou para Moscou, na Rússia. Ele tem um filho com uma ex-namorada da pátria de Vladimir Putin.

Talvez mais para o mal que para o bem, como costuma ser nas trevas em que habitam os extremos políticos, há algo ainda mais curioso nessa história toda. E bem mais cômico também. Pelo menos até aqui, parece que a vida de Fauzi vem dando um filme bem mais interessante do que o Cristo do Porta dos Fundos.

Outro detalhe? O título do filme “A Primeira Tentação de Cristo” é uma paródia oportunista do livro “A Última Tentação de Cristo”. Foi escrito e publicado em 1951 por Nikos Kazantzákis, um dos maiores nomes do modernismo da Grécia. E custou sua excomunhão pela Igreja Católica Ortodoxa Grega, em 1955. Em 1988, estrelado por William Dafoe, foi adaptado ao cinema por um ex-seminarista católico romano chamado Martin Scorsese. Se fosse só para deixar no campo da arte, comparar as duas primeiras obras à sua congênere brasileira mais atual talvez seja a maior blasfêmia.

 

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Este post tem 6 comentários

  1. Ricardo

    O atentado da véspera do Natal representa um passo a mais na escalada da intolerância no país. A fúria contra o Porta do Fundos se soma aos ataques aos terreiros de religiões de matriz africana e à agressividade das discussões nas redes sociais.

    A partir das ligações pessoais e políticas dos criminosos, será possível compreender melhor de onde vem e a quem interessa esse ódio. Além de servir para punir os culpados, a compreensão das conexões talvez ajude a estancar a onda de intransigência que contamina o país.

    1. Aluysio Abreu Barbosa

      Caro Ricardo,

      Em primeiro lugar, desculpe pelo atraso para ler e aceitar seu comentário, mas estou de férias. Em segundo, sim, os ataques contra o Porta dos Fundos ou terreiros de religiões afro são crimes. Merecem ser investigados a fundo e punidos. Frutos da intolerância e da intransigência, contaminam o país a partir dos extremos políticos opostos. Fauzi e Sininho que o digam.

      Abç e grato pela chance do debate!

      Aluysio

  2. Alexandre

    O filme nada mais faz do que ridicularizar os vícios e as imperfeições do próprio ser humano, usando importantes figuras bíblicas para chamar a atenção para a dissimulação de grande parte da sociedade, em sua maioria conservadora.

    As ideias de um Deus todo poderoso com uma aparência hipster e comportamentos questionáveis, de um Jesus em dúvida sobre aceitar as responsabilidades e também sobre sua sexualidade e de Reis Magos falhos e mesquinhos surgem para provocar e nos fazer refletir sobre nós mesmos, nossas ações e julgamentos perante a sociedade.

    O “alvo” da crítica do canal humorístico não é Deus, mas sim a imagem Dele que nós temos pintada e replicada durante séculos.

    1. Aluysio Abreu Barbosa

      Caro Alexandre,

      Em primeiro lugar, desculpe pelo atraso para ler e aceitar seu comentário, mas estou de férias. Em segundo, sim, o ponto é esse: se ridicularizar figuras bíblicas será doravante aceito sob o manto da liberdade de expressão, a regra vale para todos. Inclusive gays, lésbicas, transgêneros, negros, brancos, índios, orientais, mestiços, gordos, magros, altos, baixos e todos os demais “deuses” do politicamente correto tirado a hipster. Conservadores, progressistas e os que não estão nem aí têm que ter isonomia diante da lei. Até como motivo de riso.

      Abç e grato pela chance do debate!

      Aluysio

  3. Joyce

    JESUS MALDOSO OU JESUS GAY?

    2018: SE BEBER, NÃO CEIE – JESUS DO MAL (mau caráter e beberrão)
    Trata-se de uma paródia do filme “Se Beber, Não Case!”, recontado como uma história bíblica. Nele, ridicularizam a Santa Ceia, por isso recebeu o nome de “Se Beber, Não Ceie”. Mostrou os apóstolos como devassos e Jesus no papel de um mágico e beberrão.

    2019: A PRIMEIRA TENTAÇÃO DE CRISTO – JESUS GAY
    Deus é um grande tiozão f.d.p., José, um marceneiro atrapalhado, um dos três reis magos leva uma prostituta para o aniversário de 30 anos de Jesus, que, em linhas gerais, age como um adolescente de 15 e volta dos 40 dias no deserto tendo se descoberto gay. Satiriza também outras divindades, como Buda.

    O problema não é “ridicularizar figuras bíblicas”, isso foi feito em 2018(SE BEBER, NÃO CEIE) e não houve polêmica. A questão é que o filme de 2019 mostra um Jesus homossexual.

    A REAÇÃO À ULTIMA PRODUÇÃO REFLETE O CUNHO PRECONCEITUOSO DO POVO BRASILEIRO.
    JESUS GAY(2019) INCOMODA MAIS QUE JESUS DO MAL(2018). SERÁ POR QUÊ?
    É um país preconceituoso mostrando sua cara deformada.

