Hamilton Garcia — Ciro e a Rebeldia da Esperança

 

Ciro Gomes lançou ontem sua pré-candidatura a presidente para outubro (Foto: Poder360)

 

Hamilton Garcia, cientista político e professor da Uenf, maior legado a Campos e Norte Fluminense do ex-governador Leonel Brizola, que hoje completaria 100 anos

Ciro, a Rebeldia da Esperança e o tempo da crise

Por Hamilton Garcia

Ciro é uma candidatura que nos traz esperança. Não só porque nos apresenta um Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), que tem feito muita falta nestes 41 anos de semi-estagnação, que nos colocou no patamar de decadência e crise onde hoje nos encontramos. Mas porque tem a coragem de indicar os culpados por este resultado: o pacto político-econômico (democraticamente) instituído desde Collor, passando por FHC e Lula, até Bolsonaro, calcado no desmonte da indústria nacional em proveito do aumento do consumo das famílias, por meio de um câmbio distorcido (pró-importação) que prejudica as condições de competitividade dos produtos brasileiros e destrói nossos melhores empregos.

A perversa mágica funcionou graças ao êxito do Plano Real, que conteve a inflação, junto às políticas de amparo aos miseráveis, à valorização do salário mínimo – sem contrapartida no aumento da eficiência do trabalho. O exponencial aumento do crédito privado também teve papel relevante, não obstante o endividamento dos cidadãos, que Lula alavancou, via crédito consignado à juros altos, denunciado por Ciro em 2018.

Iludida a maioria da população, que nunca pôde consumir tanto, viajando até para o exterior, o que chancelou as seguidas vitórias eleitorais de PSDB e PT, o modelo tratou de agravar nossas disparidades de renda, não obstante as “bondades” aos pobres. O empresariado brasileiro também teve seu quinhão com isenções tributárias bilionárias, ineficazes e prejudiciais ao Tesouro Nacional. Fechando o pacote, ainda tivemos as regalias da aristocracia burocrática dos Judiciários, Ministérios Públicos, Legislativos e setores do Executivo, sem esquecer os privilégios da elite política — da União ao Município – e os trilhões do Orçamento Nacional entregues aos grandes grupos financeiros credores da dívida pública.

A resultante disto tudo foi representada pelo candidato ao comparar o PIB per capita do Brasil e da China nos anos 1980, quinze vezes ao nosso favor, com o resultado de hoje, abaixo de 80% do nível alcançado pelos chineses. Transcorridas quatro décadas, a China, em parte inspirada em nossa trajetória passada, quando éramos campeões em crescimento econômico, não só se transformou numa nação próspera, por meio do trabalho e da educação, no lugar da mera compensação de renda e oportunidades, como despontou como potência econômica, já superando os EUA.

Ciro, com sua candidatura, nos presta um grande serviço, embora ainda pague o preço por ter se mantido por tanto tempo próximo ao lulopetismo e seu projeto de distribuição de renda populista, sem trabalho e sem educação. Talvez pudesse diminuir o tempo/espaço perdido e aumentar suas chances com a classe média, se reconhecesse os méritos da operação Lava-Jato – não obstante os inevitáveis erros cometidos no contexto de um país campeão em impunidade e privilégios.

A política, porém, é assim mesmo: feita de maneira aleatória e anárquica, quase sempre separando aquilo que deveria andar junto, para se obter melhor resultado. Em nosso caso, uma política de desenvolvimento articulada à libertação do Estado, aprisionado por parasitas e demagogos que se alimentam da corrupção institucionalizada.

A grave crise brasileira, que Ciro teve a honestidade de colocar no centro do palco eleitoral, como outrora fizera Brizola, todavia, tende a forçar a convergência que as consciências teimam em renegar pelos efeitos da condição humana. É só uma questão de tempo para que a Rebeldia da Esperança encontre seu verdadeiro caminho.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Este post tem 6 comentários

  1. Já tivemos O Cavaleiro da Esperança e agora A Rebeldia da Esperança contra as mesmas forças da direita radical, tendo os respectivos líderes Prestes e Ciro, que são antagonista em ideologia revolucionária, mas defensores de um novo modelo econômico.
    É surreal vendo Ciro – Arena, PSDB, … defendendo o modelo CIEP ( Brizola) – PDT e Renda Mínima (Suplicy) -PT.
    Melhor crítica aos governos de neoesquerda, desde a redemocratização do pais, contra a continuidade do pagamento dos juros e amortização da dívida ilegal e ilegítima, desviando cerca 50% dos recursos do orcamento da União, que poderiam estar investindo na infraestrutura, educação, tecnologia.
    Enquanto o ExLula Trabalhador defendia a ganância dos lucros dos barões da Faria Lima e a ExDilma Guerrilheira ficou com medo de assinar o decreto da Auditoria da Dívida Já!
    Ciro resgatou o projeto de Participação Popular do ex PT para seu programa de governo com Plebiscito, dando a devida transparência e governança política.

  2. O cara fez o discurso político que o PT abandonou na sua fundação e agora encarnou o espírito de Brizola revolucionário da educação.
    Acredito que hoje uniu contra seu projeto de país os mercenários dos banqueiros, milicianos da polícia, traficantes da elite empresarial, burgueses da elite neoempresarial, a banda podre do exército, os amarra cachorros dos mitos e xerifes da justiça.

    1. Eu gostaria que o próximo presidente da república fosse um político mais jovem,com um currículo exemplar e que pudesse tomar decisões sem depender da Câmara de deputados e senadores e STF.

      1. Aluysio Abreu Barbosa

        Caro César Peixoto,

        Um presidente “que pudesse tomar decisões sem depender da Câmara de deputados e senadores e STF” não é um presidente em nenhum estado democrático de direito da Terra. Jovem ou velho, o que vc quer é um ditador. E, graças à esmagadora maioria que não quer, no Brasil vc felizmente não terá.

        Grato pela chance da exemplificação!

        Aluysio

  3. HUGO KARAM DE LIMA

    O cara fez o discurso político que o PT abandonou na sua fundação e agora encarnou o espírito de Brizola revolucionário da educação.
    Acredito que hoje uniu contra seu projeto de país os mercenários dos banqueiros, milicianos da polícia, traficantes da elite empresarial, burgueses da elite neoempresarial, a banda podre do exército, os amarra cachorros dos mitos e xerifes da justiça.

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