Opiniões

Do “Independência ou morte!” ao “Acabou, porra!”

 

Dom Pedro I e Jair Bolsonaro (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Do “Independência ou morte!” ao “Acabou, porra!”

 

Daqui a três dias será 7 de setembro. Feriado da independência do Brasil, proclamada em 1822 pelo príncipe regente de Portugal. Cento e noventa e nove anos depois, o país que teve em Dom Pedro I seu primeiro governante espera com apreensão as manifestações nesta terça dos apoiadores do atual ocupante do cargo: o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Que, desde janeiro deste ano, sangra popularidade em todas as pesquisas. Na última, realizada pelo PoderData de segunda (30) a quarta (1º) desta semana, com 2.500 pessoas de 472 municípios das 27 unidades da Federação, Bolsonaro registrou seu pior índice de popularidade na série histórica do instituto. A pouco mais de 12 meses das urnas de 2022, apenas 27% dos brasileiros aprovam o atual governo federal. Os que desaprovam são hoje 63%.

Vencidos 32 meses de governo, o recorde de desaprovação de Bolsonaro reflete a realidade do país. Com volta da inflação, aumento dos juros, da cesta básica, dos combustíveis e da energia elétrica, crise hídrica, 14,4 milhões de brasileiros desempregados, 35,6 milhões de outros na informalidade, prejuízos nas lavouras de milho, café, cana, hortaliças e frutas, além da pecuária de leite, fuga dos investidores internacionais, a maior retração da produção industrial desde julho de 2015 e queda do PIB no segundo semestre erodindo qualquer retomada do crescimento a curto prazo, o cenário interno é tão desalentador quanto a imagem do Brasil no exterior. Tudo, ao juízo bolsonarista, consequência da Covid-19. No mesmo negacionismo que gerou a condução desastrosa da pandemia, econômica e sanitária, com mais de 582 mil vidas humanas perdidas até ontem no país.   

“É a economia, estúpido”, diria na sua frase mais célebre James Carville, estrategista do ex-presidente dos EUA Bill Clinton. O problema é que a estupidez, no Brasil de hoje, desafia os limites da razão. E da vida! No orçamento apresentado no Congresso na terça (31), Bolsonaro anunciou sua “economia” para 2022: reservou à compra de vacina contra Covid 85% menos do que em 2021. Serão R$ 3,9 bilhões para aquisição de imunizantes, contra os R$ 27,8 bilhões deste ano. Ciente do caos, o mercado que ainda dava alguma flutuação ao bolsonarismo desembarcou da canoa furada. Desistiu do “Posto Ipiranga” Paulo Guedes vendendo gasolina a R$ 7,00 o litro.

Na segunda, sete entidades representativas do agronegócio, responsável por 27% do PIB nacional, divulgaram manifesto em defesa da democracia:

— A Constituição de 1988 definiu o Estado Democrático de Direito no âmbito do qual escolhemos viver e construir o Brasil (…) Mais de três décadas de liberdade e pluralismo, com alternância de poder em eleições legítimas (…) O Brasil é muito maior e melhor do que a imagem que temos projetado ao mundo. Isto está nos custando caro e levará tempo para reverter.

Na quinta (02), foi a vez de 300 empresários da Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), no estado governado pelo bolsonarista Romeu Zema (Novo), darem o seu recado:

— A ruptura pelas armas, pela confrontação física nas ruas, é sinônimo de anarquia, que é antônimo de tudo quanto possa compreender uma caminhada serena, cidadã e construtiva. A democracia não pode ser ameaçada, antes, deve ser fortalecida e aperfeiçoada.

Na mesma quinta, após o tiro no pé de Paulo Guedes ao tentar conter a manifestação da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), esta mandou às favas o ministro da Economia e a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), que urinou para trás. A Febraban não defecou à defecção e foi em frente, junto a outras 200 entidades, entre elas entre elas a Associação Brasileira de Agronegócio (Abag), o Instituto de Desenvolvimento do Varejo (IDV), a Fecomercio e a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Riscaram sua linha no chão:

— As entidades da sociedade civil que assinam este manifesto veem com grande preocupação a escalada de tensões e hostilidades entre as autoridades públicas. O momento exige de todos serenidade, diálogo, pacificação política, estabilidade institucional e, sobretudo, foco em ações e medidas urgentes e necessárias para que o Brasil supere a pandemia, volte a crescer, a gerar empregos e assim possa reduzir as carências sociais que atingem amplos segmentos da população.     