    Quanto ao filme “A VIDA DE BRIAN” (1979), não é pertinente a comparação com “A PRIMEIRA TENTAÇÃO DE CRISTO” , pois a pretensão da película britânica não é recontar a história de Jesus às avessas, mas sim criticar a chuva de falsos profetas e charlatões que usam de uma retórica afiada (e muito eficiente) para pastorar as ovelhinhas. Além disso, a obra-prima do grupo Monty Python ridiculariza o fanatismo religioso, a arrogância dos imperialistas e a incapacidade das ideologias ditas de “esquerda” de se unirem em torno de um objetivo comum.

    QUEM NÃO TEVE A OPORTUNIDADE DEVERIA ASSISTIR:
    DOGMA (1999)
    Fazer comédia com temas cristãos e colocar a cantora Alanis Morissette no papel de Deus custou ao diretor Kevin Smith alguns protestos e duas ameaças de morte. No filme, Ben Affleck e Matt Damon são Bartleby e Loki, dois anjos expulsos do céu e exilados em Wisconsin, EUA. Para voltar ao paraíso, eles planejam passar pela porta de uma igreja, tendo seus pecados perdoados. Se fizerem isso, porém, eles destruirão todo o equilíbrio da existência.

    AS AVENTURAS DE PI (2012)
    Hindu de nascença, o pequeno Piscine (o “Pi” do título) decidiu sozinho conhecer outras religiões: foi de muçulmano a cristão com a mesma intensidade, até se desencantar num encontro traumatizante com um tigre de bengala. Sua maior aventura espiritual acontece anos depois, quando ele perde tudo num naufrágio e se vê preso num bote com o mesmo tigre, um orangotango, uma hiena e uma zebra.

    O SÉTIMO SELO (1957)
    Ingmar Bergman é considerado um dos diretores mais importantes da história do cinema. Por isso, por mais difícil que seja, O Sétimo Selo é um daqueles filmes que todo cinéfilo precisa ver uma vez na vida. O longa, em preto e branco, conta a história de um cavaleiro que acaba de retornar de uma Cruzada e encontra a Morte. Dividido sobre suas crenças religiosas e com muitas perguntas sobre a existência, ele desafia a Morte a uma partida de xadrez, tentando ganhar tempo para respondê-las.

    JESUS CAMP(2006)
    Uma verdadeira preciosidade para os estudos atuais sobre a “formação de fundamentalistas cristãos” desde a tenra idade nos EUA. Detalhadamente a partir de um acampamento de verão num final de semana, o filme é de grande importância no entendimento de muitas coisas na política dos Estados Unidos e de como ao mundo exporta suas “produções simbólicas”.
    No Brasil esse documentário vira aprendizado. As “famílias cristãs renascidas” dos EUA renascem por estas bandas com uma força política das mais nefastas e visíveis socialmente. Já temos uma década ou mais, no Brasil um crescimento assustador de um “fundamentalismo cristão” (protestante e católico) sem precedentes na história religiosa brasileira.

    PK(2014)
    O alienígena é um ser inocente que logo após chegar à Terra tem seu colar verde luminoso, seu único contato com sua espécie, roubado. A partir daí ele reúne todos os seus esforços para recuperá-lo.

    Em sua busca através do desértico estado indiano de Rajastão e pela capital Nova Délhi, o extraterrestre, chamado de “PK” (expressão usada na Índia para perguntar se uma pessoa está bêbada) por seu estranho comportamento, encontra diversos personagens que o recomendam pedir ajuda a Deus para localizar o colar. É nesse contato com a divindade que PK descobre como os humanos são extorquidos e enganados por homens que, em nome de Deus, se aproveitam da fé cega de alguns, como o vilão do filme: um guru hindu que está com o colar roubado, “um presente divino”, segundo ele.

    1. Aluysio Abreu Barbosa

      Cara Joyce, vamos por partes:

      TREMENDA COINCIDÊNCIA?

      Em primeiro lugar, vc e o Alexandre nunca tinham dado a honra de comentar aqui, em mais de 10 anos de blog. Como agora o fazem juntos, em claro diálogo e do mesmo IP (172.68.24.123), quero crer que se trate só de uma tremenda coincidência. Não de uma operação orquestrada de contestação virtual a quem ousar contestar um filme fraco, feito para mexer no vespeiro dos dogmas de fé alheios para deles tentar fazer graça e, sobretudo, auferir lucro na data mais importante para esta mesma fé. Mesmo porque, se não fosse coincidência, iria achar que uma resenha despretensiosa está tendo um alcance bem acima do esperado. E a humildade é uma das boas lições do cristianismo. Pelo qual tenho imenso respeito, mesmo sem abraçar como religião.

