Opiniões

Da filosofia à política, Deus é clamado por bispo contra Bolsonaro

 

O homem e Deus se tocam em afresco de Michelangelo no teto da Capela Sistina, pintado entre 1508 e 1512, no Vaticano

 

“Assim falou Zaratustra” foi lançado pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche em 1883. De lá para cá, a sentença “Deus está morto”, proferida no livro, foi tirada de contexto para ser muito mal usada e interpretada, inclusive pela maioria que nunca leu a obra. Quem, embora de filosofia, foi escrita em linguagem profética.

Antes de terminar a vida falando com cavalo, Nietzsche retomou a figura do profeta persa Zaratustra. Que viveu no séc. VII a.C. e foi primeiro a fundamentar um sistema de valores e crença baseado nos conceitos bem e mal. Sendo por isso chamado pelo grego Platão de “o primeiro filósofo”.

Primeiro império do mundo, a influência da Pérsia se enraizou na religião judaica e, depois, em suas variações cristã e islâmica. O filósofo alemão reconhecia essa contribuição à humanidade. Mas pregou que só a partir da superação do bem e do mal, o homem se faria super-homem, indivíduo adequado às novas prerrogativas morais da civilização industrial.

 

Atentado às Torre Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, em 11 de setembro de 2001

 

Após o 11 de setembro de 2001, em que militantes islâmicos da Al Qaeda sequestraram e atiraram jatos comerciais contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, levando-as abaixo, e o Pentágono, o cineasta e jornalista Arnaldo Jabor escreveu, em diálogo com o Zaratustra de Nietzsche: “Deus está vivo. E se chama Alá”.

Curiosamente, o presidente dos EUA naquele episódio era George W. Bush. Que trazia o apoio político dos neopentecostais, outro grupo fundamentalista religioso. E liderou uma suposta nova Cruzada entre Ocidente e Oriente, cristianismo x islamismo, com as invasões do Iraque e do Afeganistão.

 

Acossado na Casa Branca pelos protestos do “Black Lives Matter”, o então presidente dos EUA Donald Trump saiu às ruas de Washington, em 1º de junho de 2020, para posar uma Bíblia de cabeça para baixo nas mãos, em frente a Igreja Episcopal St. John (Foto: Tom Brenner/Reuters)

 

Donald Trump nunca foi religioso. Mas também soube apostar no fundamentalismo cristão dos neopentecostais para fazer deles importantes aliados políticos nos EUA. E, em nova roupagem à Cruzada entre Ocidente e Oriente, deixou o fundamentalismo islâmico em segundo plano para eleger como novo “Grande Satã” o capitalismo de Estado ateu da China.

 

Patriarca Cirilo I, líder da Igreja Ortodoxa Russa, com Vladimir Putin, ex-agente da KGB na União Soviética comunista e ateia

 

Católico praticante, Joe Biden também assumiu o antagonismo com Pequim. Mas, em moldes laicos, o fez resgatando os laços entre EUA e Europa na Organização do Atlântico Norte (Otan). Que tinham sido abandonados por Trump, a mando do presidente vitalício da Rússia, Vladimir Putin. Este, popular em seu país pela reaproximação do Kremlin com a Igreja Ortodoxa Russa.

 

 

No Brasil, Jair Bolsonaro trocou sua formação católica pelo filão eleitoral neopentecostal, ao ser batizado no rio Jordão, em 2016, pelo Pastor Everaldo, preso por corrupção em agosto de 2020. No meio do caminho, o batizado se elegeu presidente em 2018, reduzindo Deus a slogan de campanha: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Com apoio da irmã de Nietzsche, o nazismo chegou ao poder pelo voto na Alemanha e, depois, pelas armas na Europa, nos anos 30 e 40 do séc. 20. E corrompeu racialmente o conceito de super-homem do filósofo morto em 1900, creditando-o ao ariano puro. Mesmo que a maioria dos alemães se mantivesse luterana e católica romana.

 

Soldados alemães da SS, que exterminaram 6 milhões de judeus em campos de concentração na Europa, levavam incrito na fivela dos seus cintos: “Gott mit uns” (“Deus conosco”)

 

Eram, portanto, cristãos todos os nazistas que mataram 6 milhões de judeus em campos de extermínio durante a II Guerra (1939/1945). Sufocando-os com gás e depois queimando seus corpos em fornos. Semelhante ao slogan bolsonarista, os soldados da SS que praticaram o Holocausto levavam escrito nas fivelas do seu cinto: “Gott mit uns” (“Deus conosco”).

ׅ“Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” é um conselho de Cristo presente em três dos quatro Evangelhos: Marcos 12:13-17, Mateus 22:15-22 e Lucas 20:20-26. Que pareceu ser seguido pelo bispo católico auxiliar de Belo Horizonte, Dom Vicente de Paula Ferreira. No domingo (13), dia santo aos cristãos, ele usou sua conta no Twitter para clamar a Deus:

— Senhor, tu que fugiste de jegue para o Egito, mostra-nos um meio de nos livrar desse fascista brasileiro. Tu que entraste em Jerusalém montado num jumento, dá-nos a coragem de enfrentar o tirano que mata nossa gente. Livra-nos, Senhor, do desgoverno da morte. Está pesado demais.

 

 

Castro Alves

Conhecido pelo seu trabalho em Brumadinho, Dom Vicente é doutor em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com estágio pós-doutoral em Teologia, na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pela UFJF e em Teologia pela FAJE e integrante da Sociedade de Estudos Psicanalíticos de Juiz de Fora.

Poeta maior do nosso Romantismo, não é difícil supor como o baiano Castro Alves seria hoje tratado ao escrever: “Quebre-se o cetro do Papa./ Faça-se dele — uma cruz!/ A púrpura sirva ao povo/ P’ra cobrir os ombros nus”. Ou nos versos ecoados por Dom Vicente: “Senhor Deus dos desgraçados!/ Dizei-me vós, Senhor Deus!/ Se é loucura… se é verdade/ Tanto horror perante os céus…”

 

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