Sem nenhum arremedo de solução aos problemas reais do Brasil, o presidente reage criando outros, para tentar mascarar o que não sabe, nem quer resolver. E abriu uma crise com os demais Poderes da República, sobretudo o Supremo Tribunal Federal (STF), unido contra os arroubos autoritários do chefe do Executivo. Que são personificados nos chamamentos ao 7 de setembro “patriótico”, de camisa amarela e fralda geriátrica:

— Ninguém pode ir a Brasília simplesmente para passear, balançar bandeirinhas e ficar somente acampado (…) Como todos devem saber, nós teremos vários reservistas e R2 (oficiais da reserva), pessoas que têm conhecimento de como podemos fazer formações de grupamento para adentrarmos ao STF e ao Congresso (…) caso haja reações, vamos ter que enfrentar — convocou o coronel da reserva dos Bombeiros do Ceará, Davi Azim.

 

 

— Se em 30 dias eles não tirarem aqueles caras (ministros do STF), nós vamos invadir, quebrar tudo e tirar aqueles caras na marra. Pronto. É isso que você quer saber? É assim que vai ser. Pronto — bravateou o cantor sertanejo Sérgio Reis. Para se dizer em depressão, após receber a Polícia Federal (PF) em sua casa.

— Nós temos que agir agora. Concentrar as pressões populares contra o Senado, e, se preciso, invadir o Senado e colocar para fora da CPI (da Covid) a pescoção. Porque moleque a gente trata a pescoção — pregava o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, preso pelo Mensalão do PT, antes de ser engaiolado novamente no dia 13, pelo ministro do STF Alexandre Moraes. E ser denunciado por incitação ao crime e racismo, no dia 30, pela sub-procuradora geral da República Lindôra Araújo, mais bolsonarista da PGR. Na flor dos seus 68 anos, Jefferson é o mais jovem dos três cavaleiros do apocalipse, travestidos de “patriotas”.

Abandonado por 63% da população brasileira, pelo agronegócio, parte do empresariado e até a Febraban, Bolsonaro também o foi pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM/MG). Que, no dia 25, negou o pedido de impeachment de Moraes feito pelo presidente da República. Cujos mais de 100, por crimes de responsabilidade a escolher, são até aqui seguros pelo aliado que lhe restou nos demais Poderes da República: o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP/AL). Cujo filho, Arthur Filho, é dono da empresa Mídia Nova Representações, sem sede, site ou e-mail oficiais. Mas com contratos com a Caixa Econômica Federal e os ministérios da Saúde e do Turismo.

De pai para filho, na quinta as “rachadinhas” dos Bolsonaro explodiram de vez com a revelação de um ex-funcionário do clã por 14 anos. Marcelo Luiz Nogueira dos Santos denunciou uma série de supostos crimes cometidos pela família. Afirmou que o hoje presidente decidiu transferir para Flávio (01) e Carlos Bolsonaro (02), respectivamente senador fluminense e vereador carioca, o comando de um esquema de corrupção nos gabinetes de ambos. Teria sido após descobrir que era traído por sua então mulher, a advogada Ana Cristina Siqueira Valle. Mãe de Renan Bolsonaro (04), investigado sobre suas atividades empresariais em inquérito aberto pela PF no dia 15, ela e o filho moram de aluguel em mansão em Brasília avaliada em R$ 3,2 milhões. Cujo proprietário no documento, o corretor de imóveis Geraldo Antônio Machado, vive em casa de classe média e não tem nenhuma outra propriedade em seu nome.

 

 

Marcado pelo “Independência ou morte!” de Dom Pedro I, que pelo menos pôde abdicar do trono em favor do filho, o 7 de setembro do atual governante do Brasil, no lugar de golpe contra a democracia, tende a ficar marcado por outra frase: “Acabou, porra!”.

 

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Este post tem 7 comentários

  1. A resposta que a Globo e a Folha de São Paulo quer saber será no dia 7 de setembro, a voz do povo é a voz de Deus

    1. Caro Cesar Peixoto,

      Como disse em raro momento de sabedoria o ex-presidente dos EUA George W. Bush: “O futuro é algo que vremos amanhã”.

      Grato pelo diálogo!

      Aluysio

  2. Vocês continuam na contramão. Se fosse hoje até D. Pedro falaria ACABOU, PORRA!

    1. Caro Leonardo Souza Costa,

      Pois é, né?!?!?!…

      Grato pelo diálogo!

      Aluysio

  3. Caro jornalista Aluysio mudando de assunto, hoje eu recebi um áudio do nosso amigo e irmão Nicácio Alves de Oliveira ,peço a todos que continuem orando pela recuperação dele,muitíssimo obrigado por divulgar essas singelas palavras

    1. Caro Cesar Peixoto,

      Sim, ele estar recebendo alta hoje. Graças a Deus!

      Abç e grato pela participação!

      Aluysio

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