      PORTA DOS FUNDOS X MONTY PYTHON

      Em segundo lugar, mas não menos importante, quer dizer que vocês podem retratar Deus como um “um grande tiozão f.d.p”? Jesus, aos 30 anos, “como um adolescente de 15 e volta dos 40 dias no deserto tendo se descoberto gay”? Também podem satirizar Buda e divindades de outras religiões? E ainda querem determinar que analogia cinematográfica é “pertinente” ou não com o especial de Natal da Netflix no Brasil? Afinal, quem vcs pensam que são? Deus? E ainda por cima o autocrático — evitemos o f.d.p. — do Velho Testamento? Tratando do Novo, “A Primeira Tentação de Cristo” é uma comédia sobre Jesus. “A Vida de Bryan” é uma comédia sobre um “Forrest Gump” que comunga tempo, espaço e fatos da vida de Jesus. A pertinência da analogia é óbvia a céticos e crentes. No contraste entre as sátiras ao mesmo contexto, evidencia como o filme do Porta dos Fundos é ruim e o do Monty Python, genial.

      JESUS E GUARACI, DEUS E TUPÃ

      Em terceiro lugar, a reação à ultima produção do Porta dos Fundos não reflete o cunho preconceituoso do povo brasileiro. Reflete o respeito que a maioria da população brasileira, seja conservadora, progressista ou não esteja nem aí para política, tem pela figura de Cristo. Para muitos, um amigo pessoal, confidente, guia e protetor. A despeito dos muitos pecados capitais cometidos em seu nome, foi em base cristã que o Brasil foi fundado e se manteve nos últimos cinco séculos. A partir de uma tradição religiosa que vinha de 15 séculos antes, da Europa e de partes da Ásia e da África. Em muitos casos foi imposta com violência, é verdade. Sobretudo aos índios, dizimados na América no maior genocídio da história da espécie humana. Mas como vcs acham que Cunhambebe, líder guerreiro tupinambá, maior inimigo português no Brasil do séc. 16, que se deliciava com consumo de carne humana, como narrado em detalhes pelo marinheiro alemão Hans Staden, serviu de base ao conceito de antropofagia cultural do modernismo brasileiro e tem seu paralelo simbólico na comunhão do corpo de Cristo em cada missa católica, reagiria ao retrato de Tupã, criador do céu, da terra, dos mares, dos animais e plantas na religião tupi-guarani, como “um grande tiozão f.d.p.”? Ou ao de Guaraci, filho e Tupã e guardião das criaturas durante o dia, como homem de 30 que age como adolescente de 15 e se descobre gay, naquilo que deveria ser sua maior iluminação? Na dúvida sobre como Cunhambebe reagiria, é sugestiva sua resposta a Staden, quando o alemão lhe perguntou por que o grande líder índio comia carne humana: “Juará ichê!” (“Sou onça! É gostoso!”).

      CRISTO REAL E COMO REFERÊNCIA

      Em quarto lugar, na constatação aliviada de que não estamos mais no tempo de Cunhambebe, nem no de Cristo, ficam os registros das suas vidas. Do último, além dos quatro evangelhos aceitos e de outros tantos considerados apócrifos, há registro laico dos feitos do rabi da Galileia, antes dele se tornar base da Civilização Ocidental. Foi deixado por Flávio Josefo, judeu romanizado, depois da Diáspora dos judeus de Israel por Roma, em 70 d.C. Mais ou menos o tempo em que os evangelhos foram escritos. Na sua obra “Antiguidades Judaicas”, escrita em grego, Josefo dedica alguns poucos parágrafos ao galileu. Neles chega a falar em um irmão de Jesus, Tiago. Mas nem ele, nem nenhum evangelista, jamais fez menção à homossexualidade de Cristo. Lógico, o filme do Porta dos Fundos é obra de ficção. E se for permitida sob o manto da liberdade de expressão, a regra vale para todos. Sejam alvo da sátira héteros, gays, lésbicas, transgêneros, gordos, magros, altos, baixos, brancos, negros, amarelos, semitas como Jesus e todos os demais “deuses” do politicamente correto.

      O SÉTIMO SELO SEM JESUS DE MONTREAL

      Em quinto e último lugar, depois de arrogar não enxergar a óbvia pertinência da analogia entre a fraca comédia brasileira e a genial comédia britânica sobre o mesmo contexto de Cristo, Joyce, minha filha, vc foi buscar comparação da primeira com SEIS outros filmes? Se ainda fosse só com o especial de Natal do Porta dos Fundos do ano passado, tudo bem. Mas comparar com “O Sétimo Selo”, um dos maiores filmes já feitos, foi um pouquinho demais. Mesmo porque a obra-prima do cinema não é sobre Jesus ou Deus, mas a ausência de ambos, ou de qualquer outro significado diante da Morte. Seu genial diretor, Ingmar Bergman, deve estar se revirando no túmulo. Assim como, por motivo diferente, seu pai, o ministro luterano Erik Bergman. Da comédia à tragédia, uma ponte mais apropriada seria “Jesus de Montreal” (1989), do diretor canadense Denys Arcand. Inclusive pela intersecção proposta entre Cristo e Hamlet. Mas esse eu acho que vc não viu. Fica a dica.

      Abç e grato pela chance do debate!

      Aluysio

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