Opiniões

Ação da PM contra ato antirracista: “Já chegaram com tiro, porrada e bomba”

 

Rogério Siqueira, jornalista e embaixador do Brasil no Conselho Pan-Africano (Foto: Folha da Manhã)

 

“Você fazia a ressalva à contribuição que o 8º BPM dá à segurança pública. E não vou negar. Mas tem que saber reconhecer, além dos méritos, onde está havendo desvio de conduta para corrigir esse curso. Porque se não a gente vai ter um órgão que não pode ser ideologizado e politizado, sendo; como já está sendo na prática. Bolsonaro estimulou isso no país inteiro. As polícias estão muito alinhadas com a narrativa do governo. E essa narrativa da violência, quando vem do presidente da República, ela reveste de legitimidade lá na ponta a violência que acontece na prática. Então eu achei a ação, inclusive, covarde. Porque eram jovens ali. Eram pessoas com 20, 25 anos, em que a Polícia não fez o mesmo tipo de abordagem, quando fez com manifestações pró-Bolsonaro. A gente não viu eles chegando para conversar, para orientar, pedindo com educação para dispersar. Já chegaram com tiro, porrada e bomba. É um tratamento desigual, por uma Polícia que está profundamente ideologizada e descumprindo o cerne do art. 144 da Constituição, que versa sobre a função das forças de segurança”. Foi o que denunciou o jornalista Rogério Siqueira, no início da manhã desta segunda (08) no Folha no Ar. Embaixador do Brasil no Conselho Pan-Africano, ele analisou a ação de repressão da PM de Campos no fim de tarde da última sexta (05), quando um ato antirracista e pacífico de cerca de 15 jovens, em pleno Boulevard Francisco de Paula Carneiro, foi disperso com uso de bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta. Recursos que nunca foram usados contra manifestações bolsonaristas que levaram muito mais pessoas às ruas da cidade, para levar pautas antidemocráticas como intervenção militar, fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Comandante do 8º BPM, Luiz Henrique Barbosa

Após sua análise, Rogério foi contrastado pelo Folha no Ar com a versão do episódio do comandante do 8º BPM, tenente-coronel Luiz Henrique Barbosa. Ainda na sexta, ele disse sobre a ação de repressão:

— Está proibido a aglomeração neste período de pandemia e não obedeceram a orientação da PM. Por isso tivemos que fazer o uso progressivo da força com emprego de armamento não letal.

Indagado por que a mesma atitude de força não foi adotada em manifestações de grupos bolsonaristas na cidade, o oficial da PM discordou:

— Discordo, inclusive efetuamos prisões (confira aqui) nos últimos atos.

Perguntado por que o uso de gás lacrimogêneo nunca foi adotado nas manifestações de direita, o comandante justificou:

— Isso são procedimentos operacionais de quem está na ponta no cenário das operações.

Ao que Rogério ouviu e respondeu ao vivo no Folha no Ar:

— Eu vou tentar ser polido para tentar manter algum grau de civilidade nesse debate. Mas eu acho que é, no mínimo, hipócrita esse tipo de declaração. Claro que cada situação é uma situação. Mas, em termos de contenção de pessoas, tinha muito mais gente na manifestação pró-Bolsonaro. Que foi de encontro àquilo que a Constituição autoriza. Você não pode fazer manifestação antidemocráticas, pedindo fechamento do Congresso, pedindo fechamento do Supremo, que são instituições que compõem a República Democrática do Brasil. E manifestação dizendo que as vidas negras importam, ela vai ao encontro ao que a Constituição diz, que é a defesa da vida, da liberdade, do pluralismo. E com um número muito menor de pessoas. Então, eu acho que a Polícia não tem que ter vergonha de se retratar e falar que precisa rever suas normas procedimentais com relação a manifestação, para que haja desigualdade, desequilíbrio no tratamento de um grupo ou de outro; para que haja equidade. E que seja, como é função precípua da Polícia, do ponto de vista estatutário, de mediação. Para que se resolva com mediação da Polícia, não com repressão da Polícia.

O jornalista, embaixador do Brasil no Conselho Pan-Africano e ex-superintendente de Igualdade Racial de Campos estendeu sua análise sobre a Polícia Militar. E denunciou os “dois pesos e duas medidas” que entende estar havendo nas ações da corporação em Campos, entre os protestos a favor e contra o governo Jair Bolsonaro. Que, segundo o entrevistado do Folha no Ar, contribuem para descredibilizar institucionalmente 8º BPM:

— A Polícia Militar no Brasil foi moldada para a repressão. Sua modelagem institucional é ruim. Como superintendente da Igualdade Racial (de Campos), já apresentei proposta uma proposta de reformulação total dos cursos de formação da Polícia Militar. Para que junto das universidades, ao movimento negro e aos especialistas se colocasse na formação básica do policial as questões sociais e de direitos humanos. Para que eles pudessem ouvir quem sofre esse tipo de violência, para desconstruir estereótipos que são montados dentro da academia da Polícia Militar. Que faz o policial agir de maneira repressiva, no lugar de servir e proteger enquanto agente público. E servir a quem e proteger a quem? Então eu vejo uma polícia muito ideologizada com determinado tipo de pensamento. Então quando a gente tem aqui manifestações alinhadas com a ideologia Bolsonaro, que é de repressão, de violência enquanto linguagem, a Polícia Militar chega na moral, conversa quase de amigos. E quando não é uma pauta que, aos olhos daqueles agentes, lhes contempla, age com o braço forte do Estado. São dois pesos e duas medidas. A gente precisa que o comando da Polícia Militar em Campos tenha a total noção de que esse tipo de coisa serve para descrediblizar a corporação.

 

Confira abaixo, em três blocos, os vídeos do Folha no Ar de hoje com Rogério Siqueira. Os trechos da matéria são do terceiro. No primeiro, foi tratado da morte do cidadão negro dos EUA George Floyd, sufocado até a morte pelo joelho de um policial branco sobre seu pescoço, mesmo depois de algemado e deitado de bruços sobre o chão. Assim como as manifestações que o assassinato gerou nos EUA e no mundo, inclusive a de sexta, em Campos, reprimida com gás lacrimogêneo pela PM. No segundo bloco, o entrevistado analisou as declarações racistas do presidente da Fundação Palmares do governo Bolsonaro, Sérgio Camargo. Além da morte do menino Miguel Otávio Santana da Silva, de cinco anos, abandonado em um condomínio de luxo do Recife pela patroa da sua mãe, que passeava com os cachorros da família.

 

 

 

 

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